16 Out 2026
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Desde os anos 1980, músicos brasileiros vêm se dedicando a uma formação de repertório no campo da música eletrônica. Passadas algumas décadas, há um cenário nacional bastante consolidado num gênero que se ramifica em muitos. Destes, o que mais chama atenção dos ouvidos nacionais e estrangeiros é o funk – tratado hoje por antenados como uma espécie de futuro das pistas em todo o mundo. Trabalhos críticos vêm gradualmente reconhecendo MCs como agentes do ritmo que é a nova música popular brasileira – em contraste com o que muita gente ainda entende como MPB: uma penca de cantores que continuam a revisitar (às vezes sem novidade alguma) o legado de vozes canônicas do último século. Como documenta o livro Bate-estaca: como DJs, drag queens e clubbers salvaram a noite de São Paulo, de Camilo Rocha, o funk, símbolo das periferias de todo o país, mas especialmente das fluminenses, vem ganhando contornos mais cosmopolitas desde meados da última década – acoplando referências importadas das noites de Londres, Berlim e Nova York.
O rapper e artista visual conhecido como Novíssimo Edgar se une à dupla de produtores Os Fita, formada por Abel Duarte e Cainã Bomilcar, para dar continuidade a essa tradição. As composições do novo disco, Faz frio mas é verão, não abrem mão das referências mais usuais do funk. Fala-se do “oitão” – apelido popular para revólveres de calibre 38 –, da maconha, do dinheiro, da favela e do verão – mesmo que às avessas, como anuncia o título do disco. Pois bem, é o prenúncio de um comportamento que guia toda a ideia e execução do álbum: deslocar o referencial do gênero. É funk, mas é estranho, assim como seria um dezembro frio nos trópicos.
As letras, provando sua atualidade, retratam o momento de explosão que vive o Rio de Janeiro. “Faz frio no Rio / Uso moletom manchado de batom / Descendo a Selarón / Reparo num gringo usando uma Louis Vuitton / Penso comigo: e se eu tomar? / Tapão?” Faz bem que Edgar e sua trupe ofereçam um certo contraponto à rápida gentrificação da cidade que se estende inclusive ao som que, até pouco tempo atrás, era objeto de repulsa de classes sociais mais abastadas – e aqui a referência é à música eletrônica como um todo. Camilo Rocha, no mesmo livro, fala de um texto escrito pelo então diretor do Departamento de Investigações de Narcóticos, da Polícia Civil de São Paulo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 2003. O agente dizia que a cena se compunha de “jovens bêbados caídos pelos sofás, mulheres nos banheiros masculinos”.
Faz frio mas é verão começou como o Trabalho de Conclusão de Curso dos dois produtores que acompanham Edgar. “O disco é uma entrega de laboratório, trabalho de cientistas da música, pesquisa de timbragem, frequência, ritmos e cortes secos, texturas, paisagens sonoras que são distribuídas nas faixas do disco”, disse o rapper ao site Trabalho Sujo. Vale a pena a imersão no experimento.