24 Ago 2026
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A questão feminina atravessa a obra de Jacqueline Rose – professora inglesa, codiretora do Instituto Birkbeck de Humanidades, que também é escritora e crítica literária antenada no cenário cultural e político contemporâneos. Em Mães: um ensaio sobre o amor e a crueldade, seu terceiro livro trazido ao Brasil pela editora Fósforo, traduzido por Flávia Costa Neves Machado, Rose mantém seu principal terreno investigativo, mas agora com um foco específico no mito materno como foi concebido no Ocidente.
Três versos do poema Aos que vão nascer, de Bertolt Brecht, condensam a inquietude presente no livro. Substituindo “árvores”, do poema original, por “mães”, a autora indaga: “Que tempos são esses, /quando falar sobre mães é quase um crime/ Pois implica silenciar sobre tantas atrocidades?”
Rose parte de fatos recentes colhidos em jornais sobretudo do Reino Unido (mas também em veículos europeus, americanos e asiáticos) para recuar no tempo e revelar a progressiva degradação da figura materna. Sob a máscara da idealização, a mãe vira o alvo preferido quando se trata de responsabilizar alguém ou um grupo por problemas de toda sorte. De conflitos domésticos a fracassos pessoais e coletivos, cabe à mãe a missão irrealizável de pôr tudo em ordem – esse é o fardo impossível do mito materno.
Rose toma como exemplar o caso que ocupou o noticiário britânico em 2016: o parto de uma nigeriana num hospital londrino transformou a mãe em aproveitadora e usurpadora dos cofres públicos. A retórica que idealiza o imaginário materno encobre a violência do Estado contra grávidas e estrangeiras. O mito serve, ainda, para driblar temas tabus como o questionamento da vocação maternal da mulher. Essas considerações fazem eco no cenário brasileiro, em que o feminicídio não para de crescer. Mães solteiras são expostas ao crivo do conservadorismo que entroniza o casamento em detrimento da sexualidade da mulher, não aceita a recusa da esposa em procriar ou a lei do aborto, mesmo se a gestação foi fruto de estupro.
Com o suporte da psicanálise e da filosofia (Sigmund Freud, Donald W. Winnicott, Melanie Klein, Hannah Arendt, entre outros), e de análises literárias que abraçam desde as tragédias gregas até os romances de Elena Ferrante, Rose traz temas como a disputa entre estado e família, a cruel ilusão da mãe perfeita, e a ambivalência psíquica – desejo e ódio – no afeto entre mães e filhos. Quando discute a violência doméstica, ela retoma um famoso relacionamento literário: o caso de Sylvia Plath e como a manipulação de seu marido abusador, Ted Hughes, pode ter influenciado nas circunstâncias do suicídio da poeta.
A erudição não a impede de criar um texto fluido e direto. A forma ensaística é apropriada à escuta sem culpa e ao compartilhamento de vivências. O leitor é levado a pensar na dimensão política da maternidade e no que pode fazer para tirar o peso das costas da mãe e buscar os próprios meios de salvar a si mesmo, na perspectiva de uma sociedade mais humana e solidária. Um alerta, também, para as que, sufocadas por tantas expectativas, não conseguem, ainda, confrontar o “lado sombrio do amor”.