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Em primeira pessoa

    CRÉDITO: PEDRO FRANZ_2025

ficção

Em primeira pessoa

Olhei para as fotos por mais um tempo, tentando memorizar os rostos desses irmãos que eu só conhecia de passagem

Bruna Dantas Lobato | Edição 228, Setembro 2025

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O plano era pegar um ônibus até o sítio do meu pai, vê-lo pessoalmente, para variar. Minha mãe disse, Seu pai não tem tempo pra você e você não conhece a esposa dele. Mas eu fui mesmo assim. Eu queria experimentar a ausência dele eu mesma, em primeira pessoa.

Enfiei minhas coisas em uma bolsa grande e minha mãe me levou à rodoviária. Ela disse, Me ligue se precisar de qualquer coisa. Eu disse que ligaria todos os dias.

As nove horas no ônibus passaram rápido.

 

A paisagem era quase toda seca. Canaviais, carnaubeiras e um vulcão extinto ao longo da rodovia. Vi dois acidentes de carro na BR: um sedã que bateu em um burro perto de Mossoró e um caminhão capotado com as janelas estilhaçadas.

Desci do ônibus em Horizonte, algumas paradas antes de Fortaleza.

Vi meu pai imediatamente. Ele estava me esperando encostado num Chevrolet velho, chutando terra, uma pochete pendurada sobre a bermuda cáqui.

 

Bem-vinda, princesa, ele disse. Fez boa viagem?

Meu ônibus atrasou por causa de um acidente num cruzamento, eu contei. Um burro foi atropelado.

Tudo bem, ele disse. Olha só como você cresceu esse ano.

 

Seguimos à casa dele por estradas de terra. Passamos por cactos e ervas daninhas secas, depois uma fábrica antiga de azulejos. Meu pai disse que eles jogavam fora os pedaços quebrados e foi isso que ele usou para fazer o piso em sua casa. Ele falou sobre como construiu a casa, como fez o telhado, a estrutura arquitetônica do lago artificial, a limpeza da piscina, o sistema de esgoto e os canos de água.

Estacionou o carro na frente do portão. Fomos andando pelo caminho cercado de gardênias até a casa de dois andares. Era uma casa comum de uma família qualquer e fiquei surpresa que não fosse mais estranha.

A mulher dele estava sentada na varanda, tricotando. Largou as agulhas quando me viu e nos abraçamos. Eu e a mulher que meu pai não abandonou pela minha mãe, catorze anos atrás, quando eu nasci. Era uma mulher perfeitamente normal. Marisa, esposa e mãe de dois filhos.

Segui meu pai até a sala de estar e dei uma olhada no piso. Os pedaços quebrados estavam cimentados, uma linha fina de rejunte no meio. Vários deles não combinavam, mas pareciam interessantes, cheios de textura.

Chegamos ao quarto de hóspedes nos fundos. Coloquei minhas bolsas na cama de solteiro.

Pode começar a desfazer as malas, ele disse.

Mas eu não desfiz as malas. Chequei se meu celular tinha sinal e liguei para minha mãe para dizer que estava bem.

Depois, ele me levou para conhecer o resto do sítio e me mostrou os cachorros, a égua, os peixes e os urubus de estimação. Doze urubus pretos estavam empoleirados na cerca em volta do lago artificial cheio de peixes. Parei perto da água, observando os pássaros defecando nas suas próprias pernas para se refrescar.

A gente pode assar uns peixes, ele disse. Eles se reproduzem rápido demais e não tem espaço no lago.

E os urubus?, perguntei.

O que tem eles?

Nunca vi tão de perto assim.

Já, já você se acostuma, ele disse.

Eu e meu pai pescamos um peixe para o jantar pouco antes de escurecer, enquanto Marisa nadava na piscina. Peguei uma tilápia do tamanho do meu antebraço. Ela se debateu nas minhas mãos e quase a derrubei. Fiquei pensando no anzol perfurando sua boca fria e na vez que o fio do meu aparelho espetou a carne dentro da minha bochecha. Estava com medo de tirar o anzol e machucá-la, então meu pai tirou o peixe das minhas mãos e o puxou para mim. O lábio se rasgou. Não saiu sangue.

Aposto que isso nem dói, ele me disse enquanto raspava as escamas, como se eu fosse acreditar em tudo que ele me dissesse.

Preparamos seis filés de peixe com sal e limão e os servimos com batatas assadas e arroz.

 

Os dias ficaram mais calmos. Certa noite, meu pai estava lendo um livro e o fechou quando entrei na sala para acender seu cachimbo, seus óculos apoiados na ponta do nariz. Li o nome na capa e fiz questão de guardar na memória: eu leria esse livro depois.

Como vai a sua mãe?, ele perguntou.

Ela está bem, eu disse. Está procurando um emprego novo.

Sua mãe. Sempre cheia de ambição, ele disse.

Ele sorriu com sua prótese dentária e empurrou os óculos para mais perto dos olhos.

Eu disse, Pai, vamos fazer alguma coisa juntos? A gente pode sentar lá fora e jogar baralho.

Ele fechou os olhos e deu uma tragada no cachimbo, soltou a fumaça com um suspiro tão profundo que o recostou na cadeira.

Outro dia, ele disse.

Eu fui até a varanda. Era uma noite quente. As árvores farfalhavam ao vento. Um dos urubus estava sentado na mesma cerca de antes, solitário.

Seu urubu está sozinho, eu disse sem olhar para trás.

Meu pai se juntou a mim, parou ao meu lado.

Depois atravessou o jardim, além dos pássaros, escuridão adentro.

Voltei para o meu quarto nos fundos da casa. Ouvia a tevê lá de cima enquanto remexia o armário ao lado da minha cama: camisas masculinas, cobertores finos, duas redes. Estava tudo guardado em pilhas organizadas, bem dobrado. Passei minhas mãos pelas camisas e amarrotei os cobertores. Tive vontade de tocar em tudo na casa deles, de abrir todas as portas e ver tudo o que eles tinham.

Nas gavetas da cômoda, encontrei uma montanha de revistas de cifras de músicas dos anos 1980, escondidas entre manuais velhos de eletrodomésticos. A assinatura da minha mãe marcava todas as capas.

Estudei as fotos dos meus dois meios-­irmãos em cima da cômoda: em várias, sorriam com roupas combinando ou em viagens de férias para a praia; em uma, eram adultos, cada um de mãos dadas com uma jovem que poderia ser uma namorada. Olhei para as fotos por mais um tempo, tentando memorizar os rostos desses irmãos que eu só conhecia de passagem. Todas aquelas praias, jantares, festas.

Li letras dos Beatles e estudei a caligrafia da minha mãe até adormecer, protegida pelo mosquiteiro.

Quando acordei pela manhã, meu pai e sua esposa já tinham ido para o trabalho. Sentei na minha cama e assisti pela janela à égua cinza andando em círculos no curral de madeira atrás das bananeiras.

Reguei as flores e fucei as estantes e gavetas da sala. Do sofá, um dos poodles me observava enquanto eu mexia nas coisas do meu pai. Encontrei uma lista de compras e duas notas de 20 reais dentro de um livro azul de capa dura. Para comprar: papel de seda, farinha, manteiga, filme de 35 mm, ovos.

Em uma das prateleiras, também encontrei um livro que sempre quis ler, mas que nunca pude comprar. Fui até o quarto e o enfiei na minha bolsa. Não me preocupei em procurar algo para deixar no seu lugar.

Nos armários da cozinha, encontrei maços de cigarro por todo lado e um saquinho de fumo Trevo em uma das gavetas. Tinha dois cachimbos de madeira em outra gaveta, entre facas e um abridor de latas. Não tinha muita coisa na geladeira. Me sentei na mesa e comi cereal Nescau enquanto inspecionava o saquinho de tabaco.

Liguei para a minha mãe. Ela esperava que eu estivesse me divertindo com o meu pai.

Sim, estou.

A esposa dele tem sido legal com você?, ela perguntou.

Sim, tranquilo. Marisa não é tão ruim assim.

Você perguntou se ele pode te dar algum dinheiro?

Ainda não.

Mais cedo ou mais tarde, você vai ter que perguntar, ela disse. Você é filha dele.

Eu sei.

Tá fazendo o quê agora?

Esperando eles voltarem para casa, eu disse.

Um dos cachorros estava sentado aos meus pés, olhando para mim. Fiz carinho na sua cabeça.

Eles estão no trabalho, eu disse. Somos só eu e os cachorros, por enquanto.

Às quatro da tarde, comi arroz e ovos mexidos na varanda. Estava quase escuro. Vi um dos cachorros, dessa vez um fila, espantar o urubu. O pássaro pousou no portão que dava para o quintal.

Muriçocas começaram a picar as minhas pernas, então voltei para dentro e fiquei sentada por mais meia hora assistindo aos cômodos vazios. A casa tinha cheiro de madeira. Lavei a louça.

Meu pai me ligou e sussurrou pelo telefone: Vou chegar tarde. Deixei 10 reais em cima do som, caso precise comprar alguma coisa. Tem um mercadinho no fim da rua. Pode comer todas as trufas de chocolate da geladeira. Sua mãe já ligou hoje? Diga que estou mandando um beijo pra ela, ele disse. Sua voz soava aveludada, se é que tem como uma voz soar dessa forma, até que de repente tossiu e parou de falar. Eu o imaginei colocando o cachimbo na boca. Ou sua esposa questionando os beijos que ele mandou para minha mãe.

Te vejo em casa, pai, eu disse e desliguei antes que ele pudesse falar mais. Eu tinha começado a gostar da casa em silêncio.

 

Lá para a metade da minha visita, me sentei no sofá na frente dele e perguntei se meus meios-irmãos viriam me ver. Eles moravam na cidade, onde trabalhavam em um escritório de arquitetura, os dois.

Tudo bem se não tiverem tempo, eu disse.

Claro que eles vêm, meu amor, ele disse. Sempre passam o Ano-Novo aqui. Dou uma ligada pra eles amanhã.

Marisa estava assistindo à tevê no andar de cima e de vez em quando eu escutava sua risada. Fiquei folheando uma revista de artesanato que encontrei na mesa de centro enquanto ele lia um livro – um dos poodles deitado aos seus pés e o outro deitado no sofá – até a hora de ir dormir.

Boa noite, meu amor, ele disse e cheirou meu cabelo. Ele tinha cheiro de fumaça.

Subiu as escadas e os dois poodles o seguiram.

 

Então meu pai me disse que queria comprar um presente para Marisa. Fomos de carro até uma cidade pequena com um shopping no Centro.

Você que vai escolher o presente dela, ele disse.

Por que você mesmo não escolhe?

Não sou bom de comprar presente de mulher, ele disse. Vai, filha, me dá uma ajudinha.

Fui andando pelos corredores, procurando qualquer coisa que Marisa pudesse gostar. Blusas de estampas floridas, colônias doces, colares dourados. Talvez uma agenda. Perguntei se ele tinha alguma preferência.

Não, ele disse. O que você quiser.

Ele devia saber que eu não queria comprar nada para ela.

Por fim, achei uma bolsa tipo carteiro perfeita para carregar livros e papéis.

O que você acha dessa bolsa?, perguntei a ele.

Perfeita, ele disse. Vou dizer a ela: meu amor, lembrei de você quando vi.

Fui carregando a bolsa dentro de uma sacola da loja.

Quando voltamos para casa, um dos meus meios-irmãos e a namorada tiravam duas malas de um carro.

Finalmente, meu irmão João disse quando me viu. Colocou a mala no chão e me deu um abraço. Ele era exatamente como parecia na foto, o cabelo ainda repartido à direita, mesmo depois de todos esses anos. Por algum motivo, achei que seria bem diferente.

A namorada dele sorriu para mim. Ele me falou tanto de vocês, ela disse.

Entramos em casa. Marisa os esperava na cozinha.

Me sentei na mesa enquanto se abraçavam.

Estou tão feliz que vocês chegaram, ela falou para a namorada de João.

Almoçamos e falamos sobre o clima e as notícias e festas de aniversário de cachorro. Fortaleza é muito violenta, meu irmão disse à certa altura. Vinte pessoas são assassinadas na área metropolitana todo fim de semana. É só ver no jornal.

Sua cidade faz a minha parecer tranquila, eu disse.

Acredite, você mora num paraíso, ele disse.

Mais tarde naquele dia, meu pai tirou uma foto minha e do meu irmão à beira do lago artificial. Nós dois sorrindo, o braço dele no meu ombro.

Depois te mando uma cópia da foto pelo correio, ele disse.

Eu fiz que sim, me perguntando se o outro irmão iria aparecer, se iria ter uma foto disso também, se um dia teríamos fotos suficientes para encher um álbum guardado em um armário.

 

Eu geralmente dormia até tarde, mas no dia seguinte acordei antes das seis. Calcei meus chinelos, vesti um moletom e fui lá fora. Marisa estava sentada na varanda, tomando café. Sentei na cadeira ao lado dela.

Não conseguiu dormir?, ela perguntou.

Não muito.

Ela tomou um gole de café.

É bom acordar cedo, ela disse.

Fiquei assistindo à chuva cair na piscina, cada gota furando a superfície.

Marisa me falou sobre seus planos para o dia, que iria passar a tarde terminando um bordado e uma pirogravura no seu estúdio.

Seu pai foi quem me ensinou, ela disse. Há muito tempo atrás. Quando os meninos nasceram, queimamos os nomes deles em um pedaço de madeira e colocamos na porta do quarto. Foi o nosso primeiro projeto de muitos.

Um tempo depois, a chuva parou. João e a namorada apareceram de roupa de banho.

Eu não estava com vontade de nadar.

Fui dar uma volta pelo sítio. Passei pelas bananeiras e pela égua no curral de madeira. Ela continuou ali parada, quieta, com o pelo liso brilhando. Fui até uma árvore de jenipapo, rodeada de sementes secas e frutas caídas no chão. Peguei um pedaço de fruta e ofereci a polpa amarela e viscosa a ela. Ela me permitiu tocar sua crina.

Meu pai estava no alpendre fazendo uma de suas cerâmicas. Eu o observei por um tempo.

O que você está fazendo?, perguntei.

Um vaso, ele disse.

Abaixo do morro, nos fundos do terreno, corria um riachinho. A canoa do meu pai estava num canto, amarrada a uma árvore. Eu não sabia se a água seguia para o Norte ou para o Sul. Tentei ouvir os carros passando na rodovia para me orientar, mas estavam muito distantes. O que eu sabia deste lugar?

Era uma área de 4,2 mil m2. Sua casa ficava a exatamente 40,4 km do oceano. Ele a construiu com suas próprias mãos. Ele gostava que era afastado de tudo.

De volta à casa, João estava assando carne na churrasqueira.

Você não é vegetariana, é?, ele perguntou.

Não.

Eu não gostava de carne quando era criança, ele falou. Mas papai me forçava a comer, metia goela abaixo.

Sério? Minha mãe me disse que ele nunca nem levantou a voz pra ninguém. Às vezes, ela ficava até meio assustada.

Como assim?

Eu falei, Ela disse que nada o afetava, ela às vezes ficava com raiva por algum motivo, gritava com ele, até jogava coisas. E tudo o que ele dizia era, Sim, meu amor, tá certo. Agora deixe para lá. Vamos dançar uma música do Frank Sinatra e tomar um vinho.

Você tem muita sorte, ele disse. Não conheço esse homem que você está descrevendo.

Eu disse, E eu não conheço esse homem que nenhum de vocês descreve.

A namorada do João estava deitada em uma rede, lendo um livro. Me sentei na espreguiçadeira ao lado dela e tentei puxar papo. Ela largou o livro e sorriu para mim.

Perguntei o que ela fazia em Fortaleza. Ela me disse que era professora do ensino fundamental. Tinha terminado a faculdade de letras há alguns anos.

Você conheceu meu irmão na faculdade?, perguntei.

Não, na festa de aniversário de uma amiga. Seu irmão não fez faculdade, ela disse.

Sei.

Senti uma muriçoca picando a minha perna e dei um tapa. Olhei para ver se a tinha matado. Um círculo de sangue manchava a minha coxa. Sua imagem espelhada marcava a minha mão, feito um carimbo.

 

Na véspera de Ano-Novo, liguei para minha mãe do meu celular. Ela estava a caminho da praia para ver os fogos de artifício. Me desejou felicidade e paz. Eu lhe desejei o mesmo. A imaginei sozinha na praia mais tarde, de vestido branco, com os fogos iluminando seu rosto. Queria poder estar lá também, pular as sete ondas com ela.

Meu pai fez um pudim de sobremesa e depois abriu uma garrafa de champanhe. João e a namorada começaram a servi-lo em taças.

Uma delícia, Marisa disse, apontando para a garrafa.

Meu pai me ofereceu um copo. Tomei um gole.

Não gosto das bolhas, eu disse.

Ele riu alto.

Acendeu um cigarro. Certo, menina. O que você quer, então?

Nada, eu disse. Nada, não.

Fomos todos sentar lá fora e quase não tinha estrelas no céu. Estávamos todos de branco. Meu pai me disse, Você parece muito com a sua mãe, seu jeitinho, tudo.

Eu disse, Eu pareço com vocês dois.

Eu demorei para pegar no sono naquela noite. Escrevi no meu diário minhas resoluções de Ano-Novo:

Passar mais tempo com a família, ler cinquenta livros, estudar bastante, dizer mais o que penso. Para o meu pai – parar de fumar.

Quando acordei, João e a namorada já tinham feito as malas e estavam de saída.

Então éramos só nós três na cozinha de novo e nem os mosquitos faziam mais barulho. Marisa lavou a louça da noite anterior. Eu reguei as plantas no parapeito. De repente, senti uma solidão imensa, olhando por aquela janela para os cachorros brincando no jardim, os dois poodles e o fila. Meu pai acendeu seu cachimbo.

Você pode fumar outra hora, por favor?, pedi a ele. Estou com dor de garganta.

Fumar vem no pacote, ele disse. Tá com dor de garganta? Aqui, tome uma pastilha.

Ele abriu uma gaveta e me entregou uma.

Você sabe que essa fumaça me deixa doente, eu disse. Mas continua mesmo assim.

Marisa disse, Seu pai já fumava quando a gente se conheceu. Se eu não consegui convencê-lo a parar esses anos todos, imagina você.

Ele sorriu e disse, Escute a Marisa.

De tardezinha, meu pai e eu nos sentamos à beira da piscina com nossas toalhas. Eu tomava água de coco enquanto ele enchia o fornilho e acendia seu cachimbo. O cheiro de tabaco era forte, pungente, e bom ao mesmo tempo.

Como vai a escola?, ele perguntou.

Eu sabia que ele não queria uma resposta de verdade, mas dei uma mesmo assim.

Vai bem. Meus professores sempre dizem que eu sou a melhor aluna.

Ele deu uma tragada longa.

Depois você me ajuda com meu projeto de férias?, perguntei.

Sim, ele disse. Se der tempo.

Pai.

Sim.

Mamãe perguntou quando você vai poder mandar algum dinheiro para ela, para ajudar com o meu material escolar. Só desta vez.

Ele apoiou o cachimbo no colo.

Não sei, meu amor. Eu vou falar com sua mãe.

Você pode falar comigo.

Eu já te disse, eu não sei. Talvez eu precise de dinheiro pra outra coisa.

Claro, eu disse.

Foi pra isso que você veio aqui?, ele perguntou. Para me pedir dinheiro?

Eu não disse nada. Lembrei da vez que ele me levou para conhecer a mãe dele, quando eu tinha 10 anos, e eu escutei ela dizendo que a bastarda dele e aquela fulana da mãe dela eram umas duas sanguessugas. Ele nos defendeu na época. Disse, Você está com raiva porque sabe que são mais do que isso.

Desta vez era diferente.

Ele disse, Eu tenho a minha própria família para me preocupar – diga isso à sua mãe.

Fiquei olhando para a água brilhando sob o Sol.

Me levantei lentamente e deixei minha toalha listrada cair no chão. Queria entrar na piscina – na verdade só um tanque grande de concreto, fundo o suficiente para alguém se afogar. Desci os degraus escorregadios e mergulhei na água fria, desejando ficar lá até escurecer. Só minha cabeça ficou de fora e senti a pressão da água no peito, dificultando minha respiração.

Não me mexi. Tive vergonha de mostrar que não sabia nadar.

 

Sentei na varanda com um cobertor fino sobre as pernas. Olhei para os cães, o urubu solitário, o jardim, a piscina. Meu pai se sentou na cadeira ao meu lado.

Pronto, ele disse. Me entregou uma nota de 100 reais. Você pode ir para casa, se quiser.

Eu fiz que sim.

Iria para casa, então. Não me despediria de Marisa.

Arrumei minhas coisas bem cedo, antes do amanhecer. Guardei as revistas de cifras da minha mãe como lembrança. Decidi pegar também alguns dos livros do meu pai e as trufas de chocolate. Enfiei tudo na bolsa, enrolados na minha toalha.

Coloquei a bolsa no banco de trás e esperei dentro do carro.

Meu pai foi dirigindo até o ponto de ônibus pela estrada de terra, entre os cercados de arame farpado, no escuro. No caminho, ele estava mais quieto do que o normal. Eu só ouvia sua voz quando tossia. Mas eu o observava. Sua postura era imponente, mas relaxada. Seus olhos castanhos pareciam tão gentis. Suas mãos firmes no volante passavam tanta segurança.

Bruna Dantas Lobato

É escritora e tradutora, autora de Horas azuis (Companhia das Letras). Ganhou o National Book Award 2023, na categoria literatura traduzida, pela versão para o inglês do romance A palavra que resta, de Stênio Gardel.

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