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O TOM PECULIAR DE TIM ROBINSON

O filme Amizade tóxica, dirigido por Andrew DeYoung, combina o humor absurdista e escrachado de Robinson com uma densidade inesperada
Imagem O tom peculiar de Tim Robinson

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A facilidade de compreender um comediante costuma operar em grau inverso à sua radicalidade: quanto mais peculiar o tipo de humor, menos acessível e provavelmente menos famoso o comediante será. As exceções a essa regra são justamente os melhores humoristas, que têm o dom de dar apelo universal a um universo muito particular de neuroses. O americano Tim Robinson é parte desse seleto grupo. Seu programa I Think You Should Leave, da Netflix, sucesso de crítica e de público, é um compêndio de esquetes absurdistas cuja estranheza não é sempre fácil de digerir. Um apresentador de debates televisivos enfia a cara no próprio celular para se esquivar de debates; um participante de reality show fica obcecado com a tirolesa da piscina do hotel em que está hospedado; um professor que, durante um jantar, pede mais e mais pedaços do hambúrguer do ex-aluno até devorá-lo por inteiro. Robinson é mestre em pegar uma situação trivial e extrapolá-la de forma inesperada, e esses cenários se tornam mais engraçados à medida que nos entregamos a seus personagens esquisitíssimos.

Nos esquetes, a persona de Robinson é frequentemente um sujeito burguês afetuoso e bonachão, normal na superfície – ou com um desejo imenso de se projetar como alguém comum –, mas que em algum momento explode numa diatribe perturbadora ou se revela um obsessivo incurável. Em Amizade tóxica, o diretor Andrew DeYoung modula esse personagem, dando a ele um pouco mais de verossimilhança e ternura. Robinson interpreta Craig Waterman, um marido e pai suburbano solitário que conhece Austin Carmichael (Paul Rudd), um novo vizinho que o acolhe e começa uma amizade com ele. Waterman fica fascinado pelo novo vizinho, até que uma atitude esquisita do protagonista num encontro com outros amigos de Carmichael encerra abruptamente a relação. O filme dramatiza a tentativa desesperada de Waterman de recuperar a amizade, e sua exasperação em tentar entender por que exatamente ela terminou.

O filme – disponível para aluguel e compra na Amazon Prime e na Apple TV – não é especialmente sutil, já que o humor absurdista e escrachado de Robinson dita o tom de muitas cenas, mas há alguns truques que dão ao longa uma densidade inesperada. Carmichael, por exemplo, tem hobbies como se enfiar no esgoto à noite para explorar a planta labiríntica subterrânea da cidade, ou caçar cogumelos selvagens para fritá-los e comer. Nas mãos do personagem de Rudd – um sujeito mais charmoso e bonito, que sabe se vender bem aos outros – esses hobbies parecem excêntricos e subversivos, mas quando Waterman tenta copiá-los, tudo dá errado.

A pergunta que fica no ar é: qual a fronteira porosa que define e separa alguém esquisito de alguém aceitavelmente excêntrico? E, mais além, qual é o limite de nossa empatia, o máximo de desconforto que topamos encarar antes de banir alguém desajustado – ou meramente chato – de nossas vidas? Uma ironia marcante do filme é que Waterman trabalha numa empresa de tecnologia, aperfeiçoando aplicativos para serem cada vez mais viciantes, aprofundando em larga escala a alienação da qual ele próprio é vítima. Carmichael, por sua vez, é apresentador da previsão do tempo num canal local, o que gera a dúvida se sua simpatia e charme são genuínos ou só um reflexo de suas habilidades empregatícias.

No início da carreira, Robinson chegou a escrever e fazer parte do elenco de Saturday Night Live – um dos mais famosos e longevos programas humorísticos da tevê americana, conhecido por transgredir as barreiras do que é aceitável veicular em rede nacional –, mas muitos de seus roteiros foram considerados excêntricos (ou esquisitos?) demais para passar na peneira e ir ao ar. Amizade tóxica mostra que os votos de confiança posteriores dados a Robinson, incluindo o mais recente de DeYoung, valeram a pena.


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