O camisa 10 do Corinthians bancando o equilibrista: por que o deboche incomodou tanto? CRÉDITO: REPRODUÇÃO_@MEMPHYS DEPAY
Adeus à arte
Os brasileiros não estão preparados para o gesto poético de Memphis Depay
Gregorio Duvivier | Edição 224, Maio 2025
No dia 27 de março, Corinthians e Palmeiras disputaram o grande derby do Paulistão. Se o Palmeiras ganhasse, conquistaria o inédito tetracampeonato estadual (o alviverde foi campeão em 2022, 2023 e 2024). Se o Corinthians ganhasse, romperia um jejum de seis anos sem levantar uma taça. Qualquer taça.
A partida estava 0 a 0 – placar vantajoso para o alvinegro, que poderia empatar, pois tinha levado a melhor no jogo de ida. O cronômetro apontava para os minutos finais. Os jogadores do Palmeiras começaram a se desesperar, até que a bola caiu nos pés do holandês Memphis Depay, o camisa 10 do Corinthians. Na linha de fundo, perto do corner, o craque tinha duas opções: cruzar a bola na pequena área ou driblar a defesa inimiga e tentar uma jogada individual.
O gringo optou, então, pelo inesperado: tomou distância, fingiu que iria cruzar e, em vez de chutar a bola, colocou um pé em cima dela. Logo em seguida, botou o outro. Por meio segundo, o atacante pairou a 20 cm do chão, como que levitando. “Ih, rapaz, o Depay subiu na bola!”, berrou o narrador Dudu Monsanto, do Canal UOL. O gesto, de tão raro, não tem nem nome.
O holandês desceu da esfera, mas não ficou de pé no gramado por muito tempo: logo a defesa palmeirense o derrubou brutalmente. Exaltados, os reservas corintianos invadiram o campo. O clima de porradaria se instaurou, com direito a pontapé de goleiro e tapa de volante. “Era exatamente o que o Memphis queria: arrumar uma treta para fazer o tempo passar”, explicou Monsanto. O juiz distribuiu cartões amarelos e vermelhos. Quando o jogo recomeçou, o Palmeiras não conseguiu se reorganizar. O Corinthians sagrou-se campeão, e Memphis foi canonizado como um dos heróis da partida.
Enquanto a torcida alvinegra fazia a festa, comentaristas criticavam a “molecagem” do atacante. “Esse tipo de graça, quando está ganhando, é muito fácil. Se você é valentão e gosta de fazer graça, faça quando estiver perdendo”, desdenhou Mauro Cezar, também no Canal UOL.
A repercussão não parou por aí. No dia 4 de abril, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) publicou um ofício pedindo aos árbitros que punissem com cartão amarelo o ato de subir na bola. O motivo? A artimanha provocaria “transtorno no ambiente de jogo” e produziria “confrontos generalizados”. Memphis se tornou, assim, o último jogador a cometer a empáfia de desafiar tanto a defesa adversária quanto as leis da física. Nunca mais, no Brasil, um jogador vai escalar a bola impunemente.
Memphis pode ter sido o último, mas não foi o primeiro. Seu antecessor mais célebre, no país, é outro estrangeiro. Em outubro de 2023, o Santos ganhava com folga do Vasco quando o venezuelano Yeferson Soteldo, camisa 10 santista, saltou com os dois pés juntos e aterrissou magistralmente sobre a pelota inerte. O gesto também durou menos de um segundo, mas a reação do Vasco tomou proporções desmedidas: o atacante Sebastián Ferreira correu para cima de Soteldo e desferiu algo parecido com um soco. Os reservas santistas ocuparam o campo, e o juiz interrompeu o jogo por oito minutos, não sem antes puxar três cartões vermelhos.
A partida terminou em 4 a 1 para o Santos, mas a guerra prosseguiu. Naquele ano, o time da Vila Belmiro seria rebaixado à série B do Brasileirão. Já o Vasco, que brigava justamente com o Santos para se manter na série A, escapou por pouco da degola. Em dezembro de 2023, depois de a equipe carioca vencer o Red Bull Bragantino – jogo que salvou o Bacalhau do rebaixamento e afundou o Peixe –, o atacante vascaíno Pablo Vegetti, natural da Argentina, pôs uma bola à sua frente e subiu em cima dela. O gesto foi lido, com razão, como escárnio contra o Santos rebaixado.
Os equilibristas estrangeiros me remeteram ao mineiro Kerlon de Souza, autor do “drible da foca” e a promessa mais curta do futebol nacional. Em 2007, o craque do Cruzeiro ganhou o Brasil graças a uma jogada de extremo virtuosismo. Kerlon penetrava na grande área fazendo embaixadinhas com a parte frontal da cabeça. Não à toa, ganhou da torcida o apelido de Foquinha. Parecia que Kerlon havia reinventado a roda, mas o drible enlouquecia os zagueiros a tal ponto que sempre derrubavam o atleta de maneira violenta. Os juízes não puniam os agressores com o devido rigor por enxergarem o “drible da foca” como uma provocação. Kerlon interrompeu a carreira aos 29 anos, devido às recorrentes contusões.
Outra estrela que vem à tona: Edílson Capetinha, que defendeu o Corinthians contra o Palmeiras em 1999, na final do Campeonato Paulista. Como o Timão estava levando a melhor, o atacante começou a fazer embaixadinhas para o tempo passar. Em certo momento, levou a bola até a cabeça e a deixou escorregar pela nuca. Foi o bastante para que começasse um quebra-pau que interrompeu o jogo definitivamente. O juiz não conseguiu retomá-lo. Corinthians campeão.
O brasileiro não gosta de deboche. Na minha infância, já me expulsaram da classe apenas por sorrir. A professora, que contava uma triste história pessoal, interpretou o sorriso como uma chacota, embora eu nem sequer tivesse ouvido o relato. Estava só pensando em outra coisa.
A palavra deboche vem do francês débauche, que significa devassidão, libertinagem. Não sei em que momento, entre os lusófonos, deboche passou a designar uma conduta jocosa, brincalhona ou altiva (a palavra fez o trajeto inverso da gozação, que começou jocosa e terminou devassa). Por que o escárnio nos incomoda tanto? Por que deveria ser punido com cartão amarelo ou expulsão da classe?
São Lourenço morreu assado numa grelha. Reza a lenda que, durante o martírio, gritou aos algozes: “Este lado já está bom. Pode virar.” Sua empáfia o converteu em padroeiro dos humoristas, uma categoria que faz piada mesmo grelhada. Seria o chiste de São Lourenço um deboche? O que, afinal, diferencia o deboche das outras manifestações de humor? O comentarista Mauro Cezar talvez tenha dado a resposta. A chacota, quando parte do vencedor, soa como híbris, orgulho desmesurado. Zombaria idêntica, se partisse do derrotado, o transformaria num São Lourenço.
Entendo pouco ou quase nada de futebol. Entendo um pouco mais de deboche. Tem algo de bonito no gesto de Memphis e Soteldo. É teatral, insólito, absurdo. Não por acaso, gera confusão e pancadaria. Não seria melhor proibir a pancadaria em vez do gesto insólito? Impossível. Subir na bola abre uma fenda na lógica futebolística, exatamente como andar com a pelota sobre a cabeça ou deixá-la deslizar pela nuca. Memphis, Soteldo, Kerlon e Capetinha são poetas. Eles colocaram a bola onde não fazia sentido. A inevitabilidade da pancadaria prova que não estamos prontos para esse tipo de arte.
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