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Um animal fabuloso

    CRÉDITO: JULIA JABUR_2025

ficção

Um animal fabuloso

Entre as recordações da Argentina, procuro um lugar onde haja um cavalo que se possa abraçar

Samanta Schweblin | Edição 224, Maio 2025

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Quase vinte anos depois do acidente, Elena me telefona em Lyon. Não reconheço a voz dela, mas quando diz seu nome, sei perfeitamente com quem estou falando.

Por alguns segundos a escuto respirar, seguro o telefone com o ombro e acendo um cigarro. Devagar, tentando não fazer nenhum ruído, saio à varanda que dá para o parque, sento em uma das cadeiras e tiro as sandálias empurrando-as com os dedos dos pés. Ela quer falar de Peta, seu filho. Quer saber do que me lembro da noite do acidente. Sua voz é calma e pigarrenta. Me pergunto se é por causa dos anos que se passaram, ou se o tom tão doce dela desapareceu de repente naquela última vez que nos vimos.

Ponho os pés descalços na outra cadeira, sinto dor nos calcanhares e nas pernas. Estava em Madri nesta manhã, e mal tinha deixado a mala na entrada do apartamento quando o telefone tocou.

 

“Onde você está, Elena? Em Buenos Aires?”

Pergunto para ganhar tempo, para me sentir um pouco mais em casa antes de me entregar a esta conversa. Seu silêncio me faz desconfiar de que ela nunca saiu de Hurlingham,[1] que talvez pudesse ainda morar na casa onde tudo aconteceu.

“E você?”, pergunta Elena. “Continua viajando?”

 

Penso no escritório novo em Marselha, na cátedra de planejamento urbano de Barcelona, no desenvolvimento comercial nos arredores de Bordeaux. Mas quando imagino Elena sentada no banco que tinham no amplo corredor entre a cozinha e o quintal, quando a imagino falando comigo, sentada nesse banco de madeira e pés de ferro que seu pai alcoólatra fizera para ela com suas próprias mãos como presente de casamento, e que ela nunca quis tirar de casa, então digo:

“Sim, um pouco.” E espero para ver o que ela fala.

“Teu sobretudo ainda está aqui.”

 

Que sobretudo? Há uma dezena de casacos no meu closet, mas já não me lembro dos que costumava usar.

“Estou morrendo, Leila. Por isso telefonei.”

Olho para os meus pés, mexo os dedos. Do lado de fora da varanda, o vento acaricia a copa das árvores. E de repente penso no cavalo. Depois de muitos anos, volto a pensar nele, na primeira vez que o vi, com uma clareza assombrosa. Ia à casa de Elena direto do aeroporto, e o táxi parou em um semáforo da Avenida Vergara, bem ao lado do animal. Ele estava empacado, arrastava uma carroça com um monte de colchões empilhados e um homem o castigava a chicotadas para avançar. Sempre houve cavalos na Grande Buenos Aires, mas naquela época já fazia tempo que eu morava fora e a imagem me chocou.

A barriga do cavalo estava tão perto que eu poderia ter posto a mão para fora do carro para tocá-la. Dava para perceber que estava inchada, desproporcional ao restante do corpo tão magro. As patas cambaias, a pelagem rala ao redor das correias. Mas me lembro sobretudo do modo como o cavalo girou a cabeça e me olhou. Ele olhou diretamente para mim, com aqueles grandes olhos escuros.

“Sei que já faz tempo”, diz Elena, “mas… Você se lembra da fantasia que Peta usava naquela noite, uma que ele mesmo tinha feito? Quero que alguém me fale do meu Peta.” Quando Elena tosse, intuo o que foi que alterou tanto a voz dela. “Por favor, você esteve ali. Senão, a quem vou pedir?”

Espero alguns segundos, Elena não diz nada, então pergunto:

“Você está doente? O que você tem?”

“Tanto faz, Leila, temos 60 e poucos anos e eu não passo do próximo mês”, sua voz dá um salto de leve, como se ela tivesse se posto de pé. “Faz algum tempo que estou tentando entrar em contato com você.”

“Você está em Hurlingham?”, pergunto.

Nós duas nascemos em Hurlingham, mas nos conhecemos na faculdade, cursando arquitetura.

“Sim”, diz Elena.

Penso em Alberto, e agora estou tentando não perguntar por ele.

“Mas você se mudou?”, pergunto.

Lembro-me deles no quintal, o mesmo quintal onde aconteceu o acidente.

“Continuo em casa”, eu a escuto tossir. “Espere um momento.”

Tenho a impressão de que ela abandona o telefone sobre o banco e se afasta. Ela me deixa sozinha no corredor, tão perto daquele quintal que, em Lyon, os pelos do meu braço ficam arrepiados.

Alberto e Elena se casaram um ano depois de se conhecerem. Nós três nos formamos no mesmo mês de dezembro, mas em seguida aceitei o emprego na empresa francesa e fui embora da Argentina. Eu sempre lhes escrevia quando passava por Buenos Aires, e então eles me convidavam para jantar em sua casinha de bairro de classe média, reformada de acordo com seus olhares rigorosos de arquitetos. Eram altos e vigorosos, e vestiam as camisas e as calças claras que os arquitetos vestiam, com seus relógios de grife um pouco frouxos no pulso. Elena usava os cabelos presos em um rabo castanho, e os cachos ao redor da testa se erguiam como pequenas molas. Às vezes Alberto os ajeitava atrás das orelhas de Elena. Ele fazia isso com carinho, mas o fazia sobretudo quando era ela quem estava falando e ele começava a se distrair.

No telefone ouço o barulho da porta de uma geladeira. Eu me lembro de cada detalhe dessa cozinha. Bastam dois passos para voltar ao corredor, praticamente uma extensão do quintal, porque a porta de correr com a qual substituíram uma parede na primeira reforma estava sempre aberta. E ali, sentada no banco, era onde Elena gostava de “sentir o ar”. A casa não era grande, mas eles tinham derrubado algumas divisões e sabiam onde pôr as luzes e as poltronas para que parecesse maior. Tiveram o menino alguns anos depois de se formarem e o criaram com o mesmo cuidado e devoção compartilhada com que encaravam todos os projetos profissionais. Nessa última visita que lhes fiz, eles tinham nove anos de casados, e o menino acabava de completar 7.

Elena protesta com um shhh, alguma coisa cai no chão. A quem vou contar sobre este telefonema?, penso. Ninguém na França sabe do assunto. Na verdade, nem sequer Elena sabe o que aconteceu comigo naquela noite para além do acidente. Ela me telefona porque quer ouvir alguém contar alguma coisa sobre Peta. Não parece intuir nada mais.

Os passos retornam, Elena ergue o telefone. O banco chia quando ela volta a sentar.

“Estou bebendo Fernet”, ela diz, “quero adquirir ao menos um vício antes de morrer. Acha que dá tempo?”

“Mas é claro. Podemos beber seis desses por telefone todos os dias.”

Rimos. Se ela realmente precisava disso, eu estaria disposta a acompanhá-la. É sempre assim, de repente percebo o quanto sinto falta de alguém, com a angústia que chega do nada, e tenho que fazer um esforço para não me emocionar.

Eu a escuto acender um cigarro, não sabia que ela fumava. Tento me lembrar de algum detalhe sobre Peta, mas só vejo o cavalo. Elena traga e o papel do cigarro crepita, consumindo-se. Ela não vai dizer mais nada até que eu comece a falar.

“Foi ele que abriu a porta para mim.”

Elena exala a fumaça com um sopro lento, quase aliviada.

O nome dele é Pedro, mas o chamavam de Peta. Eu o conheci quando ele tinha 2 anos, na primeira de uma dezena de visitas a Buenos Aires depois da parceria da minha empresa na construção de dois arranha-céus em Puerto Madero. Também o vi, numa noite, aos 4 anos, mas o menino já estava dormindo. E então essa vez, aos 7, todas as imagens que agora me vêm são dessa última visita. Eu o vejo parado na porta, dentro de um vestido comprido, improvisado, feito de papel-alumínio, estufando o peito com a rigidez de um gendarme.

Conto a Elena sobre a sensação que tive ao vê-lo tão grande, e a eles dois, “você e Alberto”, digo, preparando, no quintal, umas comidinhas para beliscar, indo e vindo da cozinha com aquela harmonia tão eficiente com que faziam tudo. Digo “faziam” e espero alguns segundos para ver se ela esclarece algo sobre Alberto. Descrevo a casa, o grande espelho que acabavam de instalar na entrada. Falo de como estava cansada da viagem e de como o primeiro drinque no quintal aliviou tudo. É incrível as coisas que a gente recorda vinte anos depois. Por exemplo, que eu estava com os pés descalços e que a cerâmica do quintal ainda estava morna. Talvez seja a sensação do prazer e da dor o que sempre deixa uma marca mais vívida, porque são as coisas que acontecem com o corpo. Ou talvez seja porque houve um tempo em que revisitei muitas vezes essas recordações, e eu mesma escolhi a quais detalhes voltar para tentar entender o que tinha acontecido.

Na minha varanda, a tarde começa a escurecer.

“Eu também vou preparar uma bebida para mim, Elena.”

“Te espero.”

Deixo o telefone na cadeira, entro e atravesso as duas grandes salas de estar em direção à de jantar. Me pergunto se Elena se sentiria confortável entre tantas estantes de livros. Se aprovaria as minhas poltronas, o grande vitrô da cozinha aberta, o parquete de nogueira que meu segundo ex-marido cismou de instalar. Abro o movelzinho das bebidas e me sirvo de um pouco de uísque. Elena só quer que alguém cite o nome de Peta a ela. Que descreva como ele amarrava os tênis coloridos, seu quarto minuciosamente bagunçado, suas unhas molinhas e curtinhas cheias de marcas de tinta. Então me cai uma ficha: talvez esta seja a última vez que conversamos, é isso o que este telefonema significa, e assim entendo que, embora ela só queira ouvir sobre Peta, vou contar-lhe sobre o cavalo.

Volto com o meu uísque organizando as recordações, confusa pela nitidez com que elas se desdobram na minha cabeça.

“Você está aí?”, pergunto.

“Sim.”

“Não tenho filhos, Elena. Não tive, mas… Você vai achar que isso é algo meu, pessoal, que não tem a ver com o que aconteceu com Peta.”

Espero, em Elena o silêncio sempre foi desconcerto.

Explico o que descobri naquela noite depois de conversar um pouco com Peta, deitados no tapete. Eu já sabia das excentricidades do menino, e de como era talentoso ao desenhar. De como dois anos antes ele tinha estudado o percurso que a luz do dia fazia sobre as paredes, e que ele “expunha” seus trabalhos pendurando-os apenas nessas áreas de luz “verdadeira”. Sua obsessão por pintar cavalos, e o controle que, com seus 7 anos, já tinha sobre as perspectivas e as cores. Muitos pais superestimam o talento dos filhos, e eu não sabia, até aquele momento, tudo o que realmente estava acontecendo na cabeça de Peta. Mas talvez por ser filho de arquitetos, talvez por puro talento, Peta era um caso surpreendente.

Naquela noite, quando o menino foi sozinho para o quarto, Elena e Alberto insistiram que fosse eu a verificar se ele tinha escovado os dentes e ido para a cama. Aceitei quando, em seguida, confessaram rindo que, se havia gente para o jantar, Peta só respondia às perguntas das visitas e também parava de falar com os pais assim que terminava de comer. Achavam que era o jeito dele de convidar gente nova para ir ao seu quarto. Aceitei o desafio, e no tempo em que estive sozinha com o menino perguntei por que ele fazia isso. Peta disse: “Faço de conta que estão mortos”, e riu tampando a boca, fascinado pela própria brincadeira. Ele me convidou a deitar no tapete para me mostrar o teto, e me apontou as constelações que estava marcando com um estilete, descascando a pintura. Do chão, eram quase imperceptíveis, porque trabalhava apenas nos contornos, que ele iria pintar todos de uma vez para o aniversário seguinte de Elena. Perguntei como tinha, sozinho, alcançado lugar tão alto e ele disse: “Tenho uma técnica”, mas não me explicou qual era. Continuamos um tempinho ali, deitados de barriga para cima, até que ele virou para mim, muito sério, e perguntou: “Alguma vez você já acordou no meio da noite? Acordar assim, sem que ninguém te acorde, acordar de verdade.”

Era um menino extraordinário, e ao mesmo tempo totalmente normal. Na verdade, a única coisa extraordinária até aquele momento estava acontecendo dentro de mim: ali, deitada no tapete ao seu lado, fantasiei com a ideia de que alguém pudesse precisar de mim de forma tão específica, tão exclusiva. No entanto, eu não queria ser mãe, nunca tinha me interessado por ser.

Não conto nada disso a Elena, que Peta me fazia perguntas e que eu pensava, o que ele está perguntando parece simples, mas é complexo demais; pensava, será que os adultos que convivem com esse menino entenderão a magnitude dessa pergunta? Pensava, eu consigo entendê-lo, eu posso lhe dar respostas sem enganá-lo nem destruí-lo. Era uma intuição poderosa, uma pulsão que me confirmava: esse menino é precioso demais, você, sim, seria capaz de cuidar de algo assim.

A Elena conto apenas o que o menino disse depois: “Não quero ser arquiteto.” Não lhe digo o que pensei: que no tom firme com o qual falava, na maneira como seus olhos brilhavam enquanto descobria o sentido das próprias palavras, ele parecia também dar a entender “sou algo tão grandioso que não posso me conformar com o mundo dos homens”. Nem que esperei alguns segundos calculados antes de voltar a falar, para que Peta terminasse de saborear a própria descoberta e pudesse reconhecê-la em todo seu esplendor, nem assenti, como se dissesse: “Sim! Sim! Essa é a verdade verdadeira! Você pode ser o que quiser!”

A Elena, conto apenas o que perguntei a Peta depois:

“E o que você quer ser?”

“Quero ser um cavalo.”

“Um cavalo?”, a voz de Elena treme no telefone.

Conto a ela que levantei do chão num pulo e propus que Peta praticasse.

“Praticar ser cavalo?”, ele perguntou. “E como se faz isso?”

“Do jeito que você imaginar.”

Peta também levantou num pulo. A segurança da minha resposta parecia tê-lo enchido de energia.

“Para ser um cavalo é preciso praticar andando com um pé na frente do outro”, ele disse.

“Isso mesmo! Vamos praticar!”

Andamos juntos em fila, de uma ponta a outra do quarto, com os braços estendidos e as mãos abertas, fingindo fazer um grande esforço para não perder o equilíbrio.

“E quanto mais fechados os olhos, mais cavalo a gente é”, disse Peta.

“Isso mesmo!”

Fechamos os olhos e praticamos outra rodada de ida e volta.

“E quanto mais alto a gente está…”, Peta pulou para a beira da cama, “mais cavalo a gente é.”

Ele pôs um pé na frente do outro sobre a trave de madeira e tentou avançar de olhos fechados.

Elena faz um ruído no telefone, confuso e gutural, parece ter engolido algo repleto de dor, e sei que está pensando no parapeito que dá para o quintal.

“Quando você saiu do quarto, ele já estava deitado?”

Não me lembro, mas respondo que sim. Ficamos em silêncio e já não sei se eu deveria continuar.

“Ai, Leila.” Ouço o papel de seu cigarro crepitar. “Não importa o quanto dói, qualquer coisa que você me diga sobre Peta é como estar mais alguns segundos com ele. Obrigada.”

“Tem mais uma coisa. Algo que quero te contar.”

Penso no quintal, Peta brincava ali desde que começara a engatinhar, com Elena sentada no banco do corredor, sempre por perto, sempre atenta. Ela lia, trabalhava, falava ao telefone, o tempo todo de olho em Peta. Às vezes se apoiava na parede e fechava os olhos, mas não dormia. Lembro-me da mancha que havia no papel de parede marfim, na altura de sua cabeça, como uma nuvem densa. Vai morrer sentada ali? Haveria alguma coisa que eu pudesse fazer para levantá-­la desse banco? Levantá-la para quê?

“Quando Peta caiu do parapeito…”, começo, mas me detenho.

Olho para o parque além da varanda: em Lyon já é noite fechada.

E de repente ali estão todas as palavras que começo a dizer a Elena pelo telefone. Já não consigo distinguir o que é lógico ou ilógico, o que poderia ser doloroso ou suportável. Narro o que aconteceu tal qual me vem à memória: o barulho do corpo contra a lajota do quintal. Como nós três demoramos um segundo para entender, para nos virarmos na mesa e reagir. Como afinal eles dois pularam das cadeiras e correram até Peta. Alberto não queria movê-lo, Elena o ergueu e o apertou contra ela, queria gritar, mas não podia, porque nem o menino nem ela respiravam. Elena estava ajoelhada e o sangue aumentava ao seu redor, parecia até que o problema todo era ela estar apertando muito o filho. Lembro que levantei da mesa e disse: “Vou chamar uma ambulância.” Mas ninguém assentiu nem se mexeu. Fui até a cozinha e telefonei. Dei o endereço, respondi a algumas perguntas e quando desliguei não conseguia mais voltar ao quintal. Meu sobretudo estava sobre o banco do corredor, e lá o deixei. Saí da casa. Fechei a porta lentamente e o barulho do trinco me confirmou que eu já estava do outro lado. Fiquei olhando para a maçaneta, até que ouvi Elena gritar. E então, sem ainda me virar, pressenti algo estranho às minhas costas. Não tinha coragem de me virar para ver. Umas gotas de suor escorreram da minha testa até o queixo e atingiram o piso. Vire, pensei, a dor pior ficou dentro da casa, Elena continuava gritando, seja lá o que acontecer agora não vai te matar. E virei para a rua.

Recostado no asfalto, com a pouca luz de um único poste no fim do quarteirão, o corpo parecia tão desproporcional e grande que demorei a entender o que era. Era um cavalo, jogado sobre o asfalto como se tivesse caído de algum lugar. Eu me aproximei devagar, tentando não assustá-lo. Sua respiração estava agitada, seu abdome inchado se inflava e desinflava esticando a pele desgastada sob as rédeas. Os olhos grandes e escuros procuravam algo na noite, e tive a certeza de que procuravam por mim. Ele ergueu a cabeça para me olhar de frente. Bufou, tentou levantar, mas não conseguiu. Eu ajoelhei a seu lado, abracei sua cabeça e apoiei minha testa na dele. “Você vai ficar bem”, eu disse. “Fique calmo.”

Primeiro chegou a ambulância, depois a polícia. Indiquei a casa a eles, para orientá-los. Em seguida apareceram alguns vizinhos. Aproximavam-se, viam o cavalo e ficavam ali parados, confusos. E todo esse tempo eu permaneci onde estava, abraçada ao animal.

Alguns minutos depois vi Alberto e Elena saírem detrás de uma maca. Atrás de mim, um vizinho estava chamando a emergência veterinária. Alguma coisa distraiu Elena, que olhou na minha direção, confusa. Subiu na ambulância gaguejando. Os enfermeiros trancaram as portas e o barulho agudo da sirene se afastou a toda velocidade.

Faço uma pausa. Afasto por um momento o telefone e suspiro. Segundos depois, pergunto:

“Você se lembra do cavalo?”

Elena não diz nada.

O velório aconteceu três dias depois, e em seguida o enterro. Antes de ir embora, abracei cada um, primeiro Alberto, em seguida Elena, separados pela primeira vez, imóveis entre os presentes, atentos de uma maneira estranha: ao chão, aos menores ruídos, procurando no burburinho alguma coisa que pareciam ter nas mãos um segundo antes.

Cuidei do cavalo, que ficou uns dias na veterinária da Faculdade de Agronomia, se recuperando. Localizei umas estrebarias em Luján,[2] que me ofereciam um bom preço para deixá-lo o ano todo se eu pagasse adiantado. Estava disposta a gastar uma fortuna com ele, mas duas semanas depois alguém me contatou em Lyon para avisar que um homem o tinha reclamado, e que o animal já estava outra vez com seu dono. Acho que foi por aqueles dias que telefonei a Hurlingham para ver como estavam, mas não os encontrei. Ou talvez tenha tido a intenção de telefonar e, no fim, não o fiz. Eles também não. E não voltamos mais a nos falar.

Ouço no telefone um estalido, os pés do banco rangendo. Ela ficou de pé? Estará olhando o quintal? O que tem agora no quintal? Por que não diz nada?

“Elena, você está aí?”

Às vezes sonho que volto a Buenos Aires. Quase sempre estou em um táxi, olhando com atenção pela janela. E então o vejo. Eu o reconheço imediatamente. A cor, a altura, as orelhas. Ele puxa a carroça com cansaço. Uma carroça enorme, desproporcional para o seu tamanho. Peço que parem o carro, desço e corro até ele. O homem que o conduz a chicotadas não entende o que está acontecendo, puxa as rédeas para freá-lo. O cavalo se detém, bufa, vira para mim. Toco a sua cabeça enorme, a minha testa outra vez na testa dele. Uma palma aberta em seu pômulo, a outra em seu peito. Ele é tão enorme e lindo, e estou lhe pedindo perdão.

“Não tenho tempo para bobagens”, diz Elena, “não está vendo?”

Ela está coberta de razão, coberta. O que vamos fazer agora?

“Acabou”, ela diz, mas há uma mudança sutil em seu ímpeto. “Onde está?”

Seguro o telefone, tento me pôr em seu lugar. O que está me perguntando?

“O cavalo, Leila.”

“O cavalo”, digo para ganhar tempo, tentando entender esse último pedido. Desesperada, procuro entre as recordações da Argentina um lugar onde haja um cavalo que se possa abraçar.

“Leila…”

“Sim, claro”, digo. “Sim. Tem como anotar?”

“Tenho”, ela diz, e ouço um barulho que reconheço com perfeição: ela empurra a porta de correr, abre-a. O som muda totalmente. Elena está de pé diante do quintal. “Tenho tudo”, diz. “Tudo está pronto aqui. Estou te ouvindo.”


Este conto faz parte do livro O bom mal: contos reunidos, a ser lançado em junho pela Fósforo Editora, com tradução de Livia Deorsola.

[1] Cidade na área metropolitana da Grande Buenos Aires.

[2] Cidade na província de Buenos Aires.

Samanta Schweblin

É escritora argentina

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