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A ESCRITA COMO FORMA DE SERVIDÃO

Em Escrever é muito perigoso, Olga Tokarczuk defende que a escrita ficcional é uma atividade demoníaca
Imagem A escrita como forma de servidão

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“Escrever é muito perigoso.” A frase que dá título à coletânea de ensaios e conferências da escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018, resume bem o que vamos encontrar na leitura. Na contramão do lugar-comum de que a escrita é uma atividade libertadora, a dedicação à literatura é retratada nesses ensaios como uma forma de servidão: “Alguma vez já pensaram que a fonte da criação literária pode ser o fato de que algo quer ser escrito?”, a autora questiona. Para Tokarczuk, a escrita ficcional é uma atividade demoníaca.

A ideia de que um daimonion dita histórias ao pé do ouvido de quem escreve é bastante conhecida. E Tokarczuk não se acanha ao recorrer a esse mito – que está na base das noções antiga e moderna de gênio – para intervir no debate sobre os rumos da ficção atual. Em “O narrador sensível”, seu belo discurso do Nobel (e também o texto que encerra a antologia), Tokarczuk sugere que a recente proliferação de obras autobiográficas, que ela ironicamente chama de “narrações do tipo ‘vou contar a minha história para você’”, tem como efeito colateral o achatamento da imaginação. “Isso que você escreveu é verdade?”, os leitores não se cansam de perguntar, fazendo coro às vozes que “lutam por atenção” e terminam “por abafar umas às outras” com o seu samba de uma nota só: eu, eu, eu.

Quando deixam de alimentar seus demônios criativos e consideram que narrar as próprias vidas é intrinsecamente interessante, os escritores se esquecem da árdua tarefa de esquecer a si mesmos: “Entrar profundamente na vida de outro ser, entender suas razões, partilhar seus sentimentos, viver sua história.” Para Tokarczuk, o nutriente mais valioso da ficção é a diferença. E esse “outro significativo” não deve se restringir ao humano. “Máscaras dos animais”, um dos ensaios mais provocativos do livro, parte dessa ideia.

A primeira frase é impactante: “Para mim, é mais fácil suportar o sofrimento de um ser humano que o sofrimento de um animal.” Segundo a autora, isso acontece porque dispomos de ferramentas mentais como a cultura e a religião, capazes de atenuar nossa dor, enquanto “o sofrimento do animal é absoluto, total”. Como ela sabe disso? Como chega a essa conclusão? Especulando, fabulando. Em outras palavras, interrogando seus próprios demônios.


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