CRÉDITO: EDSON IKÊ_2024
A barata, Macabéa e Lisette
Três contos claricianos
Evando Nascimento | Edição 220, Janeiro 2025
Os três contos a seguir retomam três narrativas de Clarice Lispector: o romance A paixão segundo G.H., em que, depois de se deparar com uma barata, matá-la e ingeri-la, a personagem G.H. se lança para além de sua própria humanidade; a novela A hora da estrela, na qual o escritor Rodrigo S.M. conta a história da nordestina Macabéa; e Macacos, conto de A legião estrangeira, sobre uma mãe que compra uma macaquinha na rua como presente para os filhos, mas descobre que ela está doente – o animal acabará morrendo no veterinário. O autor explica que não quis imitar o estilo de uma escritora consagrada, mas reescrever os textos na perspectiva das personagens que são objeto das histórias. Personagens estas aqui convertidas em narradoras em primeira pessoa: a barata, Macabéa e a macaquinha Lisette.
A PAIXÃO SEGUNDO A BARATA
A moça que morava antes aqui nunca me atacou. Convivemos em paz por um longo tempo, não sei exatamente quanto. Todo o quarto é limpo e claro demais, não há um canto onde me sinta bem. Este guarda-roupa morno e empoeirado é o único lugar confortável.
Ela um dia percebeu minha existência e, em vez de tentar me matar, cuidou de mim. Passou a deixar restos de comida na porta do móvel para eu me alimentar. Antes tinha de me arriscar indo até a cozinha.
Nunca saio enquanto está claro e tem ruído fora daqui. O mundo em volta é muito barulhento, cheio de perigos para alguém frágil como eu. Sou atraída pelo delicioso cheiro de coisa estragada, pode ser salgada ou doce.
Antes de minha amiga vir trabalhar nesta casa, eu tinha que me virar por conta própria. Um dia a dona me viu no corredor, fez uma gritaria danada e tentou me assassinar com a vassoura. Corri para trás da geladeira e escapei.
De outra vez, eu estava lambendo os restos de alimento na louça da pia e a fulana foi colocar um prato sujo. Sobrevivi a berros, muitos xingamentos e golpes com a sandália.
Não sei o que fiz para despertar tanto ódio. Queria que a tal mulher um dia acordasse como se fosse eu. Ia experimentar como é bom viver fugindo da violência. Até com spray ela já tentou, voei e me safei por um triz.
Quando minha amiga veio trabalhar aqui, tudo melhorou. Me senti amada pela primeira vez. Até que se parece comigo, tem a pele marrom-escura e uns cílios muito longos. Acho que fomos irmãs noutra encarnação.
Foi amor à primeira vista. Ela gostava muito de limpeza, tinha obsessão. Só deixou o guarda-roupa cheio de poeira para eu me sentir em casa. Às vezes conversava comigo na língua dela. Era muito solitária, tadinha. Eu também.
Aí, não sei por que arrumou as coisas e foi embora. Antes, fez uns desenhos na parede, três bichos muito feios. Uma das figuras parece com a madame, os outros não conheço.
Se despediu chorando, deve ter encontrado coisa melhor para fazer. Não sabia que eu estava grávida. Passou um companheiro por aqui e nós acasalamos, foi rápido. Em breve vou botar ovinhos.
Felizmente ela deixou uma boa reserva de comida, não vou precisar caminhar até a cozinha. Viver é muito perigoso. Sobretudo para alguém desprotegida como eu.
Essa dona é muito bruta, só sabe me odiar. Não faço mal a ninguém. Nasci para comer, procriar e depois descansar eternamente.
Amanheceu, ouço passos. É a outra, minha inimiga, preciso me esconder. Se me descobre neste esconderijo, estou acabada!
Entrou, meu coração está disparado. Consigo ver a figura dela pela fresta. Está com cara de espanto, nunca veio aqui desde que cheguei.
Não sei por que ela cheira tão mal. Não exala o aroma gostoso que me atrai.
Está investigando cada canto do espaço iluminado. Parece surpresa com tamanha organização.
Agora está olhando para cá, assustada. Vem se aproximando, preciso me esconder na gaveta de baixo.
Me viu! Grita muito! Vou ter que fugir do quarto, sair do meu abrigo! Ai, miserável, fechou a porta do guarda-roupa sobre o meu pequeno corpo!
Me esmagou. Está saindo uma massa esbranquiçada da minha barriga, que abriga os filhotes.
O ódio venceu! Quanto sofrimento! Amiga, amiga, por que me abandonaste?
A RESPOSTA DE MACABÉA
Para Conceição Evaristo,
que me inspirou esta outra versão
Prezado Seu Rodrigo S.M.,
Escrevo pro senhor pra tratar de um assunto sério. Outro dia uma amiga me emprestou um livro dizendo que tinha minha história. Não entendi nada na hora levei o livro pro quarto que divido com as colega das Lojas Americana e li na mesma noite. Tomei um susto tão grande que nem consegui dormi direito! Ela tinha razão é minha história sim só que o senhor trocou umas coisa. Meu nome por exemplo que me chamo de verdade Maria Macarena. Aí o senhor inventou outro nome esquisito quase debochado Maca não sei o quê onde já se viu favor destrocar.
Soube depois que até fizeram filme com atriz bem boa lá do Nordeste num tive dinheiro pra ir pro cinema o salário mau dá pro gasto. O senhor deve tá surpreso com essa carta certinha no livro a tal que sou eu escreve tudo errado. Pode ser que o senhor tem razão de espantar escrevi e pedi pruma de minhas colega de quarto pra corrigir. Depois levei pro escritório e datilografei me desculpe se borrei o papel com resto de cachorro-quente e cocacola é meu almoço. Vou botá nos correio. O envelope tá meio rasgado a culpa é da falta de dinheiro num sabe.
Não gostei da maneira que o senhor conta a história de minha vida de um jeito meio abestalhado. Me machucou muito aquele palavreado da Maca que não se manca de onde o senhor tirou esse troço? Depois inventou que morri e o senhor sabe que não é verdade. Fui atropelada passei muitos dias no hospital lá do subúrbio não lembro onde nem quando mas sobrevivi. A culpa foi da Madama Carlota que falou que minha vida ia mudar pra melhó. Saí da consulta com ela feliz esquecida da vida veio um carrão e me pegou de cheio. Mas não morri não o final lá é invenção do senhor.
Sou nordestina e danada de forte mas tem uns que me vê fraquinha que posso fazer. Muita gente nem gosta de me ouvi por causa do sotaque e também por causa de meu jeito de alagoana sem jeito. O pior é que o senhor ficou sabendo dessas coisas de mim por causa de uma colega que trabalha com dona Clarisse aquela que vive lá no Leme. Fátima me contou tudo que tinha contado pra tal da escritora que contou pro senhor. Que vergonha se aproveitar da vida dos outro pra escrever romance de estrela! E nunca que ouvi falar dessa tal de Marilin que o senhor fala acha que sou boba de me meter com gringa? O senhor é homem branco carioca da gema do ovo como Glória gosta de dizer não conhece o que é ser retirante numa cidade toda feita contra agente. A fumaça dos carro entope minha garganta todo dia mal consigo respirar quase choro e que vida cara Deus do céu!
Veja só, Olímpico não me largou eu é que cansei daquele cabra cheio de ambição tesconjuro e Glória é uma peste que se acha a gostosona. Mas tenho minhas amiga que me ampara a tia que me criou morreu faz tempo não deixou nenhum centavo pra mim. Não sou sozinha no mundo como o senhor disse tenho minhas amizade pobre como eu. Uma coisa é verdade no livro de mentirinha que o senhor conta adoro escutar a Rádio Relógio aprendo muita coisa de conta gota de grão em grão o senhor sabe né.
Olhe fiquei feliz de saber que o livro de minha vida que o senhor escreveu sem falar nada comigo tá fazendo sucesso será que dava pra dividir um pouco comigo? Algum dinheirinho ia me fazer até bem juro que mau não fazia. Agradeço sua atenção e desejo muita felicidade. Ah e essa frase que o senhor disse que eu disse na hora da morte que não sei o que quer dizer mesmo: quanto ao futuro? Futuro do quê? Também que coisa é essa de S.M. no seu sobrenome home? E o que quer dizer efeméride palavra jeitosa de bonita dá gosto de pronunciar…
O senhor me desculpe tanta pergunta é que seu livro me deixou toda abobalhada. Só gostei do começo não entendi nada mas parece com discurso de deputado com muita palavra bonita. Pra tê algum luxo por Deus que eu também preciso é tão bonito isso! E não adianta dizer que saiu tudo de sua cabeça porque vi o senhor dizer na televisão que pegou de uma nordestina nas ruas e depois a história que o senhor conta é a minha cara nem tem como esconder. Se quiser me encontrar pessoalmente e prosear comigo é só aparecer a rua é aquela mesma que o senhor falou só faltou dizer o número é o 532 aqui no Centro num canto abandonado de Deus pras banda da Rua do Lavradio nome danado de esquisito.
A casa é uma pensão barata mas agente recebe bem com um copo dágua na mão e um riso na cara. Quem sabe o senhor muda a maneira de mim vê? Me desculpe pelos errinhos que ainda tem nessa cartinha minha colega aprendeu a ler e escrever depois teve que pará como eu. Qualquer dia a gente se esbarra com muito gosto. O senhor escreve bonito mas quero contar minha versão dessa história que tá muito mal contada. Mando um abraço pro senhor seu Rodrigo S.M. de tal.
Sua criada
Maria Macarena de Jesus
DESUMANOS
Cansaço, é somente grande cansaço o que sinto, apesar das mãos suaves dessa senhora que me recolheu na rua. Alguma coisa acontece que me tira toda a alegria, desapareceu até a vontade de comer bananas, maçãs, uvas, que ela delicadamente oferece… (Longa pausa.) Por que esses tipos acham que nós não pensamos? Será por que emitimos o que eles imaginam serem grunhidos, em vez de linguagem articulada? Somos articuladíssimos, nos entendemos perfeitamente, não há nada que sintamos ou reflitamos que não possamos comunicar uns aos outros. O problema talvez seja que nossos sons são diferentes. Para nós, eles é que grunhem, rugem, berram sem parar, agitados sem motivo, falta harmonia nessa gente. Coitados, penso que não escutam nem a música dos ventos, nem os segredos dos cipós e das ervas, parecem não enxergar o que é comum a cada um de nós nesse mundo. Vejam essas crianças, vejam esses grandes grosseirões, igual àquele que me vendia na feira como mercadoria silvestre: urram o tempo todo, mais do que meus irmãos, mais forte até do que o rosnar das onças, de quem fugíamos na mata. Acharíamos essa gente engraçada, não fosse cruel. Creio que pensam sermos todos desprovidos do material de que são dotados, ignoram que a matéria-prima é a mesma, somos feitos de igual estofo. Mas há alguns deles excepcionais, capazes de atender ao chamado que nós escutamos. Essa tal que agora cuida de mim é uma entre os poucos aptos a nos amar sem impor condição. Sabe que temos todos a mesma origem, inclusive as plantas, as flores, os frutos com que nos alimentamos. Vida pulsante sobre a terra. Como esse meu coração que para, mas não para – escutei dizerem que vão me levar a um especialista… (Nova pausa.) Ontem à noite ela desconfiou da minha tristeza, o corpo todo sensível, as pernas fracas, o raciocínio falho. Nem mais a poeira nos móveis ou a levitação de uma partícula na contraluz, uma folha que cai, consigo captar. Tudo dói, viver será mesmo um desastre que sucede a alguns… Engraçado, compreendo tudo o que dizem, as mínimas sílabas, mas eles não entendem nada do que digo. O mal deles seria só pensar individualmente e não como grupo, malta, alcateia, bando, cardume, enxame – a sociedade que criaram nada tem de nossas civilizações, bem mais sofisticadas e planejadas. No fundo, são uns bárbaros, minha mãe sempre disse isso. Ela acabou morrendo numa caçada, na minha frente. Depois a comeram e me levaram para a feira, foi lá que a dona de pele clara e cabelos ruivos me achou, a da grande juba, elegante felina. Umas coisas nela mexem comigo: o modo como me olha e o cheiro que brota das roupas e dos pelos – os dedos tão finos e uma infinita doçura… (Pausa.) Pensei demais, gastei minha última energia, ainda bem que chegamos ao lugar para tratamento. Um peludo de jeito engraçado me atende com simpatia… Sinto suas mãos tocando minhas partes íntimas, até onde não devia… Rio molemente, algo em mim se acende, vontade de pular e brincar com os meninos da dona ruiva, mas energia cadê? O moço todo de branco ficou de cara fechada, quase tristonho, acho que não gostou de meu estado. Tudo turva de repente, me faltam os sentidos, uma tontura, será que…?
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