piauí recomenda
Dez 2022 11h37
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Um dos melhores e, no bom sentido, mais radicais livros que li neste ano de 2022 foi a tradução ao português da obra Capitalismo Carcerário, da abolicionista penal e pesquisadora da Universidade de Harvard Jackie Wang. Publicado neste ano, com a tradução cuidadosa do pesquisador Bruno Xavier, o livro conta com um prefácio excelente de Juliana Borges, intelectual negra brasileira que publica também sobre o tema. (De Borges, recomendo seu livro O que é Encarceramento em Massa?, na coleção Feminismos Plurais, editora Letramento em parceria com o portal Justificando).
Meu encontro com o livro de Jackie Wang – digo o original publicado em 2018 pela MIT Press –, foi por acaso. Antes da pandemia, fui para uma conferência internacional sobre política de drogas em Saint Louis, no Missouri, no Meio-Oeste dos Estados Unidos. Entre um almoço com a melhor costela do mundo e painéis sobre complexo industrial prisional e guerra às drogas, parei num estande de obras sobre raça e vi o livro de Wang. Comprei em especial porque o paralelo com o Brasil é evidente: encarceramento em massa é impulsionado por uma guerra às drogas custosa, sem sentido e ineficaz que torna a carne negra, nos Estados Unidos e aqui, a mais barata do mercado. O tema é ainda mais oportuno: na campanha eleitoral, Lula propôs rever a desastrosa política de drogas que, aliás, ele mesmo implementou pela lei de 2006. Veremos se de fato isso ocorrerá.
A virtude e em certa medida a radicalidade de Wang, no entanto, é ir além da narrativa comum de que pessoas negras são as que mais sofrem com o encarceramento. Wang combina análise pessoal (sobre seu irmão encarcerado) com dados e histórias reais para retratar, de forma bem imagética, como o encarceramento permeia nossas vidas. Wang quebra vários paradigmas. Ao contrário de reformistas, ela contesta a divisão entre presos violentos e não violentos. Contesta que encarceramento tenha algo a ver com combater o crime. Rejeita a divisão entre liberdade e prisão, dizendo que no século XXI tecnologias de vigilância criam prisões sem celas. Defende que a razão para manutenção do encarceramento é econômica. A construção de prisões no interior do país movimenta economias locais, multas no sistema carcerário e créditos predatórios fora dele aprisionam famílias já empobrecidas, e por aí vai.
Ao ler o livro de Wang eu ficava pensando nos familiares, em especial mães e companheiras, que viajam quilômetros para visitar presos em cidades do interior, tendo que levar, com o próprio dinheiro, itens básicos de higiene para seus parentes encarcerados. Eu ficava pensando nas mulheres negras encarceradas que sequer são visitadas por seus parentes. Embora sejam realidades com suas diferenças, o paralelo é evidente e fica o gosto amargo, depois de ler o livro: como implodir o cárcere?