despedida
Mônica Manir 02 Jul 2026
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Lembranças da infância costumam chegar enevoadas. A minha preferida chega salpicada de terra. Falo das partidas num campo de várzea para onde meu pai me carregava aos domingos de manhã, na Penha de França, bairro paulistano da Zona Leste. Vestindo calça de brim e camisa de manga curta, os óculos bem apoiados no nariz adunco, ele fazia a convocação: “Quem vai comigo?” Aos 5 anos, eu já me candidatava a segui-lo no que sempre me pareceu a diversão das diversões: assistir a um jogo de futebol, ainda que sob o alto risco de precisar sair correndo no colo do meu pai por ser a filha do juiz.
O campo ficava na parte baixa da Domingos Silva, rua em que nós e toda a parentada morávamos. Seu Manir me colocava sentada num barranco e pedia para alguém próximo tomar conta de mim, enquanto caminhava em direção ao círculo central. Salvo engano, não havia marcação de cal nas laterais. Se havia, desaparecia ao longo das partidas. Em minhas recordações, sobressaem panturrilhas suadas, a bola com gomos semelhantes aos da mexerica, gritos esparsos de gol e muitos “filhos da puta” a moldar meu vocabulário, para horror (até hoje) da minha mãe.
Tempos depois, meu pai contou que não eram equipes fixas que jogavam no terrão, mas uma garotada peladeira que se juntava ao sabor das circunstâncias. Mesmo assim, o pau quebrava, e um árbitro fazia-se necessário para botar ordem na casa. Times mais estruturados, com uniforme e tal, jogavam na sede do Palmeirinha, onde atualmente fica a Estação Penha-Lojas Besni do metrô. Havia também as “arenas” do Penhense, do Santo Antônio, do Jaú, do Nacional e do CBD – todas equipes de verdade, apesar de amadoras.
A Penha estava na rota dos vários campinhos que margeavam o Rio Tietê naquela época, a década de 1970. Quantificá-los com exatidão nunca foi tarefa simples. “A cidade constrói, abole ou modifica campos de terra batida em questão de meses, e isso há mais de cem anos”, diz Alberto Luiz dos Santos, pesquisador de geografia urbana e um dos curadores da mostra Vozes da várzea, que o Museu do Futebol exibiu em São Paulo, entre novembro de 2024 e abril de 2025. A criação de campinhos em bairros populares impulsionou o esporte a partir dos primórdios do século passado. Migrantes e imigrantes, negros e brancos, operários e outros trabalhadores de baixa renda levantavam traves nas várzeas dos rios durante os períodos de seca para jogar bola e confraternizar.
Os campos se dividem, ainda hoje, em quatro categorias: os que se localizam em terrenos vazios da prefeitura, os particulares, os estabelecidos em parques públicos ou praças e os que ocupam centros municipais esportivos ou de educação. Segundo Diego Viñas, editor do site VarzeaPédia e também curador da exposição Vozes da várzea, a capital paulista abrigava cerca de mil deles no início dos anos 1930. “Agora possui apenas uns quatrocentos”, compara.
À medida que o futebol conquistou prestígio, a várzea se tornou celeiro de talentos para os times profissionais. Dos campos paulistanos de terra batida, saíram Cafu, Serginho Chulapa, Rivellino e outros craques que chegaram a disputar copas do mundo. Não por acaso, Antônio de Jesus Marcos, o Tio Toninho, lamenta o destino incerto do clube que preside, o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, reduto da comunidade negra fundado em 1958 na Casa Verde, bairro da Zona Norte. Ali, as partidas amadoras dividem o protagonismo com o Samba do Cruz, um celebrado pagode que acontece nos fins de semana. Em 9 de junho, uma ordem judicial a favor da prefeitura determinou não só a reintegração de posse da área que abriga o clube como a demolição das edificações.
O espaço de 50 mil m2 também abrange as sedes de outros quatro times varzeanos: o Baruel, o Paulista, o Sade e o Pitangueira. O terreno integra o extenso Campo de Marte, região com mais de 2 milhões de m2 em que, desde a década de 1920, funciona um aeroporto. De início, toda a área pertencia à prefeitura – tanto que, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, o espaço serviu de quartel-general para as tropas de São Paulo contrárias ao presidente Getúlio Vargas. Bombardeado na ocasião, o Campo de Marte acabou tomado pelo governo federal. A partir de 1958, o município e a União travaram uma batalha legal para determinar quem era dono do quê.
As partes finalmente assinaram um acordo em 2022, estabelecendo que as dependências do aeroporto continuariam sob o controle da Aeronáutica. Já os 400 mil m2 restantes foram devolvidos à cidade para a criação de um parque a ser gerido pela Concessionária Campo de Marte, da empresa Allegra, a mesma que administra o Estádio do Pacaembu.
“O contrato prevê que a gente utilize a área por 35 anos. Mas o prazo só vai começar a valer quando a prefeitura nos entregar o terreno desimpedido”, afirma Rafael Carvalho, diretor da concessionária. O novo parque deverá oferecer cinco campos de futebol com grama (provavelmente sintética) e dimensões oficiais. Os times de várzea – que nunca pagaram nada à União ou ao município para bater bola no terrão – poderão usá-los, mas sob condições ainda indefinidas.
Também por determinação da Justiça, a sede do Aliança da Casa Verde – outra equipe amadora que ocupava o terreno de 50 mil m2 – foi demolida no dia 12 de março. A gestora do clube, Soraia Marques Trindade, morava ali havia 24 anos e se viu despejada com o filho, a neta e a cachorra. Ela vendia comes e bebes no local, que acolhia tanto o futebol masculino quanto o feminino. “As mulheres, incluindo as trans, morriam de medo de jogar aqui. Nos arredores do campo, tinha muito mato, que eu mesma arrancava”, conta. “Aí uma jogadora chamou a outra, ajeitei um banheiro para elas, e o espaço ganhou fama. Eu apoiava mesmo as mulheres, porque mulher nunca tem vez.”
A advogada Beatriz Calheta Silva, que frequentava o Aliança como jogadora e agora defende Trindade, diz esperar que as aptidões profissionais da cliente sejam aproveitadas no futuro parque. Ela se incomoda com outro campo, o semântico, quando escuta falar em “revitalização da várzea”. “Pode parecer saudosismo, mas desconfio de iniciativas que propõem transformar o terrão em grama sintética. Os custos de manutenção tendem a aumentar, o que vai elevar o valor cobrado de quem usará aqueles espaços.”
No Cruz da Esperança, o clima é de vigília diuturna. “Estamos com a corda no pescoço. Se der um relâmpago e o cavalo correr, o pescoço fica pendurado”, diz Tio Toninho. Ele torce o nariz para a “industrialização do futebol” e a elitização da área. No novo parque, a concessionária pretende instalar uma piscina de ondas. “Aqui é rodeado de periferia. Você acha que o pessoal da Cachoeirinha, do Peruche e do Jardim Rincão vai surfar numa piscina de onda? Além disso, em dia de temporal, periga a piscina encher com a água do Tietê”, antecipa, inundado de indignação.