CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
A era dourada do papel
Dois veteranos relembram o auge das revistas
João Batista Jr. | Edição 233, Fevereiro 2026
Após meses de tratativas com um jornalista americano que fez a ponte com celebridades de Hollywood, Thomaz Souto Corrêa, então diretor de redação da revista Claudia, chegou a Los Angeles com uma equipe de dez profissionais – entre eles, o fotógrafo Lew Parrella e as modelos Mila Moreira e Bettina Volk.
A edição de abril de 1967 da revista seria dedicada ao cinema americano, e eles estavam lá para produzir uma matéria de dezesseis páginas com astros como Henry Fonda, Glenn Ford e Ricardo Montalbán. O ensaio fotográfico mais inusitado foi com Alfred Hitchcock. O diretor de Psicose mantinha um açougue particular em sua residência, e foi dentro da câmara frigorífica que ele posou para o retrato, ao lado das modelos. A foto ganhou a capa da revista.
A indústria editorial ainda não conhecia a palavra “crise”, e o orçamento de Claudia permitia extravagâncias. Graças a essa liberdade econômica, Souto Corrêa pôde desafiar um tabu político: em plena Guerra Fria, dedicou uma edição especial a Moscou. Toda a revista foi criada e fotografada na capital da então União Soviética, dos editoriais de moda às páginas de receitas.
Uma tradutora portuguesa radicada em Moscou foi contratada para acompanhar a equipe brasileira. Mas havia um problema: ela encerrava o expediente às seis da tarde. “Depois disso, não conseguíamos fazer um pedido em restaurante, porque naquele país ninguém falava espanhol, francês ou inglês”, recorda Souto Corrêa. Claudia Moscou chegou às bancas no rebelde Maio de 1968, trazendo na capa uma modelo com chapéu de pele – “Moda fotografada a 20° abaixo de zero”, dizia a legenda. O título era: “Tudo sobre a nova mulher soviética.”
Ignácio de Loyola Brandão – jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras – era então um dos editores de Claudia (na redação da revista feminina, eram todos homens, lembra Souto Corrêa). Estava escalado para também ir à Rússia, mas não teve sorte: dias antes do embarque, contraiu hepatite. Ficou no Brasil.
Loyola Brandão, 89 anos, e Souto Corrêa, 87, se encontraram na manhã de 1º de dezembro em um estúdio na Zona Sul de São Paulo para gravar um episódio de Mestres da Comunicação, programa que a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) mantém em seu canal no YouTube. Em conversa de mais de uma hora, mediada pelos jornalistas Ricardo Lessa e Gisele Vitória, os dois nativos do interior paulista – Loyola Brandão é de Araraquara; Souto Corrêa, de Mirassol – recordaram as redações em que conviveram e se tornaram amigos.
Em cinco décadas na Editora Abril, Thomaz Souto Corrêa esteve à frente de publicações com vendagens inimagináveis nos dias de hoje. Claudia nasceu em outubro de 1961 para discutir temas caros à mulher: trabalho, igualdade salarial, casamento, divórcio, maternidade, sexo. O primeiro número veio robusto, com tiragem de 150 mil exemplares. Em 2010, antes da consolidação das redes sociais (o Instagram foi criado em outubro daquele ano), a tiragem da revista era de 390 mil exemplares. Em 2020, a circulação média de Claudia foi de 88 324 exemplares – o último dado disponível, segundo o Instituto Verificador de Comunicação (IVC), por cujos serviços a revista não paga mais.
Souto Corrêa lembra que Claudia não teve uma só linha cortada durante a ditadura militar: “As revistas femininas nunca tiveram uma censura explícita.” Houve só um militar que reclamou, por carta, da edição moscovita: com tantos países do mundo para escolher, perguntou ele, por que justo a União Soviética?
Loyola Brandão sentiu o bafo da repressão de perto quando trabalhava na sucursal paulista do jornal Última Hora, cuja sede no Rio de Janeiro foi invadida e depredada no nefasto 1º de abril de 1964.
Quando a redação em São Paulo reabriu no dia 17 de abril, Loyola Brandão passou de secretário gráfico a editor. Um censor se instalou ao lado de sua mesa para decidir o que poderia ou não ser publicado. O futuro autor de Não verás país nenhum (1981) passou a guardar reportagens, fotos e charges vetadas em uma gaveta. Quando o censor não estava presente, carregava esse material para seu apartamento na Praça Roosevelt.
Um dia a atriz Ítala Nandi, integrante do Teatro Oficina, foi visitar o amigo jornalista e perguntou sobre a pilha de papéis que ele estava acumulando em casa. Ao saber que se tratava de material censurado, sugeriu que Loyola Brandão escrevesse um livro a respeito.
Em 1966, a convite de Souto Corrêa, Loyola Brandão deixou o jornal de Samuel Wainer para trabalhar na Abril, onde passou por Realidade e Claudia. Escrito naqueles anos difíceis, o romance Zero incorporou muitas das histórias que não saíram no Última Hora, correndo em paralelo às desventuras do protagonista, José (a paginação pouco convencional do romance lembra páginas de jornal).
A obra foi recusada por treze editoras brasileiras. Souto Corrêa decidiu levar uma cópia do inédito em uma viagem a trabalho pela Itália e oferecê-lo a uma editora de lá. “Isso que é amigo. Se a polícia pegasse no aeroporto, ele seria preso por mim”, brinca Loyola Brandão.
A Feltrinelli, editora sediada em Milão, publicou o romance em 1974. No ano seguinte, ele saiu no Brasil, pela Editora Brasília. “Como não havia censura prévia de livros, foi só depois de publicado que Zero virou alvo”, recorda o autor. Proibido de ser reimpresso, o romance era amplamente fotocopiado (“xerocado”, como se dizia então) por universitários.
Ao fim da conversa, Souto Corrêa criticou os veículos de imprensa que hoje se amparam em pesquisas de mercado para publicar o que o leitor quer (ou diz querer). O jornalismo, afirma ele, deve surpreender o leitor com reportagens sobre realidades que ele ainda não conhece. “Tem de arriscar”, diz. “Nós somos contadores de história.”
Os dois veteranos ainda preferem ler jornais e revistas em papel, e não na tela. “Eu até tenho celular, mas deixo ele em casa”, contou Loyola Brandão, bem-humorado. Ele também falou com orgulho do selo em sua homenagem que os Correios lançaram no ano passado.
