23 Jul 2026
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A coleção Errar melhor, concebida e coordenada pelo escritor e professor Joca Reiners Terron, tem publicado livros excelentes que tematizam e ensinam escrita criativa, mas que, além disso, sempre oferecem algo mais, desafiando a fórmula corrente dos manuais de instrução. Quem buscar nos livros dicas de escrita vai encontrar muitas, mas o pacote sempre inclui indagações sobre a natureza da literatura e a dimensão múltipla e plural do ato de escrever.
A coletânea de ensaios Um pato amado é assado, da escritora americana Lydia Davis, traduzido ao português por Camila von Holdefer, é um acréscimo importante a essa série de livros singulares. Explorando momentos de sua trajetória e os passos que a levaram a construir o seu estilo tão peculiar – narrativas de extrema brevidade com uma mescla insólita de observação do cotidiano, estranhamento em relação ao que é familiar e exploração dos limites das formas literárias –, Davis faz um relato sobre seu modo de escrever que é ao mesmo tempo um exame meticuloso da própria poética.
Davis nos convida ao seu laboratório de experimentação literária, e mostra como, por exemplo, a mesma lembrança de uma temporada de juventude em Buenos Aires gerou, ao longo de décadas, versões radicalmente diferentes de textos: primeiro um conto bastante convencional, depois uma narrativa construída quase inteiramente a partir de cartas e anotações reais de sua mãe. Comentando esse método de composição por arranjo dos fragmentos encontrados, ela diz: “Não inventei nada; só reorganizei o que encontrei.”
Essa frase resume bem seu método: a atenção a detalhes banais – o clima, um cheiro, uma frase escutada de passagem – soma-se ao hábito disciplinado de manter cadernos de observação e à crença, talvez oriunda de sua experiência como tradutora, de que a revisão também é uma parte criativa do processo de escrita. Discutindo esse processo com erudição, mas sem pedantismo, Davis dialoga com autores como Stephane Mallarmé e Roland Barthes, e também fala de suas influências, explorando os caminhos abertos por Franz Kafka, Samuel Beckett, e o incrível e pouco conhecido Russell Edson, autor de textos estranhíssimos, de um dos quais saiu o enigmático e estranho título do livro de Davis.
Sobre Edson, ela diz que com ele aprendeu “como um escritor podia tentar algo, fracassar, tentar de novo, se sair mais ou menos bem e tentar de novo”. Ao lermos a história de Davis, quase nada ficamos sabendo de sua vida privada ou íntima, mas aprendemos muito sobre sua vida com livros – os dos outros e os seus. Saímos da leitura desses ensaios com boas ferramentas de observação e composição – e com vontade de conhecer melhor os contos que esse método produziu.