CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
A musa do brega
Fenômeno nordestino, Priscila Senna agora almeja o Brasil inteiro
Felipe Fernandes | Edição 229, Outubro 2025
A cantora pernambucana Priscila Senna subiu ao palco montado na Praça do Marco Zero, no Recife, como uma autêntica diva pop, vestindo um tomara que caia branco cravejado de pedrarias e uma cauda esvoaçante prateada presa à cintura. Apesar de ser quarta-feira, dia 27 de agosto, cerca de 30 mil pessoas se espremiam às 19 horas na praça para ver a gravação do novo DVD da ex-vocalista da banda Musa do Calypso que se converteu num fenômeno da música brega. O grupo se desfez em 2017, mas Senna guardou o epíteto de “musa”, adotado pelos fãs pernambucanos. Não à toa, o DVD gravado no Marco Zero se chama TBT da Musa.
O show de Senna no Marco Zero contou com um palco de 60 metros de largura e 18 de altura, um dos maiores já erguidos no ponto turístico, que no Carnaval já recebeu nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Alcione. Durante quatro horas, a cantora de 34 anos passeou por dezoito músicas que representam diferentes fases de sua carreira e recebeu convidados, como Liniker, Pablo e Maiara & Maraisa.
Tudo começou quando Priscila da Silva Sena (a letra dupla no sobrenome existe só no nome artístico) tinha 11 anos. Apesar da pouca idade, ela fez um teste para tornar-se backing vocal na banda Sensação do Brega, levada por um tio, Júnior Senna, bailarino do grupo. Depois que foi aprovada, os dois passaram a ensaiar juntos. “Eu fingia ser a Sandy e pedia para ele imitar o Junior”, conta a cantora à piauí. Pouco tempo depois, ela assumiu como vocalista principal da banda.
Ainda na adolescência, Senna gravou seu primeiro brega, Amor sincero. “Já era uma pedrada nessa época”, diz. Dos 16 aos 19 anos, Senna fez parte da banda Mistura do Calypso, que conquistou os pernambucanos com músicas que também cantavam as dores de cotovelo. Ela diz que as coisas não foram fáceis nessa época. “Às vezes fazia só uma refeição. Passei por muita dificuldade.”
A virada aconteceu em 2009, quando os irmãos empresários Márcio e Elvis Pires, do escritório musical RME Produções, passaram a gerenciar sua carreira e montaram a banda Musa do Calypso, que a consagrou. Com o fim da banda, Senna assumiu a carreira solo. Ela e Márcio Pires se casaram e hoje moram em Olinda, cidade natal da cantora, junto com os dois filhos adolescentes, Emely e Marcílio.
O cunhado Elvis Pires é o compositor de boa parte do repertório de Senna, incluindo os sucessos Podem até nos separar, Novo namorado e Não sabe (todas em parceria com Rodrigo Mell). As três canções fizeram parte do DVD Priscila Senna ao vivo em Recife, o primeiro que ela gravou, em 2012. “Emplacamos vários hits. Foi quando eu percebi que estava no caminho certo”, diz ela. A apresentação já foi vista mais de 6 milhões de vezes no YouTube.
Atualmente, dos cerca dos vinte shows que Senna faz por mês, a maioria é em cidades nordestinas. Mas uma das metas da cantora é romper a fronteira do Nordeste e irradiar suas canções para outras partes do país. Em maio deste ano, Senna fez uma de suas raras apresentações na Região Sudeste, cantando na Virada Cultural, em São Paulo.
Outra ponte foi criada no ano passado, quando a paulista Liniker chamou Senna para participar de seu álbum Caju. Elas fizeram um dueto em Pote de ouro, composição de Liniker em parceria com Marcio Arantes. A cantora pernambucana retribuiu, convidando a paulista para subir ao palco do Marco Zero. “Sou muito grata por ser sua contemporânea”, disse Liniker a Senna no Recife, depois de cantarem a mesma Pote de ouro.
Na Praça do Marco Zero, o público, que assistiu ao show de graça, vibrou quando Priscila Senna cantou Alvejante, parceria de 2021 com Zé Vaqueiro, cujo clipe já foi visto mais de 160 milhões de vezes no YouTube. Também se emocionou com Novo namorado, de 2008, o primeiro grande sucesso da cantora. O refrão chiclete virou um hino de superação para as pessoas que levam um pé na bunda:
Pintei o meu cabelo, me valorizei,
Entrei na academia, eu malhei, malhei.
Dei a volta por cima
E hoje eu mostrei meu novo namorado.
Em nova fase, Senna trilha um caminho mais pop e diz que gostaria de gravar com Anitta e Luísa Sonza, das quais é fã. “Elas também cantam sofrência”, justifica. Por isso mesmo, em seus shows, tem adicionado ao repertório outras influências. Como o arrocha – ritmo cadenciado e sensual que surgiu na Bahia, influenciado pelo bolero – e a bachata – gênero romântico originário da República Dominicana. Mas Senna faz questão de garantir que não vai “deixar de cantar brega”.
A sofrência é um estado de espírito compartilhado por vários gêneros musicais, ao passo que o brega é um estilo específico de canção sentimental. Para Senna, que já soltava a voz desde a adolescência cantando as dores de amor, a essência do brega será sempre a mesma: falar não somente das relações que deram certo, mas também das paixões descabeladas que acabaram em desilusão. É assim que a cantora encontra seus fãs. “O que eu mais escuto das pessoas é: ‘Essa música foi feita para mim’”, ela diz.
