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A pajé cearense que lutou por água para sua aldeia

Gabriela Lopes | Edição 220, Janeiro 2025

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Quando criança, Rosa Cariri de Lima ouvia da avó e da bisavó histórias sobre sua origem. Ela pertence ao povo Kariri, que dá nome à região onde vive no Sul do Ceará – o Cariri. “Desde que eu me entendia por gente, já fui sabendo que a gente tinha parte com índio”, conta. Aos 65 anos, Lima é a primeira mulher pajé da aldeia de Poço Dantas, na Chapada do Araripe, no Crato. “Tenho orgulho demais em ser kariri”, diz ela.

Esse orgulho foi uma conquista difícil. Filha mais velha de cinco irmãos, Lima passou a infância e a adolescência na zona rural do município do Crato. Dormia em uma cama feita de varas, ouvindo sua mãe, Maria Guilherme de Li­ma, cantarolar sucessos do rádio. O pai, Edilson Cariri da Silva, trabalhava nas plantações dos grandes proprietários rurais da região. Era pago com alimentos: farinha, arroz, rapadura, milho e fava. “Aí, com a gente morrendo de fome, mãe quebrava aquela rapadura e pegava farinha e fazia pirão doce e dava pra gente comer”, recorda a pajé. A caça e a pesca complementavam a subsistência da família. O rio que passava na região está entre as lembranças afetivas de Lima. Ela ri quando conta como “tomava carreira e dava um pinote” para pular na água.

Nessa época muitos descendentes de indígenas retiravam a palavra “Cariri” do sobrenome, com receio de sofrer preconceito. Rosa Cariri de Lima só teve seu nome registrado em cartório aos 19 anos, quando estava para se casar com José Cariri da Silva, seu primo. Os dois cresceram juntos, e ela estava grávida de quatro meses quando celebrou o matrimônio na Igreja Católica. Teve festa com forró até o dia amanhecer. “O divertimento que mais gosto em minha vida é dançar”, ela conta. Lima tem seis filhos – três homens e três mulheres. Todos vivem em Poço Dantas, exceto uma filha que se mudou para o Rio de Janeiro.

 

 

Em 1982, o Açude Thomaz Osterne de Alencar, obra do governo federal, foi inaugurado na terra indígena do Cariri. Lima, o marido e os filhos moravam na região em uma casinha de taipa. Tinham uma roça onde cultivavam arroz, feijão, milho, fava e amendoim. Mas a comunidade não foi beneficiada pelo açude. Ao contrário: as pessoas foram desalojadas de suas casas pelas obras. Pelas terras desapropriadas, receberam do governo “uma mixaria”, nas palavras de Lima. “Os ricos tomaram conta.”

Ela e os demais kariris se estabeleceram, então, em Poço Dantas, a cerca de 4 km do lugar onde Lima cresceu e casou. No novo local, o abastecimento de água dependia de cacimbas – buracos cavados no solo até alcançar o lençol de água. Uma longa corrente conduzia a água da cacimba até a casa dos moradores. “Trazia água no pote, depois mudou do pote para a lata, e depois da lata para o balde.”

As coisas transcorreram assim até 2013, quando o Cinturão das Águas, grande projeto do governo do Ceará que ambicionava integrar as doze bacias hidrográficas do estado ao Rio São Francisco, passou pelo Crato – e, ironicamente, cortou as fontes de águas da comunidade indígena. Os moradores foram mais uma vez deslocados e indenizados por causa das obras, e todas as cacimbas acabaram aterradas. “Foi o maior sofrimento ficar sem água”, recorda Lima.

 

Ela tomou a iniciativa de ir até a obra e exigir providências dos responsáveis. “A gente ficou sem água. Qual solução vocês vão dar?”, perguntou. A solução encontrada foi permitir que a comunidade tivesse acesso ao poço que servia os operários do Cinturão das Águas. Essa medida funcionou até que a construção foi paralisada, como é comum nesses grandes projetos governamentais. A população de Poço Dantas foi avisada de que não poderia mais recorrer ao poço, sob alegação de que corria o risco de ter problemas com a fiação elétrica da bomba de água. “Mas que mentira!”, protesta Lima, ainda hoje indignada. “Eles não estavam nem aí, queriam que a gente morresse de sede.”

Rosa Cariri de Lima e outra liderança local, Vanda Cariri, solicitaram à Prefeitura de Crato carros-pipa para abastecer as cisternas. O problema foi se arrastando, e só teria alguma solução em 2022. Os responsáveis pela obra tentaram encanar a água do poço para abastecer a aldeia, mas descobriram que não havia vazão suficiente para abastecer todas as casas. Tiveram que abrir um poço na própria comunidade. “Se eu não tivesse aberto minha boca, a gente tinha morrido de sede”, diz Lima.

 

Somente na primeira década deste século os indígenas em Poço Dantas começaram a reivindicar sua ascendência kariri. A mudança foi resultado do trabalho de uma quase xará de Rosa Cariri de Lima: Rose Kariri, ativista dos direitos indígenas que começou a trabalhar no Crato em 2008.

 

Rose foi uma colaboradora de Tereza Kariri, talvez a mais importante liderança indígena do Ceará. Incentivada pela escritora e indigenista Maria Amélia Leite, Tereza foi a primeira mulher a se autoafirmar indígena na região chamada Sertão dos Crateús, em 1988, e levantou a bandeira do povo Kariri em todo o Ceará. Ela morreu em outubro de 2023, aos 83 anos.

Quando Rose chegou em Poço Dantas, iniciou-se um processo de identificação dos indígenas remanescentes do povo Kariri. Logo, a comunidade sentiu a necessidade de eleger um pajé – e a escolha natural recaiu sobre Rosa Cariri de Lima. A pajé segue lutando pelos direitos da comunidade e, como representante da associação de moradores, dialoga com a Funai e outras instituições.

Em 2020, Poço Dantas criou um Museu Afetivo para reunir quadros e artefatos, como pilão, cabaças, potes e outros objetos que preservam as memórias dos antepassados. É uma forma de valorizar o sentimento comunitário. “A família Cariri é toda unida”, diz Lima. “O que um sente, os outros sentem também.”

 


O texto é um dos sete selecionados para publicação entre os participantes do concurso Uma História na Minha Esquina, voltado a estudantes de jornalismo

Gabriela Lopes

Cearense de 22 anos, é aluna do sétimo período de jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA)

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