Mar 2026 16h19
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É possível dizer que o Brasil vive um pesadelo. E é deste país que Fausto Fawcett e o Coletivo Chelpa Ferro, formado por Barrão, Luiz Zerbini e Sérgio Mekler, falam no novo disco Pesadelo ambicioso. Lá estão os militares, celulares e computadores, X-men e Matrix, cigarros e bebidas, praia, sol quente e pandemia.
Em meio à barulheira produzida pelo trio, Fawcett parece um profeta falando. Mas não há profecia nenhuma. É como se ele e o grupo capturassem as cenas que compõem as ideias mais idílicas de Brasil e as distorcessem de modo avassalador. Para essa espécie de Maomé do fim dos tempos, não há vista do futuro que resolva nossas questões – Fawcett troca a prescrição pelo diagnóstico. “A náusea do absurdo brasileiro gera existencialistas bichos soltos que viram lobos solitários, assim, francos atiradores de si mesmos, como fogos de artifício kamikazes”, diz em Sabão minerva, segunda faixa do disco. A música avança para uma imagem atormentadora e que muito bem descreve a sensação de viver estes anos 2020: um homem, em Araruama, esfrega sabão em pó (daí o título da canção) no corpo todo, inclusive na genitália.
Em todas as treze faixas, reina uma energia de natureza sintética que evoca simulacros – como se robôs fingissem ser humanos, ou postes amadeirados com luzes verdes de LED fingissem ser árvores. Isso se dá, em especial, pela total plasticidade das músicas, às vezes também compostas de ruídos puramente urbanos, como motos arrancando em velocidade nas ruas ou pessoas falando alto – sons ainda mais impactantes quando acompanhados de uma orquestra desajeitada.
O vocalista às avessas só fala e nada canta. Fawcett talvez seja o nome mais seminal do spoken-word no Brasil, nome que explica a modalidade experimental em que opera e que continua a encontrar lugar no cenário atual, como no caso da banda Vera Fischer Era Clubber ou no fenômeno da noite paulistana Noporn, de Liana Padilha. Na faixa Geleia de morango, a tijucana que se radicou em São Paulo canta: “Quero contar a história de uma noite/ Uma noite quente/ num país quente e desgraçado.” Fawcett parece compartilhar do mesmo ponto de partida em seus pesadelos.