cartas
Abr 2026 23h41
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CAPITALISMO SUPERINDUSTRIAL
Li, com uma mistura de perplexidade irritada e curiosidade quase mórbida, o texto de Celso Rocha de Barros, A utopia levada a sério (piauí_233, fevereiro). Não é um equívoco, é uma sucessão deles. Não é um deslize inicial, é um tropeço conceitual que já anuncia o restante da caminhada claudicante.
Começa mal, e começa mal porque começa confundindo o que não deveria ser confundido: experiências socialistas do século XX não são, nem nunca foram utopias. Não se trata de filigrana teórica, trata-se de distinção básica, quase elementar, entre o socialismo dito científico de Marx e o socialismo utópico que ele próprio se esforçou por superar. Ignorar isso não é ousadia, é descuido, ou pior, é um certo exibicionismo intelectual desatento.
Depois, como quem muda de assunto sem realmente mudar, entra-se no embate entre Marx e Habermas conduzido por Haddad. Aqui, o texto não erra frontalmente, ele escorrega com elegância, o que talvez seja mais grave. Dá-se a entender que Haddad “dá mais razão ao alemão mais velho”, mas não se explica, não se sustenta, não se demonstra como se pode conciliar essa suposta inclinação com a permanência no campo marxista, especialmente quando Habermas trata o marxismo como um pensamento de inclinações metafísicas. Não é uma tensão produtiva, é uma lacuna maldisfarçada.
E então vem o ponto alto, ou melhor, o ponto mais baixo da argumentação: a tese de que as experiências socialistas do século XX seriam “casos particulares de acumulação primitiva de capital”. Não é uma hipótese provocadora, é uma analogia grosseira. Equiparar essas experiências à colonização brutal, à escravidão sistemática, à morte em escala industrial de povos inteiros não é apenas impreciso, é intelectualmente desonesto, ou, no mínimo, preguiçoso.
Mais curioso ainda, e aqui o texto revela seu silêncio mais eloquente, é o que ele escolhe não dizer. Não é que ignore, é que evita. Evita mencionar que o neoliberalismo do final do século XX reproduz, sob formas mais sofisticadas e igualmente vorazes, processos massivos de transferência de riqueza. Evita olhar para o presente enquanto critica o passado. Não é distração, é escolha.
E então, como se fosse um detalhe de rodapé, mas não é, surge a indulgência com a experiência iugoslava. Não é um elogio, é quase um afago teórico. A tal “autonomia das empresas” aparece como experimento interessante, quase elegante, quase moderno. Não é contradição, é, ao que parece, uma espécie de tolerância seletiva. Curioso, porque, enquanto isso, na outra ponta do mundo socialista, os chineses do tempo de Mao não foram tão generosos na avaliação: chamavam aquilo de experiência fascista. Não é um exagero retórico, é um diagnóstico político vindo de dentro do próprio campo que se reivindicava revolucionário.
E mais curioso ainda, ou talvez apenas mais incômodo, é lembrar que essa autonomia tão celebrada convivia com realidades menos teóricas e mais concretas. Não é abstração, é geografia: a Ilha de Goli Otok. Lá, presos marxistas-leninistas-stalinistas – esses inconvenientes para a narrativa – não pareciam particularmente entusiasmados com as virtudes do modelo. A autonomia, ao que tudo indica, não se estendia a eles.
No fim, não é uma reavaliação histórica, é uma seleção conveniente do que lembrar e do que esquecer. Não é complexidade, é assimetria. E talvez seja justamente aí que o texto se revela por inteiro.
LÚCIO EMÍLIO DO ESPÍRITO SANTO JR._BOM DESPACHO/MG
RESPOSTA DE CELSO ROCHA DE BARROS: Lúcio, a distinção entre socialismo científico e utópico sempre foi problemática, mas tornou-se definitivamente nociva quando os regimes marxista-leninistas passaram a tratar qualquer pronunciamento de sua elite dirigente como ciência. A deriva autoritária do socialismo real provou que não há qualquer lei da história que garanta o desenvolvimento automático de uma sociedade superior após a revolução; projetos de sociedade futura, portanto, precisam ser apresentados claramente para a deliberação democrática.
Quanto ao diálogo com Habermas, se o marxismo não for capaz de absorver insights de outras contribuições teóricas (à maneira proposta por Fredric Jameson, por exemplo), ele não serve para muita coisa. Não sei se Haddad está preocupado em ser visto como ainda pertencente ao campo marxista, mas eu já desliguei meu “marxímetro” faz tempo, sem jamais renegar as imensas contribuições da tradição.
A caracterização das sociedades de tipo soviético como acumulação primitiva não é minha, é de Haddad, mas ela é sólida: a semelhança entre a brutal coletivização da agricultura stalinista e a exploração colonial, por exemplo, é evidente.
Alguns problemas do neoliberalismo são debatidos no livro resenhado (na discussão sobre as classes sociais, especialmente), mas não pode ser obrigatório discutir o neoliberalismo quando se fala de todo e qualquer assunto.
Finalmente, a experiência de autogestão iugoslava foi importante, mas o regime de Tito era mesmo uma ditadura. Só advirto que, se tivermos que aplicar mal o conceito de fascismo a algum episódio histórico, a China de Mao é um caso muito mais claro que a Iugoslávia de Tito. Se você não critica os gulags de Stálin, é difícil criticar, de forma consistente, o gulag de Goli Otok só porque lá muitos dos prisioneiros eram stalinistas.
Lúcio, você não precisa deixar de ser marxista, mas precisa de uma injeção de Hannah Arendt.
EMICIDA
Acabei de ler a reportagem feita por Guilherme Henrique sobre a fase mais recente da carreira do Emicida, e estou emocionado (“É dilacerante”, piauí_235, abril). Sou muito fã do Leandro desde 2013, aproximadamente, e acompanhar o crescimento pessoal e profissional dessa figura é extremamente gratificante. O Emicida Racional vl 2 é primoroso e lindo, uma síntese de tudo que ele fez de melhor nessas duas últimas décadas. Viver bem é exatamente isso: ser humilde e estar sempre disposto a recomeçar. Obrigado, piauí!
PEDRO MARQUES LOPES_SÃO PAULO/SP
LÚCIO FLÁVIO
Ao ler a matéria sobre o jornalista Lúcio Flávio (O insubmisso – partes I e II, publicadas pela piauí_234 e 235, março e abril), me veio à mente que pessoas como ele são raras, porém imprescindíveis ao mundo. São poucos os que dão a cara a tapa para que injustiças e falcatruas na sociedade sejam informadas e denunciadas. Me lembrei de um professor, psiquiatra e psicanalista, que dizia que pessoas assim – falando de forma irônica – no fim teriam uma igrejinha em homenagem à luta que se dedicaram a abraçar. Falava no sentido de chamar nossa atenção para os perigos que empreitadas como essa do Lúcio Flávio poderiam colocar em nossas vidas. Porém, hoje mais velho e experiente, vejo que essas pessoas já nasceram com um DNA de luta e indignação frente às injustiças do mundo de qualquer natureza. Não ficam paradas e caladas, vão à luta. O importante é que pessoas que não têm esse ímpeto, seja lá por qual motivo, não as critiquem e, se puderem, as ajudem no anonimato com dinheiro, informações ou outras maneiras que estiverem ao seu alcance. Como já dizia Martin Luther King: “O que preocupa não é o grito dos corruptos, violentos, desonestos, sem caráter, sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.”
LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP
O título da matéria O insubmisso, assinada por João Moreira Salles, retrata fielmente a verdadeira saga jornalística do paraense, natural de Santarém, Lúcio Flávio Pinto. Se na primeira parte narra sua formação e desempenho na considerada grande imprensa, as grandes emoções estão na segunda, quando ele chuta o pau da barraca, deixando a zona de conforto de jornalista reconhecido nos principais jornais de Belém e correspondente do Estadão, com salário garantido e toda uma estrutura de trabalho, e resolve criar um jornal só dele, o Jornal Pessoal, quinzenal, onde podia, com toda liberdade, praticar algo impossível nas demais publicações, todas sujeitas aos interesses de seus proprietários, principalmente quando envolvia questões sensíveis aos donos do poder local.
Com coragem, pode-se dizer que foi um dos pioneiros do jornalismo investigativo, por meio das reportagens primorosas sobre os casos mais escabrosos no seu estado natal, enfrentando os poderosos, pondo em risco a própria vida. Ferrenho defensor da Amazônia contra seus predadores, Lúcio Flávio é um verdadeiro herói nacional, tendo sido o único brasileiro incluído entre os 100 mais importantes jornalistas da ONG Repórteres sem Fronteiras.
O jornalista afastou-se das atividades em 2023 por problemas de saúde, mas deixou esse grande legado, ora resgatado pela excelente matéria da piauí em dois tempos. Aliás, o Lúcio Flávio deve vibrar com as reportagens investigativas dos jornalistas desta revista, que divulgam as mazelas de nossa política com total liberdade, algo fundamental no jornalismo independente e de qualidade.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
PALESTINA
O texto de Ricardo Lísias A política da memória (piauí_235, abril) – e dos colaboradores (in)diretos – é um belo retrato do poder da literatura, pois através dela a memória do passado não morre. O desenvolvimento do texto, que trata dos autores palestinos em seus dramas, romances e causas políticas faz lembrar o livro Persépolis de Marjane Satrapi (sobre a situação do Irã). Que a literatura continue florescendo! Parabéns pela questão literária abordada.
RAMON REINERT CENSI_BLUMENAU/SC
AGRADECIMENTO
Meu nome é Eduardo, muito prazer. Sou estudante de direito na PUC-Rio e esta mensagem é para expressar meu sincero agradecimento por vocês permitirem que não assinantes acessem algumas matérias caso façam login no site da piauí. Obrigado.
Como estudante, é fundamental acompanhar de perto as reportagens e as “questões X” publicadas por vocês, todas com uma qualidade ímpar. Por questões financeiras, não consigo ter uma assinatura no momento, mas o conteúdo da revista é essencial para a minha formação acadêmica e compreensão da realidade do mundo.
Parabéns pela iniciativa e muito, muito obrigado por manterem as portas abertas. De verdade mesmo.
EDUARDO OLIVEIRA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA MERCANTILISTA DA REDAÇÃO: Eduardo, não se trata de generosidade; é investimento. O mínimo que a piauí espera é que você também mantenha as portas abertas – sem paywall – depois que se formar, for dono de sua própria banca, e tiver ótimo trânsito com os ministros do Supremo.
ASSÉDIO
A tentativa de abordagem de uma situação de violência psicológica contra a mulher, pela narrativa confusa e elementos contraditórios ali expostos, pode ter alcançado o oposto do desejado (“A mulher é tão louca”, piauí_235, abril).
Percebe-se, desde o início, a inexistência de propósitos humanitários como a defesa da vida, a repulsa à interrupção da gravidez etc. nos participantes.
Da parte do “ofensor” surge a oferta de cursos aqui e no exterior para o aprimoramento da função de massoterapeuta além de cargo de chefia; o oferecimento de quantias diversas para a realização do aborto, desviado para outras questões; a aceitação de uma viagem a Paris por parte da “ofendida”, embora não pretendesse realizar o ato.
A “ofendida”, por sua vez, é mãe de dois filhos sobre os quais a matéria guarda respeitoso silêncio; há o surgimento de um terceiro filho, a princípio com dúvidas sobre a paternidade, e, afinal, constatou-se que era de um namorado surgido no meio dessa belíssima relação amorosa.
Em continuação, surge o apelo à Justiça com fixação de pensão de 10 mil reais, quantia impensável para a maioria das famílias brasileiras. E não é só, há a proposição de uma indenização de 20 milhões...
Portanto, em vez de violência psicológica temos uma disputa feroz de torpeza mútua, o que vem reforçar o abominável machismo que prevalece na sociedade brasileira e deixar sérias dúvidas sobre o real interesse da matéria.
SEBASTIÃO MAURÍCIO DUARTE PESSOA_RIO JANEIRO/RJ
OPS!
A reportagem O labirinto, da piauí_ 234, março, diz que Wilmington é a capital de Delaware. Eu, que sou um pinguim encalhado em Delaware, bem sei que a capital desse paraíso (fiscal apenas) é Dover. Delaware é só mais um estado americano em que a capital não é a cidade mais importante de um estado. Se Dover tem algum destaque, talvez seja ter uma base da Força Aérea por onde passam os restos de soldados americanos mortos no estrangeiro, ou receber corridas Nascar, mais um esporte que só interessa nos Estados Unidos.
VINCENT DE ALMEIDA_FILADÉLFIA/PA (EUA)
NOTA REVOLTADA DA REDAÇÃO: Osasco não é a capital de São Paulo. Parauapebas não é a capital do Pará. Pelotas não é a capital do Rio Grande do Sul. Sinop não é a capital de Mato Grosso. Arapiraca não é a capital de Alagoas. Então por que esses caras colocam Dover como capital de Delaware? Eu, hein! É como se resolvessem colocar Brasília como capital do Brasil. Mas, tá bom, leiam a errata, vai.
ERRATAS
- A reportagem O labirinto (piauí_234, março) informava erroneamente que Wilmington é a capital do estado americano de Delaware. Na verdade, a capital é a cidade de Dover. A correção também foi inserida na versão digital da reportagem.
- Em relação à reportagem O grileiro-mor (piauí_200, maio de 2023), a família de José Roberto Dal Porto afirma que ele não grilou uma propriedade de 496 mil hectares na década de 1980. Naquele período, a escritura da terra estava registrada em cartório. Dal Porto pretendia construir um hotel no meio da floresta, mas desistiu do projeto nos anos 1990 e abandonou a área, amargando o prejuízo financeiro. Em 2005, criou-se ali a unidade de conservação da Terra do Meio. Cinco anos depois, em 2010, o Conselho Nacional de Justiça descobriu “graves violações” na documentação da área e cancelou o registro da propriedade. Nesta época, Dal Porto, havia mais de uma década, já deixara de exercer a posse da terra. Apesar disso, o Cadastro Ambiental Rural do imóvel segue ativo na base de dados da Secretaria de Meio Ambiente do Pará, sobreposto à unidade de conservação. Isso levou a piauí a considerá-lo, erradamente, como grileiro.