ILUMINANDO A ESCURIDÃO

Dores guardadas na psique individual e no inconsciente coletivo se manifestam na obra de Mariana Enriquez
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Nas décadas de 1960 e 1970, a literatura latino-americana de origem hispânica ganhou repercussão internacional, durante o fenômeno comercial e literário conhecido como o boom latino-americano. Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que muito do espírito daquele boom editorial volta a se desenhar cinquenta anos depois, com autores que redimensionam a ficção insólita desbravada, entre outros, por Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez, e Mario Vargas Llosa. O conceito “realismo mágico” (ou fantástico) ajuda a alinhavar os dois momentos históricos em suas semelhanças e diferenças.

Reacionarismo, hipocrisia pseudomoralista e extremismo político retornam vorazes no século XXI, mas enfrentam a força das minorias construída nas últimas décadas contra o monopólio masculino eurocêntrico e a elite econômica. Nesse contexto, a literatura latino-americana repensa o realismo fantástico com duas mudanças notáveis: o protagonismo feminino e a atmosfera do horror e do gótico. A escritora argentina Mariana Enríquez, biógrafa de Silvina Ocampo e fã da banda Suede, abraça este espírito. Reconhecida em seu país ainda jovem, circula no Brasil desde 2017 com As coisas que perdemos no fogo, traduzida por José Geraldo Couto e publicada pela Intrínseca. A mesma editora nos entrega agora Um lugar ensolarado para gente sombria, com tradução de Elisa Menezes.

Os doze contos narrados por mulheres são de tirar o fôlego. Dores guardadas na psique individual e no inconsciente coletivo se manifestam no cotidiano de forma fastasmática, obsessiva, aparentemente aleatória e com marcas corporais chocantes. As personagens se veem encurraladas em casarões, quartos, avenidas e becos de pequenas e grandes cidades argentinas, ou na gangorra bipolar americana, entre o reacionarismo bom moço e o escapismo nas drogas.

No conjunto, a metamorfose (título de um texto impactante) não indica mudança, mas condição trágica. A transformação de mulheres em pássaros, o desespero de hienas assassinadas (alegoria da tortura?) e o banimento de loucos e desesperados sinalizam que estruturalmente nada mudou no nosso continente. Os efeitos dos traumas são intermináveis. O estupro de mulheres há gerações alerta para a necessidade de encarar os fatos, para não se repetirem. Onde alocar a indagação das adolescentes já mortas, revendo as fotos recém-tiradas que “quebravam o feitiço de amizade e vida eterna dos quinze anos”?

“São secretas as matanças da miséria na América Latina”, disse Eduardo Galeano. Enriquez encontra um modo íntimo de expô-las: ilumina a escuridão com candeeiro, como sugere o título. Um jeito de fruir a leitura é recriar o ambiente sonoro que inspira a autora (Sinéad O'Connor, Lucinda Williams e Lana del Rey). Talvez os fantasmas do livro expurguem os que nos assombram. Não tem a ver com demônios, vampiros ou monstros. São histórica e humanamente tangíveis, nos incêndios criminosos, governos autoritários e na miséria nas calçadas.

Não há como ignorar uma narrativa difícil de encarar, pelo modo com que opera a memória dolorosa e a realidade de uma sociedade violenta e desigual. Mas vale a pena. Não se trata de uma literatura feita para chocar, mas para despertar.


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