Nikolas Ferreira: “Ele criou um bolsonarismo jovem, mais evangélico e com presença ainda mais agressiva no Congresso, focado nas pautas queer”, diz a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado CRÉDITO: DIEGO BRESANI_2024
A peça de reposição
Em sua cruzada ideológica, Nikolas Ferreira vira o garoto de ouro do bolsonarismo
João Batista Jr. | Edição 217, Outubro 2024
No fim de agosto, o deputado Nikolas Ferreira percorreu o Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, região onde nunca havia pisado antes. O mineiro nascido na periferia de Belo Horizonte abraçou desconhecidos, subiu em carrocerias e discursou em palanques pedindo votos para candidatos do Partido Liberal nas eleições municipais.
Com cabelo molhado de suor, ao lado do candidato a prefeito de Caçapava, disse: “Fico feliz em poder ajudar os candidatos do PL em todo o Brasil.”
Com blusa de moletom e capuz, debaixo de chuva, em comício da candidata a prefeita de Campos de Jordão, perguntou: “Quem é Joaquina aqui levanta a mão?” O público respondeu: “Euuuuuu.” Ele emendou: “Precisamos de uma prefeitura que preza por nossos princípios, por nossos valores.”
Com um sorriso que logo ficaria amarelo, constrangido por um trocadilho bobo, disse: “Pessoal, estou aqui com a candidata Renata Kobra […] que vai fiscalizar e defender as nossas pautas.” A candidata a vereadora em Taubaté, completou: “E, se o prefeito não faz, a Renata cobra.”
De madrugada, a conta da agenda intensa chegou. O deputado não conseguiu pregar o olho até as cinco da manhã. Decidiu ir ao hospital. Fez exames, tomou soro e um remédio na veia. Saiu do hospital direto para outros comícios.
Nas últimas semanas, Nikolas participou de eventos em Belém, Cuiabá, Fortaleza, Goiânia, Governador Valadares, Juiz de Fora, Londrina, Manaus, Poços de Caldas e São Paulo. Quando está em Brasília, seu gabinete, no sétimo andar do Anexo IV da Câmara dos Deputados, recebe uma romaria de candidatos, quase todos do PL, ávidos para tomar emprestado um naco da força digital do parlamentar.
No dia 10 de setembro, terça-feira, a piauí testemunhou: as pessoas em fila na porta do seu gabinete levavam mais de quatro horas só para tirar uma foto com o deputado. Como a agenda de uma votação importante estava retendo o deputado no plenário, os interessados foram atrás dele. Quando circulou pelo Congresso, um enxame de gente o acompanhou: os fãs e aspirantes a políticos querem uma foto ou um vídeo de apoio para divulgar nas redes sociais. Objetivo, o deputado olha direto para a tela do celular, diz o nome do candidato e pede voto. E parte para o seguinte. Sempre há quem conte alguma historinha para ter mais uns segundos ao seu lado. Um deles usava uma camiseta vermelha com o símbolo do mst e a frase: “Vai trabalhar, vagabundo.”
Os pedidos não chegam apenas de pessoas anônimas. “Não sei te falar, mas ele gravou [vídeos] para mais de dez [candidatos] que eu trouxe”, conta Luciano Zucco, deputado federal do PL pelo Rio Grande do Sul, tamborilando os dedos sobre a mesa de seu gabinete, decorado com uma enorme foto ao lado de Jair Bolsonaro. Algumas demandas são resolvidas por videochamada. “Olha como ficou emocionante!”, diz Zucco, enquanto mostra a que foi gravada entre Nikolas e um candidato a vereador em Porto Alegre.
“Ele tem se empenhado demais”, diz Filipe Barros, deputado do PL mais votado pelo Paraná, referindo-se às gravações de apoio. Durante um evento em Belo Horizonte, seu berço político, Nikolas gravou 210 vídeos. Há metas, definidas entre ele e seu chefe, Valdemar Costa Neto, o presidente do PL. A principal é promover candidaturas em Minas Gerais, o segundo colégio eleitoral do país.
Políticos populares são assim – assediados, requisitados, quando estão cercados por seus apoiadores. Há meia dúzia de nomes da extrema direita que são tratados como celebridades. Com Nikolas, há uma diferença. Em sua cruzada, além dos vitupérios tradicionais da extrema direita, ele gosta de pregar valores – e, aonde quer que vá, repete como um mantra “nossos princípios, nossos valores, nossas pautas”. É um reacionário empenhado em evangelizar as massas com base em ideias nas quais de fato acredita. O começo de tudo se deu no dia 10 de outubro de 2013.
Era uma quinta-feira. Nikolas Ferreira tinha 17 anos e fez uma prova de sociologia na escola. Uma questão abordava a transgeneridade da cartunista Laerte e de um modelo de Minas Gerais. O objetivo era discutir o preconceito e a diversidade sexual, mas Nikolas, criado numa família rigidamente evangélica, ficou incomodado.
Fez a prova e, no dia seguinte, ele disse à professora que aquilo era “apologia do ativismo gay” e queixou-se na coordenação da escola. Disse que se sentia vítima de uma tentativa de alienação. Indignado, resolveu escrever um longo texto sobre o episódio em seu perfil no Facebook. Começava assim:
Meu nome é Nikolas Ferreira, tenho 17 anos, estudo na escola Sesi Comar em Belo Horizonte. No dia 10 de outubro de 2013, fiz uma prova de sociologia pelo 3º ano do ensino médio. A prova já começou com a foto do cartunista Laerte. Isso, aquele mesmo que processou uma mãe por “homofobia”. […] A segunda questão seguia de um texto de Luiz Caversan, renomado colunista da Folha de São Paulo que trata até hoje em seus textos e tuítes o projeto de lei de João Campos como “cura gay”. O texto de Luiz afirma não haver época mais sinistra para os gays como os dias atuais, comparando a “idade das trevas”. Fidel e Che mandaram abraços.
Nos parágrafos seguintes, Nikolas contou que, na discussão com a professora, disse que “os maiores assassinos de homossexuais foram os comunistas” e sugeriu que ela lesse Ideologia de gênero, de Jorge Scala. Disse que, ao reclamar na coordenação, foi tratado com “total cinismo e sarcasmo”, e completou: “Disse pra ela [coordenadora] que infelizmente a doutrinação marxista passa despercebida e essa prova nada mais era do que uma imposição de uma ideologia de esquerda. Cheguei a citar que o MEC era o Ministério da Educação Comunista.” Ao deixar a sala, disse que se dirigiu à coordenadora e falou: “Doutrinação de esquerdista marxista na minha sala, não.”
Encerrando seu texto, descreveu a sua batalha:
Ao chegar à sala, os colegas que sentam ao meu redor disseram: “Nikolas, você tinha que ver, ela não ouve a nossa opinião. Ela falou um monte de coisa aqui, você tinha que estar aqui!” O ocorrido abriu uma oportunidade pra falar sobre a ditadura gaysista no Brasil e no mundo e fazê-los refletir sobre o assunto. Já as outras parcelas de idiotas úteis da sala disseram que “o Nikolas quer acabar com o comunismo”, em tom de piada.
E a tal da professora relatou que passou mal à noite quando descobriu que eu era de direita conservadora. Toda semana surge uma polêmica. Toda semana é um desafio: acabar com o gramscismo na sala de aula. Mas estamos aí. Estou fazendo o mínimo para defender meus e acredito que nossos princípios. Não brinco ao defender meus valores.
“Sou reacionário sim. Reajo contra tudo que não presta.” Nelson Rodrigues.
O site Logos Apologética Cristã, especializado em assuntos religiosos, pediu para publicar o texto do garoto. E o texto viralizou. Aos 17 anos, Nikolas chamou a atenção de Ana Caroline Campagnolo (deputada estadual do PL por Santa Catarina, conhecida por ser antifeminista e contra o educador Paulo Freire), Miguel Nagib (fundador do movimento Escola sem Partido) e a família Bolsonaro. “Carlos ou Eduardo me chamaram no Facebook”, diz ele, ao conversar com a piauí em sua sala na sede do PL em Belo Horizonte. Ele recebeu uma enxurrada de mensagens de alunos de outros estados se queixando dos professores. “Ali comecei a entender o poder da rede social e passei a não ter medo do cancelamento.” Era o começo de uma estratégia: ser cancelado por jovens progressistas só pavimentava seu caminho para virar ídolo do reacionarismo.
Quando tinha por volta de 13 anos, durante um almoço de domingo, sua irmã mais velha, Ellen, falou sobre temas que estava aprendendo na escola. “Ela começou com umas ideias de Greenpeace, de que Fidel Castro era revolucionário, de que Che Guevara tinha ideais maravilhosos”, diz Nikolas. Um tio materno se surpreendeu e resolveu mostrar à sobrinha uns vídeos de Olavo de Carvalho, o ex-astrólogo, hoje falecido, que acabou virando um guru do bolsonarismo. Nikolas viu os vídeos e teve sua epifania.
Naquela época, o garoto estava focado no mundo das conspirações, interessado em descobrir mensagens subliminares nas músicas, sociedades secretas, teorias sobre a maçonaria e os Illuminati. Depois, passou a expandir seus interesses. “Comecei a ler os autores da Escola de Frankfurt, a ler Antonio Gramsci”, diz. Em sua leitura, interpretou que todos esses autores queriam implantar o comunismo na sociedade, tendo como um dos pilares a legalização da pedofilia. “Foi naquela época que se dizia muito que ‘todo amor é válido’. Se tudo é válido, vale homem com animal e com criança?”
Na noite em que foi ao ar o último capítulo de Amor à vida, que exibiu o primeiro beijo gay de uma telenovela no Brasil, Nikolas estava com uma turma de escola no sítio de um colega. Os adolescentes conversavam no espaço externo, mas ele estava na frente da tevê, com o dono do sítio. “Ele ficou incomodado”, lembra outro colega. Pesquisando livros e canais de YouTube, Nikolas se convenceu de que a imprensa e a indústria do entretenimento têm algum objetivo oculto. O beijo gay da novela, por exemplo, destina-se a destruir a família e controlar a cabeça dos jovens. A prova de que incutem seus valores sub-repticiamente? “Meus amigos do ensino médio foram nas manifestações contra a Dilma”, diz ele. “E, na última eleição, votaram no Lula.”
Em um restaurante com mesa na calçada no bairro Savassi, na capital mineira, um ex-colega se lembra dos embates acalorados que Nikolas tinha nas aulas do ensino médio. Um deles foi com a professora de biologia quando se discutia a teoria da evolução, de Charles Darwin, que é muito combatida pelos cristãos conservadores. “Ele nunca me desrespeitou, nunca me afrontou”, diz a professora, que pediu o anonimato para evitar perseguição digital. “Ele questionava e eu apresentava os argumentos. Era uma pessoa boa em sala de aula, que me surpreendeu com o que se tornou.” Nikolas se lembra do episódio. “Eu concordo com a existência da evolução da espécie, mas nunca vi um exemplo de alteração de espécie”, diz ele, como se o darwinismo defendesse a ideia de que um macaco pode virar avestruz ou uma formiga pode virar peixe.
Quando tomou conhecimento da existência de Jair Bolsonaro, por meio do CQC, o humorístico da Band, Nikolas teve outra discussão em sala. “Uma professora de filosofia trouxe a questão da cura gay”, lembra-se ele. O tema havia sido abordado pelo programa da Band. “Eu fui ler sobre o assunto e vi que não tinha nada a ver com o Bolsonaro ou Marco Feliciano.” De fato, o autor do projeto de cura gay – que nunca virou lei – era João Campos de Araújo, na época, deputado do psdb de Goiás, pastor da Assembleia de Deus. Mas Bolsonaro e Marco Feliciano eram apoiadores entusiasmados da ideia.
“O Nikolas era um cara enturmado, inteligente e gente boa, e sempre entendeu que a vida em sociedade tinha de seguir a Bíblia à risca”, diz o ex-colega no restaurante da Savassi, que também pediu para não ser identificado, por receio de sofrer ataques na internet. “Ele ia às resenhas, mas não bebia nem pegava ninguém.” De fato, Nikolas tinha orgulho de dizer que queria se “casar BV”, ou seja, “boca virgem”. (No entanto, Nikolas teve sua primeira relação sexual na faculdade. No ano passado, casou-se com a modelo Lívia Bergamim Orletti, que conheceu pelo Instagram e com quem tem uma filha, Aurora, de 7 meses.)
“Zero, zero, zero, zero, zero, zero. Eu era completamente zero conhecido”, diz. Em 2014, aos 18 anos, Nikolas Ferreira começou a cursar direito na PUC Minas. Mais tarde, quando já fazia estágio, compareceu a um evento da universidade com a presença do teólogo Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação. Com seu físico mirrado e uma mochila nas costas, pediu a palavra e chamou todos os presentes de hipócritas e adoradores de Che Guevara, “que matou gays”. Provocador, afirmou: “Vocês não têm moral para falar de democracia, são um bando de comunista safado.” Conseguiu o que queria: foi vaiado, retirado do local, e o vídeo da cena viralizou no Facebook.
O país estava submerso num clima de descontentamento generalizado. Junio Amaral, então policial militar e estudante de direito na PUC de Contagem, era um dos revoltados. “Os professores tentavam atuar politicamente e fora do conteúdo programático. Diziam que a polícia era responsável pelo confronto armado, que a sociedade era tão culpada quanto os criminosos pelos problemas de segurança pública.” Amaral, querendo reunir gente que pensasse como ele, criou o Direita Minas, um grupo de Facebook. Virou um celeiro da extrema direita.
Um dos seguidores e entusiastas era Nikolas. A turma cresceu, deu origem a um grupo de WhatsApp e fez seu primeiro encontro em 2016. Reuniu sessenta pessoas na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O grupo acabou se aglutinando em torno do então deputado Jair Bolsonaro, depois que, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, o futuro presidente fez uma provocação infame ao homenagear o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ativo na ditadura militar. “O pessoal das redes estava perdido, a partir disso se encontrou.”
O Direita Minas, então com 10 mil seguidores e sob a coordenação de Nikolas, resolveu testar a fidelidade ideológica dos candidatos que procuravam o grupo em busca de apoio na eleição municipal. Quem usasse uma camiseta com o rosto de Ustra ganharia a simpatia. Nenhum topou. Então, o Direita Minas decidiu lançar um puro-sangue, Bruno Engler, que seguira Bolsonaro, filiando-se ao PSC. Tinha 19 anos, zero experiência política. Recebeu pouco mais de 2 mil votos, mas ninguém desanimou.
Em 2017, Eduardo Bolsonaro esteve em Belo Horizonte e aproveitou para confraternizar com os dirigentes do Direita Minas. A mãe de Amaral fez um jantar em sua casa para oito pessoas, Nikolas entre os convidados. Discutiu-se como ampliar o apoio a Bolsonaro na eleição presidencial do ano seguinte. Amaral disse que não tinham caixa. “Então, o Eduardo falou uma coisa que eu nunca mais esqueci. Ano que vem, dinheiro vai valer menos que rede social.”
Deu certo. Na eleição de 2018, Amaral se elegeu deputado federal com 158 mil votos, e Bruno Engler virou deputado estadual, com 120 mil. Nikolas foi trabalhar como assessor parlamentar de Amaral, no escritório de Belo Horizonte, mas nunca descuidou de suas redes sociais. Nessa época, um dos seus vídeos mais populares mostrava sua visita a Olavo de Carvalho, no estado da Virgínia, nos Estados Unidos. Nikolas não o considera seu guru intelectual, porque Carvalho contrariava seus valores religiosos quando demonizava Martinho Lutero, fundador do protestantismo, mas adora uma expressão que o ex-astrólogo popularizou: “marxismo cultural.” Diz ele: “Eu faço o que a Bíblia diz: ‘Examinai tudo e retém o que é bom.’”
Na pandemia, Nikolas produziu conteúdo em escala industrial, sempre criticando o isolamento social como forma de evitar o contágio da Covid. Não deu outra. Em 2020, a cruzada negacionista rendeu-lhe 29 388 votos. Foi o segundo vereador mais votado de Belo Horizonte, atrás de Duda Salabert (PDT-MG), que recebeu 37,6 mil votos. Antes da posse, Nikolas deu uma entrevista ao Estado de Minas sobre a sua adversária política: “Eu ainda irei chamá-la de ‘ele’. Ele é homem. É isso o que está na certidão dele, independentemente do que ele acha que é.” A cada ataque transfóbico, suas redes ganhavam mais seguidores e mais engajamento.
Empossado na Câmara Municipal, quando um colega pediu seu apoio para um projeto, Nikolas negociou o voto em troca da vice-presidência da Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor. Conseguiu. “Ele sabe que ocupar esses espaços garante posts polêmicos”, diz um vereador, que não quer divulgar seu nome para preservar as relações de amizade com o deputado. Foi um vereador barulhento, quase sempre lidando com temas da “guerra cultural”. Chegou a aprovar um projeto proibindo o uso de linguagem neutra na educação básica, pública e privada, em Belo Horizonte. (A lei foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.)
Em junho de 2022, sua irmã mais nova, Lavigne, então com 16 anos, gravou uma adolescente trans usando o banheiro feminino da escola onde as duas estudavam. Nikolas não perdeu a chance: postou a cena nas redes, o assunto explodiu e gerou revolta de todos os lados – de quem condena banheiro unissex e de quem se indignou com a exposição de uma adolescente de 14 anos. “Não expus, não”, defende-se ele. “A pessoa estava com o rosto coberto.” (Ela usava máscara em razão da pandemia.) Nikolas explorou o caso na campanha a deputado federal, três meses depois. Foi uma consagração. Com quase 1,5 milhão de votos, foi o deputado mais votado do país.
Fenômeno de votos, Nikolas é também um fenômeno digital. Entre todos os deputados e senadores, é o político com maior presença e maior engajamento nas redes sociais. Tem duas contas no Instagram, uma com 11,6 milhões de seguidores, outra com 2,9 milhões. Em seu TikTok, é imbatível entre todos os políticos brasileiros – neste caso, incluindo o presidente Lula e Bolsonaro –, com seus 5,9 milhões de seguidores. Ainda tem fãs no YouTube (1,9 milhão), no Facebook (1,4 milhão), no Telegram (261 mil) e no Kwai (479 mil). No ex-Twitter, que ele continua usando apesar da proibição, tem 4 milhões. Ali, parte dos seus posts é em inglês, dirigidos a usuários estrangeiros.
Nikolas mostrou à piauí os dados demográficos de sua maior conta em rede social – a @nikolasferreiradm, no Instagram, aquela em que reúne 11,6 milhões de seguidores. Há uma divisão equilibrada entre homens (50,3%) e mulheres (49,6%) e uma concentração entre os que têm de 25 a 34 anos (33,6%) e os que estão na faixa etária que vai de 35 a 44 anos (26%). Mesmo com enorme votação em Minas, parte de seus seguidores está em São Paulo (5,8%) e Rio de Janeiro (3,3%). Só depois aparece Belo Horizonte (2%), seguido por Fortaleza (1,4%) e Goiânia (1,3%). No mês de agosto, Nikolas ganhou 312 mil novos seguidores.
A pedido da piauí, a Palver, empresa de engenharia e análise de dados, examinou 80 mil grupos públicos de WhatsApp entre 10 de agosto e 9 de setembro para medir o índice de menções a políticos da extrema direita. Nikolas desbancou todos os pesquisados – a saber, os deputados André Fernandes (PL-CE), Carla Zambelli (PL-SP) e Julia Zanatta (PL-SC) e o trio Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Entre os dias 6, 7 e 8 de setembro, quando a direita usava as redes para convocar e repercutir o ato de Sete de Setembro na Avenida Paulista, Nikolas era 25 vezes mais citado que todos os outros. (Perdeu apenas no dia 9 de setembro para a deputada Carla Zambelli, criticada pelos bolsonaristas por usar um carro de som barulhento enquanto Bolsonaro discursava na Paulista. Mas era o que os oposicionistas chamam de “um episódio de gado se estranhando”. Zambelli está em franca desgraça nas hostes da extrema direita desde que virou pistoleira de rua.)
Em parte, o sucesso digital de Nikolas está em sua habilidade para criar o que os estudiosos classificam como “fato relevante”. Ou seja: postar sobre um assunto em alta no noticiário com o objetivo de pegar carona na discussão. Quando Kamala Harris foi escolhida para concorrer à Casa Branca no lugar de Joe Biden, ele escreveu: “Se for a Kamala, vai ser chocolate”. Não há dúvida sobre sua torcida a favor de Donald Trump, mas ele cavalgou no tema do dia com uma palavra calculadamente ambígua: era uma manifestação racista ou previsão de que a vitória seria uma lavada?
Quando veio a público a denúncia de que o então ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, estava sendo acusado de assediar sexualmente sua colega Anielle Franco, da Igualdade Racial, a extrema direita esbaldou-se em ataques a feministas, a artistas e à suposta hipocrisia do governo de esquerda. Nikolas publicou uma foto de Almeida e legendou: “Quer levar uma sarrada?” Em outra, usou imagem de artistas como Alice Wegmann, Drica Moraes e Cissa Guimarães, que usavam camisetas com os dizeres “Mexeu como uma mexeu com todas”, e escreveu: “Cadê essa turminha?”
“Ele usa o noticiário da mídia tradicional para reverberar em outras plataformas”, diz Luis Fakhouri, diretor de estratégia da Palver. De tanto dizer nas redes que Alexandre de Moraes praticou censura ao suspender o X de Elon Musk, Nikolas está sendo elogiado, em postagens de direita, como alguém “forte” e “corajoso”. “O deputado usa estratégia de marketing digital, de despertar gatilho mental e criar necessidade de urgência”, diz Fakhouri. Nikolas também usa o recurso do deboche e da provocação, que causa mais engajamento sobretudo entre os mais jovens.
Sua popularidade digital está a serviço do PL de Valdemar Costa Neto. O partido escalou Nikolas como garoto-propaganda dos seus candidatos e até colocou um jatinho à disposição para sua turnê nacional. Hoje, o PL tem a maior bancada na Câmara (com 91 deputados) e fica em segundo lugar no Senado (com 14, atrás do PSD, com 15). Nas prefeituras, no entanto, o PL não é uma potência. Com 371 prefeitos, é apenas o quinto maior partido. Para mudar esse quadro e atingir a meta de mil prefeitos, quase o triplo do contingente atual, Costa Neto deu aos mais votados em seus estados a missão de alavancar o partido. Em Goiás, a tarefa é de Gustavo Gayer. No Rio Grande do Sul, é de Zucco. Em Minas, de Nikolas Ferreira, mas ele se expande para outros estados.
A estimativa é que Nikolas ajude a eleger 150 prefeitos e vereadores. Entre eles, estão André Fernandes, que lidera as pesquisas para prefeito de Fortaleza, e Bruno Engler, que está embolado no segundo lugar para a Prefeitura de Belo Horizonte. Mas Nikolas é mais ambicioso. “Pensando bem, devo ficar entre 300 e 400 pessoas pelo país”, calcula. Para chegar lá, tem feito comícios por outros estados, mas sua prioridade continua sendo Minas Gerais, onde deu recentemente uma prova de força e prestígio.
Era uma noite de quinta-feira em setembro. Só metade da casa de show, com capacidade para 5 mil pessoas, estava ocupada. No palanque, Nikolas Ferreira conseguira reunir três membros da família Bolsonaro: o casal Jair e Michelle e o senador Flávio (PL-RJ). O palco estava enfeitado com balões patrióticos – verde, amarelo e azul. Grande parte da plateia usava camiseta da Seleção Brasileira de Futebol e segurava bandeiras do Brasil e de Israel. A música de abertura eram as batidas do funk Baile de favela, na versão com xingamentos à esquerda feita pelo falecido mc Reaça.
Flávio foi o primeiro a falar. Disse que seu pai era “a maior liderança humana desse país” e explicou as razões do empenho eleitoral de Nikolas e Costa Neto. A ideia é eleger o maior número possível de prefeitos e vereadores, que, por sua vez, venham a apoiar o maior número possível de deputados e senadores, que, por sua vez, engrossem o movimento pela anistia de Bolsonaro, inelegível até 2030, que, por sua vez, possa concorrer e se eleger novamente presidente da República.
Com a voz fraca em razão de uma gripe, aparentando mais do que seus 69 anos e uma camisa amarela apertada, salientando a barriga protuberante, Jair Bolsonaro repisou o discurso do retorno. “Se quisermos voltar ao que éramos no final de 2022, temos que plantar nos municípios com prefeitos e vereadores.” Fez deferências a Nikolas. “No tempo em que me elegi deputado, não tinha celular”, disse. “Eu era muito parecido com ele. Eu amadureci, e ele está amadurecendo também. Novas lideranças têm aparecido, e isso nos conforta. Temos peça de reposição e podemos acreditar num Brasil melhor.”
Antes, Nikolas fora anunciado pela apresentadora do evento como um político de “fé, virtude, força e, acima de tudo, coragem”. Quando pegou o microfone, foi ovacionado. Seguiu seu roteiro. Primeiro, engajou o público (“Quem é Bolsonaro dá um grito aí. Quem quer Bruno Engler dá um grito aí. Quem quer Lula na cadeia dá um grito aí”). Depois, afagou a plateia (“É muito bom estar em casa, BH nunca decepciona”), despertou a indignação (“[Na pandemia] quem pisasse fora de casa era chamado de genocida, fascista”) e, por fim, convocou para sua cruzada (“Vai ser literalmente uma guerra!”).
Sem surpreender ninguém, atacou o ministro Alexandre de Moraes, condenou a suspensão do X e denunciou que o Brasil vive sob uma “ditadura da toga”. Mas, para a surpresa de alguns, trouxe um elemento novo para o discurso da extrema direita, talvez sob o impacto de um país que está enfrentando uma seca histórica e uma onda assustadora de incêndios: “Belo Horizonte tem muito potencial, até mesmo porque, nos anos 1990, tinha a maior quantidade de árvores da América Latina.” (A capital mineira já foi muito arborizada, mas nenhuma fonte atesta esse recorde latino-americano.)
Nikolas Ferreira aprendeu que “vai ser literalmente uma guerra” ainda dentro de casa. Seu pai, que fundou a igreja Comunidade Evangélica Graça e Paz depois de anos na Assembleia de Deus, não parece um pastor pregando para fiéis, mas um político arengando às massas.
No domingo, dia 4 de agosto, o culto começa pontualmente às 10 horas. Todo novato que chega à igreja, na comunidade Cabana do Pai Tomás, em uma das regiões mais pobres de Belo Horizonte, é convidado por um obreiro a preencher uma ficha com seus dados – nome, endereço, telefone – para ser chamado ao palco, ouvir um convite de boas-vindas e entrar no mailing permanente da entidade. Durante a primeira hora de culto, um grupo de louvor composto por quatro cantores, um guitarrista e um baterista pré-adolescente entoam músicas religiosas.
A igreja é ampla e simples. O pé-direito é altíssimo e, ao fundo, há um mezanino. As paredes são de alvenaria, o palco modesto fica diante de trezentas cadeiras pretas. No lado esquerdo do palco, colado à parede, há uma cruz em néon. Em frente à cruz reluzente, três mastros com as bandeiras de Minas Gerais, do Brasil e de Israel. O público é diverso: crianças, adolescentes com seus pais, casais jovens, idosos.
Os pastores Edésio de Oliveira e Ruth Ferreira, os pais de Nikolas, se sentam na primeira fileira para acompanhar o louvor. Concluída a cantoria, Oliveira sobe ao palco. Um telão no fundo do palco se acende e pede a colaboração dos fiéis, informando o Pix, com a frase “oferte e dizime”. Ao contrário de igrejas que pedem dinheiro sem parar, o pedido de Oliveira dura cinco minutos, some e o assunto está encerrado.
Oliveira então começa a pastorear. A sua voz é tranquila e firme. Não abre citando um trecho da Bíblia, mas interpretando a conjuntura social e política. Primeiro, fala da América Latina. “Aquela situação tão calamitosa que está acontecendo na Venezuela, que a grande mídia não mostra, mas a gente tem acesso através das redes sociais. O nosso governo está apoiando aquele ditador, Nicolás Maduro. Isso é uma coisa muito séria”, diz. “Vocês podem dizer: ‘Mas, pastor, isso é problema deles.’ Não é problema ‘deles’. Enquanto estamos no mundo, somos luz do mundo e sal da Terra.”
Da Venezuela pula para o Oriente Médio. “No caso de Israel, a nossa nação também está indo na contramão. O líder do Hamas que foi morto recentemente, no Irã, e o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, estavam lá. É o Brasil apoiando ditaduras”, diz. (Alckmin esteve em Teerã representando o governo brasileiro na posse do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian. Na cerimônia, Alckmin, seguindo as regras do protocolo local, ficou ao lado de Ismail Haniyeh, o chefe do Hamas, que seria assassinado horas depois num ataque aéreo. Acusado de promover o atentado, o governo de Israel não disse nada.)
O pastor então faz uma convocação. “O que nós podemos fazer? Nós podemos continuar orando e dizer: ‘Deus, venha movimentar as suas mãos, e nos perdoa como nação por esses pecados e venha restaurar o Brasil.’ Vocês acreditam na restauração da nossa nação? Então fiquem em pé e vamos orar em nome de Jesus.” Uma obreira assume o microfone, pede para que todos se levantem e começa a orar por Israel. Outro obreiro, um senhor de cabelo raspado que grita “Amém” a cada quinze segundos, vai até os mastros e pega as bandeiras do Brasil e de Israel.
Oliveira reassume o microfone e inicia a pregação sobre o conceito e o impacto da boa semeadura em nossas vidas. Diz que Deus perdoa a todos que se arrependem e pedem perdão, mas, mesmo assim, os efeitos do pecado não cessam – e o pecador continua colhendo o resultado de sua má semeadura. Dá um exemplo concreto: a “taxa das blusinhas”, como ficou conhecida a cobrança de imposto de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares. “A carga tributária está mais forte, os pequenos e médios negócios deixarão de existir. Estamos colhendo. Fez o L? Agora vai vir o resultado” diz.
Além da taxa das blusinhas, Oliveira dá outro exemplo de má semeadura: a cultura de defesa da igualdade racial, do feminismo, do movimento LGBTQIA+, que ganhou o nome de “cultura woke”. “Há também questões morais. Veja o que a cultura woke está fazendo no mundo”, diz ele. “Vocês viram as Olimpíadas de Paris?” Seu alvo era a cerimônia de abertura, em que dançarinos – entre eles, gays, drag queens e transexuais – desfilavam numa passarela que lembrava as representações da Santa Ceia, a última refeição de Jesus com seus apóstolos. (A organização informou que a cerimônia fazia referência às festas pagãs do Olimpo, como na obra Festa dos Deuses, pintada entre 1635 e 1640 pelo holandês Jan van Bijlert.)
De Paris, Oliveira chega aos Estados Unidos para criticar a centenária fabricante de tratores, a John Deere. “Sabe o que aconteceu?” Ele conta que a empresa adotou linguagem neutra, compartilhou seu entendimento de que o gênero é uma construção social e permitiu que seus funcionários adotassem o prenome que desejassem. (Depois que um vídeo no YouTube revelou o caso em tom de denúncia, a John Deere, temendo uma nascente campanha de boicote aos seus produtos movida pelos conservadores, recuou e suspendeu suas políticas.)
De volta ao Brasil no seu tour antiwoke, Oliveira ataca o Burger King por sua “propaganda escandalosa, nojenta e vergonhosa com um ator pornô a respeito do tamanho de um sanduíche”. A propaganda veiculada em fevereiro, repleta de trocadilhos, era estrelada pelo ator de filmes pornográficos Kid Bengala. Em seu culto, Oliveira deu uma dica. “Sabe o que a gente faz? A gente começa a boicotar essa empresa, não vamos comer no Burger King. Tem o KFC, que é de um cristão.” (O Burger King suspendeu o comercial poucas horas depois da gritaria online.)
Por fim, Oliveira chega ao maior alvo da má semeadura: a Globo, vista como a grande porta-voz da cultura woke. “Nós temos a Rede Globo, que durante muitos anos plantou a destruição das famílias, plantou a banalização de nossa fé. Essa rede hoje é uma vergonha, é um escárnio. Se o crente ainda continua assistindo a essa rede de tevê, sabe o que está acontecendo? Ele está participando da semente que está sendo plantada. Escute-me: vai colher também, porque o resultado da semeadura é implacável.”
No dia seguinte ao culto, Oliveira conversou com a piauí. “O Nikolas não nasceu em berço de ouro no sentido de ter pais ricos, mas nunca nos faltou nada”, disse. Edésio de Oliveira vem de uma família de doze irmãos que morava na região da Cabana do Pai Tomás, comandada hoje pela facção Terceiro Comando Puro, que é evangélica. Na época, era uma área pobre, mas não era violenta. Conheceu Ruth na adolescência, durante os cultos da igreja. Ele foi o primeiro namorado dela, ela foi a primeira namorada dele. Casaram-se aos 22 anos, tiveram três filhos. Hoje, eles têm 56 anos.
Oliveira começou sua vida profissional como office-boy da Fiat e depois foi transferido para outra empresa do grupo, a New Holland, fabricante de tratores. Chegou a iniciar a faculdade de engenharia mecânica, depois prestou o vestibular para psicologia. Em paralelo, seguia os passos de seu pai, pastoreando na Assembleia de Deus. Ao longo dos anos, ascendeu na New Holland e, em 2008, assumiu um setor cujo escritório ficava na França. Com a mulher e os três filhos, instalou-se nos arredores de Paris. Nikolas e a irmã mais velha estudaram em colégio bilíngue, francês-inglês. Um ano depois, Oliveira decidiu voltar ao Brasil e atender seu “chamado interno”: dedicar-se à igreja que havia fundado uma década antes, a Comunidade Evangélica Graça e Paz.
Ele não rompeu com a Assembleia de Deus. “Continuamos acreditando no mandamento ‘Ame a Deus acima de todas as coisas e ame o próximo como ama a si mesmo’”, diz. “Mas o fator decisivo foi meu desejo de me conectar com a juventude.” Ele se inspirou no pastor americano Bill Hybels, que fundou uma igreja, a Willow Creek Community Church, especificamente para atender às demandas de jovens cristãos, que estavam cansados dos cultos tediosos e de pastores que não paravam de pedir dinheiro. (Hybels fez muito sucesso, até cair em desgraça com a série de denúncias de assédio sexual feitas pelo movimento #MeToo.)
Para Oliveira, os jovens precisavam de uma igreja que, além de ensinar a palavra da Bíblia, também servisse como um tutorial sobre como viver e enfrentar os desafios do mundo moderno. Depois de abrir sua igreja, seguiu à risca seu propósito original. Criou um curso chamado Entenda o Marxismo Cultural. Em 2014, o conteúdo foi divido em dez manhãs de domingos e tratava de novelas, filmes e músicas seculares cujo objetivo – no entendimento do pastor – era destruir os pilares da sociedade. A Globo ocupava o lugar de estrela do currículo, o bicho-papão da cultura woke. Nikolas, então com 18 anos, era um dos alunos.
Para a esquerda, Nikolas Ferreira pode parecer um fantasma redivivo – sua militância, que combina ações públicas com missões discretas, mimetiza o que os movimentos de esquerda faziam no passado, antes de entrar na fase menos ativa. No plano público, ele esteve no ato do Sete de Setembro, na Avenida Paulista. Saiu mais aplaudido que Bolsonaro. Nas ações discretas, promoveu um verdadeiro strike na eleição para o Conselho Tutelar de Belo Horizonte: dos 45 conselheiros, elegeu 33 – todos evangélicos.
Os conselhos tutelares, órgãos municipais que zelam pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, são importantes para colocar em prática a agenda de evangélicos conservadores, que chega ao ponto de tentar afastar pais de religiões de matriz africana dos seus próprios filhos. Os conselhos acolhem as vítimas de toda sorte de violência, inclusive meninas que engravidam de seus algozes. Por isso, têm grande relevância também na questão do aborto.
Nikolas é radical também nesse tema. É contra qualquer modalidade de aborto, inclusive as previstas em lei, que permitem o procedimento em caso de risco de vida para a mãe, gravidez de feto com anencefalia e gravidez provocada por estupro.
“O movimento conservador de Belo Horizonte fez um esforço para conseguir colocar a maioria”, comemora Nikolas. “Foi gigantesco.” Uma conselheira com viés à esquerda, que conseguiu se eleger, confirma: “Houve uma união de igrejas evangélicas, como Assembleia, Universal e Lagoinha. Nikolas foi uma força importante, estimulando o voto dos fiéis.” Ela diz que algumas igrejas anteciparam o horário do culto de domingo para liberar seu rebanho para votar. Quando a esquerda fazia esse tipo de mobilização para controlar um órgão público, chamava-se “aparelhamento”.
Nikolas planeja outro movimento. Quer eleger uma tropa de vereadores pelo Brasil afora para criar o que chama de “modelo de gestão em conjunto”, com políticas públicas sobre os nascituros. Seu grupo vai elaborar as tais políticas e distribuí-las para todos os vereadores aliados, de modo que sejam apresentadas simultaneamente nas câmaras municipais de todo o país. “Quero assessorar e formar pessoas. Confesso que nunca vi alguém fazer um grupo tão coeso”, diz ele, para explicar como se dará na prática: “Todo mundo protocolando o mesmo projeto em todo o Brasil.”
Pelas ações ambiciosas de Nikolas, alguns políticos da extrema direita já acham que está em formação um movimento que batizam de “nikolismo”. A pastora e senadora Damares Alves é uma delas. “Vejo pelo país jovens aplicando o mesmo modelo do Nikolas”, diz, referindo-se a essa mistura de militância ideológica, cristã e digital. “O Lindbergh Farias [deputado federal do Rio de Janeiro pelo PT] foi a pessoa do movimento caras-pintadas. E eu, sendo de direita, reconhecia esse poder de liderança. Vale o mesmo para o Nikolas: ele demonstra para o jovem que é possível entrar na política.”
Damares conhece Nikolas desde quando o deputado era adolescente e assistia a suas palestras em igrejas de Belo Horizonte, nas quais ela falava da necessidade de formar soldados para combater na guerra cultural. Damares se lembra de ver o rapaz magro, sempre fazendo perguntas. “Eu fiz um estrago na esquerda”, diz ela, orgulhosa. “Eu treinei lideranças. O Nikolas é um fruto disso. Eu montei a frente evangélica. A esquerda nos subestimou. Eles tinham as universidades e as escolas, nós tínhamos as igrejas e as comunidades. Com o advento das redes sociais, crescemos.”
“O Nikolas inaugurou um bolsonarismo jovem, mais evangélico e com presença ainda mais agressiva no Congresso, muito focado nas pautas queer”, diz a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade College Dublin, na Irlanda. Ela chega a essa conclusão a partir do seu estudo sobre a relação entre a ascensão da direita e os trabalhadores informais da economia digital, como motoristas de aplicativos e vendedores de produtos por meio das redes sociais.
Em sua pesquisa, Pinheiro-Machado acompanha quarenta famílias de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Já constatou que Nikolas tem enorme penetração mesmo entre os não bolsonaristas e os praticantes de religiões de matriz africana. “Ele é visto como alguém que tem a coragem de combater as pautas de costumes, o politicamente correto. A questão do banheiro unissex e da linguagem neutra, por exemplo, é abominada inclusive por gente que se posiciona como progressista.”
Nas palavras da pesquisadora, Nikolas faz parte da “evangelização cultural do Brasil”, um processo que une elementos da economia pujante do agronegócio, valores conservadores cristãos e marketing digital agressivo. O mandamento principal desse grupo é o binômio “homem de valor” e “mulher virtuosa”. “O Nikolas cai como uma luva para esse movimento, que não é apenas por voto: diz respeito à projeção de uma imagem de sucesso.”
E Nikolas concentra sua atuação em temas que inflamam a opinião pública. Ele não fala de reforma tributária, déficit público, conflitos do governo com o Banco Central. Não discute a energia limpa, combustíveis fósseis, preservação da Amazônia. Não trata de mortalidade infantil, qualidade dos hospitais, atendimento do SUS. Seu negócio é banheiro unissex, linguagem neutra, pautas identitárias, religião. Nas palestras, fala do seu livro O cristão e a política: descubra como vencer a guerra cultural, lançado pela editora de Silas Malafaia, aquele pastor que vive aos gritos.
Depois de migrar para a Editora Vida, que há quatro décadas publica livros de líderes de diversas igrejas evangélicas, Nikolas tornou-se um dos principais autores do catálogo. No mês passado, lançou um novo título, escrito em parceria com seus pais. Chama-se Criando filhos para o amanhã, teve tiragem inicial de 50 mil exemplares e, na prática, é um manual para criar filhos na palavra de Deus. “Em um mundo que jaz no maligno, muitas são as investidas contra a família”, afirma ele. O livro diz que é obrigatório ter filhos, uma chinelada numa criança pode ser um “ato de amor” e a liderança matrimonial é sempre do homem. (Hoje, 51,7% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Elas são a fonte principal de renda.)
No Dia das Mulheres do ano passado, Nikolas botou uma peruca loira para discursar no plenário da Câmara. “Hoje eu me sinto mulher: deputada Nikole”, disse, sabendo que seu teatro causaria um frisson nas redes sociais. Por seus ataques transfóbicos, já perdeu um processo movido pela deputada Duda Salabert e responde a outro, proposto pela deputada Erika Hilton (Psol-SP). No Tribunal de Justiça de Minas Gerais, tem um total de 38 processos nas esferas civil e criminal. A peruca loira está na estante do seu gabinete, como um troféu, ao lado de fotos de Olavo de Carvalho fumando cigarro e Jair Bolsonaro sem camisa. No capacho à entrada do gabinete, tem um aviso: “Se veio aqui falar mal da Nikole, desculpa, mas veio no lugar errado.”
Para Nikolas, o perigo ronda filmes, séries e músicas que “inserem gradualmente em nossas casas concepções relacionadas à ideologia de gênero, feminismo, promiscuidade e iniciação sexual precoce”. Pelo menos na teoria, Nikolas é contra o sexo antes do casamento e a masturbação. Diz que a homossexualidade é pecado – como a avareza, a luxúria ou a gula –, e garante que não é homofóbico. “A sexualidade de uma pessoa é irrelevante, sou daltônico quanto a isso”, diz. “O Gilberto que trabalha aqui é homossexual de direita.” Também se opõe às políticas de inclusão de gênero e raça. Ou de obesos. “Em todo avião tem que caber a Thais Carla? Isso é o ápice do egoísmo, todas as empresas precisarem se adaptar a uma pessoa”, diz ele, referindo-se à influenciadora plus size, como se ela fosse a única pessoa com sobrepeso a voar no Brasil.
Em meados de agosto, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, estava em apuros. Seu candidato a prefeito, Ricardo Nunes (MDB), patinava nas pesquisas eleitorais empatado com outro candidato da extrema direita, o ex-coach Pablo Marçal (PRTB). Enquanto isso, Bolsonaro queria manter um pé em cada canoa. O governador então marcou um jantar no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Convidou Nikolas para comer uma pizza, junto com Ricardo Nunes e o marqueteiro Duda Lima. A certa altura, apresentou seu pleito: queria que Nikolas Ferreira usasse o canhão de suas redes sociais para pedir votos em favor de Nunes. “Não”, respondeu Nikolas.
A negativa, disparada à queima-roupa, incomodou o governador. Nikolas deixou claro que não apoiaria Nunes no primeiro turno. Fez uma conta pragmática: como seus seguidores desconfiam que Nunes tenha fraquezas esquerdistas porque apoiou a exigência do passaporte de vacina na pandemia, Nikolas não estava disposto a contrariá-los. “Eu mesmo me vacinei”, disse ele à piauí, no Salão Verde da Câmara, em Brasília. “Mas sou completamente contra que seja algo obrigatório e tire a liberdade das pessoas.” Num segundo turno com a presença de Guilherme Boulos (Psol), Nikolas vota no outro candidato, seja Nunes, seja Marçal.
Para aumentar a irritação do governador, Nikolas fez uma ponte para apaziguar os ânimos entre Marçal e Carlos Bolsonaro (PL-RJ). Depois que o ex-coach chamou Carlos de “retardado” em duas entrevistas e trocou farpas com o perfil de Jair Bolsonaro no Instagram – administrado por Carlos –, Nikolas entrou em campo para selar um armistício. “Liguei para os dois, fizemos uma chamada em grupo e falei que essa briga só iria beneficiar a esquerda”, diz. Funcionou, mas o pastor Silas Malafaia, inspiração de liderança de Nikolas, acha que seu pupilo lamenta ter feito papel de pacificador. “Estou desconfiado de que ele está arrependido de ter feito a ponte entre esse psicopata e herege do Marçal com o pessoal do Bolsonaro”, diz.
Como a política é o território do fogo amigo, Nikolas não incomoda apenas o governador. “O Nikolas está pensando no umbigo dele, não quer se queimar com o seu público. Ele sabe que Marçal virou queridinho da direita”, diz um ex-ministro de Bolsonaro, que pede o anonimato para não criar celeuma na extrema direita. Talvez por isso, Nikolas não diz nada sobre Marçal, embora seu entorno tenha opiniões claras sobre o ex-coach. “Ele é um aproveitador”, diz um membro da equipe do deputado. “Subiu na vida dando golpe nos outros – e ganha dinheiro ensinando os outros a ganhar dinheiro? Qual é o trabalho desse cara? Com esse histórico, não é a mim que vai enganar.”
Outro ex-ministro de Bolsonaro, que também pede anonimato, tem suas críticas. “O Nikolas está se achando porque é forte nas redes. Quero ver ele fazer o Bruno Engler em Belo Horizonte, que não está em primeiro lugar em nenhuma pesquisa. Se não apresentar o resultado, vai cair do cavalo”, diz. “Essa campanha vai ser fundamental para sabermos se likes se convertem em votos. Vale pro Marçal e vale pro Nikolas.” O ex-ministro admite que Nikolas ganhou a deferência do casal Bolsonaro, nem sempre por boas razões. “A Michelle posta foto com Nikolas menos por amor e mais para causar ciúme no Carlos. A Michelle odeia o Carlos.”
No Congresso, Nikolas adota um comportamento bem menos abrasivo. Dias depois de chamar o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) de “covarde” no ato na Avenida Paulista, esteve numa reunião com o presidente do Senado para entregar o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes. “Não deu um pio. Entrou e saiu calado”, contou um assessor presente à reunião. “Ele faz tudo calculado para as redes. Mas, sem câmeras, nem celular, vira outra pessoa.” Em Belo Horizonte, como vereador, deixou impressão semelhante. “Ele faz tudo para gerar repercussão. Isso faz parte do que ele acredita ser uma cruzada religiosa”, diz um ex-secretário da gestão do ex-prefeito Alexandre Kalil.
Além do salário de 44 mil reais como deputado, Nikolas tem outra boa fonte de renda: as palestras. Cobra 40 mil reais. Quem negocia seus contratos é o advogado Sérgio Sant’Ana, sócio de Eduardo Bolsonaro na realização do evento que os bolsonaristas copiaram dos americanos, a Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac, na sigla em inglês). “Para as igrejas, não cobro nada”, diz Nikolas. Entre seus clientes, estão empresas do agro (como a mato-grossense BioQualitá), da indústria (como a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) e da política (como o Direita Amazonas e Juntos MS). No mercado financeiro, fez uma live fechada com um fundo mineiro chamado 3A Investimentos, credenciado à XP Investimentos. Jura não ter cobrado cachê. “Os sócios são meus amigos.”
Em seu gabinete, Nikolas recebe cerca de cem cartas físicas por mês, além dos e-mails. São mensagens de apoio, pedidos para custear um tratamento de saúde, convite para homenagens em prefeituras. Também recebe ameaças. Desde o começo do ano, anda com escolta armada, concedida pelo governador mineiro Romeu Zema (Novo). Preserva muito sua vida pessoal. Não posta nada sobre a sua casa nova, nem a rotina com a mulher Lívia e a filha pequena. “Tenho uma vida discreta”, diz Lívia. Nos passeios que faz com a filha em shoppings de Belo Horizonte, ela quase sempre passa despercebida. “Às vezes me reconhecem e pedem para tirar uma foto.” Lívia não tem perfil aberto ao público em nenhuma rede social.
Aos domingos, o casal vai ao culto da Comunidade Graça e Paz e depois almoça em família, onde todos discutem política, religião e futebol. O deputado é um torcedor tão empolgado do Cruzeiro que, nos dias de jogo do seu time, comete a heresia de assistir à transmissão feita pela inimiga Globo. Em junho, fez promessa de abandonar seu principal pecado – a gula por chocolate. Está lendo Um olhar que cura: terapia das doenças espirituais, do padre Paulo Ricardo, sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá, um youtuber devoto de Bolsonaro e venerado pela atriz Cássia Kis. Escuta pouca música secular, mas gosta de Michael Jackson e Whitney Houston.
Nikolas tem alergia ao chamado marxismo cultural, à chamada ideologia de gênero e à esquerda em geral, mas também tem alergias mais mundanas: corante de bala, frutos do mar, ovo cru, pombo e pelo de cavalo. “Esses dias passei a mão em um manga-larga marchador, avaliado em um 1 milhão de reais, e daí encostei em meu rosto. Em cinco minutos, não conseguia mais enxergar.”
Nos últimos tempos, vem tentando vencer o físico mirrado. Faz tratamento com um endocrinologista famoso no Instagram. Garante que não está tomando hormônio. “Eu fiz publi não. Eu postei o endócrino, mas não tem isso, não.” Para fazer a foto que ilustra esta reportagem, a piauí perguntou se gostaria de posar segurando uma Bíblia, o livro que orienta sua vida pessoal, cívica e política. Ele não quis, dizendo que, para o que almeja na vida, não faria sentido.
– E o que você almeja? Ser presidente da República?
O deputado de 1,69 metro, rosto imberbe e uma marca de nascença, deu um sorriso de canto de boca e levantou a sobrancelha:
– Deixa eu me concentrar na foto aqui.
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