CRÉDITO: EDSON IKÊ_2025
Cheiro de moleque
Aquele sim era o lugar ideal para um pivete sem dono crescer
Renê Bionor | Edição 231, Dezembro 2025
Naquela manhã indescritivelmente quente de 22 de abril de 1985, a Beira-Linha acordou triste devido à confirmação da morte, na noite anterior, do recém-eleito presidente da República, Tancredo Neves. Era o primeiro civil na Presidência, depois de o país passar um longo período sob as botas de militares em uma violenta ditadura. Mas, estranhamente, Tancredo nem chegou a assumir o poder, pois acabou internado às pressas na véspera do dia de tomar posse. As más-línguas dizem que ele já havia morrido bem antes.
No início da tarde, ao tentar pegar uma pipa que tinha ficado presa no alto do telhado de um barraco vizinho, acabei sofrendo uma queda de quase 3 metros de altura. A travessura deixou meu rosto quase desfigurado por causa do choque contra uma parede que, com seu improvável ângulo de aproximadamente 80 graus, só podia estar sendo sustentada por Deus e pela dupla camada de chapisco grosso.
Lembra do seu Tinga? Aquele tiozinho muito solitário, meio treteiro e meio manco, mas que jamais cambaleava ao passar perto de alguma novinha? Pois então! Se existe algum culpado pela quase tragédia que me atingiu, foi ele, visto que o que tinha construído e dado o nome de “telhado” não passava de um emaranhado de finas lâminas de zinco enferrujadas, remendadas por pedaços de telhas de amianto de segunda linha, sustentadas por ripas de madeira apodrecida, recolhidas das constantes inundações que ocorriam ao longo da bacia do Córrego do Onça, em Belo Horizonte, no início dos anos oitenta. E tudo isso coberto por um vasto tapete de folhas secas provenientes de uma exuberante mangueira que cobria o imenso quintal de seu Tinga. Aquele telhado, sim, era uma armadilha eficiente, não as geringonças que fazíamos para capturar rãs no buracão.
Não lembro quem me socorreu, mas me lembro perfeitamente do semblante ameaçador do meu pai ao me examinar e constatar que, embora eu tenha ficado ainda mais feio, iria sobreviver. Como castigo, meu pai não me levou ao hospital. Disse que, se na hora que ele acordasse, eu ainda precisasse, me levaria. Certamente tomou aquela decisão por não saber que, para o mal ou para o bem, a forma mais eficaz de ensinar é o exemplo. E esse é certamente o motivo de eu ter tido a ideia de contar essa história.
Logo após o incidente, quando eu ainda me contorcia de dor, encolhido no colo de minha mãe, que descrevia e lamentava o ocorrido para dona Antônia, nossa vizinha, fomos surpreendidos por dois forasteiros entrando por aquele beco apertado e caminhando apressadamente na nossa direção, em busca de informações sobre um “tal Nenego”.
Os mais antigos dizem que Juventino, meu pai, mais conhecido na quebrada como Nenego, tinha tanta ambição quanto os demais carroceiros que no final do século passado percorriam a Beira-Linha recolhendo material reciclável, a cada curva criando uma expectativa para, na próxima reta, superar a frustração. Disposição nunca lhe faltava, nem para farra, nem para as tretas, nem para o trampo – fazendo dele uma das pessoas mais requisitadas na quebrada que adotou como sua. Sujeito de hábitos simples, modos cativantes e totalmente desprovido de vaidades momentâneas – tanto que nem a falta dos dentes o impedia de exibir um sorriso exuberante, emoldurado pelos lábios protuberantes herdados de pretos concebidos nos cafezais da região.
Nenego nasceu e cresceu em Passabém, cidadezinha localizada às margens de algum afluente de algum afluente de algum afluente do Rio Doce, onde, além de trabalhar duro conduzindo tropas cargueiras, arrumava tempo para arrendar um pequeno canavial em que produzia, consumia e vomitava sua própria cachaça. Recém-casado, seguiu o destino reservado aos inúmeros camponeses que rumaram para os grandes centros urbanos naquele período de industrialização nacional: tornou-se mais um favelado.
Na capital, além de gambiarreiro profissional, trabalhou também como vigilante noturno durante a pavimentação da Avenida Cristiano Machado no início dos anos setenta. Mas foi quando montou seu próprio “Carrefour” – como eram apelidados os humildes botecos puxa-faca na Beira-Linha – que a vida fatalmente começou a deslanchar. Lugar animado e acolhedor, mas que, por capricho do destino, veio a desencadear sua morte prematura, ao despertar a cobiça dos tais forasteiros, que, naquele dia cinzento, estavam à sua procura para lhe tomar o revólver calibre .38 que ele cuidadosamente guardava para a segurança da sua família e de seu comércio.
Quando aqueles homens atiraram e mataram Nenego, deixando num total desamparo a minha mãe, Raimunda – conhecida como dona Rai –, com seus três filhos e pouca vivência na cidade grande, a vida mostrou mais uma vez que é ela quem escolhe o roteiro da viagem, não o viajante.
Viver na Beira-Linha era como fazer parte de uma grande família dividindo um barraco de um cômodo sem banheiro. Tudo junto e misturado. Após a morte do marido, apesar das dificuldades, mas com a ajuda de alguns vizinhos, especialmente do seu Zé-da-Meia – grande amigo e parceiro de meu pai –, dona Rai seguiu seu caminho. Humilde e com seu “jeitinho doce” (como diziam) conquistava o respeito e a admiração de todos que buscavam seus serviços de costureira. Habilidade muito requisitada pelas moças querendo encurtar ainda mais os shorts, pelos boyzinhos desejando incrementar a calça baggy e pelas jovens mães solteiras que precisavam remendar a fralda do filho. Porém, devido a seu jeitinho, alguns se aproveitavam e deixavam de pagar por seus serviços, ignorando o fato de que qualquer centavo fazia diferença no orçamento daquela mãe e seus três filhos.
Viúva jovem e bonita, dotada de vastos conhecimentos culinários, além de herdeira de um dos poucos barracos rebocados e do único boteco que tinha ventilador, dona Rai percebeu que morar na Beira-Linha estava se tornando cada vez mais perigoso, atraindo os piores tipos de homens – os avarentos, os pervertidos e os medíocres. Desalmados que passavam o dia bebendo no balcão do bar, do qual ela também cuidava, aporrinhando-a e fazendo falsas promessas, com o intuito no fundo de se apropriar do boteco e, de quebra, do barracão de Raimunda.
Cosme Aparecido é o meu irmão do meio e meu amigo mais longevo. Por causa da diferença de idade entre nós, sempre o considerei como um filho, ou seja, o explorei bastante. Có, como era seu apelido, era um moleque favelado raiz, crescendo num terreno fértil: jogava bola descalço, pegava traseira em ônibus e caminhões de gás, roubava fruta nas feiras e nos quintais vizinhos; enfim, era o que dava mais trabalho para a dona Rai. Mas não fazia o trabalho sozinho. Junto dele estava sempre a sua trupe travessa, formada por Testão, Claudinho, Cara-Larga, Niquito, Dinho, Zeantonio e mais um monte de pivetes dos quais eu não consigo me lembrar agora. Era prazeroso vê-los em ação, melhor ainda tentando descolar o primeiro beijo nas brincadeiras de correio elegante nas animadas festas juninas promovidas por dona Laura, que, além de torcedora fanática do Mulambinho F. C., mantinha um terreiro em sua casa. Lugar bastante frequentado e muito discriminado.
Juliana é minha irmã caçula. Uma menina doce e sossegada, que precisou de muita determinação para sobreviver ao amor excessivamente protetor de dona Rai. A vigilância sobre ela era intensa. Namorado tinha que ser discreto e persistente. Pegar na mão, nem pensar. O que não impediu Ju de namorar bastante. E um desses namorados foi Claudinho, grande parceiro do Có e filho primogênito de dona Ilca, uma senhora que revolucionou a quebrada ao chegar, por trazer consigo, além de Claudinho e seu irmão Juninho, quatro filhas namoradeiras, que iludiram muito nego na região.
Depois da morte do meu pai, tia Lúcia, irmã caçula de dona Rai, veio da roça para morar com a gente. Lúcia tinha o astral de um apresentador de programa de auditório. Inclusive, lembro que ela chegou a me levar ao saudoso programa da Tia Dulce, exibido na TV Alterosa, no início dos anos oitenta. Nesse dia inesquecível, fui convidado a subir ao palco para participar de uma brincadeira em que eu e outras crianças tínhamos que nos inclinar para trás e tentar passar debaixo de uma vareta bamba, que a cada vez ia ficando mais baixa. Não fui o campeão, mas fiquei orgulhoso por ter sido entrevistado por Tia Dulce e ainda ter ganhado de presente uma bandeja de iogurte Itambé como prêmio de consolação.
De todas as nossas tias, Lúcia era a mais animada. Onde quer que estivesse, estava junto sua alegria. Por ter permanecido solteira, se tornou uma típica tia: adorava as crianças e era adorada por elas. Depois que se mudou para Beira-Linha foi madrinha de mais de vinte crianças. Ganhava a vida costurando e trabalhando como empregada doméstica. Acostumada ao serviço pesado da roça, achava moleza lustrar pisos sintecados.
Não sei o que seria da gente sem ela, visto que era quem botava ordem na casa, fazendo com maestria o papel de pai, já que dona Rai – muito mansinha – não botava medo em ninguém. Nas épocas das vacas magras, era tia Lúcia quem garantia o nosso sustento. Às vezes, nosso único desjejum era pão dormido e restos de comida que ela trazia das casas onde trabalhava. Quando ela surgia na curva da Beira-Linha carregando um embrulho qualquer, a alegria era geral.
Eu e meu amigo Pezão costumávamos sair para coletar carcaças de pneu e sucatas de metal nas margens do poluído Córrego do Onça. Material que vendíamos no Topa Tudo que funcionava do outro lado da BR, pouco depois de uma usina. Trabalho sujo e pesado, mas que nos garantia alguns trocados para pagar pelo pão com linguiça, o refrigerante Del Rey de uva e a ficha de sinuca no lugar mais agitado e democrático da quebrada: o Bar do Genilson.
Tempo bom, infância animada, aquele sim era o lugar ideal para um pivete sem dono crescer. A liberdade era mais sagrada que o vinho que frei Carlos tomava escondido na sacristia do Salão Comunitário. Éramos uma turma unida e numerosa, por isso não tínhamos problemas em desbravar novos territórios. Aonde quer que fôssemos, éramos respeitados – e desfrutamos muito disso. Cada dia da semana a travessura ocorria num lugar diferente. Chegávamos da escola, comíamos o que tinha para comer e partíamos.
Geralmente éramos comandados por Pezão, o mais destemido da turma, juntamente com seu irmão mais velho, Berot, fato que diversas vezes resultava em violentas batalhas entre os dois para definir quem seria o líder da vez, quase sempre vencidas por Pezão, que, com seu metro e meio só de pernas e agilidade de atacante da escolinha de futebol do Jair, dominava com facilidade o irmão afoito.
– Ne-ne-nenen, da próxima vez q-q-que eu te-t-t pegar, aca-c-c-cabo com sua raça – repetia Berot todas as vezes que apanhava do irmão, sem disfarçar a gagueira que ficava ainda mais evidente sempre que ficava nervoso.
Rolávamos no chão de tanto rir.
Algumas vezes nos reuníamos em frente ao Bar do Genilson, noutras os encontros aconteciam na Boca do Beija – que, juntamente com o Salão Comunitário, eram os pontos de encontro da quebrada – para passar o tempo jogando bola, fumando guimbas e bolando finos que nos ajudavam a fazer planos para dominar o mundo. Nas férias escolares, bastava esperar pelo forte cheiro de moleque sem dono começar a impregnar o ar de forma natural. Acho que nunca mais senti tal cheiro. E era muito bom!
Entre inúmeras possibilidades, certa vez optamos por fazer um rolê diferente, desses que se faz poucas vezes na vida: íamos dar um tchibum na distante Lagoa dos Borges. Até hoje não sei se aquele lugar tinha algum proprietário, se esse tal Borges existiu, e muito menos o porquê de chamarem aquela poça barrenta de lagoa. Mas para nós era como se fosse uma excursão a Guarapari.
Eu me lembro que essa lagoa ficava muito além dos nossos passeios habituais, porém era do tipo que valia a longa caminhada: vastos descampados, árvores retorcidas, nascentes cristalinas, animais silvestres, olarias abandonadas e uma cachoeira de – literalmente – perder o fôlego. Pois sua água pastosa cinza-chumbo exalava um odor insuportável, por causa da poluição despejada ao longo do seu percurso por mais de cinquenta bairros. Uma pena! Se corresse água limpa na esplendorosa queda de mais de 300 metros na diagonal daquele paredão rochoso, certamente o lugar seria o mais lindo cartão-postal de Belo Horizonte.
Mas, naquele dia, voltamos a respirar e seguimos. Até que, enfim, avistamos a lagoa, que, para nossa tristeza, já havia sido ocupada por outro pessoal. A turma do Ribeiro estava se divertindo como se não houvesse amanhã. De tão à vontade, se divertiam pelados. Tirando aquelas bundas desbotadas, o visual era lindo: ao fundo, uma enorme planície onde a vista se perdia por um vasto e exuberante tapete de gramíneas verdinhas; a cor da água em contraste com o Sol da meia-tarde variava entre o verde lodo e o amarelo barranco, tendo ao centro vários pontinhos escuros, como um mamão formosa maduro cortado ao meio. E algumas roupas deixadas na beira.
Assistimos a tudo aquilo pensando no que poderia ser feito para resolver a equação. Estávamos em superioridade numérica, mas tirá-los à força não nos pareceu uma boa ideia, visto que eles eram bem mais folgados que nós. Sugerimos então dividir a lagoa. Porém, isso não estava nos planos daqueles filhos da puta, que, com o dedo médio em riste, nos disseram: “Vaza, menó.”
Cabisbaixos e desapontados, demos meia-volta e rumamos para casa. Não lembro qual foi o idiota que deu a ideia de sacanear os caras, com o que os outros ainda mais idiotas toparam. Pegamos as roupas deles de fininho e partimos sorridentes, nos gabando da façanha. Por excesso de ingenuidade ou por arrogância, em momento algum nos passou pela cabeça a hipótese de que a turma do Ribeiro iria se dispor a correr atrás do prejuízo. Um erro que nos custou vários hematomas. Pois, quando aqueles caras saíram da água e sentiram a falta de suas roupas, deduziram o óbvio e dispararam em nossa captura. De surpresa, fomos alcançados por peladões raivosos, que desencadearam naquela planície inabitada uma porradaria sem precedentes. Pela primeira vez tivemos que correr de uma briga. Talvez por terem que correr e brigar sacolejando livremente os bagos, eles pareciam dotados de força sobrenatural.
Feridos e exaustos, chegamos na Beira-Linha com cara de quem tinha visto o diabo na cruz. Os veteranos logo quiseram saber do ocorrido. Em prantos, contamos sobre a covardia que havíamos sofrido e rapidamente formou-se um bonde da vingança. Espumando de raiva, eles partiram em caravana rumo à lagoa – iam dar uma lição nos folgados. No entanto, algumas horas depois voltaram tão ofegantes quanto nós. E pior: só de cuecas. Além de arrebentar os veteranos, a turma do Ribeiro fez com nossos heróis vingadores o que nós havíamos feito com eles.
Apesar daquela desventura juvenil, seguimos nossa jornada desbravando a periferia da capital. Mas, por medo ou precaução, não voltamos mais à Lagoa dos Borges. Tenho certeza de que naquele dia nos foi ensinada à força a mais importante lição de nossa jovem existência. Com esse aprendizado, nunca mais enfrentamos alguém que estivesse pelado.
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