despedida
Mônica Manir Mar 2026 20h01
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Por décadas, o slogan Everyone loves Marineland embalou um parque temático canadense situado na cidade de Niagara Falls, onde ficam as famosas cataratas. Fechado em setembro de 2024, o Marineland hoje atrai mais ódio que amor, principalmente depois de anunciar que pode matar trinta belugas se não conseguir ajuda para transferi-las de suas piscinas desativadas a outro lugar.
O esloveno-canadense John Holer criou o parque em 1961. Desde o início, o estabelecimento promovia shows de mamíferos aquáticos e exposições de bichos terrestres. Por isso, recebeu milhões de visitantes, mas também despertou a ira de defensores dos animais, à medida que pipocavam denúncias de crueldades contra as atrações locais.
Em 2012, ex-funcionários alertaram que o Marineland escondia valas irregulares com pelo menos mil cadáveres – de belugas, golfinhos, morsas, leões-marinhos, focas, búfalos, veados e ursos. O Ministério do Meio Ambiente, sob o cerco da opinião pública, determinou a interrupção dos enterros. Em paralelo, a Sociedade Protetora dos Animais de Ontário baixou sete ordens exigindo melhorias nas instalações do parque.
“Sempre faltou transparência ao Marineland”, diz o americano Charles Vinick, diretor executivo de um santuário para baleias em construção na província canadense da Nova Escócia. Ele contou à piauí que, ao longo dos últimos quatro anos, dezenove belugas morreram no parque, embora nenhuma necropsia tenha sido divulgada. “Há relatos de que, atualmente, 2 das 30 belugas restantes estejam muito doentes para aguentar uma transferência.” O ativista reivindica que se façam análises veterinárias independentes dos mamíferos antes de qualquer tentativa de retirá-los do parque.
Paladino aguerrido dos cetáceos, a ordem das baleias, dos golfinhos e dos botos, Vinick encabeçou o Projeto Keiko, que reintroduziu na natureza a estrela do longa-metragem Free Willy, lançado em 1993. Keiko, uma orca macho, chegou ao Marineland em 1982 e ficou por lá até um aquário do México comprá-lo, em 1985. “Ele sofria tantos maus-tratos que estava quase morrendo quando rodaram o filme”, afirma o ativista. O projeto conduziu Keiko para o Oregon, nos Estados Unidos, e em seguida para a Islândia, onde o animal de quase 19 anos se recuperou: ganhou 900 kg e cresceu 18 cm. “As orcas selvagens costumam nadar 160 km por dia. Tivemos que treinar Keiko para percorrer a mesma distância, o que levou bastante tempo”, relembra Vinick.
Depois de solto, o astro de Free Willy nunca se juntou a um grupo. Os cientistas não sabem informar se a orca preferiu a solidão ou se os pares dela a excluíram. O fato é que Keiko nadou até a Noruega e se fixou ali, sempre monitorado e assessorado pelo projeto, uma vez que não caçava o suficiente por conta própria. Morreu de pneumonia em 2003, com 27 anos. Orcas machos do Atlântico Norte vivem uma média de 30 anos, mas o cativeiro reduz a sobrevivência para cerca de 17. “Já tínhamos conhecimento de como é fácil capturar e aprisionar cetáceos. Keiko nos ensinou o quanto é complicado devolvê-los a seu hábitat natural”, diz o ativista. Não por acaso, Vinick considera inviável libertar as belugas do Marineland no mar aberto sem avaliar de perto como estão Cleopatra, Jasper, Tank, Calypso, Odin e as demais que habitam os tanques deteriorados do parque.
Enquanto as orcas pertencem à família dos golfinhos oceânicos, as belugas integram a turma das baleias. Elas nascem cinzentas nas águas frias do Canadá, do Alasca, da Groenlândia e da Rússia, mas ficam totalmente brancas quando adultas para se camuflarem no gelo. Conhecidas como “canários do mar”, tagarelam entre si por meio de diferentes sons. Na testa, exibem uma protuberância gordurosa e flexível (o “melão”) que exerce o papel de sonar e lhes permite desbravar as profundezas escuras do oceano.
Segundo uma pesquisa desenvolvida justamente no Marineland, as belugas soltam grandes anéis de ar pelo orifício no topo da cabeça sempre que se assustam ou quando querem brincar. Nesse caso, transformam os anéis em bambolês e nadam através deles. Como frisaram os autores do estudo, trata-se de uma espécie que fabrica os próprios brinquedos.
Metade das trinta belugas remanescentes desembarcou no Marineland depois de serem caçadas na Rússia. A outra metade nasceu no parque mesmo. Em 2019, as organizações sem fins lucrativos World Animal Protection e Animal Welfare Institute lançaram um relatório que demonstrava as agruras dos mamíferos aquáticos em cativeiro. Parlamentares do Canadá receberam o levantamento e, em junho daquele ano, aprovaram o projeto de lei S-203 (ou Free Willy Bill), que vetou a captura, a criação e o comércio de baleias e golfinhos para entretenimento no país.
A iniciativa precipitou o ocaso do Marineland. O estabelecimento ainda buscou driblar a legislação em setembro de 2025, quando manifestou o interesse de exportar as belugas para o Chimelong Ocean Kingdom, na China, um dos maiores parques marinhos do planeta. O Departamento de Pescas e Oceanos e a Guarda Costeira do Canadá torceram o nariz e proibiram o negócio. O Marineland alegou, então, que não tinha condições financeiras de cuidar dos bichos e ameaçou eutanasiá-los. Como o impasse perdurou até o fim do ano, a ameaça se repetiu em janeiro passado. O governo canadense agora admite que os cetáceos sejam divididos e levados para aquários dos Estados Unidos, sob determinadas condições veterinárias e logísticas. As instituições americanas só irão endossar a transferência depois de averiguar a saúde dos mamíferos.
“O Marineland usa a palavra eutanásia como se pretendesse tirar os animais do sofrimento. No entanto, deveríamos chamar as coisas pelo nome certo: assassinato”, afirma Charles Vinick. Apesar de se preocupar muito com a situação, o ativista não descarta a possibilidade de o estabelecimento estar blefando para conseguir vender as belugas. Procurada pela piauí, a direção do parque não deu retorno até o fechamento desta edição.
O ideal seria que algum santuário aceitasse os trinta cetáceos, hipótese que Vinick julga improvável. Existem poucos no mundo, e nenhum poderia recepcionar tantas belugas rapidamente. O da Nova Escócia, por exemplo, só deve abrir os tanques em setembro. O ativista não sabe precisar quantos animais terrestres permanecem no Marineland. Diz apenas que a ong Zoocheck procura um lugar para acolhê-los.
Pelos cálculos de Vinick, aproximadamente 300 belugas, 55 orcas e 3 mil golfinhos se encontram hoje em cativeiro, a maioria na China e nos Estados Unidos. Ele admite que não há uma solução fácil para o dilema canadense. Mesmo assim, enfatiza: “Temos de nos unir e achar um jeito de salvar trinta mamíferos que não fizeram nada além de existir.”