Trump e o mundo: a vantagem americana sobre a China não era o poder militar ou econômico, mas seu sistema de alianças globais – exatamente o ativo que o republicano está destruindo CRÉDITO: BEN HICKEY_2026
Contra o mundo
A autodestruição do poder americano e o fim de uma era
Robert Kagan | Edição 234, Março 2026
Tradução de Isa Mara Lando
O presidente Donald Trump deseja restaurar a ordem internacional do século XIX. Isso deixará os Estados Unidos menos prósperos – e o mundo inteiro menos seguro.
A Estratégia de Segurança Nacional do seu governo já oficializou sua orientação: a ordem mundial liberal dominada pelos Estados Unidos chegou ao fim. Não porque o país tenha se mostrado materialmente incapaz de sustentá-la, mas porque decidiu que não deseja mais desempenhar o papel, inédito na história, de garantir a segurança global. O poderio americano, que sustentou a ordem mundial nos últimos oitenta anos, será agora usado para a finalidade oposta – ou seja, para destruí-la.
Os americanos estão entrando no mundo mais perigoso que conhecemos desde a Segunda Guerra Mundial – um cenário que fará a Guerra Fria parecer uma brincadeira infantil, e o período pós-Guerra Fria, um paraíso. Na verdade, esse novo mundo será bem parecido com o mundo pré-1945, com várias potências em competição e conflitos que só tendem a se alastrar. Os Estados Unidos não terão amigos nem aliados confiáveis, e dependerão exclusivamente da sua própria força para sobreviver e prosperar. Isso exigirá mais gastos militares, já que o livre acesso aos recursos, aos mercados e às bases estratégicas no exterior – um acesso garantido aos americanos – não virá mais como um benefício resultante de alianças diplomáticas. Esse acesso agora terá de ser disputado e defendido contra outras grandes potências.
O povo americano não está preparado para esse futuro, nem materialmente, nem psicologicamente. Há oito décadas, eles vivem sob uma ordem internacional liberal, definida pela força predominante do seu país. Estão acostumados a um mundo que funciona de determinada maneira: seus aliados europeus e asiáticos, em geral cooperativos e militarmente passivos, colaboram com o país em questões econômicas e de segurança. As nações que desafiam essa ordem, como Rússia e China, são contidas pela riqueza e o poder dos Estados Unidos e seus aliados. Neste mundo, o comércio global é, de modo geral, livre e pouco contido por rivalidades geopolíticas, os oceanos são seguros para a navegação e as armas nucleares são limitadas por acordos sobre sua produção e seu uso. Os americanos estão tão habituados a esse mundo, basicamente pacífico, próspero e aberto, que tendem a vê-lo como o estado natural das relações internacionais, algo que continuaria indefinidamente. Não conseguem imaginar que essa situação vai desmoronar, e muito menos o que isso vai acarretar para eles.
E quem pode culpá-los? Segundo Francis Fukuyama, “o fim da história” ocorreu em 1989 com o triunfo do liberalismo. Até mesmo o instinto primitivo de violência, um traço básico da natureza humana, teria sido “fundamentalmente transformado”. Quem precisaria dos Estados Unidos e seu poder para defender algo que estava destinado a prevalecer de qualquer maneira? Desde o fim da Guerra Fria, críticos influentes vêm nos dizendo que o predomínio americano é, na melhor das hipóteses, supérfluo e caro. Na pior, destrutivo e perigoso.
Analistas que comemoram um mundo pós-americano e o retorno à multipolaridade sugerem que o grosso dos benefícios que a ordem americana propicia para os Estados Unidos pode ser mantido. Basta que o país aprenda a se conter, abandone os esforços utópicos para moldar o mundo e se acomode à “realidade” de que existem outros países no quadro geral, cada um “buscando estabelecer sua própria ordem internacional, regida por suas próprias regras”, como afirmou Graham Allison, de Harvard.
Allison e seus pares argumentam que a insistência americana em predominar sobre os outros está na raiz da maioria dos conflitos com a Rússia e a China. De acordo com esses analistas, os americanos deveriam abraçar a multipolaridade como um sistema mais pacífico e menos oneroso. Recentemente, a parte da elite da política externa que apoia Trump passou até a apontar o Concerto da Europa[1] do início do século XIX como modelo para o futuro. Sugerem que uma diplomacia habilidosa entre as grandes potências é mais eficiente para preservar a paz do que o sistema liderado pelos Estados Unidos no mundo unipolar.
Do ponto de vista puramente histórico, trata-se de uma ilusão. Até mesmo as ordens multipolares mais bem administradas foram mais brutais e mais propensas à guerra do que o mundo que os americanos conheceram nos últimos oitenta anos. Um exemplo: durante o período que alguns chamam de “longa paz” na Europa, entre 1815 e 1914, as grandes potências (incluindo a Rússia e o Império Otomano) travaram dezenas de guerras umas contra as outras e contra países menores, para defender ou conquistar vantagens estratégicas, recursos e zonas de influência. Não foram apenas escaramuças, mas conflitos em larga escala, que em geral custaram dezenas, às vezes centenas, de milhares de mortos. Cerca de meio milhão de pessoas morreram na Guerra da Crimeia (1853-56). A Guerra Franco-Prussiana (1870-71) resultou na morte de 180 mil militares e até 250 mil civis, em menos de um ano de combates. Quase todas as décadas entre 1815 e 1914 tiveram pelo menos uma guerra envolvendo duas ou mais das grandes potências.
Se a multipolaridade do século XIX fosse replicada hoje, teríamos um mundo em que China, Rússia, Estados Unidos, Alemanha, Japão e outros grandes Estados, agrupados em alguma combinação, travariam pelo menos uma guerra de grandes proporções por década, redefinindo fronteiras nacionais, deslocando populações, obstruindo o comércio internacional e arriscando causar um conflito global em escala devastadora. Esse mundo existiu por séculos, até 1945. Acreditar que esse mundo nunca mais poderá voltar parece ser o auge do utopismo.
As gerações de americanos que viveram duas guerras mundiais lançaram as bases da ordem liberal, sob liderança dos Estados Unidos, exatamente para escapar desse ciclo de conflitos. Foram os verdadeiros realistas, pois não tinham ilusões sobre a multipolaridade. Haviam passado a vida inteira convivendo com as horrendas consequências desse sistema.
Depois de 1945, em vez de restabelecer um sistema multipolar, os Estados Unidos se transformaram em uma força global, chamando para si a responsabilidade não apenas de preservar a própria segurança, como também a segurança do mundo. Na prática, esse modelo significava conter o surgimento das hegemonias regionais, sobretudo na Europa e no Leste Asiático. E foi exatamente isso que fizeram. Não porque desejassem recriar o mundo à imagem dos Estados Unidos, mas porque haviam aprendido que o mundo moderno é interconectado de tal forma que, inevitavelmente, acabaria atraindo os Estados Unidos para os conflitos entre as grandes potências da Eurásia.
Até então, ninguém havia desempenhado o papel que os Estados Unidos – um país tradicionalmente isolacionista – assumiram após 1945. Em parte, porque nenhuma outra potência havia desfrutado das circunstâncias únicas do país: praticamente invulnerável a invasões estrangeiras, graças à sua força e à distância geográfica das demais grandes potências. Assim, os americanos eram capazes de exercer seu poder a milhares de quilômetros de distância, sem se expor a riscos. Essa combinação de posição geográfica e grande alcance permitiu que o país, encerrada a Segunda Guerra Mundial, trouxesse paz e segurança à Europa e ao Leste Asiático. Nações traumatizadas pela guerra direcionaram suas energias para se tornarem potências econômicas. Isso possibilitou a prosperidade global e a cooperação internacional.
Talvez ainda mais extraordinário do que a capacidade e a vontade americanas de assumir o papel dominante tenha sido a disposição da maioria das outras grandes potências de aceitar e legitimar essa predominância, mesmo à custa da sua própria potência. Nas décadas seguintes a 1945, quase todos os países que haviam lutado nas guerras mundiais abriram mão das suas ambições territoriais, das suas zonas de interesse e, em certa medida, até mesmo do seu poder. O Reino Unido, a França, a Alemanha e o Japão não apenas abandonaram a mentalidade e a conduta de grandes potências, características que mantinham há séculos, como também colocaram a sua segurança e o bem-estar de seus povos nas mãos da distante superpotência americana.
Foi um comportamento excepcionalmente anômalo. Contrariou as teorias de relações internacionais, assim como os precedentes históricos. Em situações normais, todo país forte, diante do surgimento de uma nova potência, procura contrabalançar esse poderio nascente. Por isso, formaram-se coalizões contra Luís XIV, contra Napoleão, contra a Alemanha imperial, contra a Alemanha nazista e contra o Japão imperial. No entanto, longe de ver os Estados Unidos como um perigo a ser contido, a maioria das potências mundiais considerou o país como um parceiro a ser convocado. Os aliados dos americanos fizeram duas apostas notáveis: os Estados Unidos iriam defendê-los sempre que necessário; e não usariam seu poderio desproporcional para enriquecer e fortalecer-se à custa de seus aliados. Ao contrário, haveriam de promover e se beneficiar da prosperidade econômica das demais potências.
Pode-se resumir assim o grande pacto da ordem americana pós-1945, que, ao fim e ao cabo, permitiu a paz e a estabilidade extraordinárias das décadas seguintes, mesmo durante o período da Guerra Fria. A ordem americana estabeleceu a harmonia entre as grandes potências que dela participavam. As potências que não faziam parte dessa ordem, como Rússia e China, ficaram relativamente isoladas e inseguras, insatisfeitas com esse arranjo global, mas limitadas na sua capacidade de modificá-lo.
Tudo o que foi descrito acima está chegando ao fim. Trump comemorou abertamente o término desse grande pacto. Seu governo já disse aos europeus que devem estar preparados para assumir a própria defesa a partir de 2027 e sugeriu que seus aliados e parceiros estratégicos, incluindo Japão, Taiwan e Coreia do Sul, devem pagar aos Estados Unidos pela proteção que recebem. Trump lançou guerras tarifárias agressivas contra praticamente todos os aliados do país. Travou guerras ideológicas e políticas contra governos europeus e recorreu à ameaça explícita de agredir territorialmente dois aliados da Otan: o Canadá e a Dinamarca[2].
Ao mesmo tempo, a Estratégia de Segurança Nacional do seu governo não vê a Rússia e a China como países adversários ou mesmo concorrentes, mas sim como parceiros para retalhar o mundo. Com ênfase significativa em restaurar a “proeminência americana” no Hemisfério Ocidental, a estratégia de Trump adota um mundo multipolar, no qual Rússia, China e Estados Unidos exercem domínio total dentro das suas respectivas esferas de interesse.
Trump e seus apoiadores parecem acreditar que o restante do mundo vai simplesmente se acomodar a essa nova postura. Acreditam que seus aliados continuarão subservientes aos Estados Unidos, em que pese a decisão americana de cortar vínculos estratégicos com eles e ainda lhes cobrar pesados tributos econômicos, além de estabelecer um “concerto” com as potências que os ameaçam diretamente. Acontece que a mudança radical da estratégia americana, em vez de aceitação passiva, vai obrigar mudanças também radicais dos ex-amigos e ex-aliados.
O que deve fazer a Europa, por exemplo, agora que enfrenta grandes potências hostis e agressivas tanto a Leste como a Oeste? Não apenas a Rússia, mas agora também os Estados Unidos ameaçam a segurança e a integridade territorial dos países europeus e, mais ainda, trabalham para desestabilizar seus governos liberais. Uma Europa passiva poderia se tornar um mosaico de feudos – alguns sob influência russa, outros sob influência americana, outros, talvez, sob influência chinesa – com suas soberanias reduzidas e suas economias saqueadas por um ou mais desses três impérios. Será que as nações europeias, outrora tão grandiosas, vão se render a esse destino?
Se a história serve de guia, a Europa optará pelo rearmamento. A tarefa será monumental. Montar uma defesa plausível contra novas agressões territoriais da Rússia e, ao mesmo tempo, dissuadir agressões americanas não demandarão apenas aumentos marginais nos gastos militares, mas uma reorientação total, estratégica e econômica, rumo à autossuficiência – uma reestruturação das indústrias, das economias e das sociedades europeias. Mas o que acontecerá se Alemanha, Reino Unido, França e Polônia se armarem até o limite da sua capacidade, incluindo armas nucleares, e decidirem defender sua independência econômica pela força? Nesse caso, teriam poder, coletivamente, para dissuadir a Rússia e fazer um presidente americano pensar duas vezes antes de intimidá-los. Se aos europeus não houver nenhuma alternativa além da subjugação, é muito plausível que decidam se levantar e encarar esse desafio coletivo.
Os parceiros asiáticos dos Estados Unidos enfrentarão opção semelhante. Líderes japoneses já vêm questionando a confiabilidade americana há algum tempo, mas a postura de Trump obriga a encarar a questão. Trump impôs tarifas aos aliados asiáticos e já sugeriu repetidas vezes que deveriam pagar aos Estados Unidos pela proteção (“Não é diferente de uma companhia de seguros”). A Estratégia de Segurança Nacional de Trump é intensamente focada no Hemisfério Ocidental, em detrimento da Ásia, e seu governo deseja ardentemente um acordo comercial e uma coordenação estratégica com Pequim. Diante disso, o Japão pode ter que escolher entre aceitar a subserviência à China ou reforçar a capacidade militar de modo a ter seus próprios meios para promover uma dissuasão independente.
A recente eleição de Sanae Takaichi, uma primeira-ministra nacionalista de direita, dá uma pista sobre o caminho que os japoneses pretendem seguir. Trump e seus assessores talvez estejam imaginando que os dirigentes japoneses estão enxergando o mundo pela lente ideológica do movimento Maga, como se buscassem levantar a bandeira do “Make Japan Great Again”. O fato, no entanto, é que o levante do nacionalismo japonês é uma resposta direta aos temores de que Tóquio não pode mais confiar nos Estados Unidos para defendê-lo.[3] A Coreia do Sul e a Austrália, por exemplo, já estão reconsiderando suas políticas militares e econômicas, agora que despertaram para os desafios vindos tanto do Oriente quanto do Ocidente.
Assim, é provável que os antigos aliados, confrontados agora com uma postura não confiável e até hostil dos Estados Unidos, optem por um grande fortalecimento militar. Não significa que essas nações, rearmadas, vão compartilhar o fardo da segurança coletiva, pois já não serão aliadas americanas. Serão grandes potências independentes, buscando os próprios interesses estratégicos em um mundo multipolar. Não deverão nada aos Estados Unidos. Ao contrário, passarão a ver o país com o mesmo antagonismo e temor que sentem pela Rússia e pela China. De fato, depois de abandonados estrategicamente pelos Estados Unidos, sofrendo agora com a predação econômica americana e, possivelmente, com agressões territoriais, provavelmente se tornarão focos de antiamericanismo. No mínimo, não serão mais os mesmos países que os americanos conhecem hoje.
Tomemos como exemplo o caso da Alemanha. A Alemanha democrática e pacífica de hoje cresceu dentro da ordem internacional liberal dominada pelos Estados Unidos. Neste ambiente, ocorreu o milagre econômico da Alemanha Ocidental nos anos 1950, que transformou o país em um motor do crescimento econômico global e uma âncora de prosperidade e estabilidade democrática na Europa. A tentação da Alemanha de seguir uma política externa normal, independente, típica de uma grande potência, acabou sendo contida tanto pelos interesses econômicos quanto pelo ambiente relativamente benigno no qual os alemães podiam viver suas vidas – algo tão diferente do que conheceram no passado. Antes do atual desmanche da ordem mundial liberal, já se colocava uma questão: por quanto tempo a Alemanha estaria disposta a permanecer uma nação “anormal”, abdicando das ambições geopolíticas, dos interesses egoístas e do orgulho nacionalista? Agora, graças à mudança da estratégia americana, a Alemanha não tem escolha senão voltar a ser uma potência “normal” – e rapidamente.
Assim como obriga os alemães a se rearmarem, a estratégia americana também faz com que isso ocorra com o resto de uma Europa cada vez mais nacionalista e mais dividida. Os fundadores da ordem americana no pós-guerra trabalharam para conter o nacionalismo europeu, em parte apoiando as instituições pan-europeias. O diplomata americano George Kennan, dos tempos da Guerra Fria, acreditava que a unificação europeia era “a única solução concebível” para o problema alemão. Hoje, porém, essas instituições estão sob pressão e, se depender do governo Trump, desaparecerão por completo. Ao mesmo tempo, Trump procura inflamar o nacionalismo europeu, especialmente na Alemanha, onde pode muito bem ter sucesso. A Alternativa para a Alemanha, partido nacionalista de extrema direita, é hoje a segunda maior força no Parlamento alemão – tal como era o Partido Nazista em 1930.[4]
Sem a garantia da segurança americana, uma Alemanha rearmada, quer o país se renda ou não à extrema direita, adotará, necessariamente, uma visão mais nacionalista dos seus interesses. E todos os seus vizinhos seguirão o mesmo rumo. A Polônia, espremida entre uma Alemanha poderosa de um lado e uma Rússia poderosa do outro, foi, ao longo dos séculos, ocupada, dividida diversas vezes e, em certos momentos, eliminada como entidade soberana. Sem uma superpotência distante para protegê-los, os poloneses provavelmente decidirão reforçar sua capacidade militar, incluindo armas nucleares. Enquanto isso, a França está a apenas uma eleição de distância de uma vitória nacionalista que vai atingir a Europa como um terremoto. Líderes franceses já instaram o país a se preparar para uma guerra contra a Rússia. Mas vamos imaginar uma França rearmada e nacionalista diante de uma Alemanha também rearmada e nacionalista. As duas nações poderiam encontrar um terreno comum diante das crescentes ameaças dos Estados Unidos e da Rússia. Mas franceses e alemães carregam uma história complexa, tendo se enfrentado em três grandes guerras ao longo de setenta anos, até que os americanos ajudaram a estabelecer uma paz duradoura entre as duas nações.
O rearmamento do Japão terá ramificações semelhantes. Ele aumentará a apreensão entre os vizinhos, incluindo a Coreia do Sul – outro aliado agora inseguro quanto ao comprometimento de Washington com sua defesa. Quanto tempo levará até que os coreanos decidam que eles também precisam se rearmar, inclusive com armas nucleares? Considere-se a situação da Coreia do Sul: o país enfrenta uma Coreia do Norte hostil e nuclearizada e, ao mesmo tempo, passará a enfrentar um Japão rearmado, possivelmente nuclear, que já invadiu e ocupou a Coreia três vezes no passado.
Como tudo está em disputa num mundo multipolar, os focos para possíveis conflitos se multiplicam. A ordem americana que reinou por oito décadas forneceu não apenas compromissos de segurança para aliados e parceiros, e também teve acesso a recursos vitais, bases militares, rotas marítimas e espaço aéreo – o que os teóricos chamam de “bens públicos”. Na ausência dos Estados Unidos desempenhando esse papel, tudo isso volta a ser alvo de uma competição multifacetada.
A competição não se limitará à Europa e ao Leste Asiático. Até agora, Alemanha e Japão se contentaram em depender dos Estados Unidos para garantir o acesso naval ao petróleo do Golfo Pérsico, por exemplo. Agora, as duas nações e outras potências em vias de rearmamento, incluindo Reino Unido, França e Índia, terão que encontrar novas formas de cuidar de si mesmas. A China já mostrou como isso pode ser feito. Há duas décadas, não tinha uma força naval digna desse nome, nem bases no Golfo Pérsico. Hoje, tem a maior Marinha do mundo, uma base em Djibuti, [no Chifre da África, às margens do Mar Vermelho] e acordos de cooperação com Omã e os Emirados Árabes Unidos para construir instalações para uso chinês.
Em um mundo multipolar, as esferas de interesse voltam a ser importantes. Durante séculos, a capacidade de manter e proteger uma esfera de interesse fazia parte do que significa ser uma grande potência. Também era uma das causas mais comuns de guerras, já que essas esferas muitas vezes se sobrepõem. A disputa tripla, aparentemente interminável, pelo controle dos Bálcãs entre Rússia, Áustria e o Império Otomano resultou em numerosos conflitos, incluindo a Primeira Guerra Mundial. O desejo de recuperar ou criar esferas de interesse esteve entre os principais motivos das três potências “desprovidas” que ajudaram a gerar a Segunda Guerra Mundial. São elas: Alemanha, Japão e Itália.
O fim da Segunda Guerra levou a um abandono global das esferas de interesse. Parte do que tornava “liberal” a ordem mundial era o princípio da autodeterminação, consagrado na Carta do Atlântico e na Carta das Nações Unidas. Por vezes, esse princípio foi violado, inclusive pelos Estados Unidos. Mas, na ordem multipolar, as grandes potências nunca tiveram que considerar os direitos dos pequenos países – e não consideravam. Em contraste, o liberalismo da ordem americana pressionava os países poderosos a ceder soberania e independência às nações menores em suas órbitas.
Os britânicos desmontaram gradualmente seu império, assim como os franceses. A Alemanha foi obrigada a abandonar seus sonhos de Mitteleuropa,[5] da mesma forma que o Japão aceitou o fim da sua esfera de interesse no continente asiático, pela qual travou inúmeras guerras entre 1895 e 1945. Sob a ordem liderada pelos Estados Unidos, essas potências nunca tentaram recuperar essas esferas. A China, com o fim da Segunda Guerra, estava tão desprovida de uma esfera de interesse que não conseguiu sequer reivindicar Taiwan, uma ilha próxima, habitada por pessoas que já haviam sido cidadãos chineses. Além da americana, a única esfera restante foi a que a União Soviética conquistou em Yalta, na Europa Oriental e Central. Mas essa também ficou sob pressão desde o início, e o esforço exigido para mantê-la acabou superando a capacidade soviética, levando ao colapso da União Soviética.
A mera existência dos Estados Unidos e de sua ordem liberal oferecia às pequenas e médias potências uma oportunidade que lhes fora negada durante séculos de multipolaridade. Os Estados-satélites de Moscou na Europa Oriental e Central não teriam se empenhado tanto em escapar se não houvesse outra esfera para onde pudessem migrar. A ordem americana prometia um padrão de vida mais elevado, soberania nacional e igualdade legal e institucional. Isso deu às nações que viviam sob a sombra soviética uma alternativa à acomodação; e, quando tiveram a chance de abandonar Moscou, aproveitaram para se libertar.
Nos últimos anos, vários analistas que se dizem realistas vêm pedindo que os Estados Unidos aceitem um retorno à política de esferas de interesse como alternativa à unipolaridade. Mas, em geral, reconhecem apenas a existência de duas esferas – a russa e a chinesa, que já são bem problemáticas. Até onde vai a percepção da China sobre sua esfera legítima? Inclui o Vietnã? Todo o Sudeste Asiático? A Coreia? E o que dizer da chamada Primeira Cadeia de Ilhas, que abrange o Japão? Quanto à Rússia, a tradicional esfera de interesse, desde a época do czar Pedro, o Grande, sempre incluiu os Estados bálticos e pelo menos parte da Polônia. Vladimir Putin está abertamente imitando o czar e fala com franqueza sobre seu desejo de restaurar o império soviético tal como era durante a Guerra Fria.
Reconhecer as esferas de interesse da Rússia e da China implica aceitar a hegemonia desses países sobre diversas nações que hoje desfrutam de independência soberana. Nesse novo mundo emergente, a Rússia e a China não serão as únicas a buscar expandir suas esferas. Se a Alemanha e o Japão precisarem voltar a ser grandes potências, também terão suas próprias esferas de interesse, que, inevitavelmente, vão se sobrepor às da China e da Rússia, levando a inúmeros conflitos no futuro multipolar – tal como acontecia no passado multipolar.
Isso nos leva à tão propalada ideia de um novo acordo entre Estados Unidos, China e Rússia, equivalente ao Concerto da Europa do século XIX. Um arranjo bem-sucedido teria que definir fronteiras para suas respectivas esferas de interesse. Seria possível tal acordo? A resposta é não, porque o novo mundo multipolar não terá as mesmas características daquele que prevaleceu no passado, dois séculos atrás. A Áustria de Metternich era uma potência de status quo, interessada apenas em proteger uma ordem conservadora contra os desafios liberais. Bismarck considerava sua Alemanha recém-unificada, no final do século XIX, como “saciada”. Ambos os países buscavam um equilíbrio para conservar o que já tinham, não para conquistar mais.
China e Rússia, no entanto, não são potências saciadas de status quo, em absoluto. São potências insatisfeitas, “desprovidas”. Desde o fim da Guerra Fria estão cronicamente descontentes com a supremacia global americana e buscam restaurar o que consideram seu predomínio natural e tradicional sobre suas respectivas regiões. Ainda hoje, a China exerce apenas domínio parcial sobre o Sudeste Asiático e não controla Taiwan. Tampouco conta com a submissão por parte do Japão e da Coreia do Sul, como considera que deve contar. A Rússia também está apenas nos estágios iniciais de reconstrução de sua esfera tradicional na Europa Central e do Leste. A Ucrânia não é o final, mas sim o início da nova ordem idealizada por Putin.
Que tipo de acordo com os Estados Unidos poderia satisfazer essas ambições? Um acordo que simplesmente sedimente o status quo, tal como se tentou fazer com o Concerto da Europa, seria insatisfatório. Teria de acomodar a transformação geopolítica radical da Europa e da Ásia que a Rússia e a China consideram essencial – e pela qual a Rússia, pelo menos, já se mostrou disposta a ir à guerra. Tal transformação não será um processo agradável para as pequenas e médias potências, obrigadas a abrir mão da sua independência e aceitar o domínio de Pequim, Moscou ou Washington – e talvez, futuramente, de Berlim, Tóquio ou sabe-se lá quem mais. Se as primeiras quatro décadas do século XX nos ensinaram alguma coisa, eis o ensinamento: alcançar uma paz estável com potências “desprovidas” é muito difícil. Cada nação ou território que lhes é concedido as fortalece e as encoraja para a próxima exigência.
Na verdade, Pequim e Moscou não têm nem desejo nem necessidade de qualquer acordo restritivo com os Estados Unidos. Pelo contrário, têm todos os motivos para acreditar que este é o momento certo para avançar. Xi Jinping já falou em “grandes mudanças não vistas em um século”, que oferecem à China “um período de oportunidade estratégica”. Para Putin, a destruição realizada por Trump da aliança transatlântica é uma dessas “grandes mudanças”. Por que não haveria ele de aproveitar essa oportunidade? Putin, naturalmente, não tem como saber quanto tempo vai durar a fase Trump nos Estados Unidos. E, se os europeus se rearmarem, a janela de oportunidade para o Kremlin pode se fechar. Até agora, Putin vem agindo lentamente: esperou seis anos entre invadir a Geórgia e anexar a Crimeia, e depois mais oito anos para invadir em larga escala a Ucrânia, no que foi severamente dificultada pelos Estados Unidos e seus aliados. Agora que os americanos romperam essa solidariedade, Putin pode julgar que chegou o momento certo para acelerar seus planos de conquista.
Isso significa que os primeiros anos da nova era multipolar não serão marcados por uma diplomacia hábil e conciliatória, mas sim por intensa competição e confronto. O mundo se parecerá mais com a brutal era multipolar do início do século XX do que com o mundo mais ordenado, embora também brutal, do século XIX.
Este é o novo mundo no qual os Estados Unidos estão entrando, despojando-se voluntariamente dos seus maiores ativos. O influente pensador estratégico chinês Yan Xuetong observou certa vez que a grande vantagem dos Estados Unidos sobre a China não era o poder militar ou econômico – ambos, afinal, podiam ser alcançados pela China. Era o sistema americano de alianças e parcerias globais.
Quando a Rússia ou a China iam à guerra, iam sozinhas. Quando os Estados Unidos iam à guerra, mesmo em um conflito impopular como o do Iraque, tinham o apoio de dezenas de aliados. A projeção do poder militar americano depende de bases espalhadas por todo o planeta, fornecidas por nações que confiavam na América como parceira e estavam dispostas a relevar a inconveniência de hospedar soldados americanos. Mas essas nações podem reconsiderar a situação se os Estados Unidos deixarem de garantir a segurança desses países e, em vez disso, passarem a travar guerras econômicas contra eles, assim como impor exigências políticas e ideológicas que consideram ofensivas. Os assessores de Trump parecem esperar que os países europeus e asiáticos venham unir-se aos Estados Unidos sempre que Washington precisar ou desejar – para pressionar a China, por exemplo – mesmo sem receber nada em troca. Mas será possível abandonar os aliados e, ao mesmo tempo, contar com eles?
Uma coisa seria os Estados Unidos recuarem para dentro do seu hemisfério, voltando à sua política do século XIX, de isolamento e indiferença quanto aos assuntos globais. Outra coisa – e aí reside um dos aspectos mais notáveis da política externa do governo Trump – é promover a volta ao século XIX e, ao mesmo tempo, demonstrar uma ambição global aparentemente ilimitada. Trump gosta de exercer o poder americano, mesmo enquanto o esvazia. Em seu primeiro ano de volta ao cargo, lançou ataques contra o Irã e a Síria, ameaçou tomar o Canadá e a Groenlândia, decapitou o governo da Venezuela e prometeu “administrar” o país, interferiu, de forma ineficaz, em guerras no Sudeste Asiático, na África Central e no Oriente Médio, e até propôs projetos de construção na Faixa de Gaza que teriam de ser defendidos por forças americanas.
É isso que significa “contenção”? Entre seus apoiadores intelectuais, Trump é exaltado por abandonar os “objetivos utópicos sem sentido” das “elites sem noção”, mas logo em seguida o elogiam por buscar nada menos do que “remodelar” o mundo inteiro. Remodelar para qual finalidade? Para encher os bolsos de Trump e lhe trazer a glória?
A megalomania de Trump está transformando os Estados Unidos de líder internacional em pária internacional, e o povo americano sofrerá as consequências disso por muitos anos. Em 1916, o chanceler alemão Theobald von Bethmann Hollweg temia que o comportamento de seu país o tornasse “o cachorro louco entre as nações” e provocasse “a condenação de todo o mundo civilizado”. E ele tinha razão. Os líderes alemães se orgulhavam do seu “realismo” inabalável, e acreditavam que a busca franca e brutal dos interesses próprios era, simplesmente, o comportamento normal das nações. Mas, como observou o historiador Paul Kennedy, o constante apelo da Alemanha à força bruta – o “código da Machtpolitik nua e crua” – ajudou a unir as grandes potências mundiais num esforço para derrotar o país.
O governo Trump se deleita na busca pelos interesses próprios e no exercício da força como um fim em si mesmo, com jovial desprezo pelos interesses dos outros. H. R. McMaster, assessor de segurança nacional no primeiro mandato de Trump, em um ensaio escrito com o economista Gary Cohn, disse que o mundo não é “uma comunidade global”, mas sim “uma arena onde países, atores não governamentais e empresas competem por vantagens”. Nesse mundo da Machtpolitik, os Estados Unidos, de fato, desfrutam de um poder “incomparável”. Mas por quanto tempo? A formulação de McMaster, assim como a exaltação trumpista do egoísmo, repousa sobre uma profunda ignorância das verdadeiras fontes da força americana. Grande parte da influência global dos Estados Unidos deriva de tratar os outros países como parte de uma comunidade de nações democráticas, ou de parceiros estratégicos.
Há quem perceba isso, ainda que muitos americanos não o façam. O pensador chinês Yan Xuetong observou que um dos elementos que mantinha coesa a ordem americana era a reputação dos Estados Unidos de manter a moralidade e o respeito às normas internacionais. Theodore Roosevelt, considerado o realista americano por excelência e capaz de exercer o poder sem nenhuma timidez, acreditava que as grandes nações devem ser guiadas, em última instância, por uma “consciência social internacional” que considera não apenas seus próprios interesses, mas também “os interesses dos outros”. Uma grande potência bem-sucedida, notou ele, não poderia agir “sem levar em conta as bases essenciais da verdadeira moralidade”.
Durante décadas, grande parte do mundo apoiou os Estados Unidos como um país que agia conforme essa bússola moral. Aceitava o poder americano, apesar das suas falhas e erros, justamente porque não agia estritamente em função dos seus interesses próprios – e muito menos em função dos interesses egoístas de um único governante.
Essa era já terminou. Trump conseguiu, em apenas um ano, destruir a ordem americana existente e enfraquecer a capacidade dos Estados Unidos de proteger seus interesses no mundo que está nascendo. Se os americanos achavam que defender a ordem liberal mundial custava muito caro, esperem até começarem a pagar pelo que virá a seguir.
[1] O Concerto da Europa, constituído em 1815, reunia as grandes potências europeias (Reino Unido, Áustria, Rússia, Prússia e França) com o objetivo de manter o equilíbrio de poder e evitar conflitos generalizados depois das Guerras Napoleônicas.
[2] Quanto ao impacto do governo Trump dentro dos Estados Unidos e sua ofensiva contra os pilares da democracia americana, Robert Kagan deu uma entrevista ao podcast The Political Scene, da revista The New Yorker, em 16 de janeiro passado. O conteúdo da entrevista, em inglês, pode ser acessado online sob o título A stark warning about the 2026 election.
[3] Em 8 de janeiro, depois de 109 dias no cargo de primeira-ministra, Sanae Takaichi colheu uma vitória maiúscula nas eleições legislativas, fazendo uma supermaioria no parlamento. No mesmo dia, Trump parabenizou-a efusivamente pela vitória. Takachi agradeceu e afirmou que a aliança entre Estados Unidos e Japão tem potencial “ilimitado”. Em seu discurso nacionalista, às vezes permeado por floreios trumpistas, Takaichi promete um Japão “forte e próspero” e preconiza conter a imigração e resistir mais ativamente ao crescente poder militar da China.
[4] Em fevereiro do ano passado, durante a Conferência de Munique sobre Segurança, que reuniu políticos, diplomatas e analistas, o vice-presidente americano J.D. Vance causou espanto na plateia ao fazer um apelo em defesa dos grupos considerados extremistas – caso da Alternativa para a Alemanha, assim classificada pela inteligência alemã em razão de suas posições nazistas. Em seu discurso, J.D. Vance pediu aos políticos alemães que deixassem de isolar os extremistas e passassem a integrá-los no sistema político. “Não há espaço para criar essas barreiras”, disse.
[5] Mitteleuropa, que significa “Europa Central” em alemão, era um conceito do início do século XX segundo o qual a Alemanha sonhava em abranger, sob sua liderança, os países vizinhos do Leste, de modo a organizar a região como sua esfera de interesse e poder.
