Depois de um tempo pegando maresia, a piauí perde a aspereza do papel
| Edição 220, Janeiro 2025

GOLPISTAS
Pedindo licença ao Breno Pires, coloquei no plural o título do excelente relato, O golpista, publicado na piauí_219, dezembro. Realmente o agente inspirador de toda a trama, muito bem destrinchada pela Polícia Federal, todos estão carecas de saber quem é. No entanto, precisam ser encontradas as suas digitais no enredo, uma vez que os denominados “kids pretos”, constituídos por militares da ativa e da reserva, que participam das forças especiais do Exército, foram, digamos, terceirizados para executarem o trabalho sujo. Está comprovada a participação de generais da ativa, além de diversos membros da oficialidade na tentativa do golpe, todos sonhando com o retorno de um governo militar, sob a chefia (ou não) do ex-presidente. Como só houve um apoio parcial no Alto Comando do Exército, deu chabu na conspiração.
As Forças Armadas são constituídas de Exército, Marinha e Aeronáutica. Consta que o ex-comandante da Marinha, o almirante Garnier, teria dado seu apoio à minuta do golpe na reunião ocorrida em 7 de dezembro no Palácio da Alvorada, com a recusa dos titulares do Exército e da Aeronáutica.
Uma pergunta que não quer calar: Garnier tomou tal atitude isoladamente ou teve o apoio da alta oficialidade da Marinha? Acho que está faltando muita gente nessa trama, além dos que já foram indiciados. O mesmo ocorre na Aeronáutica, que sempre apoiou Bolsonaro fervorosamente.
Nossa democracia esteve (pode ser que ainda esteja) por um fio.
Os militares brasileiros jamais abriram mão, infelizmente, de se intrometerem na política, principalmente os saudosos do movimento de 1964. O mais triste nessa história é que o ex-presidente desfruta de um forte apoio da sociedade brasileira. Por isso é tão importante o sucesso de público do filme Ainda estou aqui, que magistralmente revela o ocorrido com o então deputado federal Rubens Paiva e a batalha de sua mulher para que o assassinato do marido pela ditadura fosse finalmente reconhecido. É um sinal de alerta para os que não viveram aquele triste período, e que os aloprados pretendiam restaurar.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
ORIENTE
Acabo de ler a matéria Relato de uma certa tragédia, piauí_219, dezembro, e aponto aqui os erros: Quando se refere ao Hezbollah, o texto não diz que são considerados terroristas pela ONU, Comunidade Europeia e por muitos países árabes. Os líderes do Hezbollah há muito tempo pedem o fim do Estado de Israel.
Em outro parágrafo o texto diz que o conflito de 76 anos atrás teve início depois que a ONU autorizou a criação do Estado de Israel, omitindo completamente que a ONU criou dois estados, o Estado judeu e o Estado árabe, e foram os árabes que não aceitaram a resolução da ONU, e iniciaram a guerra.
Não sei se há desconhecimento da história ou má-fé mesmo. Ou ambos.
DANI LINDENBAUM_SÃO PAULO/SP
NOTA DA REDAÇÃO: A ONU não considera o Hezbollah uma organização terrorista.
FLANADOR
Confesso que a revista depois de um tempo pegando maresia perde a aspereza deste papel. Outra solução é lamber os dedos, mas haja cuspe.
Descobri também que não sou um leitor, tô mais pra folheador. E escutando seus conselhos, piauí, resolvi parar de tentar. Fico nos poemas, nas cartas e nas pequenas imagens. Nos títulos, subtítulos, no nome do autor nos três primeiros, dois do meio e no último parágrafo. Se tivesse um sudoku seria perfeito.
Mas se negaram um grampo pra um rapaz por causa de preço… Eu mesmo não sei quanto é o preço do sudoku hoje em dia… Pra não fazer parte dos bicudos,
Um beijo.
P.S.: Queria fazer uma pergunta pro poeta: “Você já ficou pendurado de ponta-cabeça numa perna só?”
UBIRACY DO AMARAL JUNIOR_MACAPÁ/AP
NOTA NARCISISTA DA REDAÇÃO: E algo mais importa além das cartas?
PAIXONITE
Comecei a acompanhar a piauí recentemente. Aliás, foi um conhecido meu, um jornalista, que recomendou a revista para mim, e como confio nas indicações dele, resolvi dar uma chance à piauí.
Devo admitir que tenho um certo tipo de “fascínio” pela história e política do nosso país, assim como pelo período da ditadura militar, o que pode assustar alguns. Afinal quem seria fascinado pela brutalidade dessa época se não um saudosista?
Tenho de reiterar que meu fascínio é pela materialidade histórica da época, principalmente os aspectos da micro-história, que foca principalmente na vida cotidiana e nos fatos culturais. Então, fui pego de surpresa quando vi as reportagens Mas onde é aqui? (piauí_217, outubro), A ameaça autoritária, ainda (piauí_218, novembro) e O golpista (piauí_219, dezembro), as quais dialogam muito com aspectos desse passado sombrio e desse futuro incerto, e concordo com Fernando de Barros e Silva, em Os imperdoáveis (piauí_219, dezembro), pois, assim como ele, também sinto que a ditadura não foi bem digerida. Acredito que, por se tratar de uma memória tão recente, criou-se essa espécie de tabu sobre o assunto, e atualmente é fácil encontrar documentários na internet que romantizam esse episódio, regurgitando de volta o velho autoritarismo indigesto. Muito me preocupa essa disputa pela memória popular.
Enfim, devo dizer que estou apaixonado por vocês, e para retribuir à pessoa que me recomendou a revista, eu distribuo minhas edições entre conhecidos e amigos quando termino a leitura, guardando apenas a edição de aniversário de 18 anos, que me provocou risadas e me fez refletir com as charges tematizadas. Desejo um bom ano-novo a essa querida “pinguina”.
IBRAHIM MOHAMMED MAZHAR KHAN_SÃO PAULO/SP
NOTA IMPRESSIONADA DA REDAÇÃO: Parabéns, essa parece ser a primeira joint venture de uma declaração de amor com um esculacho à ditadura militar.
