23 Jul 2026
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Poesia não tem tamanho, nem endereço fixo. Sofrimento e violência também não. Quando uma obra literária combina estes elementos na dose certa, há grandes chances de que a narrativa se torne contundente e, ao mesmo tempo, sensível, sutil. Aquela que restou, livro da escritora búlgara René Karabash (pseudônimo de Irena Ivanova), traduzido ao português por Rada Gankova e Amélia Bonfim, tem exatamente essas características.
Para o leitor brasileiro, o impacto da obra talvez se amplie, pois se deparará com o lado autoritário, sexista e homofóbico da Armênia, país de que pouco ouvimos falar, à exceção de notícias esporádicas sobre conflitos políticos e étnicos. Um pouco da cultura local já nos havia sido revelado pelo escritor albanês Ismail Kadaré, com quem a autora dialoga desde a epígrafe. Kadaré tem sido traduzido regularmente para o português e seu romance Abril despedaçado foi adaptado em 2001 para o cinema por Walter Salles,[1] com roteiro de Karim Aïnouz, transpondo a história de vingança de sangue para o Sertão brasileiro.
Tanto Kadaré quanto Karabash remetem ao Kanun, código secular que organiza a sociabilidade de antigas comunidades patriarcais nos Bálcãs, à base de regras rígidas e cruéis. Na história, tudo gira em torno de Bekia, que significa “sobrevivente”. Normas locais determinam sanções a quem perde a virgindade antes das núpcias ou desfaz o noivado, caso da jovem protagonista do livro. A família é punida e a nubente se compromete a conduzir a vida como um homem, nos trajes e atitudes, e a não ter relações sexuais. Ao se tornar ostaïnitsa (virgem jurada), a jovem adota o nome Matia, vive reclusa, se afasta dos seus e da amiga com quem mantinha um namoro escondido. Encontra afeto apenas nos bichos, até receber a visita de uma jornalista, que muda o curso de sua vida.
Embora narrado em primeira pessoa, o livro entremeia múltiplas vozes, através de fragmentos, cartas e poemas. A potência da trama se deve ao universo rígido e asfixiante, que a autora expõe com crueza e imagens surpreendentes, e também à estrutura da obra, que foge à linearidade, adota o lacunar e é sustentada pela linguagem poética com tons oníricos. Misturam-se cartas, poemas e capítulos curtos que atuam como provocações aparentemente soltas do enredo. A construção impõe ao leitor um desnorteamento similar ao da protagonista. Questões de gênero, sexualidade e poder alcançam dilemas existenciais mais amplos sobre quem se deixa aprisionar por leis ferozes e anacrônicas. Entre o amor e a morte, a tradição e a transformação, “o metal mais precioso na Albânia é a liberdade”.
A obra venceu o prêmio Elias Canetti, distinção de prestígio na Bulgária, e foi finalista do International Booker Prize. Merece destaque a qualidade da tradução, que sustenta a riqueza imagística do livro, e o capricho da editora, que escolheu o formato pequeno e, para a capa, o desenho de um pombo, simbólico em muitos sentidos e adequado a um romance (melhor dizer novela, pela extensão) que realça do início ao fim o poder da ficção.
[1] Irmão do fundador da piauí.