A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    "Foda é a perspectiva de passar anos trancado nesta gruta do Ali Babá high-tech. Não sou particularmente claustrofóbico, mas, porra, também não sou nenhum urso em hibernação." ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES_ESTÚDIO ONZE_2015

ficção

A grande sinuca celestial

Talvez eu tenha sido um grande surfista em alguma vida passada. Me contento hoje em ser um bom surfista de lençol

Reinaldo Moraes | Edição 104, Maio 2015

A+ A- A

Todo mundo sabe que além da razão começa a loucura, a poesia, o caos. E o nada, que é basicamente uma palavra que não tem nada a esconder dentro dela. O nada só faz sentido quando esconde uma ausência que faz doer, que faz morrer de saudade. Uma saudade de matar é o que eu antecipo pra mim, se essa loucurada toda em que essa doida me meteu for mesmo pra valer e eu tiver que passar muitos anos da minha vida aqui dentro, se não mesmo toda a vida que me resta, embora a Shyn tenha dito há pouco que em cinco anos poderemos dar umas voltinhas curtas nas redondezas com os trajes. É o que ela acha, pelo menos. Tudo isso é absurdo, eu sei, mas tem uma lógica implacável, científica. E o resultado é que tô eu aqui pagando de personagem duma peça de teatrão do absurdão escrita por essa tipa cabulosa, como diria o pessoal do surf. Na verdade, ela não é a única autora, embora, até onde consegui sacar, seja a mais importante. Talvez a líder de um grupelho de operadores de satélite que se autointitulam “black angels”. Mais gibi da Marvel impossível. Digo isso a quem puder me ouvir, e vou dizendo até entupir o gravador do meu celular, sem sinal há horas, como ela disse que aconteceria em algum momento.

Eu disse pra ela que tô aqui ditando um diário de bordo no celular, e ela disse, o.k., isso é bom pra cabeça, go on, e que se eu precisar descarregar o chip num computador dela, tá às ordens. Então eu sigo falando aqui com toda a liberdade, mesmo na frente dela, que não entende picas de português. E não tem mais ninguém aqui, só eu e ela, entocados numa caverna dentro dessa montanha rochosa, longe das cervejas e das mulheres. Digo, de outras mulheres. De todas as mulheres do mundo, digo.

Bom, de mulher não tenho do que reclamar no momento. Cerveja, acho que vai demorar preu tomar de novo. Talvez nunca mais. Aquela Brown Ale do Phantom tava estupenda, porra se tava. Sabor intenso de lúpulo e cevada levemente tostada. E, talvez, um leve acento de bosta de bisão das pradarias dos altiplanos do Colorado. Essa é uma das partes duras da brincadeira em que me meteram – em que essa loira belzebu me meteu: nunca mais afogar os beiços e a goela na espuma duma cerva gelada, na companhia de amigos, conhecidos, garotas, mulheres, com direito a muito flerte, sedução, pegação. Será mesmo que nunca mais me espojarei na espuma revivescente duma breja? Sem falar na espuma do mar. Dessa, nem faço muita questão, embora eu deva ao mar esse último frilão que tem segurado a minha onda nos últimos meses. Mas o pior mesmo é a privação de cerveja. Falando nisso, eu pretendia voltar lá no Phantom e nadar nos quatro estilos numa piscina olímpica transbordante de Brown Ale. Mas por causa de uma loira quentíssima ficarei sem a minha loira gelada.

 

E não poderei ver de novo o mar, o Brasil. Minha próxima missão seria Floripa, praia da Joaquina, pra quinta etapa do Campeonato Mundial de Surf que eu tô cobrindo – esse é o frilão de que falei. Já fui a Florianópolis, mas não conheço a Joaquina, território das mais belas e gostosas e tostadas beldades do surf. Se você se enfronha no mundo das pranchas, mais cedo ou mais tarde uma onda te joga no colo uma mina dessas. Mas, pelo visto, já era. Minha próxima missão será apenas sobreviver. O mar deve sobreviver também. Mas as beldades do surf e os próprios surfistas, sei não.

Foda é a perspectiva de passar anos trancado nesta gruta do Ali Babá high-tech. Não sou particularmente claustrofóbico, mas, porra, também não sou nenhum urso em hibernação. Vai ser foda. E a coisa toda da ciência, da tecnologia envolvida nessa demência toda. Não manjo picas. Pra mim, trigonometria é um método de medir o trigo e ângulo reto é o que ferve a 90 graus. Shyn procura me animar, garantindo que em dois, três anos, com ela de professora, eu viro um ph.D. em astrofísica e serei capaz de apreender o universo e tudo o mais que nele paira e viaja. “Você vai entender como o espaço pode fazer curvas em torno de campos gravitacionais onde até o tempo derrapa”, ela tentou me animar, acenando com toda a poesia que a astrofísica reserva pra quem penetra os seus mistérios. Bela ciência, a astrofísica. Mas, por enquanto, só penetrei mesmo a cientista, que vive com a cabeça roçando o céu enquanto o sexo chafurda gostoso na Terra. Eu quero que se foda o tempo e suas derrapadas gravitacionais. Eu queria de volta é o espaço do mundo lá fora, isso é o que eu queria. E logo agora que eu descolei esse puta frila abençoado por Netuno e o grande Duke Kahanamoku, referência divina entre os cavalgadores de ondas.

 

“Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.” Eu disse isso pruma mina do surf que entrevistei no Rio, ela perguntou de quem era. “Dum surfista português”, respondi. Ela disse que já tinha surfado muito em Portugal e quis saber o nome do cara. Eu disse: “Fernando.” E ela: “Fernando? Que Fernando? O Fefê do Guincho? Ou o Fernandinho do Peniche?” E eu: “É o Fernandão da Tabacaria.” E a mina: “Esse não conheço. Da Tabacaria…?” Ficamos nisso e a guria partiu pro mar com sua prancha de bodysurf rebolando uma bundinha toda linda dentro do biquíni molhado.

 

Lembranças. Pelo jeito, é o que vai restar do meu passado: o próprio passado, sem conexões com o presente. A gente se entende por gente quando descobre que tem um passado, quando aprende a falar ontem e descobre que muito do que existe hoje, ou quase tudo, começou lá atrás, no passado. Essa é uma das obviedades fundamentais da existência. Ontem. Yesterday. Foi justo ontem que eu conheci essa Synead – Mai nêime is Chíneid, és uai ênn i ei di, como ela mesma se apresentou soletrando seu nome na língua dela com uma voz de gengiva molhada. Synead Aldrin. Tesuda, essa voz dela. “Fuck me! Fuck me!”, ela pedia e continua pedindo, com uma frequência e uma insistência alarmantes. E se eu perder o tesão por ela, o que vai rolar? Seria expulso daqui pra virar uma chapa de raio X lá fora?

Ontem. Todas as minhas atribulações parecem tão distantes, como disse o Paul McCartney. Que dia foi ontem? Quarta? Quinta? Ontem e hoje, pra mim, formam o mesmo bloco temporal. Meu voo de volta ao Brasil é no sábado, minha passagem taí na minha inseparável mochilinha, Aeromexico, com escala em Tijuana e na Cidade do México. Isso, se ainda tiver aviões e voos no sábado. Se ainda tiver um país chamado México, e outro de nome Brasil. E se ainda tiver sábados, se o tempo não derrapar de vez ao passar aqui pelo terceiro planeta a partir do Sol, conforme aprendi na 4ª ou 5ª série. Shyn diz que logo teremos resposta a essa e a outras perguntas correlatas. Não gostei do seu tom de voz seco quando ela me disse isso. Tinha algo de cínico, malévolo, maquiavélico nele, como uma bruxa de desenho animado. Ainda prefiro quando ela me diz “fuck me” com sua voz de gengiva molhada.

A Shyn Aldrin diz que é sobrinha-neta de um astronauta das antigas, tal de Buzz Aldrin, o segundo americano a cuspir chiclete na Lua, logo depois do Armstrong. Foi ele quem a motivou a estudar astrofísica e se especializar em astrodinamismo. Diante da minha cara de “que porra é essa?”, ela explicou: “Astrodinamismo é a análise de gráficos e mapas dinâmicos produzidos a partir do rastreamento em tempo real dos objetos em órbita terrestre.”

 

Fácil de entender. Acho que vou acabar mesmo virando ph.D. em alguma dessas merdas. Se não enlouquecer antes.

Contei pra ela que sou um devoto surfista, ex-pro, hoje só amador e jornalista de surf pruma revista chamada Cut Back, o nome em inglês da manobra clássica do surf, que é aquele vai e volta da base à crista da onda. Contei que corro o mundo cobrindo as etapas dos principais campeonatos de surf e aproveitando para cavalgar umas ondas também. Tudo isso é uma meia mentira. Ou uma meia verdade. Quer dizer, um terço de verdade, dois terços de cascata. Ando de fato cobrindo algumas etapas do Campeonato Mundial de Surf. Mas nunca encostei um dedo numa prancha, quanto mais os pés. Tudo que faço quando me vejo diante de uma onda é me abaixar pra ela passar por cima. No máximo tento pegar um jacaré. Mas vi que pegou muito bem dizer que sou surfista, tendo até competido como profissional. “Pro” – prou –, como eles dizem. Os caras aqui valorizam muito o status profissional da pessoa. É um país de prous.

Shyn me disse que também se dedicou de corpo e alma ao surf quando foi estagiar no Jêi pi él, JPL, o Jet Propulsion Laboratory do Caltech, em Pasadena, Califórnia, a menos de quarenta minutos das ondas de Santa Monica e Venice, na costa do Pacífico, zunindo nesse mesmo Corvette que nos trouxe até aqui, e com o qual ela cruza à vontade de iu éss, o US, the United States, na abreviatura corrente. Quando os gringos aqui falam em patriotês, de iu éss vira a plenipotenciária America, e fim de papo. América, americanos. Eles é que são os donos do continente. Lá pra cima deles, só os ridículos canadenses. Pra baixo, os sub-humanos latinos. Agora, em Springs, tão longe do mar, ela usa – usava – um simulador de surf de última geração, the state of the art, numa academia onde, porém, se dedica – dedicava – com mais afinco ao MMA, as nefandas mixed martial arts, modalidade de porradaria da qual o dono da academia, um imigrante turco, é um grande campeão, a fortress of a man. Uma fortaleza de homem. Diante do harmônico conjunto de músculos bem definidos da Synead liderados por um rostinho fuck-me-daddy de enlouquecer, eu diria que ela também é uma fortaleza de mulher. Uma fortaleza tatuada com exuberância gráfica e dotada de um supercomputador nanochipado no lugar de um cérebro humano banal com antiquados neurônios.

 

Durante essa última noite e madrugada, e também nesta manhã, tempo que passei todo praticamente na cama com a Shyn, trepando e conversando, fui me inteirando da sua vida subterrânea, toda ela focada no bilhar orbital. Isso mesmo: orbital billiards. Pra resumir, essa guria trintona é um gênio, do mal, vejo agora, mas gênio. Ou gênia. Até algum momento da noite de ontem eu ainda tentava acreditar que essa história delirante não passava de uma grande gozação, de uma superpegadinha, uma porra assim. Ou que, mesmo sendo verdade a história da confraria de operadores de satélite que provocam colisões em cadeia no espaço em torno da Terra, as consequências desse joguinho não seriam assim tão drásticas como ela apregoa. Fiquei umas horas, de ontem pra hoje, sem saber no que acreditar. Mas logo vi que a Shyn não tem o perfil da gozadora. Não no sentido sarrista de gozar. Porque, em matéria de sexo, o gozo é a praia dela, o que ficou patente desde a nossa primeira trepada no imenso colchão de água tépida que ocupa quase todo o espaço da área reservada ao quarto dela, aqui no mocó. Imagine você que a dona Chíneid cutucou um controle remoto digital e chamou à vida alguns dos diversos telões afixados nos vários ambientes deste lugar, sendo que o espetáculo era o mesmo em todos eles, apenas em versões diferentes: trepadas, fodas, putarias protagonizadas por ela mesma, com homem, com mulher, com ambos, e quase nunca o mesmo homem ou a mesma mulher. Um dos telões parecia especializado em surubas, exibindo sôfregas conjunções carnais múltiplas e polimórficas de corpos de variadas etnias, idades e graus de tatuagismo, com ela no meio, fogosa fodedora. As locações também variavam. Tinha até trepada no fundo de uma piscina ou tanque, com ela e um cara usando aqualungs. Ao lado deles, uma cápsula espacial pousada no chão do negócio. Devia ser um centro de treinamento de astronautas, se é que o casalzinho subaquático não estava em outro planeta.

Se a intenção daquela diaba impudica ao puxar aquelas imagens era concitar as instâncias mais primitivas da minha libido brasuca, destruindo todas as aduanas morais pelo caminho, ela acertou em cheio. Caraca! Nunca tive uma experiência sexual tão intensa com uma mulher – uma mulher de todos que agora é só minha. Pelo menos é o que parece, pois, como naquele samba da gafieira, quem está fora não entra, quem está dentro não sai.

Mas sei que estou botando o carro na frente dos bois – ou os propulsores no bico do foguete, pra usar uma metáfora desgraçada de ruim, porém muito apropriada aqui.

De todo modo, qualquer esperança maior ou menor que eu pudesse ter sobre a gravidade dos fatos acabou de se dissipar com essa notícia que a Fox News acabou de dar pela tevê sobre a Estação Espacial Internacional, a ISS, ai éss éss, na sigla em inglês, com seis astronautas a bordo, cinco homens, entre russos e americanos, e uma italiana até que bonitinha. Bom, não tão bonitinha agora que a ISS acaba de ser atingida em cheio por um satélite russo nuclear desativado viajando a uma velocidade de 45 vezes a barreira do som.

A tevê mostrava a explosão, captada pelo telescópio de espelho líquido do Observatório de Detritos Orbitais da Nasa, que foca – focava – várias vezes ao dia a ISS, pairando a 350 quilômetros de altitude sobre a linha do Equador. Focava e gravava. O vídeo na Fox mostrou a geringonça com suas antenas e painéis solares abertos flutuando em absoluta paz e leveza no espaço, até que, de repente, uau!… tudo vira um clarão intenso espalhando o que parecem ser fagulhas incandescentes pra todo lado. As imagens ralentadas eletronicamente até o ponto em que começam a perder a nitidez conseguem mostrar um débil risco opaco atingindo a estação. Era o rastro deixado na imagem pelo satélite russo Kosmos-RORSAT 1867, de 2 toneladas e meia, há duas décadas desativado, mas ainda babando o combustível radiativo que alimentava seu reator nuclear termiônico. Aprendi ali que, no vácuo, a explosão nuclear não forma o clássico cogumelo atômico, mas sim uma esfera de fogo e detritos em vertiginosa expansão. Bonito de ver. Deu pra ver a olho nu da Terra, segundo relatos. A tripulação foi alertada pelo Norad, disse a âncora da Fox, mas não teve tempo de tirar o cu da ISS da reta, a exemplo do que outras tripulações já tinham feito umas vinte vezes no passado. Aparentemente o RORSAT que atingiu a ISS tinha sido, por sua vez, abalroado horas antes por outro satélite que lhe deu o impulso necessário para se precipitar sobre a estação – como uma bola de bilhar acertada por outra no pano verde da mesa.

Que puta matéria isso não dava, que puta matéria. Venderia pra todos os jornais e revistas do Brasil e daqui também. Já me vejo assinando o texto no New York Times: “A Brazilian in the heart of the darkness.” Chique demais. Depois, viria um livro com o relato completo dessa puta zoeira do quinto dos infernos orbitais, talvez com o mesmo título.

 

Vestida só com suas tatuagens, único não-traje que usou desde que chegamos neste tugúrio climatizado, Synead deu pulos, esmurrou várias vezes o ar, quase acertando o teto de pedra, soltando guinchos de júbilo, como se tivesse acabado de ganhar algum prêmio científico importante, o próprio Nobel, quem sabe. E quando as notícias subsequentes foram dando conta dos estragos que os milhares de fragmentos da ISS estavam causando em centenas de outros satélites geoestacionários ou geossincrônicos na órbita baixa da Terra, num efeito cascata exponencial, com imprevisíveis consequências em todo o ambiente orbital, a Shyn, aos prantos, caiu de joelhos sobre um dos ricos tapetes persas espalhados por toda parte, ergueu os braços pro alto e soltou o mais afirmativo “yes!” que eu já ouvi alguém exalar: “Yes! The big game is just beginning!”

Em outro telão, o maior entre os vários afixados nas paredes ou pendentes do teto, a imagem, dividida em pelo menos duas dúzias de janelas, mostrou uma turma, caras e minas, vários deles e delas também peladões, todos com garrafas de champanhe na mão, a exemplo da Shyn, que tirou a sua de uma geladeira GE vintage decorada com motivos espaciais: astros, foguetes, satélites. Uma garota asiática, chinesa talvez, fez um “one… two… now!”. E todos espocaram ao mesmo tempo as rolhas de suas champas. Shyn tomou um banho de espumante e me deu outro, antes de tomar um gole
e me passar a garrafa pra fazer o mesmo. Me senti num pódio de Fórmula 1, de coadjuvante da campeã.

“Esses são os black angels”, ela me apresentou.

“O.k.”, eu disse, por falta de mais o que dizer.

Cá entre nós – isto é, cá entre mim e mim mesmo, que história é essa de “o grande jogo só está começando”? Deus meu, essa mulher me parece mais louca a cada minuto que passa. Onde nos levará tamanha loucura? Enquanto esperamos pra ver, restaure-se a cronologia dos fatos.

 

Conheci a peça aqui em Colorado Springs, cidade encostada num dos flancos ao sul das Rocky Mountains, a quase 2 mil metros do nível do mar, no estado do Colorado, no Meio-Oeste americano, mais ou menos equidistante dos dois oceanos que margeiam o país. Vim parar aqui por conta de uma reles coincidência, a mesma que me fez dar com os meus costados bronzeados no SpringSat Festival, um misto de feira, congresso e festival de empresas e de profissionais que fabricam, lançam ou operam satélites de todo tipo e função. Nada mais distante do mar e seus surfistas. Penso agora que o Grande Acaso quis apenas me colocar cara a cara com o meu destino. E o meu destino atende pelo nome de Synead, Mai nêime is Chíneid, nome de feiticeira celta, senhora das órbitas altas, médias e baixas, jogadora tarimbada de bilhar cósmico, grande vestal do amor e da morte. Se a Shyn fosse uma onda, seria a que provoca uma vaca, no jargão dos surfistas, a grande roubada da rebentação que engolfa e embola o surfista, eventualmente quebrando-lhe o pescoço. A Shyn é a vaca que me coube encarar, concluo, com minha lógica surfofatalista. Uma vaca muito louca.

Tudo começou quando um amigo meu, americano, o Matt, que mora há muitos anos em São Paulo, me mandou um WhatsApp anunciando que está nos Estados Unidos e acaba de saber que eu também estou, e se eu não gostaria de passar uns dias na casa dos pais dele aqui em Springs, como eles dizem. Acabou que me abalei pra cá, findo o Del Mar Masters Conquest, etapa californiana do campeonato mundial que vim cobrir praquela revista de surf editada por um pleiba riquinho metido a contracultural que ficou fã das matérias gonzolianas que eu escrevo de frila pra revistas, jornais e sites no Brasil. Basicamente, ele queria um maluco à la Hunter Thompson cobrindo um evento que não me interessa em absoluto e sobre o qual não entendo tchongas. Minha função seria me divertir o máximo possível no meio da surfistada e escrever sobre isso. Simples assim.

Voltei pra San Diego de carro alugado, peguei um voo doméstico e, deixando para trás a espuma épica das grandes ondas de Del Mar, que apenas avistei de longe tomando piñas coladas com cerveja num bar da praia, aterrissei aqui neste deserto de altitude, em pleno Meio-Oeste americano, antigo território de caubóis, índios e bisões, hoje um centro militar de alta tecnologia que abriga nada menos que a Academia da Força Aérea dos Estados Unidos, o Comando de Defesa Aérea, a megabase aérea de Peterson Field e o quartel-general do Norad, sigla em inglês para Comando da Defesa Aeroespacial Norte-Americano, principal órgão de controle do sistema de mísseis e antimísseis do país, como vim a saber exaustivamente desde ontem à tarde.

Não bastasse isso, Springs ainda abriga a Colorado Technical University, centro fudidaço de pesquisas aeroespaciais, e as sedes de empresas como Boeing, General Dynamics, ITT, Lockheed Martin e Northrop Grumman, entre muitas outras hiperputamegacorporações de alta tecnologia. Essa Colorado Springs é foda, bróder. Tem só 600 mil habitantes, mas daqui os caras podem cuspir uma saraivada de mísseis nucleares sobre bilhões de cabeças humanas, inimigas do Tio Sam ou não, pois que a merda radioativa se espalha rápido por todo o globo, como todo mundo sabe.

Vi também que a cidade está no centro de uma das áreas com maior incidência de raios dos Estados Unidos. Estou em Springs a não muito mais do que 24 horas e não vi nenhum raio, trovão ou relâmpago. E o centro dessa atividade elétrica é justamente o granítico Pikes Peak, onde estou agora encravado, teoricamente a salvo de raios e tempestades de mísseis balísticos. Cheyenne, Lakota, Kiowa, Comanche, Navajo, Ute e outras tribos que viviam aqui deviam se esbaldar com essas manifestações do poder divino que energizavam os guerreiros nas refregas que travavam entre eles e contra os brancos. Os índios se foderam ao longo da história, mas hoje seus descendentes administram grandes hotéis-cassinos e andam por aí a bordo de SUVs portentosos de onde abrem seus sorrisos de dentes de ouro. E os raios continuam a cair sobre Colorado Springs.

O Tesla, sabe o Tesla?, o inventor da corrente alternada, que permite transportar eletricidade a grandes distâncias, e do motor elétrico, e duma porrada de trecos de ligar na tomada, talvez até da própria tomada, o Tesla escolheu Springs pra implantar seu famoso laboratório, que hoje é um museu dedicado a ele. Era uma das coisas que eu pretendia visitar. Queria ver se lá tem o cenário daquela foto manjada do Tesla sentado no fundo do galpão-laboratório, entregue a profundas reflexões, indiferente à dramática descarga de raios elétricos pairando no ar, em primeiro plano, entre uma esfera de metal e um pinguelo vertical. Se calhar, eles também reproduzem a mesma descarga elétrica, caso você pague 10 dólares extras, além dos 25 da entrada, como vi no guia turístico que comprei no aeroporto daqui.

A merda é que, por conta dessa importância estratégica toda, a região é um dos alvos primários dos ICBM’s russos, no caso de dar a grande merda nuclear mundial há décadas anunciada. Daí que, desde os anos 50, os caras construíram uma porrada de fallout shelters, os abrigos antinucleares, revestidos de chumbo contra a gravidade e dotados de filtros de ar descontaminadores, em geral instalados nos porões dos prédios e casas, com água, mantimentos e remédios pra turma se aguentar até ser possível sair de novo ao ar livre, depois de um ataque nuclear. O que muito springoliano não sabe é que há um número incerto de abrigos antinucleares em quebradas clandestinas e ilegais por aí tudo – dentro do Pikes Peak State Park, por exemplo, onde estou agora.

 

Ao descer do avião em Colorado Springs e botar meu pé neste solo tão crítico para a segurança do espaço e do planeta, saturado como é de referências científicas e bélicas, com o belo Pikes Peak ao fundo, feito um Kilimanjaro ou um monte Fuji, não podia imaginar que estava dando o primeiro passo pra vir a conhecer a derradeira mulher da minha vida, mesmo eu não estando à procura de nenhuma “mulher da minha vida”, muito menos a derradeira, e ainda menos uma Chíneid, minha atual noiva-cadáver compulsória, que, pela órbita da carruagem, está em vias de se tornar também a noiva de alguns bilhões de cadáveres. Hahaha… (Isso é pra ser uma piada, fraca, reconheço, porém do mais impecável humor negro.)

O segundo passo nessa direção, esse decisivo, quem deu por mim foi o Jeff, irmão mais novo do Matt, um geniozinho formado em física, astrofísica, astronomia e computação de alto desempenho. Ele trabalha como chefe dos operadores de satélite de uma aeroespacial da Califórnia e veio de palestrante convidado pra essa feira anual de sateleiros em Springs, aproveitando pra ficar uns dias com os pais e o irmão “brasileiro” que também estaria por aqui, além de rever os velhos amigos, especialmente os da sua turma da Colorado Technical University, onde se formou e obteve seu primeiro doutorado. Figurinha, esse Jeff. Sem tatuagens visíveis, porém mais avoado que os satélites que opera todo dia, alguns a partir de um supersmartphone que não sai da sua mão, brinquedinho que ele mesmo ajudou a desenhar pra Nasa, capaz de acionar os propulsores de um satélite em órbita baixa, até mil quilômetros acima da Terra. E também de falar e trocar imagens com alienígenas de fora do sistema solar, se os danados se dignassem a atender suas ligações. O Jeff é desses que costumam sair na rua com um pé de cada sapato e os botões da camisa abotoados na casa errada, isso quando se lembra de botar os sapatos e abotoar o que tem pra ser abotoado na roupa.

Jeff vive hoje em San Diego, casado com uma filha de chineses. A chininha é economista e parece que ganha os tubos como analista financeira do Citibank em busca das melhores aplicações para fundos de pensão e fortunas de caras que constam entre os 100 mais ricos do mundo da revista Forbes. Jeff e Sue, a tal chinesa que não cheguei a conhecer, pois ficou lá na Califórnia imersa em seu trabalho de babá de biliardários, eles formam a conjunção do high-tech aeroespacial de ponta com o high-money das altas cirandas financeiras internacionais. Nada mais in, mais chique, mais da hora, embora o Jeff, no dia em que o conheci, coberto de pó de giz da cabeça aos tênis, um de cada modelo e cor, mais parecia um lunático fugido de algum hospício – da Lua. Na verdade, ele voltava de uma palestra-aula que dera numa das mesas do SpringSat Fest, na qual deve ter enchido a lousa com as mais descabeladas equações astrodinâmicas. Aquele pó de giz era a marca humana indelével do cara, algo que o diferencia dos caríssimos satélites que ele ajuda a pendurar no espaço orbital, a rastrear e reposicionar continuamente, acionando seus propulsores sempre que é necessário fazer uma correção de órbita.

Vai daí que, na amena tarde de fim de verão de ontem, meros 24ºC, temperatura que pra eles aqui é tipo canícula senegalesca, lá fui eu com o Jeff e o Matt no conservadíssimo Mercedão 88 emprestado do velho Garry, pai deles, pruma antiga instalação de rodeios e leilões de gado e cavalos, o Pro Rodeo Hall of Fame, hoje um complexo moderno para exposições de todo tipo onde se instalou o SpringSat Fest. Achei que seria divertido entrar em contato com esse mundo espacial, embora estivesse sem grandes expectativas eróticas em relação aos espécimes femininos que cruzaria por lá. Não que eu me considere carta fora do baralho no mercado amador do sexo terráqueo, pelo contrário. Quer dizer, desde que comecei a cobrir esse circuito internacional de surf já peguei sol e várias minas no Taiti, no Havaí, na Austrália e em praias brasileiras que eu nem conhecia. Não chego nem perto de uma prancha de surf, mas sempre dou minhas caminhadas pelas praias e umas braçadas no mar, razoável nadador que sou, de modo a manter o esqueleto em relativa forma. Nenhuma gata do surf me confundiria com o Kelly Slater ou com o Gabriel Medina, mas algumas das senhoritas que subiram pra conhecer meu quarto de hotel em cada lugar pra onde tenho ido elogiaram meu look de um modo geral e, modestamente, também minha performance na cama e arredores, uma ou outra me confundindo com um velho pro que veio matar saudade do ambiente das competições, confusão essa que nunca me dou ao trabalho de desfazer, pois talvez eu tenha sido um grande surfista em alguma vida passada, e é bom não entrar em conflito com a sua ancestralidade mística. Me contento hoje em ser um bom surfista de lençol.

 

A quem interessar possa, já fui casado, sem filhos, e tenho uma namoradinha mais ou menos fixa em Zambaulo da Garoa al Sugo, onde moro. Mas quando o avião levanta voo, me sinto livre como um táxi-aéreo, como diria o Millôr. E dou de barato que a namoradinha sente a mesma coisa em terra, sendo ela quase quinze anos mais nova que eu, e bem gata. Lívia, o nome dela. Tenho umas fotos da cabritinha aqui no celular, inclusive uns selfies que ela fez pelada no espelho. Ontem, quando disse pra Shyn que eu tinha essa girlfriend brasileira e mostrei-lhe as fotos, ela ficou encantada: “Ôu, she’s the cutest thing!” Foi simpático ela dizer isso, apesar de eu ter notado uma estranha entonação comiserativa na voz dela, como se dissesse: Que pena… ela era a coisa mais fofa…

Foi na muvuca dos sateleiros, pois, guiado pelo Jeff, que acabei topando com miss Aldrin, como já disse. Jeff se referiu a ela como “uma lenda do ramo”. E lá estava a lenda, me encarando com uma sensualidade insolente e uns olhos escuros que era mergulhar ali e tchau. O olhar dela me fez lembrar o do Charles Manson nas fotos da época em que ele foi preso, em meia oito, acho, depois que umas hippies malucas que ele liderava como grande guia espiritual e político assassinaram umas pessoas em Los Angeles seguindo suas ordens, inclusive a linda e grávida Sharon Tate, mulher do Roman Polanski, que levou não sei quantas facadas.

Era isso: a Synead tinha os olhos do Charles Manson, olhos que vertiam uma escuridão envolvente capaz de despertar medo e desejo, em iguais proporções, em quem se visse alvo daquele olhar de boneca satânica, o medo, de alguma forma doentia, botando lenha na fogueira do desejo. Inda por cima, tamanha escuridão tinha por moldura contrastante aquela cabeleira de um loiro-aço, lisa e longa até o meio das costas, que lhe servia de halo fantasmagórico em torno de uma estampa crivada de piercings, no lábio, nariz, supercílio e orelhas, isso entre os visíveis.

Fora do Brasil, nunca sei se devo ou não beijar uma mulher a quem acabo de ser apresentado. Já me ocorreu até de me pilhar trepando com uma mina que eu nem sequer tinha beijado, tamanho o grau de vapt-vupt da pegação moderna. Dessa vez, diante da Chíneid, estendi minha mão pra figura, tão logo ela declinou seu nome. E o que ela fez, em total consonância com aquele monte de piercings e tatuagens, foi agarrar a lapela da minha camisa de palmeiras havaianas contra fundo amarelo, comprada em Del Mar, e me carimbar um beijo na boca. Um selão impositivo de lábios fechados que me fez sair um pouco do eixo. O Mick Jagger deve tá acostumado com esse tipo de reação das garotas que acaba de conhecer, mas pra mim foi novidade. O que era aquilo? Tava me dando mole logo de cara, a piaba? Ri por dentro pensando que aquele devia ser o cumprimento de praxe entre os sateleiros, da mesma forma que levantar a mão, palma voltada para fora e um intervalo entre os pares de dedos indicador-médio e anelar-mindinho, com o polegar aberto pra fora, constituía a saudação vulcânica típica, como nos ensinou o saudoso dr. Spock. De qualquer forma, aquela assertividade avassaladora deixava claro quem estaria no comando dali por diante pelo tempo que durasse nossa relação, minutos, horas, dias ou anos.

O Jeff, pelo jeito, conhecia bem a figura e não deu grande bola pra cena, provável reprise de outras que ele já deve ter assistido, protagonizadas pela loira de olhar sombrio. Por trás da Synead, o Matt arqueou as sobrancelhas, arregalou os olhos e me fez aquele chicotinho estalado de dedos sinalizando um “tácale pau, mano véio!”.

Ela vestia, ou se despia com uma regata cavadíssima que em certas posições e ângulos não dava pro gasto de lhe esconder os peitos livres, por sinal tatuados com umas nuvens amarelo-avermelhadas, até onde pude ver na hora, e um minishortinho de jeans preto velho, de barra esgarçada, donde jorravam quilômetros de pernas alvíssimas e musculosas a pedir como trilha sonora aquele rockão do Led Zeppelin que diz: “A big-legged woman ain’t got no soul.” Mulher pernalta não tem alma. Eita, pensei.

Era um fascínio ver a epiderme branca-de-neve da figura servindo de suporte pruma Tate Gallery de tatuagens figurando umas geringonças que demorei a admitir que eram satélites, estágios de foguetes e velhos laboratórios espaciais americanos e russos abandonados em órbita. Tatuar cacarecos espaciais e temas nucleares na própria pele pode ser indício de grande amor pela profissão ou de piração terminal. Ou das duas coisas.

A Synead tinha um parentesco estilístico evidente com a média das gatas alternas de uma ala do Festival que parecia reservada a piratas do Caribe em todo tipo de versão, de punks museológicos a hippies roots e nerds surtados, fulanos e gurias ao redor dos 30 anos envergando camisetas com frases do tipo “Fuck you, mom” e “Love is in the air/but is going to crash soon”.

Com aquela estampa freakaça e tudo, Shyn emanava a simpatia hígida de uma garota que se fartou de leite A com sucrilhos vitaminados na infância, jogou muito basquete, nadou, surfou por uns tempos na Califórnia e escalou seis vezes o Pikes Peak desde a adolescência, chegando a ser atingida pelas chispas colaterais de um raio que caiu a um palmo de onde ela estava. Daí que não fiquei muito surpreso quando ela botou uma inesperada pose executiva pra me contar que tem uma empresa de reorbitação e desorbitação de satélites desativados e presta serviços terceirizados para grandes companhias aeroespaciais que lançaram esses artefatos no passado, muitas das quais têm sede aqui em Springs. Ao lado de apenas quatro funcionários, que, aliás, também estavam por ali, a SynSat Inc. opera 124 satélites desativados ou moribundos em órbita geoestacionária a cerca de 35 mil quilômetros acima do Equador. Uma hora lá, um fotógrafo pediu pra Synead se juntar ao seu enxuto staff pruma foto que poderia estampar a capa de um disco de alguma velha banda punk decadente. Olhando pra eles, em todo caso, você jamais diria que a companhia da Shyn tem um faturamento bruto de 120 milhões de dólares por ano, conforme o Matt me segredou, repassando uma informação que seu irmão Jeff acabara de lhe dar.

 

Pra encurtar a história, já que o tempo aqui, aí, ali, acolá, algures e alhures pode estar a pique de pingar seu derradeiro grão de areia na ampulheta da humanidade, seguindo livre para fazer as curvas que quiser pelo espaço afora e pelo universo adentro, digo apenas que Matt, eu e Synead nos instalamos juntos em três assentos da plateia do auditório principal do Spring-Sat Festival, a loira-aço no meio, pra assistir a uma palestra do Jeff sobre SSA, éss éss ei, Space Safety Awareness, algo como Vigilância para a Segurança Espacial, e as novas ferramentas de reposicionamento de satélites ativos e mortos, e de monitoramento de possíveis rotas de colisão entre eles e com detritos remanescentes de colisões pretéritas.

O assunto, pra resumir, era o acúmulo de lixo espacial, de uma luva de astronauta perdida a satélites desativados pesando 4 toneladas, sob controle ou à deriva, estágios de foguete carregados de combustível altamente inflamável e tóxico, quando não radiativo, passando pelas centenas de milhares de fragmentos de destroços provocados por colisões aleatórias entre os artefatos ou por sua explosão encomendada aqui da Terra. De trás de suas lentes de míope gênio, e sem atentar para o zíper da calça aberto, que por momentos deixava entrever uma singela cueca de bolinhas pretas, Jeff deu como exemplo de trombada aleatória o caso da Iridium, uma empresa ambiciosa de telecomunicações globais que botou em órbita vários satélites de comunicação, dos 66 que seu sistema previa, gastou a bagatela de 5 bilhões de dólares, mas acabou em concordata, devorada pela popularização dos celulares, muito mais baratos. Em 2009, com a Iridium já na lona, um velho satélite russo da série Kosmos, do tipo que acabou de mandar a ISS pro espaço, onde, aliás, já estava de velho, desorbitou-se e massacrou um satélite da companhia. A colisão resultou em mais uma miríade de destroços a se espalhar esfericamente a velocidades superiores a 40 mil quilômetros por hora. Um parafusinho de 1 centímetro viajando a uma velocidade dessas seria capaz de furar a carcaça de uma nave espacial, sem falar no traje e no corpo dos astronautas dentro e fora das naves.

Como exemplo de explosão deliberada de satélites desativados, Jeff citou o caso da China, que, faz uns anos, detonou um satélite militar com um míssil disparado da Terra, só pra mostrar ao mundo que tem capacidade técnica pra isso. O ataque criou no espaço a maior nuvem de detritos de todos os tempos. Dezenas de milhares deles, de variados tamanhos, nem sempre rastreáveis, mas todos perigosíssimos.

Mais ou menos nesse ponto, notei que a Shyn, sentada ao meu lado esquerdo, tinha, distraidamente ou não, abandonado a perna direita dela, depiladinha, de modo a tocar na minha perna esquerda também nua – eu estava de bermuda –, só que peluda e tostada de sol. Ela não recuou do toque e ainda deu uma boa roçadinha na lateral do meu joelho e na perna abaixo, a pretexto de se rearranjar no assento. O Matt, do lado esquerdo da moça, parecia não sacar nada, absorto no papo espacial do irmão e partilhando das suas apreensões quanto ao acúmulo incontrolável de lixo espacial nas várias órbitas terrestres, o que, num futuro logo-aí, envolveria o planeta num “coliseu de gladiadores aleatórios se destruindo mutuamente até tornar o espaço orbital impraticável para futuros lançamentos”.

Enquanto geringonças flutuando na microgravidade se destroçavam sobre as nossas cabeças, ao rés do chão, as duas pernas ficaram se roçando, a xantocroide da americana, de, no máximo, 30 anos, contra a minha, brasuca, com um pé no Mediterrâneo italiano e o outro muito possivelmente em tabas e senzalas brasileiras, e dez anos mais velha que a dela. Com todas essas diferenças étnicas, etárias, de gênero e de pilosidade, sem falar de grana – ela rica, eu apenas um jornalistinha proleta vivendo um bom momento na vida –, eram ambas pernas humanas, afinal de contas, e pareciam estar se entendendo muito bem. Ponderei ali sentado perna a perna com a loiraça: ou essa empresária operadora de satélites é uma tremenda desencanada e, distraída, roça a perna dela na minha como quem se esfrega num cachorro ou numa perna de mesa, ou ela foi com a minha cara – e com as minhas pernas –, hipótese que no mínimo me parecia interessante de ser trabalhada.

 

Jeff lembrava agora que, embora as estimativas fossem um pouco discrepantes, uma avaliação recente da Nasa estimava em 800 mil o número de detritos com um tamanho entre 1 e 10 centímetros. Abaixo de 1 centímetro são dezenas de milhões. Uma simples lasca de tinta pode virar uma navalha aberta viajando a milhares de quilômetros por hora no vácuo.

“Devem estar aí sobre nossas cabeças agora uns 5 mil estágios de foguetes e satélites, mortos ou vivos. E uns 10 mil detritos de grande porte, esses rastreáveis, além dos pequenos que já mencionei. Com isso, os riscos de colisão vão aumentando exponencialmente. Só aquele satélite meteorológico que os chineses detonaram com um míssil espalhou mais de 2 300 fragmentos rastreáveis, do tamanho de uma bola de golfe ou maiores, e algo como 35 mil pedacinhos de 1 centímetro ou maiores, e cerca de 1 milhão de cacos de 1 milímetro ou maiores. E isso tudo na faixa de espaço próxima da Terra mais povoada de satélites, entre 850 e 882 quilômetros de altitude. Acredito que muitos operadores aqui presentes devem ter precisado manobrar seus satélites para evitar colisões mais de uma vez na vida, estou certo?”

Várias pessoas soltaram um “yeah”, inclusive minha parceirinha de pernaltagem.

“E não só os chineses brincam de tiro ao alvo com satélites. Um cruzador da nossa Marinha também disparou, em 2008, um míssil SM-3 que destruiu um satélite espião americano defeituoso que carregava 450 quilos de hidrazina, propelente cuja toxidade todos aqui conhecem muito bem.”

Nessa altura, além dos destroços que pairavam ameaçadores no firmamento, dedos femininos se entrelaçavam nos meus, da mão esquerda, que pendia em cachoeira do braço do assento. Logo a mão inteira era sequestrada para o lado da Shyn, onde ficou, enroscada na dela, descansando sobre sua coxa direita, quente e macia, tatuada com um foguete em propulsão máxima. Tenho que confessar, mesmo sob o risco de parecer meio gabola, que esse comportamento sexual da fêmea anglo-saxônica não me era estranho. As americanas, inglesas, alemãs, australianas, neozelandesas e até umas insípidas canadenses que conheci no circuito internacional do surf não se fazem de rogadas quando tão a fim dum cara. Atacam suas presas sem a menor cerimônia e as descartam com idêntica facilidade. Minha mão em cima da coxa de lady Chíneid só vinha a comprovar essa minha observação antropológica.

Meu foco de atenção na palestra do Jeff diminuiu o seu tanto. Mesmo assim, experimentando um alarmante princípio de ereção, percebi que o assunto agora era a necessidade de dotar os futuros satélites de sistemas confiáveis de propulsão post mortem para desorbitá-los, no caso dos artefatos situados em órbita baixa, aproximando-os do campo gravitacional terrestre, até eles se ralarem e incendiarem no atrito com a atmosfera. Ou, no caso dos trambolhos que habitam a órbita geoestacionária, em média a 35 mil quilômetros de distância da Terra, para empurrá-los até uma órbita mais alta, chamada de “graveyard orbit”, ou órbita sepulcral, numa tradução um tanto literária.

Achei excitante a ideia de cemitérios de satélites onde jazem, no exemplo do Jeff, algumas das mais tétricas bugigangas já postas em órbita, como uma série de satélites russos dos anos 70 e 80, dotados de um reator nuclear cujo combustível remanescente com o tempo foi vazando em gotas que, enrijecidas pelas baixíssimas temperaturas lá do alto, rasgaram o espaço em grande velocidade como balas de fuzil radioativas, muitas das quais chegaram a atingir a Terra. “É o que eu chamaria de chorume letal de cadáver de satélite”, brincou o Jeff, arrancando algumas risotas na plateia.

 

Enquanto isso, sempre na crosta terrestre, Synead tinha desenroscado seus dedos dos meus e posicionado a palma da minha mão diretamente agora sobre sua coxa, bem em cima do foguete. E que foguete quentinho, lisinho e da mais firme consistência! A coxa da Maria Sharapova não devia ser muito diferente daquela. Se eu contasse pros meus amigos que fiquei de pau duro acariciando uma tatuagem de foguete em Colorado Springs, acho que vários deles tirariam as mais estranhas ilações acerca do atual momento da minha sexualidade. Ao que tudo indica, porém, isso não vai acontecer tão cedo.

Polvilhado de giz outra vez, como eu o tinha visto no dia anterior, agora o Jeff desenhava na lousa os esquemas básicos de vários tipos de propulsores que ele chamava de “arcjets”. Enquanto eu acariciava a fogosa coxa da fogueteira, o irmão do meu amigo explicava o sistema de propulsão eletrotérmica do
arcjet, sendo que o negócio podia se alimentar da energia elétrica de painéis solares ou de propelentes, como a “popular” hidrazina – hydrazine, em inglês, que ele pronunciava raidr’zín. Popular pra quem, cara pálida de pó de giz?, foi o que murmurei pra mim mesmo. Só se for pros tripulantes da Estação Espacial Internacional, que, naquela hora da tarde de ontem, ainda estava pendurada a 350 quilômetros da Terra, em órbita baixa, com todo mundo vivo lá dentro fazendo pesquisas sobre o desenvolvimento de cristais de selênio e fungos de mofo de pão velho sob microgravidade, algo assim.

Nosso palestrista começava a descrever em soporífera minúcia as aplicações do arcjet em órbitas de todos os tipos, que ele passou a enumerar. A órbita terrestre baixa, que vai até 2 mil quilômetros, a órbita média, que vai desses 2 mil até quase encostar na órbita geossincrônica, a 35 mil quilômetros, se não me falha a memória que, modéstia às favas, é excelente e de muito tem me valido nessa já longa carreira de jornalista. Lembro de tudo, e, quando não lembro, invento. É uma disciplina mental como qualquer outra.

Os nomes das órbitas foram saindo da douta boca do sateleiro Jeff: inclinada, polar, equatorial, elíptica, circular, geoestacionária, parabólica, hiperbólica, radial, decadente, geossincrônica, e por aí afora. Tinha até uma “tundra orbit”, que é quando o satélite sobrevoa apenas uma área restrita do planeta, e uma inacreditável “osculating orbit” – órbita osculatória, nada menos. Não é possível, pensei, tirando a minha mão melada de suor do foguete, digo, da coxa da Neide, digo, da Chíneid. Existe mesmo uma órbita do beijo?, matutei. Ou é só o Jeff viajando no pó de giz?

Synead voltou sua cabeça loira pra mim, tentando talvez adivinhar por que motivo eu teria retirado minha mão da sua coxa. Aproveitei pra cochichar no ouvido crivado de piercings da bela fera: “Órbita osculatória? Foi isso que eu ouvi?”

“Yeah”, ela soprou na minha cara, me olhando nos olhos. Na verdade, senti seus olhos pulando pra dentro dos meus, como se pra devorá-los e substituí-los, de modo que eu a pudesse ver com seus próprios olhos, algo assim.

Como o Jeff retardava a explicação da osculating orbit, perguntei eu à Synead, ainda sussurrando: “What the hell is an osculating orbit?” Ela contrassussurrou pra mim: “It’s… this.”

E me deu um beijaço na boca, beijo molhado e emoliente, com sua língua orbitando na minha cavidade bucal. A sensação do beijo teria sido mais prazerosa se eu não sentisse um caroço no meio daquele molusco lingual – mais um piercing, como depois constatei. Fechei os olhos por um segundo durante o beijo, mas abri o olho direito a tempo de flagrar o Matt registrando aquela órbita osculatória ali do seu lado, tentando decerto entender como eu tinha logrado chegar com tanta rapidez àquele grau de intimidade com sua bela e rica compatriota. Meu amigo me deu uma piscadinha, que retribuí me sentindo the king of the white couquêida.

De novo mão na mão depois do beijo, assistimos ao Jeff caminhar para o fim da sua aula magna sobre as aplicações do arcjet, em especial o desenhado e produzido por uma companhia coligada ao grupo aeroespacial pra quem ele trabalha na Califórnia. Claro, ali se trata de ciência aplicada, americano não dá ponto sem nó. O arcjet era uma importante ferramenta para tentarmos conter o crescente congestionamento de lixo espacial em órbita. Se os detritos espaciais começarem a se multiplicar no ritmo atual, pode-se vislumbrar um catastrófico efeito cascata, com detritos e satélites acertando outros satélites e detritos – a terrível síndrome de Kessler, disse ele – até o ponto em que todas as faixas da órbita terrestre se tornarão intransitáveis, como ele já tinha mencionado, condenando a humanidade a um total insulamento cósmico. Sem falar numa vida terrestre sem sinal de satélite pra tevê, celular e GPS.

E pior – muito pior –, podendo disparar mecanismos de alerta e de ataque nuclear conectados diretamente às plataformas de lançamento de mísseis balísticos de todo alcance e potência, direcionados pra toda parte do planeta. Era preciso, pois, frear a aluvião de novos lançamentos e livrar as principais órbitas do maldito lixo espacial – “the damned space junk”, foram suas palavras em inglês.

“Do contrário…”, conclui Jeff, “bem-vindos ao fim do mundo!”

Seguiu-se um furioso ataque direcionado ao palco, não de mísseis balísticos ou do velho chorume nuclear soviético, mas sim de aplausos, urros e assobios da mais entusiástica aprovação. A Shyn e eu não vimos com que cara o tímido Jeff recebeu tamanha ovação, pois nossas bocas e línguas tinham entrado novamente em vertiginosa órbita osculatória.

 

Na saída, reunidos no saguão do auditório inflável, já com o aclamado palestrante ao nosso lado recebendo cumprimentos e elogios dos passantes, seu cabelo ruivo nevado de pó de giz, Synead perscrutava o ambiente à procura de alguém. Matt sugeriu um chope com algo pra comer num bar antigão da cidade, o Phantom, na avenida Pikes Peak, esquina com Cascade. Embora o Matt nunca tenha morado de fato em Springs – seus pais são de San Diego, Califórnia, e foi lá que ele passou a infância e a primeira juventude, antes de se bandear pro Brasil –, quando vem à cidade visitar os pais, meu amigo nunca deixa de sentar por algumas horas e muitos chopes no Phantom.

“Bora lá!”, eu disse num português que deve ter soado pro Jeff e pra Neidinha como um dialeto cheyenne.

Synead, a mesma escultura pictórica de mulher nua aqui ao meu lado nessa cama d’água que me dá a sensação de estar largado em cima de uma anêmona marinha, com um controle remoto na mão no qual dá comandos nos aparelhos conectados a um telão à nossa frente, topou o programa no ato, com um sorrisinho maroto pra mim, e nos deixou com um “wait for me!”.

Assim que ela se afastou o suficiente, o Matt mandou, em bom português: “Aê, maluco. Quem diria que o gatilho mais rápido do Meio-Oeste americano é brasileiro!” E deu risada.

Jeff quis saber do que a gente ria, mas sem muito interesse pela resposta, ocupado que devia estar com algum cálculo do perigeu vezes o algoritmo ao quadrado do apogeu de um satélite em órbita osculatória. Quanto a mim, fui dar também a minha mijadinha, mas, no que eu ia entrar no banheiro, avistei a loiralva cabelama da Shyn ao longe. Ela estava tendo uma conversa não muito amistosa, pelo jeito, com um daqueles quatro funcionários dela, um garotão de cabelo moicano pintado com as cores todas do arco-íris, botas de fuzileiro, todo de preto, jeans e camiseta, com uma corrente niquelada a lhe servir de cinto. Ela tentava convencer o cara de alguma coisa, mas ele não parecia nada cordato. Dali não dava pra ver direito, mas duas horas antes, quando fomos apresentados, eu tinha lido a inscrição punk na camiseta dele, NO FUTURE. Um clone deliberado do Sid Vicious com quarenta anos de defasagem, embora o Sid, na verdade, nunca tenha usado aquele ridículo moicano.

Meio oculto pela cabine, vi o epílogo da cena, com o neopunk dando um pequeno empurrão na Synead, antes de lhe dar as costas, com direito a uma dedada no ar. Imaginei que o provável funcionário-amante da patroa não estava muito contente com a dispensada que tinha acabado de levar. Sem futuro – pra ele, naquela noite. Quanto a mim, entrei no banheiro e mijei pensando com excitação crescente no que me aguardava nas próximas horas ao lado daquela punkinha milionária. Antes de acomodar meu pinto de novo pra dentro da cueca, me veio à cabeça a frase-título de um velho filme carioca dos anos 70 que meu pai adora e vê inúmeras vezes em casa, em DVD e na tevê aberta quando reprisa, sempre fumando um beque e se cagando de rir. Tem uma hora lá em que o malandro do filme faz exatamente a mesma coisa que eu ali: dá sua mijadinha pensando na linda garota que o aguarda para uma horinha de sexo. E comenta com o próprio pau: “Vai trabalhá, hein, vagabundo?!”

 

Reunidos de novo na porta do Rodeo, Jeff, Matt, eu e a Shyn, que tinha se livrado do seu vicioso Sid pra ficar comigo, fomos os quatro para o vasto estacionamento pegar o Mercedes do Garry e a caranga da Shy, que era nada menos que um Corvette Roadster branco, conversível (já estava de capota abaixada), ano 1960, segundo ela, com estofamento vermelho, uma pérola vintage. Os cabelos esbranquiçados da motorista voaram em alta velocidade rumo ao sul pela Interstate 25, até quebrar à esquerda na Bijou Street, rumo a Downtown, onde, numa esquina da Pikes Peak Avenue, entramos num estacionamento defronte ao Phantom Canyon Brewing Company, um superboteco-restaurante no térreo e na sobreloja de um prédio antigão. Nos acomodamos os quatro na única baia livre do térreo. A figura exótica da Shyn chamou alguma atenção da freguesia e do pessoal da casa, achando na certa que ela era alguma cantora de rock ou atriz maluca amiga da Lindsay Lohan. Decididamente, essa garota não é a melhor acompanhante para, por exemplo, um agente secreto. Com seu corpão fenomenal, sua coleção de tattoos e piercings, e o modelito sumário que vestia, a Neid não tomava conhecimento de ninguém além de nós três, seus companheiros de mesa.

Jeff, Matt e eu caímos de boca no chopão artesanal do bar, denso, alcoólico, delicioso. Synead foi de Jet Soda, um refri hiper energetic, segundo o rótulo no qual figurava um foguete soltando fogo pelo rabo, do mesmo jeito que aquele foguete-fêmur da perna espacial dela.

A palestra do Jeff foi naturalmente o assunto da mesa. A horas tantas ele deixou escapar algo que parecia trazer o tempo todo na ponta da língua: “Tem uma coisa que eu não disse, quando falei da síndrome de Kessler. Quer dizer, quase falei, mas achei melhor não levantar onda naquele auditório. E ainda sair com fama de paranoico.”

“Já sei”, se adiantou a Shyn. “É a sua teoria da sabotagem lúdica, né? O bilhar espacial…” “Exatamente.” “Não acho paranoia, não”, apoiou a Shyn. E continuou: “É tecnicamente possível, e operadores de satélite com espírito lúdico é o que não falta no nosso meio.”

“Também acho”, prosseguiu o Jeff, olhando pra colega com certa estranheza, como se intuísse um caldeirão de ideias diabolúdicas fervilhando naquele cérebro ornado pela cabeleira loira descolorida. E prosseguiu: “Você pega as séries históricas das grandes colisões espaciais e logo vê que há dois momentos do ano, exatamente no solstício do verão e no do inverno, em que quase sempre ocorrem colisões de satélites e estágios de foguete.”

“Que dia é hoje?”, Shyn interrompeu. Jeff teve um ligeiro sobressalto antes de responder: “Vinte e um de junho. Solstício de verão.”

Todos ouvimos um som de bolas de bilhar ou snooker sendo atacadas com força. Eu já tinha notado que no andar de cima tinha mesas de snooker e bilhar, pelo que anunciava o luminoso apontando pra cima: Billiards. Mas o som agora atingia um pico de intensidade desde que havíamos chegado.

“Hahaha!”, rarrarrou a musa-em-chefe da mesa. “O bilhar espacial tá correndo solto hoje! Dá até pra ouvir daqui!” Todos rimos. Era uma coincidência e tanto. Jeff seguiu na sua catilinária didática: “Nos outros meses do ano também ocorrem colisões, mas em número bem menor. Nos solstícios, por alguma razão, você tem três ou quatro, ou até mesmo cinco grandes colisões no mesmo dia. E eu não vejo nenhum motivo técnico pra isso acontecer. É uma coincidência muito estranha. Parece um tipo de ritual que está sendo celebrado nesses dias.”

 

Eu e o Matt, os leigos espaciais da mesa, nos voltamos pra Shyn, a ver o que ela dizia. A papisa dos satélites fez um “hum” que podia significar qualquer coisa, inclusive nada. Daí, disse: “Coincidências podem ser aleatórias, podem resultar de erros humanos ou podem ser intencionais. No final, é tudo coincidência.” Coincidência intencional?, pensei. Eis aí um belo exemplo de oximoro. “Coincidência intencional chama-se sabotagem, Shyn”, Jeff cravou.

Shyn não disse nada, mas não tirou o sorrisinho sorrateiro da cara linda crivada de piercings. Jeff foi em frente: “Minha impressão é que tem alguém com muita cancha de operar satélites brincando de bilhar espacial. Alguém de posse de todos os códigos de navegação dos satélites mortos, o que, aliás, qualquer hackerzinho do ramo espacial obtém fácil.”

“Facílimo”, a gata cientista concordou. “Dá pra pescar o NC de um velho Telstar IV ou de uma Salyut 5 aqui do meu smartphone, agora mesmo, se eu quiser.” Vendo as caras de tartaruga obtusa, minha e do Matt, ela explicou: “NC é Navigation Code. Telstar era uma série de satélites de comunicação americanos. Salyut eram aquelas estações espaciais primitivas dos russos, nos anos 70 e 80. Muita coisa ainda tá lá em cima vagando sem controle em altíssima velocidade.”

Matt se voltou pra Shyn: “Mas, e aí? Qual a chance de ter alguém realmente brincando de bilhar espacial?” “Alta”, ela disse, sem pestanejar. “E quem seria esse jogador criminoso?”, confrontou Jeff.

“Deus!”, mandou Synead, com uma curiosa expressão de quem poderia não estar brincando, reforçada por aquela hipótese de sorriso cínico em seus lábios carnudos e naturalmente vermelhos, sem sombra de batom, cuja órbita eu já tinha frequentado.

Jeff fechou a cara pra pontuar: “Só espero que Deus não resolva se divertir vendo a sua criação ser destruída numa guerra nuclear. É o que pode acontecer, se o bilhar desandar em multicolisões envolvendo satélites militares, nossos, dos russos e dos chineses. Sem falar nos franceses, ingleses, paquistaneses, indianos, israelenses, coreanos… Efeito cascata. Síndrome de Kessler. Você sabe disso tão bem quanto eu.”

“Deus é insondável”, Shyn concluiu, com densidade teológica.

Lembrando disso agora, penso como seria divertido se, naquele momento, Shyn puxasse aquela regata por cima da cabeça e a jogasse pro alto, exibindo seus dois peitos pequenos e petulantes tatuados com cogumelos atômicos, do jeito que vi acontecer no exato segundo em que pus os pés aqui.

“Que história é essa de síndrome de Kessler?”, perguntei, torcendo pra resposta não vir muito longa nem por demais complicada. “Wait”, apartou o Matt, abrindo o cardápio comprido que estava na mesa. “Antes vamos pedir alguma coisa pra comer, que eu tô com a perigosa síndrome do estômago vazio.”

A garçonete foi acionada e os marmanjos da mesa pedimos o Colorado Bison Patty Melt, um hamburgão colossal, recheado de queijo cheddar e demais tranqueiras deliciosas, pelo que mostrava a foto do sanduíche no cardápio. Quando a garçonete se voltou pra Shyn, com a comanda eletrônica na mão, a loiraça apenas lhe exibiu a palma da mão, sinalizando que não queria nada. Jeff soltou um “excuse me” e foi ao banheiro. Shyn atendeu uma ligação no iPhone e eu comentei em português com o Matt: “Caralho, bicho, que papo do além! Essa turma do teu irmão é muito doida. E essa doidinha aqui em especial é um tesão. Mesmo com toda essa ferragem perfurando as carninhas dela.” “Bota doidice nisso”, respondeu o Matt em seu português perfeito, com um resquício de sotaque americano que soa gostosamente interiorano lá em São Paulo. “E tesudice”, acrescentou.

Quando nosso pedido chegou, com Jeff de volta à mesa, Shyn concluiu a conversa telefônica, abriu sua bolsa-mochila e tirou de lá uma latinha com uma espécie de granola de flocos grossos, que ela passou a catar com os dedos e comer como se fosse pipoca.

E foi entre mordidas da deliciosa carne marmorizada de boi confinado, especialidade americana, que Jeff retomou a síndrome de Kessler, voltado pra mim e o Matt: “Kessler, Donald Kessler, é um astrofísico da Nasa que estudou a questão do efeito cascata gerado pela colisão de objetos em órbita. Ele realizou vários estudos, desde o fim dos anos 70 do século passado, sobre a multiplicação dos detritos espaciais, e chegou à conclusão que o acúmulo desse lixo espacial, especialmente na órbita baixa, poderia pôr em risco os futuros lançamentos de satélites e naves, tripuladas ou não. No limite, as colisões em cadeia poderiam atingir satélites militares que monitoram mísseis nucleares. E aí…”

De novo soaram os entrechoques de bolas de bilhar na sobreloja do Phantom, pontuando a conversa, num claro exemplo de coincidência aleatória.

“Holy shit!”, exclamou o Matt, de beiços lambuzados de um tipo de maionese verde. “Esse hambúrguer é foda de bom! A pior consequência de uma guerra nuclear seria bombardearem o Phantom.” Com a boca cheia de carne moída, cebola, molhos indecifráveis e acho que também umas pimentas mexicanas, abanei a cabeça em concordância com a sua opinião gastronômica sobre a nossa refeição. Daí, mergulhei os beiços na minha Brown Ale artesanal, estalei a língua de puro prazer e continuei no meu papel de aluno curioso: “Mas esses detritos espaciais não acabam se incinerando quando voltam pra atmosfera?”

“A maioria, mas não todos”, esclareceu o Jeff de boca cheia. “Em média um fragmento de destroço espacial tem caído na Terra todo dia nos últimos cinquenta anos.” E apontando pra Synead, concluiu: “A sua nova amiga aí é um exemplo vivo disso. Conta aqui pro nosso Brazilian guy de onde vieram esses seus brincos e piercings todos, Shyn.”

 

Engolindo com calma os destroços mastigados da sua ração, parte dos quais lhe tinham grudado nos dentes da frente, a bela começou, apontando primeiro para o metalzinho que lhe espetava a sobrancelha esquerda: “Skylab, 1979. Reentrou na atmosfera antes do previsto. Isso aqui é uma lasca de um fragmento que caiu no oeste da Austrália.”

Depois apontou para a argolinha que lhe perfurava, e ainda perfura, uma asa do nariz: “Pedacinho do estágio superior do foguete PAM-D que pôs em órbita um satélite GPS em 1993. Era um monstro de 2 toneladas que desorbitou em 2001, depois que o cone de um Apollo 5 o acertou em cheio a 300 quilômetros de altitude. Grandes pedaços dele caíram no deserto da Arábia Saudita.”

Daí, a musa orbital botou sua rósea língua pra fora, crivada de fragmentos de seja lá o que estava mastigando, para exibir a bolotinha preta do piercing lingual que eu já tinha saboreado na minha própria língua uma hora antes. Ela recolheu a língua pra dizer:

“Isso aqui veio de um fragmento do tanque de propelente de um foguete Delta II lançado em 1996. No ano seguinte, o tanque se fragmentou no atrito com a atmosfera, e um pedacinho dele bateu no ombro de uma mulher em Oklahoma. Localizei essa mulher, Lottie Williams, o nome dela, e comprei um pedaço desse fragmento por mil dólares. Uma pechincha, no mercado de suvenires espaciais.”

Então apontou pruma série de piercings toscos que lhe perfuravam a borda superior da orelha direita: “Em 1969, cinco marujos de um pesqueiro japonês tomaram uma chuva de detritos espaciais, provavelmente de um satélite russo. Os caras se machucaram um pouco, mas ninguém morreu. Fui ao Japão anos atrás e consegui achar um desses japas em Okinawa. Ele tinha guardado alguns fragmentos e me deu um, de graça. Acho que ele foi com a minha cara. Ou então não sabia o valor que isso tem.”

O japa deve ter ido mesmo com a cara da Shyn, e com todo o glorioso resto dela, pensei eu, mas prudentemente fiquei na minha.

“Chega, ou querem mais?”, perguntou a Shyn, que ainda dispunha de vários piercings faciais de origem espacial. Daí, apontando pra frente do seu shortinho, emendou: “Lá embaixo, por exemplo, tenho um piercing de origem natural. É uma lasquinha daquele asteroide que explodiu sobre a Rússia em 2013. Fui até lá no ano passado, em Chelyabinsk, perto dos montes Urais, e localizei várias pessoas que acharam e guardaram fragmentos do asteroide. Comprei um pelo equivalente a 500 dólares em rublos. É de condrito LL, um material rico em cobalto.”

“Shit, Shyn!”, exclamou o Matt, olhando pra ela e pro Jeff. “Cobalto não é um minério radioativo?” “Não mais que esse hambúrguer nojento que você tá comendo aí”, ela replicou. E arrematou, fescenina: “Mais de um namorado meu viu o próprio pau ficar luminescente depois de trepar comigo. Hahahahaha!”

Adorei aquela risada despudorada de cowgirl do Colorado. E resolvi engatar, me voltando pro Jeff, depois de deglutir um naco daquele hamburgão maior do que uma cápsula espacial: “E a tal da osculating orbit, hein? Fala aí da órbita do beijo.”

“Que é que tem a osculating orbit?”, disse o Jeff, talvez cansado de ouvir leigos em astrodinâmica tirarem onda com esse nome sempre que ele vem à tona em aula, palestra, conversa e entrevista. “Por que osculatória?”, continuei. “Tem mesmo a ver com beijo?” “Eu acho que mencionei isso rapidamente na palestra, não?”, Jeff disse, pedindo a confirmação de Shyn e Matt. “Mencionou”, disse o Matt, “mas acho que our Brazilian friend estava justamente em órbita osculatória na hora e não prestou muita atenção.”

Shyn soltou uma gargalhada sem-vergonha e eu tive a impressão de ter corado feito uma donzela colegial. Gozado que, rindo, a Shyn também parecia uma trêfega colegial do Meio-Oeste, não a rainha-diaba do mais desgrenhado underground que a sua estampa sinalizava. Não sei se ela notou o rubor na minha pele crestada do recente sol californiano que eu tinha pegado em Del Mar. Sei é que fechou de repente a risada me jogando um olhar demorado que convidava às trevas, ao abismo e, como eu ardentemente esperava, com a cabeça já afogueada pelo álcool, à cama mais próxima.

Jeff me devolveu, ignorando o evidente climinha de sacanagem instaurado entre mim e a bela e extravagante operadora de satélites: “Você pode achar a definição de osculating orbit agora mesmo no Google, pelo seu smartphone.” Daí, deu um golão no seu copázio de Brown Ale, lambeu a espuma dos beiços e finalmente condescendeu em puxar a lousa: “A órbita osculatória de um objeto no espaço é a elipse que ele descreve em torno de seu próprio corpo na ausência de perturbações externas, como as de origem lunar ou solar.”

“Mas, de onde tiraram essa associação com o beijo?”, eu quis saber, sem ter entendido uma vírgula da explicação. Shyn se antecipou, rasgando toda e qualquer discrição sobre suas intenções quanto ao latin lover ali presente, que, pra minha grande sorte, calhava de ser eu: “Depois eu te explico isso direitinho. Na prática, you know?”

Depois do sandubão, entornamos, nós, los hombres da mesa, mais alguns daqueles big chopes de alto teor alcoólico, junto com uns shots do fortíssimo rye do Colorado, de modo que ao sair dali, conduzido pela Shyn e sua lucidez movida a energético e ração power, tudo que eu queria de sobremesa era lamber, chupar, sorver cada um daqueles fragmentos de satélite e asteroide que ela trazia enganchados na pele.

 

No estacionamento, do outro lado da rua, nos despedimos do Jeff e do Matt e subimos a bordo do Corvettão branco da minha musa orbital, eu no volante dessa vez, a meu pedido, tendo como trilha sonora os Dead Kennedys que a dona do carrão puxou de um iPod.

“California Über alles/Über alles California”, berravam os velhos punks californianos. Tive uma súbita saudade do mar.

E lá fui eu, bêbado, mudando com atitude as quatro marchas do mítico carro esporte americano e chamando à vida todos os 283 hp da velha besta mecânica, como a Shyn me tinha dito, pela Pikes Peak Avenue, desguiando pra Colorado Avenue, passando por baixo da Ronald Reagan Highway, e tocando em frente pela Highway 24 afora e pelas Rocky Montains adentro. Se a polícia me parasse e me mandasse assoprar o bafômetro, a história pararia por ali mesmo. E ainda por cima, minha nova amiga tirou um charo de algum lugar e acendeu, abaixada entre as pernas abertas por causa do vento. Ela fumou, eu fumei.

“Aqui no Colorado a marijuana tá liberada para consumo recreativo”, Shyn me tranquilizou. Ponderei comigo mesmo que fumar maconha bêbado e dirigindo em alta velocidade não devia estar tão liberado assim, apesar de ser algo bem recreativo, como eu constatava ali. Dei uma olhada de relance pras pernas dela e logo associei aquela bela visão à palavra “recreativo”. Eram pernas bem recreativas, de fato, sobretudo com aquelas tatuagens todas. E sentei a botina no acelerador do Corvette, cagando pra hipótese bem real de ser parado pela polícia.

Mas, quando cruzamos o Fountains Creek por uma pontezinha de madeira, as águas límpidas da montanha correndo rápidas por debaixo, me senti livre por completo de qualquer traço de paranoia policialesca. Dali seguimos por uma trilha de terra e atravessamos uma porteira com uma placa que anunciava em letras vermelhas: NO MOTOR VEHICULES. A partir dali, orientado pela Shyn, peguei uma subtrilha ascendente que não tinha sido projetada para carros esporte baixos e, aos trancos e solavancos, seguimos por uns 2 quilômetros até dar num dos flancos do Pikes Peak, que é, conforme havia lido no meu guia turístico, o ponto mais alto das Rocky Mountains. Brequei onde ela mandou brecar, e onde eu brecaria de qualquer maneira, pois adiante só tinha um muro de pedra trançado de vegetação rala.

Saímos do carro. A Shyn tirou um controle remoto de um compartimento da bolsa-mochila, digitou uma senha, e logo o muro se abria à nossa frente, como uma pesada porta de correr feita de pedra decorada com vegetação, um truque jamesbondiano que não deve ter custado barato. Essa primeira porta desvelava um portal de chumbo com um poema entalhado em baixo-relevo nele.

Shyn comandou: “Leia. Em voz alta.” Obedeci e fui lendo:

Far from love the Heavenly Father
leads the chosen child;
Oftener through realm of briar
Than the meadow mild.

 

Oftener by the claw of dragon
Than the hand of friend,
Guides the little one predestined
To the native land.

Traduzi mentalmente, descartando a cesura e as rimas: Pra longe do amor, o Pai Celestial conduz a criança escolhida, muitas vezes por entre urtigas, ao invés de amena campina; outras vezes por garras de dragão, ao invés de mão amiga, guiando Ele vai o pequeno predestinado à terra nativa.

“Beautiful, man!”, exclamei, com a mais autêntica sinceridade etílica. “De quem é? Sou meio ignorante em matéria de poesia, mas dá pra sentir que é coisa boa. É seu?” “Da Emily Dickinson.” Fiz cara de quem não sabia quem era a Emily Dickinson. Ela se adiantou: “Uma poeta de Massachusetts, do século XIX. O Henry James… conhece o Henry James?” “Esse eu conheço. Li A Outra Volta do Parafuso e Os Embaixadores.” “Ôu, really?! Well, o James dizia que a Emily Dickinson pintava a ‘paisagem da alma…’”

Porra, pensei na hora. Essa operadora de satélites astrossábia e cheia da bufunfa ainda por cima manja de literatura? “Incredible!”, soltei. “E quem será esse ‘pequeno predestinado’ que o Pai Celestial conduz à ‘terra nativa’? Serei eu?! Huahuahuahuahuá!”

Shyn apenas sorriu e, de novo, cutucou lá o aparelhinho dela. O portal de chumbo se abriu para um longo corredor escavado na pedra e inundado por uma fantasmagórica luz branca. Dei uma última olhada no Corvette branco conversível que parecia me olhar com certa tristeza automobilística.

“Não vai pelo menos subir a capota?”, eu disse a ela.

“Não há necessidade.”

“Mas, e se chover?”, eu disse, de olho nas nuvens pesadas que se formavam naquele prolongado crepúsculo de verão no hemisfério Norte.

“Venha”, ela disse, penetrando na montanha.

E eu fui. E cá estou.

Reinaldo Moraes
Reinaldo Moraes

É escritor, autor de Maior que o Mundo

Leia Mais

ficção

Música de mortos suaves

A vida era aquilo para eles desde sempre

02 mar 2026_19h31
ficção

Céu de Miguelzin

Meu menino sempre teve esse olho virado pro alto, pras nuvem

02 fev 2026_19h11
ficção

Vinte estudos para uma mitologia pequena

É dessa maneira que os deuses vivem entre nós

23 dez 2025_16h45
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30