anais da história

A TRANSIÇÃO

Lyndon Johnson e o dia do assassinato de John Kennedy
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O dia 22 de novembro de 1963, uma sexta-feira, começou para Lyndon Baines Johnson em Fort Worth com a manchete que ele viu na primeira página do Dallas Morning News: “ YARBOROUGH ESNOBA LBJ.”

Johnson, que acompanhava John Kennedy numa viagem pelo Texas, recebera uma missão que o presidente considerava vital: como seria necessária uma frente democrata unificada para vencer as eleições presidenciais de 1964 no estado, o vice-presidente tinha sido indicado para pôr fim à rixa no Partido Democrata entre o governador John B. Connally, ex-assessor de Johnson no Senado, e o senador Ralph Yarborough, líder da ala liberal da legenda. Na véspera, porém, Yarborough tinha se recusado a entrar no mesmo carro que Johnson. Convocado para acompanhar o vice-presidente num cortejo presidencial em San Antonio, o senador tinha preferido embarcar em outro veículo. No desfile de automóveis repletos de gente que seguiam a limusine do presidente, Johnson e sua mulher, Lady Bird, estavam conspicuamente sós no banco traseiro de seu conversível.

Os jornais daquele dia comentavam cada detalhe da humilhação. “Duas vezes, em San Antonio, Johnson mandou um agente do Serviço Secreto convidar Yarborough para acompanhá-lo em seu carro. Nas duas, o senador ignorou o convite e preferiu entrar no carro de outra pessoa”, noticiou o Los Angeles Times. O Chicago Tribune assinalou o “gesto seco” com que Yarborough dispensou com a mão o emissário do vice-presidente. A disputa dominava o noticiário a respeito da viagem presidencial não apenas no Texas, mas em todo o país. Na manhã do dia 22, Lyndon Johnson passou algum tempo em sua suíte do Hotel Texas Fort Worth cercado de jornais – havia quatro matérias diferentes só no jornal de Dallas; o título de uma delas era “NIXON PREVÊ QUE JFK PODE ABANDONAR JOHNSON”. Depois, o vice precisou comparecer a um comício para 5 mil trabalhadores sindicalizados, juntamente com Kennedy, Yarborough, Connally e alguns congressistas locais; todos, claro, tinham lido aquelas mesmas reportagens.

Caía uma chuva fina enquanto caminhavam pela rua até a manifestação. Johnson vinha de capa e chapéu; Kennedy estava de cabeça descoberta e usava roupa leve, um elegante terno cinza-azulado. Johnson tirou rapidamente o chapéu. Coube a ele apresentar Kennedy. Quando acabou de falar, os presentes aclamaram o jovem que tinha a seu lado. Explicando por que Jackie não estava lá (“A sra. Kennedy está se arrumando; ela leva mais tempo – mas, claro, é muito mais bonita do que nós”), Kennedy se mostrava encantador e à vontade. Johnson ainda precisou pedir um favor ao presidente: a permissão para levar sua irmã mais nova, Lucia, que morava em Fort Worth e queria conhecê-lo. Ao cumprimentar Kennedy naquela manhã, Lucia ficou emocionada, e explicou: sempre sonhara em apertar a mão de um presidente.

Quando se vestiu, mais cedo naquela manhã, Kennedy colocou uma cinta  com suportes de metal que usava para combater dores nas costas. Enrolou por cima dela e ao redor de suas coxas, em um desenho que lembrava um oito, uma atadura elástica para reforçar o apoio à coluna avariada. O dia ia ser longo. Agora eram 9 horas, o horário previsto para seu discurso num café da manhã organizado pela Câmara de Comércio de Fort Worth no salão de baile do hotel. “Pronto, podemos ir”, disse.

Nove da manhã no Texas eram dez da manhã em Washington. Nesse mesmo instante daquela sexta-feira, na capital federal, um corretor de seguros de Maryland chamado Don B. Reynolds entrou na sala 312 do antigo anexo do Senado, no Capitólio, acompanhado de seu advogado, para começar a responder às perguntas de dois membros da Comissão de Regras[1] da Casa: Burkett van Kirk, chefe da bancada da minoritária oposição republicana, e Lorin P. Drennan, contador do Escritório da Controladoria Geral, designado para assessorar a Comissão.

Reynolds estava lá porque a Comissão de Regras tinha começado a investigar um escândalo envolvendo um protegido de Johnson, Robert (Bobby) G. Baker. Em seus anos como líder da maioria democrata no Senado – de 1955 à posse como vice-presidente, em janeiro de 1961 –, Johnson tinha nomeado Baker como secretário da bancada do partido. O escândalo vinha crescendo nos últimos dois meses. Numa tentativa desesperada de evitar a investigação, Baker havia renunciado, mas seu gesto só precipitou uma tempestade midiática nas primeiras páginas dos jornais e capas das principais revistas do país. O escândalo concentrava-se até então em Baker, conhecido em Washington como “Little Lyndon”, mas, aos poucos, as reportagens começavam a falar do próprio Johnson.

Na segunda-feira da semana em que Kennedy partiu para o Texas, um longo e detalhado artigo foi publicado na revista Life – “O ESCÂNDALO EM WASHINGTON SÓ FAZ CRESCER”. Era baseado no trabalho de um grupo de nove repórteres investigativos chefiado por um ganhador do prêmio Pulitzer, William G. Lambert. O texto ia além da recapitulação da saga financeira de Baker, deixando claro que, na distribuição das doações de campanha e em outras atividades no Senado, ele tinha sido apenas um “instrumento de Lyndon”. O foco ameaçava fechar-se ainda mais naquela manhã. Reynolds compareceu à sala 312 para falar com os investigadores do Senado sobre várias transações intermediadas por seu ex-sócio Baker. Numa delas, Reynolds comprou tempo de publicidade no canal de tevê de Johnson em Austin, Texas, e lhe deu de presente um caríssimo aparelho de som, em troca da compra de um seguro de vida feita por Johnson. O próprio Baker, mais tarde, chamaria a transação de “pagamento puro e simples” para Johnson. A conselho de seu advogado, Reynolds trouxera documentos – recibos e cópias de cheques – que, segundo dizia, poderiam servir como provas do que afirmava. Outra atividade de Baker que Reynolds descreveu naquela manhã também acabaria associada a Johnson: um pagamento excedente feito pelo empreiteiro Matthew McCloskey, um dos principais contribuintes do Partido Democrata, em troca de um título de garantia de execução.[2] McCloskey pagou 109 mil dólares por um papel com valor nominal de 73 mil. Os 25 mil excedentes, declarou mais tarde Reynolds, eram para “a campanha do sr. Johnson”.

Em Nova York, naquela manhã também ocorreria uma reunião entre uma dúzia de repórteres e editores na sala do editor-executivo da Life, George P. Hunt. Na semana anterior, jornalistas enviados ao Texas para investigar as finanças do vice-presidente encontraram vários problemas que pediam atenção mais detida. Por exemplo, tinham começado a pesquisar títulos de propriedade e registros de vendas recentes de terras, e descobriram que as transações imobiliárias e bancárias da empresa controlada pela família de Johnson, a LBJ Company, eram muito maiores do que se suspeitava. Outros repórteres esmiuçavam as vendas de publicidade da estação KTBC, a joia da coroa dos vastos interesses de Johnson no rádio e na televisão, e também haviam encontrado informações que mereciam ser investigadas. A cada dia daquela semana, a reportagem ia se tornando maior, recordaria mais tarde o repórter Lambert, e não dizia mais respeito apenas a Bobby Baker. Agora o foco era Lyndon Johnson: ao final de 32 anos de carreira política, “na folha de pagamento do governo, ele tinha ficado multimilionário”. Um artigo enumerando algumas das descobertas já fora escrito por Keith Wheeler, um dos redatores da Life. Agora, eles precisavam resolver se publicariam a reportagem no número seguinte ou se seria melhor segurar o material até conseguirem mais elementos, combinando tudo numa série de artigos sobre “A fortuna de Lyndon Johnson”. Uma reunião para tomar essa decisão tinha sido marcada para as 11h30 de 22 de novembro.

Enquanto Don Reynolds fornecia aos membros da Comissão de Regras informações que poderiam gerar manchetes – e enquanto a Life distribuía sobre o mapa do Texas as tarefas de uma investigação que poderia gerar manchetes ainda maiores –, o cortejo presidencial deixava o hotel em Fort Worth com destino ao aeroporto, para o voo até Dallas.

Na lapela de Lyndon Johnson havia um cravo branco que alguém prendera durante o café da manhã da Câmara de Comércio, e em seu carro viajava o senador Ralph Yarborough. “Não me importa se você for obrigado a enfiar Yarborough no carro de Lyndon”, tinha dito Kennedy a seu principal assessor legislativo, Larry O’Brien. “Mas é lá que ele vai.” E em seguida recomendou a Ken O’Donnell, o secretário encarregado de sua agenda, que desse um recado a Yarborough: “Se hoje não for com Lyndon, vai ter que ir a pé.” O próprio presidente trocou algumas palavras com o senador naquela manhã, dizendo-lhe, em voz baixa, que, se dava valor à amizade que tinham, embarcaria no carro de Johnson.

Nos treze minutos do voo até Dallas, o presidente daria atenção à outra ponta daquela rixa. O’Donnell, pegando o governador Connally pelo braço, conduziu-o até a cabine de Kennedy e fechou a porta. Em três minutos, Connally concordou em convidar Yarborough para a recepção na mansão que ocupava como governador e em acomodá-lo na mesa principal do jantar de gala. Saindo da cabine, Connally comentou: “Como é que alguém consegue dizer não a esse homem?”

Enquanto o Air Force One se aproximava de Dallas, as últimas nuvens se dissiparam. “Um céu ao feitio de Kennedy”, disse O’Brien.

Tudo indicava que teriam um dia ao feitio de Kennedy. Às 11h38, quando o Air Force One pousou no então principal aeroporto de Dallas, o Love Field, tudo parecia iluminado sob o sol forte e o céu sem nuvens do Texas. O avião imenso reluzia enquanto taxiava em direção à multidão, que se acotovelava atrás de uma cerca; o longo capô azul da limusine presidencial com a cabine aberta cintilava, estendendo-se até as duas bandeirinhas presas ao para-choque dianteiro. Houve uma pausa ansiosa de alguns instantes enquanto a escada era empurrada até o avião. Em seguida a porta se abriu, e as duas figuras que a multidão esperava surgiram: primeiro Jackie (“A sra. Kennedy aparece, e a multidão começa a gritar!”, dizia aos berros um apresentador de televisão), jovem, graciosa, com seu sorriso largo, seu conjunto cor-de-rosa e um chapeuzinho, esplêndida no sol ofuscante; atrás dela o presidente, jovem, gracioso (“Mesmo daqui eu consigo ver o seu bronzeado!”, anunciou o apresentador), os cabelos castanhos brilhando, uma das mãos verificando o botão do paletó no gesto já familiar, descendo os degraus de lado, só um pouco, para alívio das costas. Um buquê de rosas vermelhas foi entregue a Jackie pelo comitê de boas-vindas, valorizando ainda mais o cor-de-rosa e seu sorriso.

Ninguém tinha incluído na agenda um tempo para o presidente e a primeira-dama se dedicarem àquelas pessoas, mas quem poderia resistir aos rostos ardorosos que se voltavam para os dois ou às mãos suplicantes estendidas em sua direção? O casal caminhou ao longo da cerca, usufruindo o calor do sol e daqueles sorrisos, sorrindo, e até mesmo rindo das palavras que lhes gritavam enquanto estendiam as mãos, na esperança de um contato físico. “De certa maneira, aquele momento em Dallas foi o ponto mais alto da vida pública do casal Kennedy”, diria mais tarde um repórter que cobria a Presidência.

Conduzindo a mulher, Lady Bird, pelo braço, Lyndon Johnson também caminhou até a grade e começou a seguir o casal Kennedy, mas os rostos e os braços estendidos continuavam a demandar o casal presidencial, mesmo depois que passavam, e Johnson logo se deslocaria para o conversível cinza alugado para ele. Yarborough ia sentado do lado esquerdo do banco traseiro, atrás do motorista, um integrante da patrulha rodoviária do Texas chamado Hurchel Jacks, e o vice-presidente seguia do lado direito, atrás de Rufus Youngblood, agente do Serviço Secreto indicado para protegê-lo. Lady Bird, sentada entre Yarborough e o marido, tentou entabular uma conversa, mas logo desistiu. Os dois homens não se falavam, nem mesmo olhavam um para o outro – os únicos sons no carro vinham do walkie-talkie que Youngblood carregava preso a uma correia que pendia do ombro.

As audiências do Senado são normalmente interrompidas para o almoço, mas ao meio-dia e meia, hora de Washington, depois de mais de duas horas explicando suas relações de negócios com Bobby Baker, Reynolds começara a falar das pressões que, segundo ele, tinha sofrido para adquirir tempo de publicidade na estação de tevê de Lyndon Johnson. Ninguém da Comissão de Regras queria que ele parasse. “Don se apresentou muito bem”, diria mais tarde o assessor republicano Van Kirk. “Podia provar tudo. Para cada coisa que contava, tinha um recibo. É difícil discutir com um recibo.” Os membros da Comissão mandaram uma secretária sair para comprar sanduíches e leite, e Reynolds continuou falando.

Os primeiros quilômetros do cortejo presidencial seguiram por uma avenida ladeada de pequenas fábricas, e havia relativamente poucas pessoas assistindo a sua passagem: na frente ia um carro da polícia branco, sem identificação, e motociclistas de capacete, batedores da polícia; em seguida vinham o casal Kennedy, o governador e a sra. Connally na limusine presidencial, e quatro batedores de motocicleta cobrindo seus flancos mais atrás; a limusine era seguida por um carro fortemente blindado que os agentes do Serviço Secreto chamavam de “Queen Mary”, levando quatro agentes de pé nos estribos, além de Ken O’Donnell e Dave Powers, assessor especial da Casa Branca, instalados nos assentos dobráveis; em seguida, depois de um cauteloso intervalo de mais de 20 metros, vinham o conversível cinzento do vice-presidente e seu carro de acompanhamento, e então os carros e ônibus da imprensa, e o resto da longa caravana. A comitiva chegou ao Centro de Dallas e entrou na Main Street. No trecho inicial, os dois lados da rua eram ocupados por prédios altos, de maneira que os carros, passando entre eles, podiam estar trafegando entre dois paredões, e as janelas dos prédios estavam tomadas, andar por andar, prédio após prédio, por pessoas que se debruçavam e aplaudiam; nas calçadas, em cada ponto havia de oito a dez pessoas de profundidade. No alto, a cada 50 metros, uma fileira de bandeiras se estendia de um lado ao outro da rua, e no final do corredor, onde acabavam os prédios, via-se um retângulo de céu aberto.

Quando o cortejo avançou mais um pouco, o clamor aumentou e ficou mais grave, cada vez mais alto, de maneira que a comitiva parecia atravessar dois paredões só de vivas e aplausos. Cada vez que o presidente acenava, os espectadores da calçada avançavam em sua direção, pressionando as fileiras de policiais – a passagem para os carros ficava mais estreita e o carro da frente era forçado a reduzir sua velocidade de 30 quilômetros por hora para 25, 20, 10. Cada vez que Jackie acenava com a mão coberta pela luva branca, gritos de “Jackie!” tomavam conta do ar. Quando o governador Connally acenava com o seu chapéu Stetson de abas largas, revelando a cabeça leonina coberta de cabelos grisalhos, os vivas e aplausos para ele também se avolumavam. Os quatro passageiros da limusine presidencial sorriam uns para os outros, encantados. “Sr. presidente, ninguém pode dizer que Dallas não o ama!”, disse Nellie Connally. “Os olhos do presidente”, contaria ela mais tarde, “se encontraram com os meus e o seu sorriso ficou ainda mais largo.”

Acompanhando a limusine num carro alugado, atravessando multidões que aplaudiam, mas não a ele, dividindo o banco traseiro com um homem que o tinha humilhado, Lyndon Johnson vinha a uma distância da limusine presidencial suficiente para que os aplausos dirigidos aos casais Kennedy e Connally – John Connally tinha sido seu assessor e depois se transformara em rival no Texas – já estivessem bem mais fracos quando seu carro passava. A maioria dos rostos dos espectadores ainda estava virada para acompanhar o carro presidencial que ia se afastando. Assim, à medida que o carro de Johnson avançava lentamente, o que tinha à sua frente na comitiva podia ser visto, de alguma forma, como um prenúncio do que o aguardava se continuasse na Vice-Presidência: mais cinco anos seguindo outro homem, humilhado, quase ignorado e sem poder nenhum. A Vice-Presidência, “cheia de viagens… choferes, continências, aplausos… no fim das contas não é nada”, diria ele mais tarde. Tinha trocado o poder de líder da maioria no Senado, o mais poderoso líder da maioria da história americana, pelo limbo da Vice-Presidência – “O QUE FOI FEITO DE LYNDON JOHNSON?”, perguntava uma manchete irreverente da revista The Reporter – porque achava que ao final poderia chegar à Presidência. Mas agora havia outro pretendente: o irmão mais novo do presidente, Robert F. Kennedy, secretário nacional de Justiça, cuja antipatia e desprezo – “ódio” não seria um termo forte demais – por ele eram bem conhecidos em Washington.

Dali a cinco anos Robert Kennedy teria tempo para acumular um currículo e ocupar outros cargos além do de secretário de Justiça: secretário de Defesa, talvez, ou a posição que quisesse. Havia mais de um ano que a desolação de Lyndon Johnson por sua situação se revelava na postura (com ombros caídos), em seu andar (os passos lentos que tinham substituído os passos largos de texano com que antes percorria os corredores do Capitólio), e em seu rosto, no qual todas as linhas de expressão apontavam para baixo, com as bochechas pendentes, a tal ponto que os repórteres zombavam do seu ar “decaído”. Seu ex-assistente Bill Moyers – nomeado diretor de publicidade do Peace Corps dirigido por Robert Sargent Shriver, cunhado de Kennedy – achava que Johnson tinha se tornado “um homem sem projeto, um cavalo grande num curral muito pequeno”.

E se a Vice-Presidência, para ele, não durasse mais cinco anos, e sim um só? E se ele fosse alijado da chapa em 1964?

Johnson vinha dizendo já havia algum tempo que esse desdobramento era o mais provável. Nos meses anteriores, vinha aconselhando auxiliares próximos – que gostaria de manter a seu lado caso fosse concorrer à Presidência – a deixar sua equipe. “Meu futuro já ficou para trás”, disse a um assessor. “Pode ir”, disse a outro, “estou acabado.” Essa convicção – esse temor – podia ou não ser justificada antes de Bobby Baker aparecer em capas de revistas, antes que Don Reynolds despontasse em cena ou antes daquela viagem. Em vista do que o presidente tinha a oportunidade de constatar por conta própria no Texas – que Johnson não era mais um mediador viável entre as facções do partido em seu próprio estado –, e do que acontecia naquele exato momento no velho anexo do Senado, as promessas que o presidente lhe fizesse de mantê-lo na chapa começariam a soar ocas. Acabado: conseguisse ele ou não mais um mandato de vice-presidente, cada vez ficava mais claro que havia uma boa justificativa para o adjetivo que Johnson vinha usando em relação às próprias perspectivas.

Deixando para trás as multidões da Main Street, o carro que seguia à frente do cortejo, os policiais de moto e a limusine presidencial dobraram à direita na Houston Street e em seguida à esquerda na Elm, que num declive suave seguia para a larga passagem de nível ferroviária, atravessando um espaço aberto gramado, a Dealey Plaza, onde se reuniam espectadores esparsos. Em Washington, Don Reynolds mostrava aos investigadores da Comissão de Regras os papéis que, segundo ele, provavam o que dizia sobre Lyndon Johnson. Em Nova York, os editores da Life decidiam quais repórteres iriam investigar áreas específicas das finanças de Johnson enquanto debatiam, além disso, se a revista devia publicar alguma reportagem sobre o vice em seu número seguinte. Os espectadores reunidos na Dealey Plaza começaram a aplaudir os casais Kennedy e Connally, enquanto Johnson seguia seu rastro.

Ouviu-se o som claro de um estampido. Lyndon Johnson diria mais tarde que ficou “assustado”; pareceu-lhe “um estrondo ou uma explosão”, e ele não sabia o que era. Outros membros da comitiva acharam que podia ser o estouro do escapamento de uma das motocicletas, ou fogos de artifício soltos no meio da multidão, mas John Connally, que caçava desde sempre, soube no instante em que ouviu que se tratava do disparo de um fuzil de alta potência.

Rufus Youngblood, o agente do Serviço Secreto no carro de Lyndon Johnson, não sabia o que era, mas viu movimento “fora do normal” no carro presidencial mais à frente – o presidente Kennedy deu-lhe a impressão de tombar para a esquerda. No carro blindado Queen Mary, logo à sua frente, um dos agentes se levantou lentamente, com um fuzil automático nas mãos. Girando em seu banco, Youngblood gritou – com “uma voz que eu nunca tinha visto o rapaz usar”, lembrou Lady Bird – “Abaixem-se! Abaixem-se!” e, agarrando Johnson pelo ombro direito, jogou-o no piso do carro, enquanto quase pulava por cima do assento da frente e atirava o corpo sobre o do vice-presidente, tornando a gritar: “Abaixem-se! Fiquem abaixados!” Quando dois novos estampidos soaram – foi uma questão de oito segundos, mas a essa altura todo mundo já sabia o que eram –, Lyndon Johnson estava no piso do banco traseiro do seu carro. O som alto e seco, a mão que agarrou de repente o seu ombro e o puxou para baixo; agora ele estava deitado, de cara para o chão, com o peso de um sujeito bem grande em cima dele – Lyndon Johnson nunca haveria de se esquecer “dos joelhos e cotovelos dele nas minhas costas”.

Johnson só conseguia enxergar os sapatos e as pernas de Lady Bird diante do seu rosto – ela e o senador Yarborough estavam o mais debruçados para a frente que podiam. Em algum ponto acima dele, ouviu o agente Youngblood gritando para Hurchel Jacks, o motorista: “Chegue mais perto! Chegue mais perto!” O agente do Serviço Secreto ainda não tinha certeza do que estava havendo, mas sabia que a melhor maneira de se proteger era se aproximar do carro à frente, repleto de homens e armas. Deitado no chão com Youngblood por cima, Lyndon Johnson sentiu o carro avançar de um salto quando Jacks pisou fundo no acelerador, e sentiu que adquiria velocidade – andava “terrivelmente depressa”, diria mais tarde Lady Bird, “cada vez mais rápido”. Então os freios foram acionados com força, e os pneus cantaram alto, bem perto dos seus ouvidos, quando o carro dobrou à direita em velocidade excessiva, subindo a rampa que dava numa via expressa, e tornou a acelerar. “Não se perca deles, e fique perto!”, gritava Youngblood. O rádio de ondas curtas ainda continuava preso ao ombro do agente, de modo que estava quase no ouvido de Johnson. O rádio tinha sido sintonizado na frequência B (“Baker”) do Serviço Secreto, o que mantinha Youngblood em contato com o carro que acompanhava o do vice-presidente, mas então Johnson ouviu a voz do agente acima dele dizer “Vou trocar para Charlie” – a frequência C, que o poria em contato com o Queen Mary, logo à sua frente. Por um momento, o rádio só captou estática, e depois Johnson ouviu alguém dizer: “Ele foi atingido! Depressa, ele foi atingido!”, e então “Vamos sair daqui!” – ao que se seguiram muitos gritos quase ininteligíveis, dos quais uma palavra emergia com toda a clareza: “Hospital.”

Johnson ainda não enxergava o que Youngblood podia ver. Quando o terceiro tiro soou, um fragmento de alguma coisa cinzenta deu a impressão de ter decolado da cabeça de Jack Kennedy. E então sua mulher, de chapeuzinho e conjunto cor-de-rosa, que de repente pareciam cobertos de alguma coisa escura, tentava subir no capô traseiro da limusine, e depois se arrastava de volta para o carro, onde se debruçou sobre alguma coisa que Youngblood não via. Um momento depois do primeiro tiro, um dos agentes no estribo do Queen Mary, Clint Hill, tinha corrido para a limusine presidencial enquanto ela acelerava, pulando no capô e agarrando firme em um puxador. Agora estava esparramado em cima da mala do veículo em velocidade, mas conseguiu levantar a cabeça e olhar o banco traseiro. Virando-se para o carro da escolta, fez um sinal com o polegar para baixo.

Os agentes no Queen Mary sinalizavam para que Jacks ficasse perto deles. O motorista, um texano lacônico, chegou a poucos metros do para-choque traseiro do carro blindado e manteve seu carro ali enquanto os dois veículos, com a limusine presidencial não muitos metros à frente de ambos, aceleravam pela via expressa e depois dobraram à direita numa rampa de saída.

O homem por baixo de Rufus Youngblood estava muito quieto, quase imóvel, menos quando o carro freava, acelerava ou balançava nas curvas. Sua tranquilidade teria surpreendido a maioria das pessoas que o conheciam, mas não as poucas que já o tinham visto em outros momentos de extremo perigo físico. A reação habitual de Johnson à ameaça física, real ou imaginária, era tão dramática, quase de pânico, que no tempo de estudante ele tinha a fama de ser “um covarde físico absoluto”. Durante a Segunda Guerra Mundial, fizera o possível para evitar o combate. Percebendo, porém, que, “em nome do seu futuro político”, como escreveu um dos assessores do presidente Roosevelt, ele precisava poder dizer que pelo menos tinha estado numa zona conflagrada, Johnson foi para o Pacífico Sul e voou, como observador, a bordo de um bombardeiro que se viu atacado por Zeros japoneses. E enquanto os Zeros se dirigiam em linha reta para o avião americano, disparando o tempo todo, a tripulação viu Lyndon Johnson subir para a bolha de vidro do navegador para poder ver melhor, e ali ficar olhando fixo para os aviões que se aproximavam, “calmo”, nas palavras de um tripulante, “como se estivesse numa viagem de férias”.

Embora sua reação costumeira às pequenas dores e à doença fosse “histérica” – o lobista texano Frank “Posh” Oltorf contou que ele costumava “queixar-se tantas vezes e tão alto” de indigestão que “parecia estar morrendo” –, em 1955, na Virgínia, quando um médico disse a Johnson que daquela vez a “indigestão” era um ataque cardíaco (coisa que ele sempre temeu porque o pai e um tio morreram jovens do coração), seu comportamento foi outro.

Estirado no chão da “ambulância”– na verdade um rabecão – em disparada rumo a Washington, Johnsons e manteve contido e calmo enquanto tomava decisões: dizia ao médico e a Oltorf, também presente na ambulância, para qual hospital devia ser levado e quais membros da sua equipe deviam estar lá quando ele chegasse. Contou ainda a Oltorf onde poderia estar seu testamento, e como suas disposições deveriam ser cumpridas. Foi um ataque cardíaco importante – quando Johnson chegou ao hospital, os médicos só lhe deram uma chance de sobrevivência de 50% –, e a certa altura da viagem ele disse que não estava suportando a dor. Mas quando o médico falou que para aplicar uma injeção que aliviasse a dor precisariam parar por alguns minutos, e que “o tempo agora faz muita diferença”, Johnson decidiu: “Se faz diferença, então não vamos parar.” Teve até a oportunidade de fazer um comentário mal-humorado. Quando o médico o avisou de que, caso se recuperasse, nunca mais poderia fumar, Johnson respondeu: “Prefiro que cortem fora o meu peru.” Lady Bird sempre dizia que seu marido era “bom na hora do aperto”. Oltorf nunca tinha acreditado nisso – até aquela viagem de ambulância. Achava que conhecia Johnson muito bem, mas naquele dia percebeu que não o conhecia nem de longe.

Deitado no piso do banco traseiro com Youngblood ainda em cima de seu corpo, Johnson perguntou o que tinha acontecido. O agente respondeu que “o presidente deve ter levado um tiro e estar ferido”, que estavam a caminho de um hospital, que ele não sabia de nada e queria que todo mundo continuasse abaixado – e Johnson estendido no chão – até ele descobrir.

“Está bem, Rufus”, disse Johnson. Um repórter que mais tarde pediu a Youngblood a descrição do tom de voz de Johnson ao dizer isso resumiu a resposta do agente numa palavra: “Calmo.”

Dali a um instante, a voz no rádio de ondas curtas disse a Youngblood que estavam indo para o Parkland Memorial Hospital, e o agente, gritando, para compensar o barulho do vento e o berreiro das sirenes da polícia, disse a Johnson o que fazer quando chegassem: ele devia descer do carro e se dirigir para alguma área que o Serviço Secreto pudesse proteger completamente, sem parar para nada, nem mesmo para descobrir o que tinha acontecido com o presidente. “Quero que o senhor e a sra. Johnson andem o mais colados que puderem a mim e aos outros agentes”, disse ele. “Vamos chegar ao hospital e não vamos parar para nada nem para ninguém. O senhor entendeu?”

“Ok, amigo, eu entendi”, respondeu Lyndon Johnson.

Fizeram mais uma curva com os pneus cantando – para a esquerda, enveredando pela rampa de ingresso na emergência do hospital –, e o freio foi acionado com tamanha violência que Johnson e o agente foram atirados contra o encosto do banco dianteiro. Em seguida, o peso de Youngblood saiu de cima do vice-presidente; mãos agarravam seus braços e o puxavam rudemente para fora do carro, pondo-o de pé. O cravo branco ainda estava preso à lapela, de algum modo intacto, mas o braço e o ombro esquerdos, que tinham suportado o grosso do peso de Youngblood, doíam. Havia agentes do Serviço Secreto por toda parte, policiais por toda parte, armas por toda parte. Então Youngblood e outros quatro agentes cercaram Johnson, suas mãos tornaram a tomar o braço do vice e ele foi empurrado – quase às carreiras – pela entrada do hospital. Logo atrás dele vinha outro agente, George Hickey, armado com um fuzil automático AR-15. Johnson mais tarde diria que tinha sido conduzido tão depressa pelo hospital, com sua visão bloqueada pelos homens à sua volta, que nem chegou a ver o carro do presidente, ou o que havia nele. Lady Bird, trazida logo atrás dele por seu próprio cordão de agentes, tinha visto, num “último relance por cima do ombro”, “um amontoado cor-de-rosa, como uma pilha de flores, no banco traseiro do carro. Acho que era a sra. Kennedy deitada em cima do corpo do presidente”.

Lyndon Johnson foi levado pelos corredores, com as mãos dos agentes em seus braços. Seus guardiães procuravam algum quarto ou sala que pudessem proteger completamente. Então ele entrou no que parecia um quartinho todo branco – na verdade era um dos três cubículos de um quarto maior dividido por cortinas brancas de musselina que iam do teto ao chão. Dois dos cubículos estavam desocupados; no terceiro, uma enfermeira atendia um paciente. Os agentes empurraram a enfermeira e o paciente porta afora; fecharam as cortinas e as persianas que cobriam as janelas. Em seguida, Johnson e Lady Bird se viram de pé, apoiados numa parede lisa, no fundo do cubículo mais afastado da porta do quarto. Youngblood estava à frente deles, dizendo a outro agente que se postasse no corredor, diante da porta, e não deixasse ninguém entrar – ninguém –, a menos que conhecesse seu rosto. Dois outros agentes foram postados no cubículo situado entre aquele em que estava Johnson e o corredor. Alguém disse a Youngblood que ele devia procurar um telefone e ligar para os seus superiores, em Washington; Youngblood respondeu: “Escute aqui, não vou me afastar desse homem para ligar para ninguém.” Lembrando que os filhos do vice-presidente normalmente não tinham a proteção do Serviço Secreto, perguntou a Lady Bird onde estavam suas filhas (Lynda Bird estava na Universidade do Texas e Lucy, na escola secundária que frequentava, em Washington), e disse a um dos agentes que ligasse para o quartel-general e pedisse que mandassem guarda-costas para elas imediatamente, voltando depois para o cubículo o mais depressa que pudesse.

Alguém trouxe duas cadeiras dobráveis e Lady Bird se instalou em uma delas. Lyndon Johnson continuou de pé, encostado na parede do fundo. Como aconteceu em todas as crises de sua vida, sua primeira providência foi se ver cercado de gente leal, auxiliares de confiança que obedecessem a suas ordens sem questionar. Ele sabia que os congressistas texanos presentes na comitiva deviam estar por perto, e pediu a Youngblood que mandasse localizá-los, ao que Homer Thornberry foi conduzido para lá e, depois de algum tempo, Jack Brooks. Um assessor de Johnson, Cliff Carter, entrou e lhe entregou um copo de café.

E então, por longos minutos, ninguém mais apareceu. Lyndon Johnson continuava encostado contra a parede. O pequeno espaço cercado de cortinas estava muito silencioso. “Não sabíamos o que estava acontecendo”, recordaria mais tarde Thornberry. “Não sabíamos da condição do presidente… Num certo momento eu saí para tentar descobrir o que estava havendo, mas ou bem ninguém sabia ou ninguém quis me dizer.” Johnson pediu a Youngblood que mandasse um agente averiguar, e ele voltou acompanhado de Roy Kellerman, chefe da equipe do Serviço Secreto na Casa Branca, mas Kellerman não trazia muitas informações. “O sr. Johnson me perguntou qual era a condição do presidente e do governador”, lembra ele. “Contei que o governador tinha sido levado para a cirurgia, e que os médicos ainda estavam cuidando do presidente. Ele me pediu que o mantivesse informado sobre o estado dele.”

Precisavam esperar mais tempo. “Lyndon e eu não nos falamos”, relembraria Lady Bird. “Só olhávamos um para o outro, trocando mensagens com os olhos. Sabíamos o que podia estar havendo.” Johnson dizia muito pouco a qualquer pessoa, e se movia muito pouco. Quando lhe pediram para descrever o vice no hospital, Thornberry usou a mesma palavra empregada por Youngblood para defini-lo no carro: “Muito calmo. O tempo todo ele se manteve muito calmo.” Um auxiliar de Kellerman, Emory Roberts, entrou e disse que tinha visto Kennedy e, como mais tarde lembraria, “achava que o presidente não iria resistir” – e aconselhou Johnson a deixar o hospital, embarcar no Air Force One e decolar para Washington. Youngblood concordou. “Devíamos ir embora daqui imediatamente”, disse ele. A palavra “conspiração” estava no ar. Não só o presidente, mas também o governador tinha sido alvejado; quem podia saber se Johnson não seria o alvo seguinte caso Youngblood não o tivesse protegido tão depressa com o próprio corpo? O Serviço Secreto queria tirar Johnson de Dallas ou, pelo menos, levá-lo até o avião, que lhes parecia o local mais seguro de toda a cidade.

Mas Johnson discordou. Ninguém lhe tinha dado uma notícia definitiva sobre o estado do presidente; ninguém ainda tinha feito qualquer declaração explícita. Não iria embora sem a permissão da equipe presidencial, disse Johnson, de preferência do integrante da equipe que era, entre os assessores da Casa Branca presentes em Dallas, o mais próximo do presidente: Ken O’Donnell. Youngblood e Roberts continuaram, nas palavras de Youngblood, a “pressionar Johnson” para que deixasse o hospital “imediatamente” – “Sugerimos que ele pensasse bem, pois precisaria tomar posse” –, mas Johnson não mudou de ideia quanto a “ficar por lá até receber notícias definitivas sobre o presidente”.

Por um tempo que pareceu muito longo, mas não passou de minutos, nenhuma notícia definitiva chegou. Lyndon Johnson continuava encostado à parede do quartinho dividido por cortinas, com a mulher sentada a seu lado e dois ou três homens nas proximidades, de pé em silêncio ou trocando sussurros ocasionais; à sua frente “estava sempre Rufe”, contou Lady Bird. Johnson esperou ali mais ou menos quarenta minutos. E então, às 13h20, O’Donnell apareceu na porta e atravessou o quarto na direção de Lyndon Johnson. Vendo “o rosto devastado de Kenny O’Donnell, que o amava tanto”, Lady Bird soube o que era.

“Ele se foi”, disse O’Donnell ao 36º presidente dos Estados Unidos.

Quando as primeiras ligações chegaram à sala de George Hunt na redação da Life, avisando que “Kennedy tinha sofrido um atentado a tiros – num primeiro momento, só isso: que tinha sido alvejado”, contou o editor associado Russell Sackett, a reunião foi interrompida na mesma hora, e cada editor ou repórter saiu correndo de volta às suas salas.

Durante os minutos seguintes, enquanto a notícia se espalhava a partir de Dallas, uma decisão foi rapidamente tomada: o artigo de Keith Wheeler sobre Lyndon Johnson não sairia no número seguinte da revista. Mais ou menos uma semana mais tarde, William Lambert esteve com o editor-chefe assistente da revista, Ralph Graves, e lhe sugeriu que deviam adiar todas as investigações em andamento sobre as finanças de Johnson. “Disse a ele que, por mim, devíamos dar essa oportunidade ao sujeito”, contou. Graves concordou: “Se você não tivesse me falado isso, eu iria lhe dizer a mesma coisa.” (Quando a série da Life foi finalmente publicada, em agosto de 1964, avaliou que “a riqueza total acumulada” pela família de Johnson era de aproximadamente 14 milhões de dólares. Pessoas ligadas a Johnson rebateram com uma cifra em torno de 4 milhões.)

Ninguém teve a ideia de notificar os quatro homens reunidos na sala 312 do anexo do Senado sobre o que estava acontecendo em Dallas, e Don Reynolds continuava a fazer seu relato e apresentar seus cheques e recibos. Foi pouco depois das duas e meia da tarde, hora de Washington – mais ou menos dez minutos depois que O’Donnell disse “Ele se foi” a Lyndon Johnson –, que Reynolds acabou e, ao mesmo tempo, uma secretária “entrou correndo na sala, soluçando quase histericamente” e gritando que o presidente Kennedy tinha sido assassinado. Reynolds estendeu a mão para os seus documentos, enquanto ia dizendo que, como Johnson agora era presidente, “vocês não precisam mais de nada disso”. Mas Van Kirk recusou-se a deixar que os levasse, pois pertenciam agora à Comissão de Regras.

(A investigação da Comissão se arrastaria por mais dezenove meses de ríspidos embates partidários. Ao longo desse período, Reynolds faria outras acusações contra Johnson e Bobby Baker, mas, ao contrário de suas primeiras denúncias, não tinha o apoio de documentos. O relatório da maioria da Comissão, contestado com veemência pelo relatório da minoria, afirmava que a “credibilidade” de Reynolds tinha sido “destruída”. No entanto, ao mesmo tempo que refutaria parte das alegações de Reynolds, Baker declarou que este “disse a verdade em relação ao contrato de seguro de LBJ” e ao título de garantia superfaturado. Em 1967, o próprio Baker seria condenado por apropriação indébita, fraude e sonegação fiscal num outro caso sobre fundos de campanha, cumprindo dezesseis meses de prisão.)

No momento em que a notícia de Dallas chegou à sala de Abe Fortas, o principal conselheiro legal de Johnson, ele conversava com Bobby Baker, que o havia contratado como advogado na investigação da Comissão de Regras do Senado, e em qualquer processo criminal que dela pudesse advir.

Assim que a notícia chegou, relembraria Baker, ele percebeu que, se Fortas continuasse a representá-lo, o advogado poderia se ver numa “situação de conflito de interesses”. Dizendo a Fortas que provavelmente Lyndon Johnson iria chamá-lo para muitas tarefas, ele dispensou seus serviços de advogado.

“Ele se foi”, disse Ken O’Donnell. E “na mesma hora”, diria mais tarde Homer Thornberry, “Johnson assumiu o comando”.

Antes mesmo da chegada de O’Donnell naquele cubículo no hospital Parkland, alguma coisa chamava a atenção na postura de Johnson, algo que tinha aparecido pela primeira vez no seu tom de voz quando ainda estava estendido no piso de um carro em alta velocidade, com um corpo pesado sobre o seu e vozes agitadas num rádio de ondas curtas crepitando no ouvido. Os assessores e aliados de Johnson sabiam que, apesar de todos os acessos de raiva, dos berros, da vaidade, das queixas e dos monólogos intermináveis, seu comportamento era bem outro nos momentos de crise, momentos em que decisões – difíceis, cruciais – precisavam ser tomadas. Nessas horas ele ficava, como lembrava sua secretária Mary Rather, “parado e silencioso”. E ficou muito quieto nos longos minutos que passou em pé naquele cubículo. “Muito pouco foi dito entre nós”, lembrou Homer Thornberry; Johnson não disse nada nem sequer a Lady Bird. De pé diante daquela parede lisa, com o cravo ainda preso à lapela, ele transmitia uma calma e compostura raramente vistas nos três anos anteriores.

E o ar decaído desaparecera, substituído por uma expressão que Jack Brooks descreveu como “decidida”. Os assessores e aliados mais antigos de Lyndon Johnson, os homens que conviviam com ele havia mais tempo, conheciam bem aquela expressão: o queixo grande projetado para a frente, os lábios tensos formando uma linha reta e severa, os cantos da boca virados para baixo numa sugestão de rispidez, os olhos castanho-escuros, protegidos pelos longos cílios negros, franzidos, implacáveis, penetrantes. Era uma expressão de determinação e concentração intensa; quando Johnson exibia essa expressão, algum problema estava sendo examinado com uma intensidade quase palpável – e uma decisão era tomada. Essa expressão severa, como diria seu assessor Horace Busby, era a “expressão de decisão” de Johnson. Para Lady Bird, o rosto do marido tinha se tornado “quase a imagem escultural de um rosto moldado em bronze”.

A história jamais saberá o que corria pela mente de Lyndon Johnson durante o tempo que passou ali. A única coisa clara é que, durante aqueles longos minutos de espera, ele tomava decisões e, quando O’Donnell lhe deu a notícia e a espera chegou ao fim, as decisões tinham sido tomadas.

O’Donnell e os agentes do Serviço Secreto ainda insistiam que Johnson deixasse o hospital e voasse para Washington imediatamente. A possibilidade de uma “conspiração” era uma ameaça ainda maior porque, contaram a ele, seis membros do gabinete – entre eles o secretário de Estado, Dean Rusk, e o secretário do Tesouro, Douglas Dillon –, juntamente com o secretário de Imprensa da Casa Branca, Pierre Salinger, não estavam em Washington, mas a bordo de um avião, a caminho de uma conferência no Japão. Johnson, como afirma um relato, ficou “preocupado ao saber que mais da metade do gabinete estava a cinco fusos horários de distância, em algum ponto sobre a vastidão do Pacífico”, e todos juntos a bordo do mesmo avião.

O cortejo de Dallas foi uma das raras ocasiões em que o presidente e o vice-presidente estavam ambos não só fora de Washington como presentes ao mesmo evento; com tantas outras autoridades fora de Washington ao mesmo tempo, e enfiadas no mesmo avião, os tiros contra o presidente tinham sido disparados num momento em que o governo dos Estados Unidos se encontrava especialmente vulnerável. Seria apenas uma coincidência, ou o motivo da escolha daquele momento? A possibilidade de que o atentado fosse “parte de uma conspiração de grande alcance ainda em andamento” estava “no pensamento de todos”, lembrou Youngblood. Entre os repórteres presentes na entrevista coletiva em uma sala improvisada do hospital Parkland, havia, como recordou Charles Roberts, correspondente da Newsweek na Casa Branca, “um medo de que pudesse ser, talvez, uma tentativa de liquidar com todo o alto escalão do governo – talvez muita gente pensasse, como eu, no assassinato de Lincoln, em que não só ele, mas quatro ou cinco membros do seu gabinete foram marcados para morrer. Não tínhamos meios de saber que se tratava de um atirador… solitário”. A pressão dos três homens de pé à frente de Johnson aumentava. “Sr. presidente”, disse Youngblood, “precisamos ir embora imediatamente.” O’Donnell concordava: “Devemos sair daqui o mais depressa possível.”

Mas Johnson chegou a uma decisão diferente – que anunciou depressa, como se já tivesse refletido sobre todas as opções e resolvido o que fazer. Quando O’Donnell continuou a insistir para que deixasse logo Dallas, ele perguntou: “Sim, mas e a sra. Kennedy?” E quando o assessor falou que ela estava determinada a não se separar do corpo do marido (naquele momento, ela estava de pé, em choque e em silêncio, num corredor diante do quarto em que jazia o corpo), e que Johnson devia voar de volta já, enquanto ela, o corpo do presidente e seus assessores seguiriam num outro avião, Johnson disse não – que ia levá-la de volta no mesmo avião. O’Donnell contou que ela jamais deixaria o hospital sem o corpo. E Johnson respondeu que, nesse caso, ele sairia do hospital, mas não de Dallas; iria para o avião, mas ficaria a bordo esperando a chegada do corpo e da viúva. Continuavam a insistir para que fizesse o contrário. Um novo adjetivo surgiu nas descrições de Lyndon Johnson. Ele se mostrou, diria Youngblood, “inflexível”.

Não estava ignorando a possibilidade de conspiração; na verdade, chegou a se referir “ao atentado contra a vida do secretário de Estado Seward, por ocasião do assassinato de Lincoln”, lembraria Malcolm Kilduff, o assessor de imprensa da Casa Branca que acompanhava a viagem ao Texas. Por isso, disse Johnson, já que iam deixar o hospital, deviam sair imediatamente. Trocando frases rápidas, ele e Youngblood concordaram que, devido à possibilidade de outra tentativa de assassinato, a viagem de volta ao aeroporto Love Field precisaria ser cercada do máximo de segredo possível: deviam seguir por corredores do hospital diferentes dos percorridos na chegada, em carros diferentes dos que os tinham levado até lá, por um caminho diferente do seguido pela comitiva para entrar na cidade. Youngblood falou que, assim que saíssem, precisariam andar depressa, e deviam usar carros sem marcas de identificação, com Johnson e Lady Bird em veículos separados. Johnson ordenou que preparassem os automóveis, e Youngblood mandou um agente fazê-lo, recomendando que mantivesse os carros à espera, com os motores funcionando, nas vagas destinadas às ambulâncias na entrada de emergência, e cuidasse de escolher motoristas que conhecessem caminhos alternativos para o aeroporto, que pudessem usar em caso de necessidade. “Foram feitos planos rápidos quanto ao trajeto até os carros e quem iria em qual veículo”, contaria mais tarde Lady Bird. Seu marido “era a pessoa mais decidida entre os presentes. Não que ele não escutasse os outros… mas tomava decisões rápidas”.

Pouco mais tarde, mais uma decisão precisava ser tomada. Kilduff entrou no quarto dividido por cortinas e pediu a permissão de Johnson para anunciar a morte de Kennedy aos jornalistas que esperavam na sala reservada à imprensa.

“Sr. presidente”, começou ele. Era a primeira vez que alguém se dirigia assim a Lyndon Johnson, mas, quando ele respondeu, era o presidente respondendo, firme no comando. “Ele reagiu imediatamente”, lembraria Kilduff. Imediatamente, e de forma inequívoca. “Não”, respondeu ele, “acho melhor eu sair daqui e voltar para o avião antes do anúncio. Não sabemos se é uma conspiração em escala mundial, se também estão atrás de mim… Simplesmente não sabemos.” E ainda recomendou que entrassem em contato com o voo que levava o gabinete ao Japão. “Façam esse avião voltar”, disse. A aeronave, avisada do assassinato por um boletim informativo, confirmado pela Casa Branca, já estava de regresso, mas nem Johnson nem ninguém naquele quarto sabia disso.

Johnson tomou suas providências. Ele não tinha muitos aliados na comitiva; três homens com cuja lealdade podia contar eram congressistas do Texas, e ele disse aos dois que estavam presentes, Homer Thornberry e Jack Brooks, que seguissem de volta para o avião com ele. Queria que todos os poucos assessores que o tinham acompanhado até Dallas fossem convocados; pediu a seu assessor Cliff Carter que localizasse sua assistente executiva, Liz Carpenter, e sua secretária, Marie Fehmer, e trouxesse as duas para o avião. Ainda era uma equipe reduzida. Entre as várias pessoas no seu grupo estava um profissional de relações públicas de Houston, Jack Valenti, que chamara a atenção de Johnson anos antes ao escrever artigos favoráveis a ele numa coluna de jornal, e que trabalhara com ele nos preparativos de um jantar em homenagem a Albert Thomas, congressista de Houston. Pediu a Carter que achasse Valenti e o trouxesse para o aeroporto. Carter e seu grupo iriam precisar de um motorista, disse ele, e Youngblood mandou um agente ficar à espera deles na área de estacionamento das ambulâncias até que chegassem. Então estava pronto. “Homer, você vem comigo”, disse Johnson. “Jack, você vai com Bird.”

Andando muito depressa – sem correr, porque isso chamaria a atenção, mas caminhando o mais depressa que podiam –, deixaram o cubículo, atravessaram os corredores do hospital, seguindo uma faixa vermelha no chão até a saída da sala de emergência, onde os carros estavam à espera: primeiro Youngblood, olhando o tempo todo para os dois lados à procura de algum perigo; em seguida Johnson, com os olhos baixos como se não quisesse trocar olhares com alguém que pudesse estar espiando; depois os dois congressistas e dois outros agentes do Serviço Secreto, antes de Lady Bird, que precisou dar várias corridinhas ao longo do percurso para não ficar para trás. “Sair do hospital e entrar naqueles carros foi uma das caminhadas mais rápidas que eu fiz na vida”, lembraria ela.

A imprensa que cobria a Casa Branca estava reunida em uma sala na outra extremidade do hospital Parkland, esperando por notícias sobre o estado de Kennedy. Enquanto o novo presidente dos Estados Unidos deixava o hospital, Robert Pierpoint, da CBS News, viu-o de relance, mas não foi atrás. Nenhum outro repórter o seguiu ou, ao que tudo indica, nem sequer sabia que ele estava de saída. “Ninguém estava pensando na sucessão”, explicaria mais tarde Charles Roberts, da Newsweek. “Não me lembro de ninguém ter dito: ‘Meu Deus, Johnson virou presidente…’ Quase não havia atenção dirigida a ele, e foi assim que ele deixou o hospital. Ninguém tentou acompanhá-lo, embora a essa altura já fosse o presidente dos Estados Unidos.” O fotógrafo oficial da Casa Branca, capitão do Exército Cecil Stoughton, estava por acaso de pé junto ao balcão de recepção da sala de emergência no momento em que o pequeno séquito passou acelerado. Suspeitando que Kennedy estaria morto, decidiu acompanhá-los, pegando uma carona minutos mais tarde com Carter e Valenti.

Instalando-se no primeiro carro, Johnson sentou-se atrás do motorista, com Youngblood junto à outra janela traseira, no lugar onde o vice-presidente normalmente se sentaria, de tal forma que, se alguém disparasse contra a pessoa ali instalada, achando que seria Johnson, atingiria o agente. Thornberry sentou-se no banco dianteiro. Youngblood disse a Johnson para se manter abaixo do nível da janela, e ele se abaixou, apoiando as omoplatas no banco do assento.

Quando saíam do hospital, encontraram proteção suplementar. Albert Thomas, o congressista de Houston, de pé junto às vagas destinadas às ambulâncias, viu os carros e fez um sinal pedindo que esperassem por ele. Youngblood disse ao motorista que seguisse em frente, mas Johnson mandou que parasse e deixasse Thomas embarcar. O congressista se instalou no banco dianteiro, ao lado de Thornberry. Quando o carro entrou novamente em movimento, Johnson disse a Thornberry para passar por cima do assento e vir para o banco traseiro. Ele obedeceu, mas não se instalou no espaço vazio entre Johnson e Youngblood. Mais tarde, Youngblood contaria que Thornberry “se postou ao lado da janela” atrás do motorista, no lugar onde Johnson estava sentado antes. Agora, Johnson viajava no meio. Quer tenha trocado de lugar por acidente ou de propósito, contava a partir de então com um escudo humano de cada lado.

Um dos policiais de moto à frente do carro acionou a sirene. “Não vamos ligar as sirenes”, disse Johnson. Enquanto percorriam as ruas de Dallas em alta velocidade, Lady Bird, que seguia no segundo carro, viu, no alto de um prédio, uma bandeira a meio pau: “Acho que foi então que realmente me dei conta da enormidade do que tinha acontecido.” Logo já estavam na pista do Love Field e, lembrou Youngblood, “de repente ali, à nossa frente, tive uma das visões mais bem-vindas da minha existência”: o Air Force One. A escada para a porta traseira e os aposentos presidenciais estava no lugar, e ele e Lyndon Johnson subiram os degraus “praticamente correndo”.

Ao entrar no avião, Johnson seguiu para sua parte dianteira por um corredor estreito, passando por uma área com seis assentos do tipo de primeira classe, e depois por um quartinho dotado de camas para o presidente e a primeira-dama. “Quero que esta área seja reservada apenas ao uso da sra. Kennedy, Rufus”, disse Johnson. “Cuide disso.” Entrou então no camarote presidencial, um compartimento contendo um sofá preso à parede; uma mesinha, com uma cadeira de espaldar alto, para o presidente; e uma pequena mesa de reunião com quatro cadeiras. Alguns tripulantes e membros da equipe da Casa Branca, entre eles duas secretárias, viam televisão. No hospital Parkland, Kilduff tinha anunciado a morte de Kennedy, e Walter Cronkite, da CBS News, revelava a notícia à nação. Youngblood gritava para que todos baixassem as cortinas; a possibilidade de uma conspiração, e de que houvesse franco-atiradores no aeroporto, ainda parecia “bastante real”, diria mais tarde o agente. Das secretárias, vinha o som de choro.

O camarote estava quente. Alertado para preparar uma decolagem imediata, o piloto do Air Force One, coronel Jim Swindal, tinha desconectado o aparelho externo de ar-condicionado, montado num carrinho móvel, que mantinha o avião resfriado em terra. O ar-condicionado do próprio avião só funcionava com os motores ligados. E só um dos motores funcionava, a baixa velocidade, de modo a fornecer eletricidade para as luzes da cabine, mas não para o ar-condicionado.

Por alguns minutos, uma conferência apressada reuniu Johnson e os três congressistas do Texas. Mais decisões eram necessárias: quando e onde fazer o juramento da posse, se lá mesmo, em Dallas, ou em Washington, onde poderiam organizar uma cerimônia formal, num cenário adequado, presidida pelo presidente da Suprema Corte, Earl Warren, assim como o mesmo Warren tinha tomado o juramento de John F. Kennedy na sua posse. Harry Truman, outro vice-presidente que chegara ao poder devido à morte súbita do antecessor, só tomou posse duas horas e 25 minutos depois da morte de Franklin D. Roosevelt (e quase duas horas depois de ser notificado dela), esperando até que a maioria do gabinete, os líderes do Congresso e várias outras autoridades-chave do governo pudessem ser reunidos na Sala do Gabinete, na Casa Branca, para ver o presidente da Suprema Corte, Harlan Stone, tomar-lhe o juramento. Thornberry achava que a cerimônia devia ser em Washington, Thomas e Brooks preferiam Dallas, para que o país pudesse ver imediatamente que a sucessão tinha ocorrido. “E se o voo se atrasar?”, perguntou Thomas. Mas a conversa só durou alguns minutos. Havia razões para que a posse ocorresse sem perda de tempo: o fato de que o presidente tinha sido assassinado, e que uma conspiração mais ampla pudesse estar em andamento, tornava mais urgente ainda a necessidade de reforçar a sensação de continuidade, de estabilidade. Se os russos tentassem se aproveitar da situação, não deveria haver a menor dúvida quanto a quem estava no comando. Em Wall Street, o pânico já estava em curso, derrubando mais de 10 bilhões de dólares em valores de ações em pouco mais de uma hora.

Embora o juramento fosse um gesto apenas simbólico – nunca houvera um caso de morte do presidente em que alguma pessoa além do vice tivesse assumido a Presidência –, era um símbolo poderoso. E Johnson parecia considerá-lo especialmente significativo, como se, apesar de já vir exercendo a Presidência desde o momento da morte de Kennedy, fosse o juramento que o tornaria de fato presidente. Mais tarde, recordando o dia 22 de novembro, ele diria: “Eu prestei o juramento. Eu me tornei presidente.” Durante a discussão, um tripulante verificou que Johnson estava “claramente no comando” e, assim que Thomas acabou de apresentar seus argumentos em defesa da posse em Dallas, Johnson disse: “Estou de acordo.”

Se a calma e a capacidade de decidir sob pressão eram componentes da personalidade de Lyndon Johnson, também havia, como sempre no caso dele, traços contrastantes.

Embora consciente das razões que pesavam contra a entrada de qualquer pessoa no quarto presidencial, e de que ele devia ser reservado “para o uso exclusivo da sra. Kennedy”, surgia agora uma outra questão. Ele precisava dar alguns telefonemas, inclusive um de natureza muito delicada, e queria privacidade.

Havia alguma privacidade no camarote onde ele se encontrava (na verdade, estava de pé bem ao lado de um telefone): as portas dos dois lados da saleta podiam isolá-la completamente do resto da aeronave; Johnson poderia pedir que as pessoas ali presentes saíssem e fechassem as portas. Mas ele queria uma privacidade ainda maior. Youngblood disse que só sairia do seu lado depois que o avião decolasse. Conduzindo ele e Marie Fehmer para dentro do quarto, Johnson fechou a porta, tirou o paletó e se estendeu numa das camas.

Motivos objetivos e racionais podem explicar por que Lyndon Johnson decidiu ligar para Robert Kennedy. Uma das finalidades do telefonema era obter um parecer legal sobre uma questão de procedimento do governo, e Robert Kennedy era a principal autoridade legal do país. E, tomada a decisão de proceder ao juramento, Johnson precisava do texto a ser usado, e também deveria saber quem teria o poder legal de tomar-lhe o juramento.

Havia também razões estratégicas em ligar para Bobby. Desde a primeira hora depois da morte de John F. Kennedy, Lyndon Johnson já parecia cultivar os sentimentos que o atormentariam pelo resto da vida – sentimentos compreensíveis em qualquer homem que chegasse à Presidência não por força de uma eleição, mas graças à bala de um assassino; sentimentos exacerbados, no seu caso, pelo contraste, e pelo que ele julgava ser a visão generalizada do contraste, entre ele e o presidente que substituía; pelo desprezo que lhe votavam as pessoas em torno do presidente; e pelo simples fato geográfico de onde tinha ocorrido o atentado que o conduzia ao cargo.

Rememorando seus sentimentos anos mais tarde, já aposentado, Johnson diria que, mesmo depois de ter feito o juramento, “para milhões de americanos, eu ainda era ilegítimo, um homem nu sem o manto presidencial, um mero pretendente ao trono, um usurpador sem direitos legais. Ainda havia o Texas, meu estado natal e sede do assassinato. E depois os fanáticos, os que queriam dividir nossas forças, e os intelectuais da Costa Leste, que estavam prontos a me derrubar antes mesmo que eu começasse a me erguer”. Johnson parece ter sentido, desde a primeira hora, que a melhor maneira de legitimar sua ascensão ao trono, de atenuar a impressão de que era um usurpador, seria demonstrar que contava com o apoio da família de seu antecessor. A decisão de fazer logo o juramento de posse, ainda em Dallas, em vez de esperar a volta a Washington, tinha sido tomada, mas ele queria ver essa decisão sancionada pelo homem cuja aprovação teria o maior peso.

Havia, claro, motivos para que Johnson não telefonasse para Robert Kennedy, motivos para que procurasse as informações junto a outra pessoa – qualquer outra pessoa. As perguntas que ele tinha a fazer – O juramento podia ocorrer em Dallas? Quais eram as palavras a serem ditas? Quem podia tomá-lo? – não tinham nada de complicadas, e poderiam ser respondidas por mais de 100 autoridades do governo. Uma delas, na verdade, era uma figura que Johnson já tinha consultado amiúde sobre questões de procedimento da Vice-Presidência, em quem depositava confiança e com quem até sentia uma certa ligação: o número 2 do Departamento de Justiça, o vice-secretário Nicholas Katzenbach.

E havia outras razões – de natureza humanitária, e não governamental – que poderiam tê-lo levado a ligar para Katzenbach ou algum outro alto funcionário em vez de telefonar para quem telefonou No entanto, quaisquer que tenham sido os motivos de Johnson, pouco tempo depois de Robert Kennedy saber que o irmão que amava profundamente estava morto, seu telefone tornou a tocar. Quando ele atendeu, viu-se falando com um homem que odiava – e que lhe pedia exatamente os detalhes do procedimento que precisava seguir para, sem mais demora, assumir formalmente o lugar do seu irmão.

Robert Kennedy estava almoçando com a mulher, Ethel, com Robert Morgenthau, procurador federal em Nova York, e com o substituto imediato de Morgenthau, Silvio Mollo, ao lado da piscina da casa conhecida como Hickory Hill, sua residência na Virgínia. Fazia um dia claro e ensolarado, quente para o mês de novembro. No alto do gramado que subia em aclive a partir da piscina, trabalhadores pintavam uma nova ala que tinha sido acrescentada à casa branca de formas irregulares. De repente, Morgenthau viu um dos pintores começar a correr na direção deles. Trazia um rádio transístor na mão e gritava alguma coisa que ninguém entendeu. No mesmo instante, um telefone tocou do outro lado da piscina e Ethel a contornou para atender, dizendo depois que era J. Edgar Hoover, diretor do FBI. Bobby pegou a ligação, e Morgenthau o viu cobrir a boca com a mão e se virar com uma expressão de “choque e horror” no rosto. “Jack levou um tiro”, disse ele. “Pode ser fatal.” Entrou em casa e tentou obter mais informações, e cerca de vinte minutos mais tarde ele as conseguiu, com um assessor da Casa Branca. Poucos minutos depois a notícia foi confirmada por Hoover, e então, às 14h56, Lyndon Johnson estava ao telefone.

Essa ligação – e uma segunda entre Johnson e Robert Kennedy, seis minutos mais tarde – não foi gravada. As lembranças do que foi dito divergem. As únicas testemunhas – Rufus Youngblood e Marie Fehmer – ouviram um só dos lados dos telefonemas, e suas impressões do que teria ocorrido diferem consideravelmente das de Katzenbach, com quem Robert Kennedy conversou tanto entre as duas ligações como imediatamente depois delas. No entanto, por maiores que sejam as diferenças, emerge dessas memórias e impressões o retrato de duas conversas entre um homem que sabia tanto o que queria quanto o que dizer para consegui-lo e um homem tão aturdido pela dor da perda e pelo choque que mal sabia o que dizia, ou mesmo, até certo ponto, o que estava ouvindo.

Johnson relataria esses telefonemas várias vezes, nos meses imediatamente posteriores ao assassinato e em 1967, quando a controvérsia em torno das ligações se tornou tão pública e acerba que acabou sendo um dos elementos cruciais da disputa sangrenta entre ele e Robert Kennedy, talvez a mais encarniçada da política americana no século XX, desempenhando um papel pequeno, mas não insignificante, em decisões que ajudariam a moldar o curso da história americana. Segundo o relato de Johnson, ele ligou para Kennedy porque “queria dizer alguma coisa que pudesse confortá-lo”. E, de acordo com esse relato, teria conseguido fazê-lo desviando a mente de Kennedy para questões de ordem prática. “Apesar de seu choque e sofrimento”, disse Johnson, Kennedy “conversou com precisão sobre os problemas práticos que tínhamos pela frente”, mostrando-se “muito objetivo”. Discutiram “a questão do meu juramento de posse” e “a possibilidade de uma conspiração”, afirmou Johnson. Kennedy, contou ele, “disse que queria refletir” sobre quando e onde o juramento deveria ocorrer, e que “ligaria de volta”. Quando Kennedy tornou a ligar, “disse que o juramento devia ser-me tomado imediatamente”.

Os relatos de Kennedy sobre essas conversas, inclusive o relato que fez a Ken O’Donnell na mesma noite, depois que este chegou de volta a Washington, foram diferentes. Johnson, contou Bobby, disse a ele que “muita gente aqui o tinha aconselhado a fazer o juramento imediatamente”. Quando não teve uma resposta imediata, Johnson pressionou Kennedy, perguntando: “Você tem alguma objeção?” Bobby disse que não respondeu à pergunta. “Fiquei surpreso demais para dizer qualquer coisa. E me perguntei: ‘Qual é a pressa? Ele não podia esperar até o corpo do presidente sair de lá e chegar de volta a Washington?’” Johnson, no seu relato, tomou – ou usou – o silêncio de Bobby Kennedy como consentimento. “Ele começou a me fazer um monte de perguntas sobre quem deveria lhe tomar o juramento. Eu estava confuso e perturbado demais para falar a respeito.” Numa outra conversa, que dessa vez Bobby gravou para a posteridade, ele contou que jamais dissera a Johnson que o juramento devia ser prestado imediatamente. “Fiquei surpreso naquele momento porque… não achei – não entendi qual era a pressa.” Na verdade, disse ele, seus desejos eram o contrário do que Johnson afirmou: “Acho que pensei, naquele momento, pelo menos, que seria bom se John Kennedy pudesse voltar para Washington ainda como presidente.” O único aspecto da conversa em torno do qual há acordo é que Bobby Kennedy pediu tempo para examinar a questão, dizendo que ligaria de volta para Johnson.

Bobby ligou para Katzenbach, dizendo: “Querem que ele faça o juramento agora mesmo, no Texas. Será mesmo necessário?”

“Não, necessário não”, respondeu Katzenbach. E quando Kennedy perguntou quem poderia presidir a cerimônia, Katzenbach respondeu: “Qualquer um que possa tomar um juramento”, categoria que incluía qualquer juiz federal ou centenas de outras autoridades; o local ou a hora exata do juramento não fazia diferença. “O vice assume a Presidência assim que o presidente morre – isso é praxe. Não há dúvida.”

Mais tarde, Katzenbach diria ter concordado que um juramento imediato, embora não fosse necessário, era desejável, “tendo em vista seu significado simbólico”. Mas ficou “absolutamente perplexo” ao saber que Johnson tinha ligado para Bobby Kennedy tão pouco tempo depois da morte do irmão. Um número imenso de autoridades poderia ter dado a Johnson as informações que ele queria, disse. “Podia ter ligado para mim. Eu estava no meu gabinete.” Imaginou que Johnson com aquela ligação “queria ter certeza absoluta de que não haveria uma explosão por parte de Bobby” – garantir que Bobby não diria mais tarde que o juramento imediato demonstrava falta de respeito pelo presidente morto. Entretanto, disse ele, diante dos “sentimentos de Bobby por Johnson, e pelo irmão”, o fato de Johnson ter ligado para Bobby pouco depois da morte de John o deixou “francamente pasmo”. “Essa ligação foi sem dúvida um erro.”

E depois ainda houve uma segunda ligação – a ligação de volta de Bobby Kennedy para Lyndon Johnson –, em torno da qual, como escreveu o historiador William Manchester, “os fatos são pouco claros, e um observador desapaixonado não tem como escolher”. Johnson contaria mais tarde que nessa segunda ligação Kennedy lhe disse “que o juramento podia ser tomado imediatamente, antes da decolagem para Washington, por qualquer autoridade judicial”. No decurso da ligação, porém, ficou claro que as questões de onde e quando o juramento devia ser prestado na verdade tinham se tornado secundárias, e que tudo o que Johnson queria de Kennedy era o texto exato do juramento. Kennedy disse que pediria a Katzenbach para ditar. Telefonando de novo para seu auxiliar direto, disse: “Ele vai fazer o juramento lá mesmo, e precisa do texto.” Katzenbach puxou um exemplar da Constituição americana de sua estante, e leu a declaração contida no Artigo II, seção 1:

Juro (ou afirmo) solenemente que irei exercer fielmente o cargo de presidente dos Estados Unidos, e que, usando o melhor da minha capacidade, irei preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos.

Johnson disse a Marie Fehmer que fosse à área do avião destinada à assessoria para anotar o texto. “Bobby começou, mas depois passou a ligação para Katzenbach”, lembrou ela. (Aparentemente, Katzenbach estava participando da segunda ligação.) Como estava a voz de Katzenbach naquele momento? “Estava controlada; ele parecia feito de aço”, disse Fehmer. “Bobby não, quando começou. E eu me dizia: ‘Você não devia estar fazendo isso.’” Quando Katzenbach acabou, ela perguntou se podia ler de volta o texto para ele. “O que depois eu achei que pode ter sido um pouco cruel, mas de todo modo eu queria verificar tudo.” Quanto ao seu próprio estado emocional naquele momento: “Eu estava bem. Tive uma crise mais tarde, naquela noite, mas estava bem. Johnson transmitia esse tipo de sensação. Ele ensinava às pessoas que, por Deus, elas eram capazes de fazer qualquer coisa… E havia uma tarefa a cumprir.”

Sejam quais forem as controvérsias em relação aos telefonemas, o juramento foi ditado e datilografado, e, se a desejada concordância de Bobby Kennedy à sua realização imediata não foi obtida, pelo menos lhe foi perguntado se tinha alguma objeção e ele não tinha respondido, de modo que mais tarde teria dificuldades para criticar a situação. A possibilidade de uma crítica pública vinda do irmão do presidente tinha sido anulada (apenas por algum tempo, como mais tarde se veria). A ligação para Hickory Hill tinha cumprido sua finalidade. Quaisquer que tenham sido os detalhes da conversa entre Lyndon Johnson e Bobby Kennedy, quando Johnson desligou tinha obtido parte suficiente do que queria para poder seguir em frente.

Desligando o telefone, Johnson começou a dar ordens. Qualquer juiz federal servia para lhe tomar o juramento, foi o que lhe disseram. Ele sabia qual juíza queria – e ela estava justamente em Dallas.

“Não havia outra pessoa”, escreveu um historiador, “que personificasse tanto a total falta de poder de Johnson” durante sua Vice-Presidência. Ele tinha indicado Sarah Hughes, uma aliada política de longa data, para um posto de juíza no Tribunal Federal de Dallas. Mas, mesmo na Vice-Presidência, tinha sido incapaz de obter sua nomeação. Ela só fora nomeada para o posto depois da interferência do líder da maioria no Congresso, Sam Rayburn, fato que fez Johnson sentir-se, ele disse, como “o maior mentiroso e idiota da história do estado do Texas”. “Chame Sarah Hughes”, ordenou ele a Marie Fehmer.

O escrivão de Hughes disse a Fehmer que não sabia onde a juíza se encontrava – até onde podia saber, ela havia estado no almoço do Trade Mart, à espera da chegada do presidente –, e foi isso que Fehmer contou a Johnson.

Ele mandou que ela tornasse a ligar para o escrivão, e pegou ele próprio o telefone. “Aqui é Lyndon Johnson”, disse ele. “Encontre a juíza.”

Ela foi encontrada e levada às pressas para o Love Field.

Mas Johnson queria mais uma coisa dos Kennedy, e também esta ele conseguiu.

Nenhum gesto teria maior significado para legitimar a transição aos olhos do mundo – para demonstrar que a transferência do poder se dera em ordem, da maneira apropriada, de acordo com a Constituição; para remover qualquer sinal de usurpação; para abafar, até onde era possível, qualquer suspeita de que ele pudesse ter cumplicidade no atentado; para mostrar que a família do homem que estava sucedendo não tinha qualquer má vontade para com ele, e o apoiava – do que a presença, na cerimônia de juramento, da viúva do presidente morto. Seria igualmente um sinal de continuidade e estabilidade, mostrando que o governo dos Estados Unidos seguiria funcionando sem interrupção, a despeito do assassinato do homem que estava à sua frente.

Terão sido essas as razões – além da razão humanitária de não deixá-la para trás – pelas quais, quando o Serviço Secreto e Ken O’Donnell lhe disseram que Jacqueline Kennedy seguiria em outro avião, ele se recusou a ir embora de Dallas sem ela? Sem dúvida, houve figuras leais a Kennedy que cultivaram essa suspeita. “Alguns de nós sentimos que ele usou a sra. Kennedy e a aura dos Kennedy quando encenou sua cerimônia de juramento na presença dela, e assim pôde chegar a Washington com ela e o caixão do presidente Kennedy”, escreveria mais tarde O’Donnell. A história nunca irá saber a resposta a essa pergunta. Tudo que se pode saber ao certo é que naquele momento, a bordo do Air Force One, Johnson agiu com determinação para obter a presença da viúva.

Seus esforços quase foram derrotados por um momento de extremo constrangimento. Enquanto Johnson dava os telefonemas – não só para Bobby Kennedy, como para seu assistente administrativo, Walter Jenkins, e para o conselheiro de Segurança Nacional, George Bundy – do quarto do avião, ouvia-se o som de marteladas do outro lado do tabique que separava o quarto dos assentos do compartimento traseiro. Quando Fehmer saiu para o corredor e perguntou o que se passava, tripulantes responderam que quatro dos seis assentos estavam sendo retirados de modo a criar espaço para o pesado caixão de bronze, que já estava subindo a bordo pela porta traseira, seguido por Jackie e assessores do presidente morto.

Assim que o grupo de Kennedy subiu a bordo, Jackie, desejando alguns momentos sozinha enquanto o caixão era preso ao piso da aeronave, atravessou o compartimento traseiro e abriu a porta do quarto, achando que estaria vazio – e, para sua surpresa, deparou-se com Lyndon Johnson. Se, quando ela abriu a porta, Johnson estava – como escreveria o historiador Manchester depois de uma conversa com ela – “recostado na cama” em mangas de camisa, ou se – como Fehmer diria mais tarde – ele já se levantara da cama e se preparava para deixar o local quando abriu a porta e viu a sra. Kennedy, o choque de Jacqueline foi evidente. Retirando-se rapidamente, ela disse a O’Donnell, conta ele, “uma coisa que me deixou atônito: que quando abriu a porta de sua cabine, tinha dado com Lyndon Johnson”. E não foi a única a bater em retirada. “Ela estava entrando em seu quarto particular”, relembrou Fehmer. “E viu um estranho ainda em mangas de camisa… no solo sagrado. Nós, é claro, saímos correndo de lá. Foi muito embaraçoso.”

Voltando ao compartimento traseiro, Jackie instalou-se num dos dois assentos que restavam, ao lado do caixão. Dali a um momento, Johnson, depois de pegar Lady Bird no camarote presidencial, foi vê-la. “Foi uma coisa muito, muito difícil”, lembrou Lady Bird Johnson. “O vestido da sra. Kennedy estava manchado de sangue. Uma das pernas estava quase toda coberta de sangue seco, e sua luva direita estava impregnada – aquela mulher imaculada –, estava impregnada de sangue, do sangue de seu marido. Ela sempre usava luvas, como se estivesse acostumada com elas; eu jamais consegui. E aquele era talvez um dos sinais mais pungentes… lindamente vestida, e coberta de sangue seco.” Embora chocada com a aparência de Jackie, Lady Bird conseguiu lhe dizer as coisas certas: “Meu Deus, a que ponto chegamos…”, e Jackie respondeu tornando tudo “o mais fácil que podia. Falou coisas como ‘Oh, Lady Bird… sempre gostamos tanto de vocês dois’. E disse: ‘Oh, se eu não estivesse lá. Ainda bem que eu estava lá.’” Só uma vez a voz de Jackie mudou: quando Lady Bird lhe perguntou se ela não queria mudar de roupa. Não naquele momento, falou Jackie. “E então… se é que no caso de uma pessoa tão gentil e digna se pode dizer que tenha havido um elemento de veemência, ela disse: ‘Eu quero que eles vejam o que fizeram com Jack.’”

E Lyndon finalmente abordou o assunto. “Bem – em relação ao juramento”, disse. Segundo Manchester, ele precisou repetir as palavras duas vezes para que Jackie respondesse: “Ah, sim, eu sei, eu sei.” “Ela entendia os símbolos de autoridade, a necessidade de alguma aparência de majestade nacional depois daquela calamidade”, escreveu Manchester. Se ela concordou explicitamente ou não, ficou o entendimento de que, quando Johnson fizesse o juramento, ela estaria presente.

Tendo cuidado do que precisava junto aos Kennedy, Lyndon Johnson seguiu de volta para o camarote presidencial.

Agora estava lotado: agentes do Serviço Secreto; os três congressistas do Texas; os assessores e secretárias de Kennedy que tinham subido a bordo com o caixão; um dos assessores militares de Kennedy, o general de divisão Chester V. Clifton; os assessores de John-son (Carter, Valenti, Fehmer e Liz Carpenter); Moyers, que, ouvindo a notícia do assassinato de Kennedy quando se encontrava em Austin, preparando o resto da viagem do presidente ao Texas, tinha fretado um avião, voado para Dallas e subido a bordo do Air Force One; dois criados presidenciais, George Thomas, de Kennedy, e Paul Glynn, de Johnson – todos reunidos num quadrado de mais ou menos 5 metros por 5, tão tenuemente iluminado (com as cortinas das janelas ainda fechadas, a única iluminação vinha das fracas lâmpadas fluorescentes do teto) que os alamares dourados do general brilhavam muito pouco na penumbra, e que, sem ar-condicionado, tinha ficado tão quente e abafado que, disse um homem, “estava sufocante; era difícil pensar”. O barulho surdo mas perturbador da única turbina em operação nunca parava. Havia choro no compartimento, além de murmúrios – e confusão.

Os assessores de Kennedy só tinham conseguido retirar o caixão do presidente morto do hospital depois de um furioso confronto com um legista do condado de Dallas, que, insistindo que antes precisava fazer uma autópsia, tinha tentado bloqueá-los numa das saídas do hospital, apoiado por policiais. Eles tinham literalmente removido o legista da frente para deixar o hospital, e agora, a bordo do avião, O’Donnell “ficava olhando pela janela, esperando ver as luzes vermelhas” dos carros policiais, “chegando com uma ordem judicial para impedir nossa decolagem”.

Sem saber, quando subira a bordo, que Johnson tinha decidido esperar pela juíza Hughes e tomar posse ainda em terra (sem nem sequer saber por alguns minutos, na realidade, que Johnson estava a bordo; naquele momento, ele estava atrás da porta fechada do quarto de Kennedy), o general de brigada Godfrey McHugh, outro assessor militar de Kennedy, tinha ido para a cabine de comando e dado ao coronel Swindal a ordem de decolar de imediato. Swindal não tinha como obedecer – a porta dianteira do avião ainda estava aberta, com a escada ainda encostada, e, quando a porta finalmente foi fechada, Malcolm Kilduff veio à cabine dizer ao piloto que o avião só iria decolar depois da cerimônia de juramento. Quando McHugh percebeu que o avião não decolava, correu de novo até a cabine para repetir suas ordens, e Kilduff as desautorizou. O’Donnell, “num estado de grande desespero”, disse ele, foi também até a cabine de comando, e só então ficou sabendo dos planos de Johnson.

As ordens conflitantes foram menos uma confrontação entre os assessores de Kennedy e os de Johnson, como mais tarde se diria, do que um mal-entendido, mas só fizeram aumentar a confusão. McHugh e outros assessores de Kennedy ainda corriam de um lado para o outro pelo corredor apinhado na parte do avião destinada aos passageiros, enquanto no camarote presidencial homens e mulheres perguntavam uns aos outros o que estava acontecendo, o que iria acontecer. Ninguém sabia ao certo.

E então, no corredor estreito que levava ao quarto presidencial, assomou de repente, nas palavras de Jack Valenti, “a silhueta imensa de Lyndon Johnson”.

O cravo tinha desaparecido; o cinza-escuro do seu terno, que parecia preto sob a luz fraca, só tinha o contraste da pequena barra da Estrela de Prata, uma condecoração militar, em sua lapela, e da ponta de um lenço branco emergindodo bolso junto ao peito. Seus cabelosralos estavam puxados para trás, de modo que, quando virava a cabeça de um lado para o outro, passando o camarote em revista, verificando quem estava lá, não havia nada que suavizasse aquele crânio volumoso, ou as projeções do queixo farto e do nariz grande, e sua boca apresentava aquela linha severa e obstinada.

Ao vê-lo ali de pé, Jack Valenti, que tinha conhecido Lyndon Johnson principalmente durante sua Vice-Presidência, ficou espantado. “Mesmo naquele instante, ele já apresentava outro porte”, lembrou. “Tinha um ar mais grave.” Os movimentos inquietos haviam desaparecido. “Ele submetera suas emoções ou paixões a uma disciplina estrita”, de modo que “estava muito tranquilo e aparentemente em pleno domínio de si mesmo.” Ocorrera “uma transformação”, disse Valenti. “De algum modo estranho, ele era outro homem, não o mesmo que eu tinha conhecido.”

Outros assessores de Johnson, que o conheciam havia mais tempo, viram, depois que ele voltou a Washington, a mesma transformação, mas não a acharam nada estranha. Horace Busby, que trabalhava para Johnson desde 1947, viu naquela noite um Lyndon Johnson que não via fazia três anos, mas era um Lyndon Johnson de quem se lembrava muito bem. O Johnson visto por ele – e que George Reedy, Walter Jenkins e outros assessores de longa data viram – era simplesmente o velho Lyndon Johnson, o Lyndon Johnson anterior à Vice-Presidência. E Busby entendeu por que ele voltara a ser quem tinha sido, e por que conseguira isso tão depressa. “A verdade é que ele estava voltando a ser ele mesmo”, explicou. “Estava de volta ao lugar dele. De volta ao comando.”

Quando as pessoas que ocupavam o compartimento perceberam Johnson de pé na porta, os que estavam sentados se levantaram. Os murmúrios pararam – e até, por um momento, o choro.

“Assim que eu entrei, todos ficaram de pé”, escreveu Johnson em suas memórias. “Ali estavam velhos amigos, como Homer Thornberry e Jack Brooks; ali estavam assessores… E todos estavam de pé. Percebi que nada voltaria a ser como antes. Para velhos amigos que sempre tinham me chamado simplesmente de Lyndon, eu agora passava a ser ‘sr. presidente’.” Nas memórias, ele contaria que “esta era uma perspectiva perturbadora, que metia medo”. Mas, se foi, ele não dava qualquer sinal disso àquela altura. No silêncio, Albert Thomas disse: “Estamos prontos a cumprir qualquer ordem que queira dar, sr. presidente.” Entrando no camarote presidencial, enquanto todos abriam caminho para ele, Johnson instalou-se na cadeira de espaldar alto. Chamando Kilduff com um aceno, disse-lhe que tivesse certeza de que um fotógrafo e repórteres estariam presentes para registrar a cerimônia do juramento. “Traga a imprensa”, disse. Chamou Valenti com um aceno. “Quero você na minha equipe”, afirmou. “Você vai voar comigo para Washington.” E toda vez que uma ordem era questionada, ele não se curvava a nenhum questionamento.

O’Donnell e O’Brien perguntaram a Johnson se o avião podia decolar imediatamente, e ele respondeu: “Não podemos sair daqui antes de eu fazer o juramento de posse. Acabei de falar ao telefone com Bobby. Ele me disse para esperar aqui até Sarah Hughes me tomar o juramento.” (E em seguida acrescentou um comentário carregado de conotações: “Vocês devem se lembrar de Sarah Hughes.”) O’Donnell não acreditou: “Eu não conseguia imaginar Bobby dizendo a ele que ficasse lá.” Johnson tinha se tornado presidente no momento em que Kennedy morrera; “O juramento é só uma formalidade simbólica”; “Não precisamos ter pressa”. (E mais tarde, naquela noite, seu ceticismo foi confirmado: “Bobby me deu uma versão completamente diversa de sua conversa com Johnson.”)

Mas, se O’Donnell acreditava nele ou não, agora isso não importava mais. O semblante de Johnson mal se movia enquanto ele falava; sua voz era tão baixa que, disse um observador, “ele quase sussurrava”. Se a voz era suave, a mensagem não era. “Johnson foi inflexível em sua decisão de que o juramento fosse administrado pela juíza Hughes”, recordou Larry O’Brien. “Havia uma inflexibilidade. Ficou claro que o juramento seria administrado em terra.” O general McHugh ainda andava de um lado para o outro pelo corredor, tentando fazer o avião decolar, sem ter falado com Johnson diretamente, mas O’Brien e O’Donnell pararam de discutir.

Levantando-se, Johnson se deslocou para o centro do pequeno camarote lotado (e, como era o caso na maioria dos aposentos onde entrava, era a pessoa mais alta presente). Pelas lembranças de todos reunidos naquele ambiente passa um ponto em comum: a sensação de que, de uma confusão amorfa, a ordem rapidamente emergia.

Se um motivo para a sua insistência de que o juramento ocorresse com a maior rapidez possível era demonstrar, depressa, continuidade e estabilidade para a nação e para o mundo, então era importante que a nação e o mundo vissem que um novo presidente tinha assumido o cargo. Por sorte, Cecil Stoughton, o fotógrafo da Casa Branca, subira a bordo, e assim que Johnson disse a Malcolm Kilduff que providenciasse a presença de um fotógrafo, o secretário de imprensa esbarrou com ele no corredor. “Graças a Deus você está aqui”, disse Kilduff. “O presidente vai fazer o juramento.” E quando Stoughton, carregando duas câmeras, entrou no camarote presidencial, vendo “Johnson ali, com toda a sua altura”, o novo presidente lhe perguntou: “Onde é que nos colocamos, Cecil?” Stoughton lhe disse que o recinto era tão pequeno que ele precisaria se colocar de costas para uma parede e, para ganhar altura e obter um ângulo melhor, ficar de pé no sofá, e que Johnson e a juíza deviam ficar diretamente de frente para ele, mas alguns passos para trás. Johnson começou a deslocar as pessoas, indicando seus lugares com o dedo – “assumindo o comando”, nas palavras de Stoughton. As testemunhas eram importantes; Kilduff perguntou a Johnson quem ele queria presente. “O maior número de pessoas que couber aqui”, foi a resposta. Testemunhas cuja presença – devidamente fotografada – seria uma confirmação da continuidade e da legitimidade, da aprovação do grupo comandado por Kennedy a sua posse no cargo de Kennedy. Duas das secretárias de Jackie, Mary Gallagher e Pamela Turnure, estavam na cabine dianteira, chorando. Johnson mandou Kilduff trazer as duas, e elas entraram, junto com o general Clifton.

Ele queria das pessoas ligadas a Kennedy uma outra demonstração de continuidade, mais durável. A juíza Hughes ainda não chegara. Johnson tinha alguns minutos, e os usou.

Tornando a sentar-se, trocou tanto de cadeira (deslocou-se para uma das cadeiras da mesa de reunião) quanto de tom de voz – uma mudança tão abrupta e dramática que teria sido espantosa para qualquer pessoa que não tivesse testemunhado, ao longo dos anos, a notável capacidade que Johnson tinha de mudar completa e instantaneamente de tom para atingir algum objetivo. Onde, poucos minutos antes, em suas conversas com O’Donnell e O’Brien, havia uma total “inflexibilidade”, agora – numa nova conversa com os mesmos dois homens – havia humildade, e na mesma medida.

Johnson queria que permanecessem em seus cargos na Casa Branca, disse aos dois irlandeses, ainda entregues ao primeiro choque pela perda do seu líder morto, porque o melhor tributo que se podia prestar ao presidente Kennedy seria dar prosseguimento aos programas em que ele acreditava. Deviam lutar juntos por eles, disse Johnson, “ombro a ombro”. Inclinando-se na mesa e olhando em seus olhos, continuou: eles deviam ficar porque precisava de ambos. Tinha muito a aprender sobre as suas novas responsabilidades, e simplesmente não absorvia as coisas com a mesma agilidade de seu antecessor. Jack tinha não só a experiência, mas a formação e a compreensão do ofício; ele não. “Preciso da sua ajuda”, disse. “E preciso muito. Não existe ninguém a quem eu possa recorrer com a mesma experiência de vocês. Agora, preciso mais de vocês do que o presidente Kennedy precisava.”

Ele só tinha poucos minutos para fazer seu pedido – e mal tinha terminado quando a juíza Hughes chegou. O’Donnell e O’Brien não responderam na ocasião – “Podemos conversar sobre isso mais tarde”, disse O’Brien; O’Donnell depois se descreveria como “neutro” –, mas os acontecimentos viriam provar que aquele pedido tinha suavizado seus sentimentos em relação a Johnson.

Ajuíza Hughes chegou, uma mulher miúda com um vestido marrom de bolas brancas, e Johnson mostrou-lhe o lugar que Stoughton tinha escolhido, em frente ao sofá onde o fotógrafo estava de pé. O’Brien pôs um pequeno missal católico em suas mãos. Três repórteres – Roberts, da Newsweek; Merriman Smith, da United Press International; e Sid Davis, da Westinghouse Broadcasting – também subiram a bordo, depois de uma corrida louca até o aeroporto Love Field em um carro de polícia sem identificação, com o guarda de uniforme ao volante, ultrapassando sinais vermelhos, passando por cima das divisórias de pistas e dirigindo na contramão. Apesar das súplicas, o motorista tinha se recusado a avisar aos editores onde seus repórteres estavam, dizendo que precisava manter total silêncio pelo rádio, porque “não sabiam se era uma conspiração ou não”. “E estávamos especulando: ‘Será que vão tentar matar Johnson, e para onde ele foi levado?’”, lembrou Roberts. “Será que os russos estão tentando tomar Berlim?” Ao vê-los entrar no camarote presidencial, Johnson disse: “A imprensa está aqui, então podemos seguir em frente.”

E tomou suas últimas providências. Por mais que o camarote já estivesse lotado, mais algumas testemunhas podiam ser trazidas para lá. Levantando a voz para poder ser ouvido na cabine dianteira, ele disse: “Agora vamos fazer uma cerimônia de juramento aqui, e quem quiser assistir pode entrar neste compartimento.” A juíza Hughes lembrou que “eles foram entrando até não sobrar nem um centímetro de espaço” – 27 pessoas se acotovelaram no camarote.

A presença dos Kennedy ainda não estava como Johnson desejava. Ele “pediu particularmente que… Evelyn Lincoln, secretária do presidente Kennedy, estivesse presente”, lembrou a juíza Hughes, mas, quando ela chegou, ficou no meio das pessoas que estavam atrás dele, de modo que não era muito visível. Johnson fez um gesto e ela avançou o quanto pôde até se postar de pé diretamente atrás dele. Ele cuidou para que sua posição em frente à juíza fosse exatamente a que Stoughton lhe tinha pedido, e postou Lady Bird à sua direita. Mandou Kilduff, que tinha conseguido um ditafone, ajoelhar-se no chão ao lado da juíza para gravar a cerimônia.

Mas uma testemunha ainda estava faltando, a mais importante de todas. Como se lembraria a juíza Hughes, Johnson falou: “A sra. Kennedy quer estar presente, e devemos esperar por ela.” Para O’Donnell e O’Brien, ele disse: “Querem perguntar à sra. Kennedy se ela gostaria de estar conosco?” Quando não responderam de imediato, o olhar que lançou aos dois era o antigo olhar de Johnson, ardendo de impaciência e raiva. “Ela falou que queria estar presente quando eu fizesse o juramento”, salientou a O’Donnell. “Pode ir ver por que ela ainda não chegou?”

A cena era soturna: a penumbra, o calor, os sussurros, o ronco baixo e insistente da turbina, a massa de rostos indistintos tão próximos uns dos outros. Mas um elemento tinha desaparecido: a confusão. Ao ver Lyndon Johnson arrumar as posições dos presentes, dar ordens, lidar com O’Donnell e O’Brien, Liz Carpenter, atordoada pela velocidade dos acontecimentos, percebeu que havia pelo menos uma pessoa presente que não estava zonza e que, por mais agitada que a situação pudesse ser, tinha pleno comando das ações. “A cabeça estava entorpecida, mas um dos pensamentos que atravessavam a minha mente era ‘alguém está no comando’. No momento que você entrava naquela cabine, tinha a sensação de que as coisas estavam bem encaminhadas.”

Carpenter, como Valenti, era uma admiradora de Johnson, mas os jornalistas tiveram a mesma impressão. A caminho do aeroporto, Sid Davis, que, como depoislembraria, “só tinha conhecido esse homem como líder da maioria no Senado, e como alguém que muitos chamavam de ‘coronel Broa de Milho’”, disse aos seus colegas no carro: “Vai ser difícil aprender a dizer presidente Lyndon B. Johnson.” Quando Davis viu Johnson no camarote presidencial, aquela dificuldade deixou de existir: “Imediatamente começamos a ver sua grandeza e suas qualidades de liderança.” Parte dessa sensação se devia à sua altura. Com Johnson de pé à frente da juíza, muito mais alto do que qualquer outro presente, Stoughton percebeu pela primeira vez como era alto: “Alto. Alto. Ficava acima de todo mundo.” Mas parte daquilo era alguma coisa difícil de definir. Enquanto Lyndon Johnson arrumava os presentes, apontando com o dedo onde deviam se postar, olhando em volta com seus olhos escuros e penetrantes, a sensação inicial de Valenti, de que se tratava de outro homem, ficou mais intensa; de uma hora para outra, Johnson era “uma coisa maior, mais difícil de abarcar” que o homem que ele julgava conhecer. Na verdade, pela primeira vez em três anos, ele lembrava o Lyndon Johnson da tribuna do Senado. Agora, de uma hora para outra, tinha chegado ao pináculo do poder. Qualquer que tenha sido o modo como chegou, a concatenação de circunstâncias e tragédia – ou o destino – que o conduzira até ali, era ali que se encontrava, e sabia bem o que fazer.

Quando O’Donnell, obedecendo a suas ordens, foi até o quarto da sra. Kennedy e perguntou se ela queria estar presente ao juramento, ela disse: “Acho que devo. À luz da história, vai ser melhor se eu estiver lá”, e acompanhou O’Donnell até a porta do camarote privativo.

“Um silêncio, um silêncio – todos os murmúrios se calaram”, relembraria Stoughton. Ela ainda usava o mesmo conjunto, com as mesmas manchas de sangue. Seus olhos estavam “baixos”, como disse a juíza Hughes. Tinha tentado pentear os cabelos, mas eles caíam do lado esquerdo do seu rosto, que trazia uma expressão vitrificada, e ela dava a impressão de estar chorando, embora não se vissem lágrimas. Johnson a postou à sua esquerda. A juíza estendeu o missal. Ele pousou a mão esquerda no livro – a mão, sarapintada e com veias grossas, era tão grande que quase cobria todo o livrinho – e ergueu a mão direita, enquanto a juíza dizia: “Juro solenemente…”

Valenti, olhando para essas mãos, viu que estavam “absolutamente firmes”, e a voz de Johnson também exibia a mesma firmeza – num tom baixo e controlado –, enquanto pronunciava as palavras que tinha esperado a vida inteira para dizer. No fundo do compartimento, espremida contra uma parede, Marie Fehmer não estava assistindo à cerimônia, porque lia o juramento para ter certeza de que estava sendo dito na forma correta. (“Ele ensinou que, por Deus, você é capaz de fazer qualquer coisa.”)

O juramento estava encerrado. A mão direita desceu. “Então vamos levantar voo”, disse Lyndon Johnson.


[1] A Comissão de Regras é uma das mais antigas do Senado americano e determina as normas que regem os trabalhos da Casa, além de outras atribuições.

[2] Os performance bonds são títulos emitidos pelo Estado americano contra uma empresa, no valor de uma obra contratada, como garantia para o caso de esta não ser devidamente entregue; o equivalente no Brasil é o seguro-garantia.


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Robert A. Caro é jornalista americano, duas vezes vencedor do prêmio Pulitzer. Autor do livro The Passage of Power: The Years of Lyndon Johnson, da Knopf.