No restaurante Mr. Chow, em Nova York, em 1985: na hora da foto, três penetras se infiltraram na turma – a mulher desconhecida, o músico John Lurie e o artista plástico Julian Schnabel CRÉDITO: MICHAEL HALSBAND_1985
A desconhecida
A busca pela identidade de uma mulher em uma foto histórica e o mergulho no mundo das artes plásticas de Nova York
Simone Duarte | Edição 223, Abril 2025
De Nova York
1_Michael Heizer; 2_David Hockney; 3_LeRoy Neiman; 4_Dennis Oppenheim; 5_Stefano Castronovo; 6_William Wegman; 7_John Lurie; 8_Les Levine; 9_John Chamberlain; 10_Andy Warhol; 11_Julian Schnabel; 12_Arman; 13_Alex Katz; 14_Keith Haring; 15_Kenny Scharf; 16_Tony Shafrazi; 17_Red Grooms; 18_Jean-Michel Basquiat; 19_Francesco Clemente; 20_Robert Mapplethorpe; 21_Ronnie Cutrone; 22_A desconhecida; 23_Sandro Chia; 24_Christopher Goode; 25_Darius Azari; 26_Bernard Zette; 27_Shawn Hausman; 28_Eric Goode
O primeiro que reconheço é Jean-Michel Basquiat. Com um prato na mão, ele se destaca de todos os outros. Andy Warhol está meio escondido no canto esquerdo da foto. Alex Katz, de blazer escuro, ocupa o centro da imagem. Do seu lado direito, Keith Haring está de olhos arregalados e boca aberta. Um pouco mais abaixo, de cachecol, Robert Mapplethorpe olha diretamente para a lente da câmera. Na última fileira, David Hockney toca nos óculos com a mesma mão com que segura o cigarro.
A fotografia em preto e branco, com 28 pessoas, ganhou uma ampliação de quase 4 metros de altura e ocupa grande parte da parede imaculadamente branca da Fundação Louis Vuitton, em Paris. Faz parte da mostra Basquiat x Warhol: Painting four hands (pintura a quatro mãos), que exibe os trabalhos que os dois artistas criaram juntos entre 1984 e 1985. É a primeira vez que essas obras são reunidas desde a exposição inaugural, ocorrida em 1985, na Galeria Tony Shafrazi, em Nova York.
Chego mais perto da foto, me afasto, quero ver todos os ângulos, quero identificar todos aqueles artistas. Confiro os nomes ao lado da imagem para saber se acertei quem é quem. À primeira vista, parece haver duas mulheres na foto. Mas na legenda só há nomes de homens. Descubro que aquela pessoa de cabelo comprido, agachada, que eu supunha ser uma mulher, é um homem: Bernard Zette.
Resta então apenas uma mulher na imagem, que é também a única pessoa que parece estar evitando olhar para a câmera. Quando procuro seu nome na legenda, me deparo com a palavra inglesa unknown. Ela é uma desconhecida.
Por que, quase quarenta anos após a foto ter sido feita, ainda não a identificaram? Para quem ela estará olhando? Será uma artista, a assistente de um artista, a mulher de algum dos homens retratados na imagem? Quero saber tudo sobre essa fotografia que reuniu tantos artistas importantes e sobre aquela mulher cujo nome ninguém sabe.
Resolvo fazer uma pesquisa na internet. A legenda da imagem me dá as informações iniciais de que preciso. O local onde foi feita a foto: o restaurante Mr. Chow, em Nova York. A data: 23 de abril de 1985. O nome do fotógrafo: o americano Michael Halsband, que vive e trabalha em Nova York. E outro nome: Area.
Era o final de agosto de 2023, em Paris, e começava assim a minha investigação sobre a mulher desconhecida da foto. Em pouco tempo, essa busca se tornaria uma obsessão.
Antes de entrar em contato com o fotógrafo Michael Halsband, pesquisei na internet as duas palavras-chaves: “Area” e “Mr. Chow”. Foram as senhas para mergulhar na Nova York dos anos 1980.
O clube Area foi inaugurado em 1983 por quatro jovens da Califórnia: Eric Goode e seu irmão Christopher Goode, Shawn Hausman e Darius Azari. Ficava no número 157 da Rua Hudson, ao Sul de Manhattan, uma região dominada na época pelas drogas e pelo crime, mas habitada por grande número de jovens, por causa dos aluguéis baratos. O clube marcou época em Nova York, frequentado por celebridades e artistas, como os personagens da foto, o escritor Truman Capote, o estilista Calvin Klein e os cantores David Byrne e Madonna, entre outros famosos. No espaço de 1,2 mil m², havia, além da pista de dança, três bares, uma piscina, um banheiro sem divisão por gênero e até um tanque de água com tubarões.
A cada seis semanas, suas instalações eram reconstruídas e as paredes redecoradas para adequá-las a um novo cenário temático. Até 1987, quando o Area fechou as portas, houve 25 diferentes temas, como ficção científica, surrealismo, subúrbio, esportes, fé e infância. Os convites também buscavam surpreender. Na inauguração do clube, os convidados receberam uma caixa de joias contendo apenas uma pílula azul, que ao ser lançada na água, dissolvia, liberando o convite, que emergia até a superfície do líquido, deixando ver o endereço e o preço da entrada (10 dólares).
Eric Goode, o mais carismático dos sócios do Area, reservou o restaurante Mr. Chow na noite do dia 23 de abril de 1985, terça-feira, para juntar os artistas que participariam com trabalhos do 15º tema do clube: Arte. Terminado o jantar, todos deveriam se reunir para uma foto coletiva a ser utilizada no convite da noite de abertura da nova decoração, marcada para 8 de maio, quarta-feira, a partir das 23 horas. Dos 32 nomes incluídos no programa, dezenove compareceram ao Mr. Chow. Andy Warhol tinha cadeira cativa no restaurante, que existe até hoje, na Rua 57, entre a Primeira e a Segunda avenidas. Em uma das fotos do inglês Ben Buchanan, que registrou o jantar (mas não fez a foto coletiva para o convite, que ficou a cargo de Michael Halsband), Warhol aparece conversando com Basquiat – com um chapéu de palha –, David Hockney sorri ao lado de Keith Haring, e Bianca Jagger usa vistosos óculos escuros, sentada na mesma mesa de Mapplethorpe.
A noite de inauguração do tema Arte foi um sucesso. David Hockney pintou uma piscina no Area, Andy Warhol expôs a si mesmo na chamada “Escultura Invisível”, Kenny Scharf fez uma pintura em três dimensões e Keith Haring criou um mural pirâmide. Quando terminou a temporada, todos os trabalhos artísticos foram para o lixo. “A gente jogava tudo fora”, me contou Eric Goode. “Para nós, não se tratava de dinheiro, mas de uma ideia.”
Em 2013, Eric Goode e sua irmã, Jennifer, publicaram o livro Area 1983-1987 (editora Abrams), no qual a mulher desconhecida aparece em outra foto, feita por Ben Buchanan, num intervalo do ensaio fotográfico. Consegue-se ver o seu rosto, com uma maquiagem tão carregada que nem parece ser a mesma mulher de perfil da foto coletiva. Mas nas outras imagens feitas por Buchanan durante o jantar no Mr. Chow não há sinal da presença dela. Mesmo assim, resolvo escrever para o fotógrafo. Um dia depois de enviar um e-mail, recebo uma resposta de sua mulher, Maria, com a notícia de que ele morrera havia menos de um mês (em 7 de setembro de 2023). Ela me aconselha a falar com um dos três curadores do arquivo fotográfico de seu marido. Genevieve Reichle, que conheceu Buchanan nos anos 1980, tornou-se sua amiga e depois curadora do arquivo, me responde prontamente, dizendo que a mulher da foto pode ser Lisa Lyon, uma famosa fisiculturista várias vezes retratada por Mapplethorpe, com quem costumava ir a festas e jantares.
Volto ao arquivo de Buchanan disponível na internet. Reparo que há uma cadeira vazia ao lado de Mapplethorpe na mesa no Mr. Chow. Terá sido o lugar da desconhecida? Em 1985, Mapplethorpe era um fotógrafo famoso pelas fotos que retratavam homossexuais e o mundo sadomasoquista gay e já havia declarado que fotografar mulheres não era algo que o interessasse. Porém, quando o ex-companheiro de Patti Smith conheceu Lisa Lyon numa festa no SoHo, ficou fascinado. “Nunca vi alguém assim antes. Quando ela tira a roupa, é como ver alguém de outro planeta”, disse Mapplethorpe. Ela virou sua musa. Em seis anos de colaboração, ele fez quase duzentas fotos de Lyon, que foi de longe a pessoa que mais retratou. Parte dessas fotos foram parar no livro Lady: Lisa Lyon, publicado em 1983, e em uma exposição das imagens na galeria de Leo Castelli, o principal marchand e galerista americano de arte contemporânea na época.
Eu precisava falar com Lisa Lyon. Se ela era a mulher da foto, por que não a haviam identificado na legenda da exposição em Paris? Ao procurar pela fisiculturista na internet, descubro que ela também morrera, aos 70 anos, curiosamente um dia depois de Buchanan, em 8 de setembro. Ligo para a curadora Genevieve Reichle. “Acho que é a Lisa, mas não tenho certeza”, ela me diz, agora um tanto indecisa. “A Lisa se encaixa nesta estranha categoria: não era uma artista, mas era arte, se é que você me entende. Ela não era apenas a musa de Mapplethorpe, estava fazendo algo completamente diferente, mostrando o corpo feminino como sendo forte, mostrando o corpo nu, mas não no sentido pornográfico.”
Reichle também trabalhou com Eric Goode no Area. “Três dias antes de o clube abrir, trabalhamos 24 horas sem parar, sem ter a mínima ideia se ia dar certo, era o caos completo”, recorda. “Aqueles anos foram incríveis. Nova York era uma grande confusão: crimes e drogas por todo lado. O East Village parecia uma zona de guerra bombardeada. Ao mesmo tempo, havia montes de artistas e músicos vivendo muito barato em prédios antigos e caindo aos pedaços em bairros como Tribeca. Então, apareceram esses quatro amigos da Califórnia, estudantes de arte, com a ideia muito louca de criar o Area. E depois vieram os artistas, como Andy Warhol, que ficaram impressionados com o clube: era tudo muito mais original e mais divertido que o Studio 54. Você era transportado para outro mundo durante uma noite.”
Encontro na internet o número de telefone de Duffy Hurwin, irmã de Lisa Lyon. Ela cria cavalos numa região próxima a São Francisco, na Califórnia. Quando atende ao telefone e me ouve dizer que sou do Brasil, Hurwin começa a falar com nostalgia de um Carnaval que passou no Rio de Janeiro com o marido. Pergunto sobre sua irmã. Ela responde que as duas tiveram vidas muito diferentes e que só agora está descobrindo um pouco mais sobre Lisa Lyon. Terminada a ligação, envio para ela a foto coletiva feita por Halsband. A resposta é quase imediata. “Não, essa não é a Lisa”, diz Hurwin. “Até porque, se ela tivesse convivido com todos esses artistas, teria nos telefonado para se gabar.”
A resposta tem algo de amargo, e eu fico em dúvida. Decido continuar seguindo a pista da fisiculturista. Descubro que um amigo fotógrafo tem uma edição de bolso do livro de Mapplethorpe com Lisa Lyon e passamos uma tarde comparando as fotos. Não chegamos a conclusão alguma. Escrevo para a Fundação Mapplethorpe, que me envia o contato de Dimitri Levas, um grande amigo do fotógrafo e membro do conselho da fundação. Em uma troca de e-mails, Levas é categórico: a mulher da foto não é Lisa Lyon.
Em outubro de 2023 aproveito uma viagem à Califórnia para tentar me encontrar com Michael Chow, o dono do restaurante onde foi feita a foto da turma de artistas. Ele vive em Los Angeles, onde se dedica à pintura. Marcamos a entrevista no seu estúdio, que funciona em um armazém de mais de 5,5 mil m². O chão do local está coberto de plástico, com latas de tintas, sprays e espátulas por todo o lado, grandes telas encostadas nas paredes ou apoiadas em mesas. A assistente avisa que Chow – na época com 84 anos – não tem muito tempo, pois está ocupado com o lançamento do documentário Conhecendo Mr. Chow, produzido pela HBO, cuja première seria no Museu de Arte Moderna (moma), em Nova York, dali a poucos dias.
Eu encontro Chow almoçando com alguns funcionários em uma mesa de plástico, de camisa branca e calça preta borrada de tinta. Sem interromper a refeição, ele me observa através de seus óculos redondos de aro grosso – metade azul, metade preto – e faz um sinal para que eu comece a entrevista. Mostro a foto dos artistas. Chow aponta algumas pessoas e, surpreso, diz: Hockney is fucking there! (Hockney está ali, porra!). Surpreende-se também ao notar a aparência jovial de Julian Schnabel (que tinha 33 anos em 1985). Admira a beleza da pessoa de cabelos longos, agachada, e me pergunta se é homem ou mulher. Eu respondo que é o ator Bernard Zette. Ao ver na foto o marchand e galerista Tony Shafrazi, diz: “Ele, antes de todo mundo, deveria ser o homem mais rico do planeta. Tony sabia tudo e conhecia todo mundo. Ele organizou a primeira exposição reunindo obras de Warhol e Basquiat. Também jogou tinta no Guernica de Picasso, no moma, em 1974, você sabia? Foi o primeiro terrorista de arte do mundo.”
O pai de Chow foi ator da Ópera de Pequim e sua mãe descendia de uma rica família de fazendeiros de chá. “Ela usava armas nos anos 1920 para proteger meu pai dos gângsteres”, diz. Seus pais desapareceram durante a Revolução Cultural na China, assunto sobre o qual o artista prefere não falar. Ele passa a me mostrar as imensas telas abstratas que está pintando. “Sou um expressionista”, diz. “Sempre quis pintar, mas quando fui enviado por meus pais a Londres, na década de 1950, antes de me mudar para os Estados Unidos, um chinês só podia ter um restaurante ou uma lavanderia. O preconceito era grande. Ainda é. Basquiat foi o primeiro negro a se tornar um grande artista. Antes dele, um negro ou um chinês não podiam nem pensar em pintar.” Foi em Londres que ele abriu, em 1968, o primeiro restaurante Mr. Chow, que servia a culinária chinesa em um espaço glamoroso, decorado com mobiliário art déco. Depois vieram as filiais do restaurante em Los Angeles, Nova York, Miami, Las Vegas e Riad. Amigo de artistas e grande colecionador de arte, Chow foi retratado por vários deles, como Warhol, Hockney, Basquiat, Haring e Schnabel.
Depois da entrevista, sua assistente me leva ao segundo andar do estúdio para ver as obras de Chow em exposição. Na saída, ele me convida para jantar no Mr. Chow em Nova York. Mas deixo o estúdio sem qualquer pista sobre a mulher desconhecida. O empresário artista não tem ideia de quem ela é e me conta que nem sequer estava no restaurante na noite em que a foto foi feita.
Minha próxima parada é em Nova York, no estúdio do fotógrafo Michael Halsband, o autor da famosa foto reunindo a nata das artes plásticas dos anos 1980, inclusive alguns expoentes da arte pop. No dia 23 de abril de 1985, ele ficou surpreso ao receber o telefonema de Eric Goode. “Você não vem?”, perguntou Goode. Dias antes, o dono do clube Area havia chamado Halsband para fazer um trabalho, mas depois não voltara mais ao assunto. O fotógrafo achou que não iria acontecer.
Depois do telefonema, Halsband e seu assistente saíram correndo com todo o equipamento rumo ao Mr. Chow. “Quando cheguei, havia muita gente. Sentei-me ao lado do artista italiano Francesco Clemente, num daqueles bancos altos de bar. O Francesco me disse: ‘É inacreditável, alguém deveria fotografar este grupo.’ Eu respondi: ‘É para isso que estou aqui.’”
Um canto do restaurante com alguns degraus foi o local escolhido para agrupar os artistas para a foto. “Eu estava preocupado com a composição. Não encarei como uma foto única, mas uma espécie de monstro de quarenta cabeças”, explica. “Eu tinha que dar destaque a todos eles. Mas todos estavam muito animados, excitados, não estavam prestando atenção em nada. Fiz várias fotos, mas são pouquíssimas as que eles estão olhando diretamente para a câmera. Fazê-los olhar quando se mexiam sem parar foi como montar um quebra-cabeça.”
Depois que todos se agruparam, Halsband praticamente não trocou ninguém de lugar. “Talvez Sandro Chia [artista italiano que está do lado direito da mulher não identificada] tenha se mexido um pouco e aberto esse espaço onde a mulher que você procura acabou se encaixando. Eu não me importei com esse espaço vazio, porque de certo modo Sandro Chia segurava o lado direito da foto. Esses espaços vazios, em branco, são como âncoras. Se você olhar bem, cada artista está ocupando o seu espaço”, diz o fotógrafo.
Foi naquela noite que Halsband conheceu Basquiat. Segurando um prato, o artista pediu que o fotógrafo ficasse atento ao seu sinal, pois queria que a câmera capturasse o momento exato em que ele despejaria o molho que havia no prato na cabeça de Darius Azari, um dos sócios da Area, agachado à sua frente. “Eu capturei o momento em que ele vira o prato e o molho cai em cima do Darius, mas não funcionou, pois não havia quase ninguém olhando para a câmera naquele instante. E o meu critério era este: a maior quantidade possível de pessoas olhando para a câmera.” Halsband reclama das interpretações feitas sobre a foto, como a de que Basquiat está segurando um prato porque é negro e de que só há uma mulher na imagem. O evento Arte do clube Area contava com mulheres artistas, como Barbara Kruger e Jennifer Bartlett, mas segundo o fotógrafo elas não apareceram no jantar.
Para o trabalho no Mr. Chow, Halsband usou uma câmera Hasselblad e seis rolos de filme, cada um com doze poses. Ao todo, fez 72 fotografias do grupo, até achar que tinha conseguido a imagem certa. “Eles já estavam ficando cansados, e foi no final do último rolo que a mulher apareceu. Ela não fazia parte do grupo, não tinha sido convidada. Estava sentada com alguns amigos em uma mesa, e foram eles que a incentivaram: ‘Vai lá e entra na foto!’”, conta Halsband. Ele acha que a mulher está olhando para Michael Heizer, o artista americano no topo da foto à esquerda. “Heizer tinha visto toda a cena, percebeu que ela era uma penetra e a olha como se dissesse: ‘Eu sei o que você está fazendo.’”
Quando pensei que Halsband não conseguiria me dar pista alguma sobre o paradeiro da desconhecida, o fotógrafo disse: “Há uns dez ou quinze anos, a mulher da foto me enviou um e-mail. Ela foi a única pessoa que me procurou querendo uma cópia da imagem.” E completou: “Na época tive um problema no e-mail e perdi um monte de contatos, o dela inclusive. Ela deve achar que a esqueci.” Comento se não seria Lisa Lyon. “Não”, diz Halsband. “Olhe os braços dela, não é o corpo da Lisa.” A mulher, aliás, não foi a única penetra na imagem, segundo o fotógrafo. “O Julian Schnabel estava jantando em uma das mesas do mezanino e entrou na foto, apesar de não fazer parte da exposição. Eu só soube depois.”
Algumas semanas mais tarde, eu iria descobrir que os penetras, na realidade, foram três.
A porta envidraçada original ao estilo de Lalique já não existe, mas a decoração art déco permanece no restaurante Mr. Chow em Nova York. A mesa reservada para mim é a última das três do mezanino, a mesma que Andy Warhol gostava de ocupar. Quantas vezes ele, Basquiat e Haring jantaram aqui? Convido a curadora Genevieve Reichle para me acompanhar. Do lado oposto da mesa, vejo os degraus da escada onde a fotografia foi tirada. O barman Saul, um dos funcionários mais antigos, prepara um drinque com lichia especialmente para mim. Mostro a foto dos artistas a ele, mas Saul não reconhece a mulher. Ele diz que seu irmão, Brian Murati, diretor-geral dos restaurantes Mr. Chow, deve saber.
No dia seguinte, converso por telefone com o albanês Brian Murati, que trabalha há mais de quarenta anos nos restaurantes de Michael Chow e se estabeleceu em Miami. “Eu tinha 18, 19 anos e servia tantos artistas. Eram todos gentis. Eles jantavam no Mr. Chow e depois iam para os nightclubs do downtown”, conta. “Não me esqueço da festa de aniversário do Keith Haring, em 1986. Eu mesmo contei as garrafas de champanhe Cristal que beberam naquela noite: 101. O senhor Chow valorizava e valoriza os artistas. Eles viviam no restaurante.”
Certa vez, o estilista Hubert de Givenchy disse a Murati que o Mr. Chow era uma espécie de porta-joias. “Tudo era sofisticado, havia arte, diversão, liberdade, ninguém se importava com a vida do outro, todo mundo se divertia. Os anos 1980 foram algo do outro mundo – até chegar a Aids, que matou a vida noturna.” Sobre a mulher da foto, Murati diz que há muitas possibilidades, e uma delas é que seja Adriana Friedman. Depois, se despede citando brasileiros que ele conheceu quando era garçom no restaurante de Nova York: Sonia Braga, Pelé, Ricardo Amaral, Eike Batista…
Escrevo um e-mail a Adriana Friedman, que agora assina com o sobrenome Berenson. Ela é diretora da Galeria DeLorenzo, em Nova York, especializada em arte decorativa do século XX. Berenson responde logo, negando ser a mulher da foto. Como minha obsessão não tem limites, também escrevo para as Guerrilla Girls, grupo de artistas feministas criado no mesmo ano em que a foto do Mr. Chow foi tirada. Agradecem o contato, mas não identificam a mulher – e pedem que as avise caso eu consiga descobrir quem é. Uma amiga francesa que é jornalista me fala de um livro, The only woman, que reuniu cem fotos feitas entre meados do século XIX e o ano 2020 nas quais só se vê uma mulher entre muitos homens.
Depois de percorrer várias livrarias, encontro um exemplar do livro, mas a foto de Halsband não foi incluída. Mesmo assim, escrevo para a autora, Immy Humes, que mora no Brooklyn. Tenho curiosidade de conhecer a escritora e documentarista que ficou obcecada não por uma, mas por cem fotos. Humes me conta que conseguiu encontrar oito mulheres que não estavam identificadas nas fotos, mas que há ainda onze desconhecidas. Repito para ela o que Halsband me disse algumas vezes: que a mulher que eu procuro não pertencia ao grupo de artistas. “Mas essa é a frase-chave. A maioria das mulheres das fotos do meu livro não deveria estar ali, pois o mundo retratado era e ainda é o mundo dos homens”, comenta Humes.
Quando a escritora vê a foto feita no Mr. Chow, diz: “É incrível. O observador é atraído imediatamente por essa mulher. Ela não está à margem, mas dentro da foto. Na minha opinião, está olhando fixamente para o Francesco Clemente [de camisa branca e paletó à esquerda da mulher, no centro da foto] e há este espaço vazio entre eles. Ou talvez esteja olhando para o Basquiat. Ele era tão atraente… Acho que está olhando para alguém e está envolvida com alguém. Ela dá aquele meio sorriso, do tipo ‘Estou aqui’. Ou ainda: ‘Eu não pertenço, mas estou aqui.’” Humes, que tem 66 anos, também frequentou o Area. “Fui algumas vezes, era inacreditável. Eu me lembro de ir à noite do sexo e ver aqueles dioramas, grandes vitrines na parede com gente transando. Fiquei deslumbrada: não era só o sexo, havia todo um cenário delirante e brilhante.”
Sigo em minha busca. Decido encontrar Tony Shafrazi, cuja galeria abrigou a exposição original com parte das 160 obras da colaboração entre Basquiat e Warhol. Passados cinco meses do jantar dos artistas no Mr. Chow, Basquiat passou a evitar Warhol depois que uma crítica no jornal The New York Times o chamou de mascote do artista pop.
De origem armênia e nascido no Irã, Shafrazi foi o único marchand incluído na foto feita no Mr. Chow e sobre ele há um vasto folclore no meio artístico nova-iorquino. A história mais famosa, claro, é a da pichação que fez na Guernica, em 1974. Ele pintou a frase Kill lies all (morte a todas as mentiras) na obra-prima de Picasso, que estava exposta no moma – a tinta foi retirada mais tarde por dois restauradores, sem danificar a obra. Foi também Shafrazi que organizou a primeira exposição solo de Keith Haring e a última de Basquiat.
Eu o encontro no hotel Mercer, no SoHo, a poucos metros de onde funcionava a sua galeria nos anos 1980. Sua antiga colaboradora, Annie Plumb, também participa da entrevista. Azáfama é a palavra perfeita para descrever essa conversa singular. Shafrazi vai, em nossa conversa, de Paris a Teerã, passando por Londres, Los Angeles e Nova York, e de repente está em Ilhéus, na Bahia, onde visitou o artista Kenny Scharf e sua mulher, a brasileira Tereza Scharf. “Nos anos 1980, a ideia de uma nova geração, mais jovem, com uma nova voz, um novo visual, novos interesses e novas maneiras de fazer arte, estava no ar. Nós estávamos em busca de algo novo”, afirma Shafrazi, que tem hoje 81 anos.
Ele olha a foto que lhe mostro. “Está muito maquiada”, diz sobre a mulher desconhecida. Shafrazi não sabe quem ela é. Em seguida, chama a atenção para Michael Heizer, à esquerda no topo da foto. “Um artista maravilhoso”, comenta. “John Chamberlain já está no céu, uma pena. É um escultor mítico. Está todo mundo aqui”, acrescenta. “Você tem que falar com Eric Goode, ele foi o responsável por organizar tudo.” De repente, interrompe a entrevista e telefona para Goode, deixando uma mensagem na caixa postal.
O marchand tenta resumir o que viveu e testemunhou naqueles anos: “O grafite estava por toda a parte, a arte urbana, mais aberta, mais democrática, tomava as ruas. Os artistas se ajudavam, competiam, trabalhavam juntos, incentivavam uns aos outros. Haring, Basquiat e Scharf representam uma grande mudança. Todos admiravam Andy Warhol. Era a estrela que ajudava todo mundo, era generoso. Nos anos 1980, ele já estava ficando para trás e acaba sendo contagiado pelo entusiasmo dessa nova geração, que tinha tanta energia, da manhã à noite.”
Shafrazi conta que Warhol desenvolveu uma amizade profunda com os novos artistas. “Ele os via todos os dias, saía para jantar com eles, ia aos nightclubs. Era algo raro: um artista de uma geração anterior se relacionando com os mais jovens diariamente. Ele estava fascinado com a beleza da juventude e a inovação artística que traziam. Eram artistas em movimento, eles iam dançar, andavam pelas ruas, havia carisma, magia, música, droga, a energia era incontrolável, eles não tinham medo de nada.”
O marchand diz que conheceu Keith Haring em 1979. “Foi quando resolvi transformar meu apartamento na Rua 27 em uma galeria de arte. Ele e outro estudante da Escola de Artes Visuais de Nova York vieram me ajudar a pintar o local.” Shafrazi recorda que Haring não planejava suas obras, não fazia sequer um esboço. “Ele acordava e perguntava: ‘Onde vou pintar?’ Você não encontra mais este tipo de energia. O Basquiat era muito carismático. Entrava numa sala e todos olhavam para ele. Sua beleza, sua energia, seu estilo eram únicos.”
Ele lamenta que as pessoas não tenham entendido, na época, a exposição conjunta de Basquiat e Warhol. “Só consegui vender um quadro por 45 mil dólares. Hoje, essas telas valem milhões. O público, os críticos não entenderam que eles compartilhavam vida e arte, e crucificaram os dois, os destruíram. Eles se distanciaram, ainda que se respeitassem e se adorassem, a amizade nunca mais foi a mesma, aquele momentum foi rompido.”
Dias depois, quando eu estava prestes a deixar Nova York, recebi uma ligação de Eric Goode, com quem eu tentava falar havia quase dois meses. Shafrazi cumprira a sua promessa de me colocar em contato com o dono e a alma do Area. A conversa por telefone ocorre em meio à confusão sonora no Aeroporto Internacional de Newark, em Nova Jersey. “O segredo era sempre convidar Andy Warhol antes. Se ele vinha, todos o seguiam”, conta Goode, que tem hoje 67 anos. “Em Nova York, ser visto no mesmo local frequentado por Andy significava que você estava no lugar certo.”
Mesmo assim, para ele não foi fácil reunir todos aqueles artistas no Area. “Eu era amigo do Keith Haring, do Kenny Scharf e do Jean-Michel Basquiat, que namorou a minha irmã. Os mais velhos, como John Chamberlain e David Hockney, foram mais difíceis. Mas Hockney tinha um namorado mais jovem que conhecíamos e foi por intermédio dele que conseguimos convidá-lo”, ele se lembra. “Queríamos ter na exposição e na foto artistas variados, da alta arte contemporânea, mas também da arte não tão conceituada, como ilustradores. A ideia era fazer uma sátira desse mundo em que uma obra é vendida por milhões de dólares. Por isso incluímos gente como o LeRoy Neiman, que era ilustrador da revista Playboy.”
Na hora da foto, três penetras acabaram se infiltrando na imagem: a mulher desconhecida, o músico John Lurie, que hoje se dedica às artes plásticas, e Julian Schnabel, que, aliás, tinha se recusado a participar da exposição temática no Area. “Julian é um velho amigo, mas seu ego era maior do que todos os outros egos. Ele me falou que tinha reservado uma mesa no Mr. Chow, e eu disse: ‘Mas como, se eu reservei o restaurante todo?’ Ele respondeu: ‘Minha mesa é no mezanino, você não reservou a parte de cima do restaurante.’ E ele ficou lá em cima, olhando para todo mundo, até que, por fim, acabou entrando na foto. Ele se achava mais importante que os outros. Mas esse é o Julian, essa é a graça dele.”
Goode recorda que teve muito trabalho para não ferir egos ao separar os lugares de cada um nas mesas do jantar. “Tinha que assegurar que as pessoas iam gostar de estar umas ao lado das outras, ou que pelo menos iriam se tolerar.” Ele exalta Alex Katz. “É o artista com menos ego que conheço. Adorável.” Goode admite que não convidou para o jantar nenhuma das mulheres que participavam da exposição, como Jenny Holzer ou Barbara Kruger. “Na época, eu não as conhecia.” Sobre a desconhecida, afirma: “Ela é a única da foto que não me lembro de ter convidado. Mas acho que era uma artista latino-americana, amiga da Bianca Jagger, que também foi ao jantar.”
A entrevista é interrompida pelo aviso de que tenho que embarcar, mas a pista de Jagger me deixa esperançosa. Eu a conheci anos atrás, em um jantar em Nova York. Ela não se lembraria de mim, mas poderia ser o início de uma conversa. Seria uma brasileira a mulher da foto? Escrevo para a assessora da atriz e ativista. Para minha surpresa, a própria Jagger (hoje com 79 anos) me responde. “Não sou a mulher da foto e não a conheço. Eu estava no jantar e já vi fotos do grupo que me incluem. Por que você não tem essas fotos? Eu também apareço de óculos escuros em outras fotos tiradas durante o jantar.”
Aqui, outras fotos tiradas durante o jantar:
No dia 23 de abril de 1985, o ator Bernard Zette sentou-se em um banco na entrada do Mr. Chow, próximo à chapelaria. Quando um convidado chegava, ele se apresentava e pedia que assinasse no livro de honra. Só que o livro era o collant e a legging de cor salmão que Zette usava. Naquela noite, ele decidira se vestir como uma mulher. “Não lembro quem chegou primeiro. Alguns paravam e ficavam um tempo decidindo onde iriam assinar”, conta Zette por telefone, enquanto dirige o carro em uma estrada na Califórnia. “O Andy assinou no meu braço, o Keith fez um desenho na minha bunda, o Jean-Michel se assustou e se recusou a assinar quando chegou, mas depois voltou atrás e desenhou uma coroa [de fato, escreveu o seu nome nas pernas de Zette]. Acho que o William Wegman desenhou a cara de um cachorro no meu pé. Até o Julian Schnabel assinou, depois que viu todo mundo assinar: voltou e estampou as iniciais JS bem no meu peito. Foi meio escandaloso, porque a gente sabia que Julian não ia participar da exposição na Area e ele apareceu no jantar. Quando todos já haviam assinado e eu estava indo embora, o Eric Goode, que sempre foi muito gentil comigo, disse para eu ficar para o jantar.”
Zette acabou se sentando na cabeceira de uma das mesas longas, ao lado de Hockney e Haring, tendo à sua esquerda um jornalista e Mapplethorpe. “Na outra cabeceira, estava o Andy, com uma cara de que não estava gostando do seu lugar. Teve uma hora em que o Keith foi falar com ele, e o Andy disse que queria estar perto de nós na mesa. Lembro da cara que ele fez de ‘fiquei no pior lugar’.”
Depois do jantar, começou o ensaio fotográfico. “Acho que no início eram só os artistas. Em seguida, chamaram os quatro sócios da Area: o Eric, o Shawn, o Darius e o Christopher. Eles se agacharam na frente. Em algum momento, o Eric disse: ‘Bernard, você deveria estar aqui também.’ Eu não conseguia me imaginar no meio de todos aqueles artistas, mas o Eric me chamou: ‘Agacha aqui.’ Então me agachei. Enquanto isso, Michael Halsband ia fazendo as fotos. Tenho quase certeza de que não apareço nas primeiras imagens, como também não aparece a mulher que você procura.”
Zette, que tem 66 anos, conta que leu um artigo em que identificavam a mulher desconhecida, mas ele não lembra onde. Em alguns momentos, percebo que se emociona. Até que ele me diz: “Obrigado pela viagem ao passado. Não sei se você notou, mas muitas lágrimas caíram durante a nossa conversa. Essa é uma das minhas memórias mais queridas: estou no meio de todas as pessoas que eram alguém no mundo da arte em Nova York. Foi espetacular. Nunca mais vai existir um lugar como o Area, em que uma pessoa normal podia ficar lado a lado da pessoa mais famosa do mundo. Foi único. O mundo não funciona mais assim.”
Marco uma conversa por telefone com Jennifer Goode, a irmã de Eric Goode que também ajudava no Area. “Lembro que comprei todos os presentes que demos aos artistas durante o jantar. Fiquei exausta depois de passar um ou dois dias dirigindo minha picape para cima e para baixo atrás do que comprar. E ainda tive que embrulhar tudo”, ela recorda. “Alguns desses presentes aparecem nas fotos [de Buchanan], como a gravata de palhaço de circo que comprei para o David Hockney. Para o Jean-Michel Basquiat demos um Etch a Sketch [brinquedo para desenhar que no Brasil foi chamado de Traço Mágico]. Lembro que comprei luvas ou alguma coisa da Harley-Davidson para o Mapplethorpe. Também comprei um daqueles coletes de construção usados pelos peões de obra, com o escrito ‘perigo’, que o Julian Schnabel acabou usando.”
Jennifer Goode, que vive na Califórnia, diz que perguntou ao irmão porque ele não havia convidado para o jantar as artistas Jenifer Bartlett, Jenny Holzer ou Barbara Kruger, que participavam da exposição no Area. “O Eric falou que, na época, não as conhecia, mas isso não é desculpa, já que alguém do Area falou com elas para que participassem do tema Arte. Ou seja, tínhamos os contatos. Mas o que eu sei é que as coisas eram sempre feitas em cima da hora, nada era planejado com muita antecedência.”
Ela diz que não foi convidada para o jantar nem para a foto. Mas, olhando as imagens feitas por Buchanan, eu a reconheço em uma das mesas. “Toda essa época é um borrão na memória, uma grande confusão”, diz ela. Jennifer não reconhece a mulher desconhecida e me aconselha a falar com Elizabeth Saltzman que, na época, namorava Eric Goode. “Ela não bebe, então deve se lembrar. O John Lurie também tem boa memória.” Recordo de Eric Goode me aconselhar a não ter muitas expectativas sobre a memória das pessoas. “Era muita droga, muita bebida, muitas festas, não espere que lembrem com clareza”, ele tinha me dito.
Resolvo rever a minissérie Diários de Andy Warhol, na esperança de encontrar alguma imagem que me leve a uma nova linha de investigação. A essa altura já tenho em casa um grande mural com fotos, post-its, nomes e setas que se cruzam, como aqueles que vemos nos filmes policiais. Encontro na minissérie uma imagem do jantar em que um casal aparece conversando. Dura poucos segundos. A mulher mexe no cabelo. Não se vê muito bem o homem. Do lado direito, David Hockney e Francesco Clemente aparecem conversando. No outro lado, ao fundo, é possível distinguir a silhueta de uma mulher. Volto à imagem várias vezes e comparo com a foto do grupo para ter certeza: esta mulher parece ter a mesma roupa e o mesmo colar da desconhecida da foto. Será que este casal que vejo no filme foram os amigos que a levaram àquele jantar e a incentivaram a entrar na fotografia, como supõe Michael Halsband?
O meu objetivo é falar com o maior número possível de artistas da foto. Nove deles estão mortos: Andy Warhol (1928-87), Jean-Michel Basquiat (1960-88), Keith Haring (1958-90), Robert Mapplethorpe (1946-89), Dennis Oppenheim (1938-2011), John Chamberlain (1927-2011), Ronnie Cutrone (1948-2013), LeRoy Neiman (1921-2012) e Arman (1928-2005).
Tenho doze nomes pela frente: os americanos Julian Schnabel, John Lurie, Kenny Scharf, Michael Heizer, Alex Katz, Red Grooms, William Wegman, o irlandês naturalizado americano Les Levine, o britânico David Hockney e os italianos Sandro Chia, Stefano Castronovo e Francesco Clemente. Dois deles são impossíveis de alcançar, pela fama e pela idade: Hockney, de 87 anos, e Katz, 97. Apesar de minhas inúmeras tentativas, não consigo entrevistá-los.
O pintor e cineasta Julian Schnabel, de 73 anos, diretor do filme Basquiat (1996), fala comigo da Itália, pelo FaceTime (ele não revelou em que cidade estava). O artista se recosta em um sofá e pede que eu lhe mostre de novo a fotografia, enquanto em torno dele reina uma algazarra típica dos almoços de domingo em família. “Não acredito que estamos todos juntos nessa fotografia. Que foto engraçada, louca”, ele comenta. “Qual é mesmo o nome desse cara de bigode com uma taça de champanhe?”, pergunta. “LeRoy Neiman”, eu respondo. Schnabel conta: “Ele ainda está vivo? Ele não era alguém que… Eu achava o trabalho dele kitsch. O Andy Warhol tirou uma foto minha com ele. Foi estranho.” Parece claro que Schnabel não gostou nem um pouco de ter sido fotografado com Neiman, o ilustrador da Playboy.
Perguntei ao artista pela mulher desconhecida. Schnabel continua a falar como se não tivesse me ouvido. “Olha o John Lurie… Tinha esquecido que o David Hockney estava lá. Eu adorava o trabalho de John Chamberlain. O Francesco Clemente e o Jean-Michel eram meus amigos. Tony Shafrazi é meu amigo desde sempre. O Joseph Glasco está atrás dele na foto [no crédito, Michael Halsband diz que é Les Levine]”, ele descreve. “Havia nessa época uma conexão grande entre artistas americanos e europeus. Olha o Robert Mapplethorpe. O Ronnie Cutrone trabalhava para o Andy Warhol. Dennis Oppenheim morreu. O Alex Katz está vivo.”
Volto a perguntar pela desconhecida. Schnabel diz que precisa levar a filha de volta para casa e pede que eu volte a ligar em uma hora. Mas, quando retorno, não atende. À noite, dentro de um táxi em Lisboa, onde vivo, sou surpreendida por uma chamada dele, com o ruído de crianças pequenas ao fundo. “Só queria dizer que aquela fotografia é histórica, captura um momento único. O mundo era outro.” Em nenhum momento, Schnabel fala que foi um penetra na foto.
John Lurie, saxofonista e cofundador do grupo musical The Lounge Lizards, ator em filmes de Jim Jarmusch, Martin Scorsese e Wim Wenders, não tem qualquer embaraço em admitir que foi um penetra. Com uma camisa de estampa quadriculada, Lurie é o segundo da direita para a esquerda, no topo da foto. “Eu passei na casa do Julian Schnabel depois de jogar basquete”, me diz Lurie, em uma troca de e-mails. “Ele me emprestou uma camisa e sugeriu que fôssemos comer fora. Eu não tinha a mínima ideia de que íamos ao Mr. Chow. Eu não fazia parte do show de artistas do Area nem tinha sido convidado.”
Ele conta que era muito próximo de Basquiat, mas que os dois viviam brigando. Quando começaram os preparativos para a foto, Basquiat gritou: “John Lurie não pode aparecer na foto, ele não é um artista.” E gritou novamente. “Acontece que Jean-Michel era a única pessoa ali que sabia que eu era um artista”, diz Lurie. “Nós tínhamos passado centenas de horas pintando juntos quando ele era mais jovem. Eu não tinha qualquer intenção de aparecer na foto, mas a veemência de Jean-Michel me fez mudar de ideia. Então, quando eles estavam prontos para fotografar, saí correndo por trás e entrei na foto. É por isso que o William Wegman [à esquerda de John Lurie] está rindo e o meu braço está levantado naquela posição. E é por isso também que estou usando uma camisa que nunca usaria, a menos que fosse cortar lenha”, conclui. Hoje com 72 anos, Lurie se dedica quase que inteiramente à pintura. Respondo ao e-mail tentando puxar por sua memória. Mas ele diz: “Não sei quem é a mulher que aparece na foto. Ela parece estar com o Sandro Chia.”
Depois de algumas tentativas, consigo falar com Sandro Chia, de 78 anos. Entre 1984 e 1985, o artista italiano dava aulas na Escola de Artes Visuais de Nova York. Com Francesco Clemente, ele era um dos representantes da Transvanguarda, o movimento neoexpressionista italiano. “Aquela época foi marcada pela criatividade, a troca acirrada de ideias. Tudo era novo e nascia da energia do momento, que foi único, um milagre”, descreve Chia, por telefone, da Itália, onde, além de pintar, produz vinhos com seu filho nas terras de seu Castello Romitorio, em Montalcino, na Toscana. Ele conta que, desde que lhe escrevi, tenta lembrar se conheceu a mulher sem identidade. “Não me recordo de ter conversado com ela, acho que não troquei nenhuma palavra. Eu era muito cheio de mim mesmo”, confessa.
A escritora Tama Janowitz, que acompanhava o artista Ronnie Cutrone no jantar, se recorda que Chia estava na mesma mesa que ela. “Ele era muito musculoso, parecia um Minotauro, fumava um cigarro atrás do outro e depois esvaziava o cinzeiro debaixo da mesa”, relembra. “Eu me lembro da hora em que todos foram tirar a fotografia: só homens brancos, com exceção do Basquiat. O mundo das artes era dominado pelos homens, as mulheres só tinham vez como negociantes de arte e olhe lá. As mulheres eram invisíveis. Eles só olhavam para uma mulher se ela fosse lindíssima ou de uma família rica.” No livro Slaves of New York (Escravos de Nova York), publicado em 1986, Janowitz descreve a noite no Mr. Chow, mas preferiu usar nomes fictícios. “Tudo era delicioso, o serviço era impecável, o décor glamoroso, não havia restaurante chinês com tanto estilo como o Mr. Chow.” Mas sobre a mulher desconhecida, ela também nada sabe.
“Acho que é a Judy Rifka”, dispara Kenny Scharf, quando conversamos por telefone, ele no seu estúdio na Califórnia. Em seguida, duvida do próprio palpite. “Talvez não… Quem o Eric Goode acha que é?”, pergunta. “Acho que a gente precisava de mulheres nesta foto, não? Talvez ela seja apenas uma pessoa misteriosa ou a foto mostre que a gente não incluía mesmo as mulheres, nem tínhamos consciência disso. Graças a Deus, Jean-Michel estava lá, porque, do contrário, seriam apenas homens brancos.”
Scharf lembra os quatro anos intensos em que conviveu com Warhol, Haring e Basquiat. “Andy era nosso herói. Jean-Michel se tornou uma figura mítica. Keith foi um dos meus grandes amigos, moramos juntos. Ele é padrinho da minha filha mais velha. Sua obra é atemporal, eterna. Os três morreram um atrás do outro. Imaginar a quantidade de obras que Jean-Michel e Keith fizeram em tão pouco tempo de vida é impressionante. Eles se foram, eu sobrevivi, foi duro.”
Scharf faz questão de falar do lado sombrio daqueles anos. Em quatro anos, morreram quatro dos artistas mais celebrados daquela foto: em 1987, Warhol, de complicações de uma operação de vesícula, aos 58 anos; em 1988, Basquiat, de overdose, aos 27 anos; em 1989, Mapplethorpe, em decorrência da Aids, aos 42 anos; em 1990, Haring, também de complicações da Aids, aos 31 anos. “Foi um tempo estranho”, reflete Scharf. “Ao mesmo tempo em que você queria ficar feliz com a sua carreira, bebia champanhe todas as noites, as pessoas estavam morrendo ao seu redor. A Aids, que era chamada de câncer gay, teve um impacto muito grande no mundo da arte naquela época. Eu ia a hospitais visitar pessoas que eram abandonadas pelas famílias, ia a funerais, participava de shows beneficentes para arrecadar dinheiro e pagar as contas de hospital de quem estava doente.”
Scharf, que tem 66 anos, foi casado com a baiana Tereza Scharf, que o conheceu num voo. Ligo para ela. “Quando cheguei a Nova York, em 1983, o nosso vizinho da frente estava morrendo de Aids”, recorda Tereza. “Eu morava no meio de um coqueiral na Bahia, um lugar superconservador, e caí num mundo com muita droga, álcool e sexo. Foi um choque, mas nunca tentei julgar ninguém, não é da minha natureza. Ao mesmo tempo era maravilhoso, era como um redemoinho impossível de ser parado.” Ela voltou para a Bahia e hoje mora a 30 km de Ilhéus, produzindo óleo de coco.
Tereza Scharf não se lembra se esteve no jantar no Mr. Chow quando a foto foi tirada, mas tem uma memória vívida da época. “As pessoas realmente queriam tornar o mundo melhor através da arte. Kenny e Keith pintavam em paredes nas ruas e em trens. Eles desejavam uma cidade com cor, porque naquela época Nova York era escura, sombria. O Kenny ia aos hospitais desenhar para que os amigos artistas sofrendo de Aids não morressem cercados de paredes brancas. Até quando íamos ao cinema com o Andy Warhol, tudo era arte, inclusive na hora de escolher as balas e a pipoca. A arte estava em todo o lado, com todo mundo, você entende?”
Meu passo seguinte é ligar para o artista italiano Stefano Castronovo, de 74 anos, que aparece no topo da foto, bem na quina da pilastra, entre Dennis Oppenheim e William Wegman, que está dando uma gargalhada. “É tudo um pouco confuso, porque íamos ao Mr. Chow muitas vezes”, diz Castronovo. “Eu me lembro dos camarões e que havia sempre muito champanhe, a taça nunca ficava vazia.” Ele pintava murais gigantes nas ruas de Nova York e colaborava com Warhol e Basquiat, entre outros. “Foi uma época extraordinária, todos os artistas se uniram. Isso não acontecia nos anos 1970. Foi como se todas as portas tivessem sido abertas e, de repente, como se todas as portas tivessem se fechado quando Andy Warhol morreu e muita coisa mudou.” Castronovo também não faz ideia de quem é a mulher.
Recorro então a Michael Heizer, um dos mestres da chamada land art, que utiliza a própria natureza como material artístico. Quando posou para a foto do Area, ele já estava trabalhando havia treze anos em City, considerada a maior obra de arte contemporânea do mundo: uma construção colossal de 2,4 km de comprimento e quase 800 metros de largura no deserto de Nevada que levou cinquenta anos para ficar pronta. “É verdade que você percebeu que a mulher entrou de penetra na foto?”, pergunto a ele, lembrando a história contada pelo fotógrafo Michael Halsband. “Não lembro nem do meu nome”, responde Heizer, bem-humorado. “Nem lembro como fui parar nessa foto. Eu conhecia os irmãos Goode porque fiz trabalhos para a boate.”
Sinto que posso reavivar a memória de Heizer, que hoje tem 80 anos. “Essa foto foi tirada para o convite do show no Area, que teve uma obra sua”, digo a ele. Dá certo. “Sim, eles tiveram uma escultura minha na pista de dança. Naquela época, a gente trabalhava de noite e dormia de dia. Nunca fui muito sociável, nunca falei muito, nunca fui a bares. Antes de chegar a Nova York, fiquei cinco anos sem sair do meu estúdio. Gosto de ficar comigo mesmo e fazer arte. Eu vivo para fazer arte. Quando crio algo é para transcender e chegar a um lugar melhor.”
Entre idas e vindas com os artistas, resolvi voltar à turma de Eric Goode e aos donos do clube Area. Eu imaginava que poderia conseguir uma pista mais segura com Elizabeth Saltzman, a namorada de Goode na época e que se tornou depois estilista, editora na Vogue e diretora da Vanity Fair. Ela estava com apenas 18 anos quando a foto foi feita. Não aparece na imagem, mas pode ser vista em várias outras tiradas naquela noite por Ben Buchanan, com seu vestido preto curto de látex, na companhia de Basquiat e outros artistas. “Você já deve saber que não bebo nem consumo drogas, mas minha memória é péssima”, diz Saltzman, em tom de desculpa. Ela relembra com saudade aqueles anos em que se sentia uma figurante entre os que frequentavam o Area. “Você nunca sabia se quem estava do seu lado era um grande galerista ou um especialista em vulcões. Era tudo tão espontâneo. Sinto falta desse espírito de comunidade que o Eric e os outros sócios do Area conseguiram criar.” Mas Saltzman também não tem ideia de quem seja a mulher desconhecida.
Em Lisboa, encontro Shawn Hausman, um dos sócios do clube (na foto, o segundo da direita para a esquerda, agachado). Ele está de passagem pela cidade e o encontro ao lado de seu filho, o jovem August, em um bar com vista para o centro histórico de Lisboa. Hausman, hoje com 68 anos, recorda que Darius Azari, outro sócio da Area, ficou furioso quando Basquiat despejou molho em sua camisa na hora da foto. Mas Hausman também não lembra quem é a mulher.
Telefono, então, para Darius Azari, que vive na Dinamarca. Ele compara os anos 1980 em Nova York com os anos 1920 e 1930 em Paris e Berlim. “Nova York, naquele momento, era o único lugar onde tudo aquilo podia acontecer. Nós vivemos um momento muito particular num determinado tempo histórico. Essa fotografia, graças à genialidade do Eric Goode que conseguiu juntar todos naquela noite, simboliza esse momento único.”
Azari, que tem 65 anos, conta que admirava a obra de Basquiat, mas que o artista era uma pessoa difícil. “Era desagradável, sempre o achei malcriado”, diz. E revela que o “molho” jogado por Basquiat em suas costas na verdade era outra coisa. “No dia da foto, eu tinha chegado de Los Angeles, estava com jet lag, e Jean-Michel ficou de pé atrás de mim e despejou sorvete nas minhas costas. O sorvete derreteu. Eu fiquei chocado e chateado. Quando a gente voltou para a mesa, eu estava conversando com alguém e senti algo por trás: era o Jean-Michel assinando nas costas da minha camisa. Hoje, pode parecer fantástico, mas não achei a mínima graça na hora. Tive que andar com aquela camisa a noite toda, depois a joguei fora. Não me lembro de mais nada, nem de quem é essa mulher.”
Um ano e meio depois do início da procura pela identidade da mulher desconhecida, estou na estaca zero. Foram muitos encontros, entrevistas, pistas falsas, negativas. Enredada em uma teia cada vez mais misteriosa, decido pedir ajuda a um policial europeu que trabalhou em Nova York. Embora este não seja um caso de polícia, ele me dá novas dicas sobre que caminho tomar nessa minha busca.
Sinto que a investigação se tornou para mim um ponto de honra. Espero retornar um dia às páginas da piauí com a resposta do enigma: quem é essa mulher que impôs sua presença em uma das fotos mais memoráveis da história das artes plásticas contemporânea.
Era da maneira acima que eu havia terminado este texto. Entretanto, um dia antes de enviá-lo ao diretor de redação da piauí, fui convidada para o jantar de aniversário de uma amiga em Coimbra, no dia 3 de março passado, segunda-feira de Carnaval. Lá, encontrei Carlos Antunes e Désirée Pedro, diretores da Anozero – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, com os quais eu já havia trabalhado. Conversa vai, conversa vem, acabei contando sobre a minha investigação e mostrei a foto para eles.
Dois dias depois, comecei a receber por volta de dez da noite, mensagens de Carlos Antunes e Désirée Pedro, enviadas quase ao mesmo tempo. “Talvez tenhamos uma pista”, ele escreveu. “Temos uma pista genial”, disse ela. Os dois estavam jantando, em Madri, com a galerista mexicana Issa Benítez, o marido dela e Cuauhtémoc Medina, um dos principais críticos e curadores de arte do México, que durante seis anos foi curador do museu Tate Modern, em Londres. Medina reconhecera a mulher da foto. Antes mesmo que o jantar terminasse, Antunes me transmitiu o recado do curador: “Essa mulher é Haydeé Rovirosa, mexicana.” Perguntei se ela ainda vivia. “Sim, vive”, respondeu, e me enviou o contato dela. “Mas espera. A Issa, que é muito amiga da Haydée, está enviando agora uma mensagem para ela”, avisou Antunes.
Menos de meia hora depois da primeira mensagem, recebo, via Désirée Pedro, esta resposta de Rovirosa, em espanhol: Si, fue en Mr. Chow en 1985.
Antunes me explica que Rovirosa, que vive na Cidade do México, é filha de um governador milionário e tornou-se grande mecenas de jovens artistas mexicanos. “Ela está esperando que você entre em contato”, conclui. Escrevo para ela e marcamos uma entrevista para o dia seguinte.
Meu pensamento dispara em todas as direções. É difícil acreditar na sucessão de acontecimentos que levaram a essa pista, que parece certeira. Se eu não tivesse ido à festa de aniversário, nem levado a foto e comentado sobre minha busca, nada disso estaria ocorrendo. Procuro fotos de Haydeé Rovirosa na internet. A maioria das imagens é recente, não encontro nenhuma fotografia dos anos 1980. Como terei a certeza de que é a mesma pessoa? Lembro a minha conversa com Eric Goode, há quase um ano e meio, quando ele me disse que a mulher na foto era uma artista latino-americana. Termino a noite com uma mensagem enviada por Antunes: “Já o sabíamos, a vida é a arte do encontro.”
Passo a quinta-feira, dia 6 de março, na expectativa do encontro virtual com Rovirosa. Por volta de nove da noite, no horário de Lisboa, iniciamos a conversa por videoconferência. “Sim, eu sou a mulher da foto, eu estava com 30 anos e a história é curta”, ela responde, sorridente, tão incrédula quanto eu. Olho para a elegante senhora à minha frente, na tela do computador, tentando encontrar traços que confirmem a semelhança física com a mulher fotografada há quarenta anos. O cabelo tem outro corte. Ela usa uns óculos meio escuros que me impedem de ver claramente os seus olhos. Tem senso de humor.
Ela conta, com desenvoltura: “Eu estudava na Art Students League, em Nova York, e tinha essa fantasia de ser artista, o que nunca aconteceu. Um dos meus professores deu a dica de que havia um restaurante caro e badalado, o Mr. Chow, cujo dono apoiava os artistas. Lá, havia uma espécie de código: você se sentava à mesa, dizia que era artista e os empregados traziam um menu com os preços pela metade. Comecei a ir sozinha, com amigas, virei frequentadora assídua. Preferia jantar, porque era quando via muitos artistas. Eu adorava. Um dia, estava com uma amiga muito bonita, e o Jean-Michel Basquiat veio à nossa mesa, perguntou se podia se sentar e conversou com a gente. Fiquei emocionadíssima. Ele jogava charme para a minha amiga, mas nunca passou disso. Era muito simpático. Depois desse encontro, sempre que me via, falava comigo.”
Naquela noite de 23 de abril de 1985, quando chegou ao Mr. Chow, Rovirosa foi impedida de entrar porque o restaurante estava fechado para uma festa particular. Mas Basquiat a viu, disse que a jovem era artista e a entrada foi liberada. Ela se lembra bem do momento da foto. Quando os artistas se preparavam para a pose, Basquiat fez um sinal para que ela deixasse a mesa onde estava e se juntasse ao grupo na foto. “Como era ele que me chamava, achei que tinha o direito de entrar”, relembra. “Mas então alguém gritou: ‘Quem é ela? Não pode estar na foto.’ O Basquiat respondeu que eu era uma artista, que me conhecia e eu fiquei.” Rovirosa não sabia o motivo daquela foto e achou melhor não perguntar, com receio que descobrissem que era uma penetra. Ela acabou a noite um pouco alterada, porque aqueles eram tempos de muito álcool e muita droga.
Rovirosa vinha de uma família muito católica e conservadora, e mudou-se para a cidade depois de se divorciar. “Eu era uma espécie de ovelha negra, não sabia o que queria. Nova York significou liberdade”, diz. Apesar disso, ela nunca frequentou a boate de Eric Goode nos dois anos e meio em que viveu na cidade. Quando Rovirosa retornou ao México, resolveu estudar história da arte, fez mestrado, doutorado e começou a trabalhar com jovens artistas mexicanos.
“Acho que, uns dez anos depois do jantar, a revista Vanity Fair fez uma reportagem sobre os anos 1980 em Nova York, publicou a foto e só então eu soube que a imagem tinha sido usada num convite para o Area”, conta. “Eu era a única que aparecia como pessoa não identificada no artigo. Como tinha o nome do fotógrafo, escrevi para ele e comprei a foto.” Por que ela nunca procurou se identificar? “Não me sinto bem chamando atenção, não gosto de ser protagonista”, diz. “Quem conhece essa história é quem frequenta a minha casa e já viu a foto.” Durante a entrevista, reparo que a foto está pendurada na parede do escritório de sua casa.
Mas eu tinha ainda outras duas questões, cujas respostas buscava havia um ano e meio. “Por que você não olhou para a câmera e para quem afinal estava olhando?”, pergunto. Ela explica: “Gritavam o tempo todo para olharmos para a câmera. Mas eu não estava nem um pouco interessada em olhar para a câmera. Estava completamente fascinada pelos artistas. Olhava para o David Hockney e para o Andy Warhol, que eram os mais conhecidos. Foi uma experiência emocionante, como se eu tivesse tocado o céu.”
Confesso que tenho dificuldade em assimilar a velocidade desta reviravolta final. Gostaria de ver outras imagens de Haydeé Rovirosa da época para ter certeza de que estou falando mesmo com a mulher da fotografia. Ela aponta para a estante onde tem fotos não digitalizadas. Promete procurar e me enviar. Também combinamos de nos encontrar algum dia. Horas depois de nossa conversa, ela me envia duas fotos de 1988 e 1989.
Em ambas, aparece de perfil, como na foto no Mr. Chow. Em uma delas está com a irmã, ambas grávidas. A semelhança com a mulher fotografada por Michael Halsband, em 1985, parece evidente: o cabelo curto, o nariz, a expressão do rosto sorridente. Mesmo assim, a fim de ter uma garantia, eu envio as fotos para amigos que acompanham a saga desde o início. Todos confirmam a semelhança.
A minha busca pela mulher desconhecida tinha chegado ao fim. Mas não quero que essa história acabe. Apesar da excitação, resisto em terminar a procura dessa maneira, tão bruscamente. Há algo mais a entender sobre aquela foto, aquele jantar, aquela época. Por exemplo: além de ser a única mulher entre os homens, quase todos brancos, Haydeé Rovirosa era a única latino-americana, uma outsider, como ela mesma diz. O que significa isso?
Também há algo mais a entender sobre mim mesma. Por que, entre tantos artistas importantes e conhecidos, que olhavam diretamente para mim, eu me fixei justamente na mulher que olhava para o lado, a desconhecida, aquela que não pertencia? Por que o mistério é sempre tão irresistível? Reflito sobre a frase de Eric Goode de que a ideia é mais forte que o dinheiro – e concluo que, para mim, o mais importante em tudo isso não era simplesmente descobrir a identidade da mulher, mas realizar a própria busca.
Mas essa é outra história.
