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A OBRA DE MARTIN AMIS

O romance A Informação aborda a inveja literária e o filistinismo do métier
Imagem A obra de Martin Amis

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O tratamento dado à obra do escritor inglês Martin Amis no Brasil tem sido irregular. Talvez a sua morte no último dia 19 de maio estimule uma reavaliação de seu legado. O estilo de Amis – entre o sinuoso e o staccato; cheio de piadas de duplo sentido baseadas em variações sutis da língua inglesa – é de difícil tradução. Mas se catataus muito mais desafiadores como o Ulysses de James Joyce ou Graça Infinita de David Foster Wallace chegaram ao Brasil em traduções triunfais, é certo que a acidez cômica e juvenil de The Rachel Papers, ou o malabarismo arrojado de Time’s Arrow (um romance sobre o Holocausto contado em tempo reverso) pode receber bom tratamento.

É incompreensível, por exemplo, que Experience, o livro de memórias de Amis, lançado em 2001, nunca tenha recebido uma edição brasileira. A constelação de figuras na vida de Amis é notória: ele é filho de Kingsley Amis, é uma espécie de sobrinho-postiço de Philip Larkin (pela amizade próxima do taciturno poeta com o pai), é enteado de Elizabeth Jane Howard e era amigo do peito de Christopher Hitchens, Salman Rushdie e Ian McEwan. Tudo isso só é menos impressionante do que ele próprio, um protagonista cuja verve linguística e presença de palco (para usar um termo aplicado mais a estrelas da música, com quem ele às vezes se parecia) acabavam por ofuscar seus contemporâneos. As cartas irônicas e espirituosas que Amis escrevia para sua família enquanto ainda estudava em Oxford já valem pelo livro.

Enquanto a reconsideração da obra não chega, uma boa opção é a versão brasileira do romance A Informação, publicado em 1995, em tradução do já falecido Sergio Flaksman, colaborador de longa data da piauí. O livro conta a história de dois amigos escritores, Richard Tull e Gwyn Barry. Tull – o protagonista que é quase alter-ego do autor – está perplexo com o nível de atenção literária que Barry está recebendo. Acostumado a ganhar do amigo em tudo (no tênis, no xadrez, em conquistas amorosas), a inveja o corrói, mais ainda porque ele não considera o amigo particularmente talentoso. Na superfície, A Informação é um romance cômico sobre a inveja literária e o filistinismo do métier, presente tanto nos vitoriosos como nos derrotados pelo mercado. Em retrospecto, porém, o livro dramatiza temas que se tornariam cada vez mais presentes: o declínio da figura do grande escritor masculino; a estratégia de arrivistas que se utilizam do pleito de minorias para alavancar o próprio sucesso (Barry é especialista em agradar jurados de prêmios literários). Há, também, uma nota agridoce no romance – pois a partir dele, Amis entraria numa guerra fria com a imprensa inglesa, que, salvo o armistício na boa recepção crítica de seu livro de memórias, passaria a ridicularizá-lo com mais frequência, eventualmente provocando sua migração para os Estados Unidos. “Seu exílio foi nossa perda”, a manchete do obituário no The Telegraph grafou.


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