AS CORES DE DAVID HOCKNEY

Livro sobre pintor britânico, que morreu em junho, é um convite para entender seu processo criativo
Imagem As cores de David Hockney

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O pintor britânico David Hockney morreu em junho passado, aos 88 anos. Conhecido por seus retratos coloridos, paisagens e naturezas mortas, muitos retratando amigos ou amantes, Hockney se tornou uma figura pública querida ainda no início de sua carreira, na década de 1960, e manteve uma criatividade inabalável até o fim. Um momento profícuo e curioso da sua trajetória artística está registrado em Uma mensagem maior: conversas com David Hockney, livro publicado no Brasil pela DBA em 2011 e traduzido por Allan Vidigal – uma obra que vale ser revisitada, tanto mais que recebeu pouca atenção na época da publicação. 

Hockney passou uma década dando entrevistas a Martin Gayford, um crítico de arte respeitado por seus ensaios a respeito de Van Gogh, Michelangelo e Lucian Freud. Os dois se encontravam com regularidade, mas também se correspondiam por e-mail e mensagens de texto. Logo, Gayford entrou para a lista de amigos a quem Hockney enviava desenhos diariamente. Quando comprou o primeiro iPhone, o pintor ficou fascinado por ter nas mãos um novo suporte para a sua arte. “Desenho flores e envio para os amigos, para que recebam flores fresquinhas todas as manhãs”, ele disse, em abril de 2009.

Depois de ter passado muitos anos em Los Angeles, Hockney estava de volta a Yorkshire, sua terra natal. O processo criativo dele sempre começou com uma longa observação da paisagem, e ali, no Norte da Inglaterra, tinha menos distrações que na Califórnia. “Acho que, em termos biológicos, o objetivo da visão é estritamente prático: ela nos permite tanto identificar o que podemos comer quanto evitar criaturas que nos poderiam comer. Mas a arte tem a ver com outra coisa: a observação pela observação – pelo prazer.” A mudança para Yorkshire lhe permitiu pintar ao ar livre todos os dias. Ele carregava uma caminhonete com tintas e materiais e dirigia até o local de trabalho. Passava horas pintando paisagens amplas e matas. Dessa rotina, nasceu Bigger trees near Warter, a maior pintura já executada inteiramente ao ar livre por um artista (mede cerca de 4,6 m de altura por 12 m de largura). A obra ocupou a parede dos fundos da maior galeria da Royal Academy de Londres.

O apelo do britânico a um grande público é compreensível: suas pinturas eram figurativas, legíveis para um leigo, esteticamente agradáveis e repletas de cores. As pinturas de piscina, incluindo a obra A bigger splash, continuam sendo suas obras mais icônicas. E, embora tenha adotado novas tecnologias, Hockney permaneceu sempre fiel ao desenho – uma técnica milenar, como ele observava, que dificilmente poderia ser descartada, apesar da valorização da arte conceitual por muitos de seus colegas.

O defeito do livro de Gayford é não abordar a obsessão de Hockney por seus cachorros Stanley e Boodgie, da raça Dachshund. O pintor produziu dezenas de quadros dos dois salsichas. São telas alegres em que o britânico explorou seu talento para a perspectiva, a cor e a composição.


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