despedida

MAIOR ABANDONADO

A via-crúcis de um célebre morador de Santa Teresa
Grafite retrata Claudinho na fachada do restaurante Agô, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro: o estabelecimento fica em frente à esquina onde ele marcou ponto durante quinze anos - CRÉDITO: REYNALDO ZANGRANDI JR_2026
Grafite retrata Claudinho na fachada do restaurante Agô, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro: o estabelecimento fica em frente à esquina onde ele marcou ponto durante quinze anos - CRÉDITO: REYNALDO ZANGRANDI JR_2026

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Eram cerca de cinquenta pessoas reunidas numa sala do Cemitério do Catumbi, na região central do Rio de Janeiro. Sobre o caixão repousava uma bandeira do Botafogo e, logo ao lado, uma coroa de flores com a frase “Saudades eternas da família e dos amigos das esquinas, das ruas e da vida de Santa Teresa”. Emocionada, a professora de teatro Candice Abreu de Moraes leu um poema em homenagem ao morto: 

Você, Claudinho, compartilhava a [guarda das pessoas com a gente

E compartilhava a vida de toda [uma esquina

De cada vida de Santa Teresa

Desse canto que também te criou

Desse bairro que te encantou

Desse bairro que te amou

Houve choro e uma salva de palmas. “Ele realmente foi muito amado”, reiterou a professora de português Júlia Pelajo. “E muito odiado”, completaram alguns. Todos riram. 

Cláudio Márcio Pedrosa da Silva, o Claudinho, era a mais célebre pessoa em situação de rua de Santa Teresa, bairro carioca tão boêmio quanto familiar, suspenso sobre uma cadeia de montanhas que se estende do Centro até parte da Zona Sul. Ele tinha 53 anos e passou ao menos quinze na esquina das ruas Áurea e Monte Alegre, nos arredores do Armazém São Thiago, conhecido como Bar do Gomes. 

Ali podia se mostrar atencioso, em especial com as crianças, ou grosseiro, sempre com os adultos. “Claudinho só não tomou porrada a sério porque todos aprenderam a lidar com ele aqui em Santa Teresa”, diz Maria da Graça de Brito, dona de um pequeno restaurante no bairro. “Se ele queria algo, não pedia por favor. Achava que você tinha a obrigação de lhe dar as coisas.” 

Claudinho dormia sob a marquise de um edifício. Só quebrava a regra em dias mais frios, quando passava a noite no carro de Júlia Pelajo ou no apartamento de outro morador de Santa Teresa, Edison Loyola Martins. “Eu insistia para o Claudinho sair da rua e morar lá em casa, mas ele nunca aceitava”, conta Izabel Cristina Paredes, sua ex-namorada de adolescência. “Na época do nosso namoro, ele andava de moto para tudo que é lado. Era conhecido como Claudinho Playboy.” 

Antes de virar playboy, Claudinho foi uma criança dividida entre dois mundos. Tinha uma mãe de sangue, a quem chamava pelo nome, e uma mãe de criação, a quem chamava de mãe, mas só às vezes. A mãe de sangue, Maria das Graças Pedrosa da Silva, era uma jovem pobre que vivia em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A mãe de criação, Teresa, era mais velha e de classe média. Ela morava num apartamento de três quartos com o marido. 

As duas mulheres se encontravam diariamente, já que Maria das Graças trabalhava como empregada doméstica de Teresa. “Nosso pai largou a gente muito cedo. Eu tinha 4 anos, e o Claudinho, apenas 2”, relembra a irmã, Claudia Márcia Pedrosa da Silva. Maria das Graças a deixava com uma vizinha e levava o garoto, ainda muito pequeno, ao trabalho. Saía da Baixada Fluminense e percorria um longo trajeto até a residência da patroa em Santa Teresa. “Um dia, dona Teresa sugeriu ficar com o Claudinho nos fins de semana. Ela daria roupa e comida de qualidade para o meu irmão, coisas que nossa mãe não conseguia dar.” 

Aos 3 anos, Claudinho começou a morar em definitivo com a patroa de Maria das Graças. A irmã o visitava esporadicamente – isso até Claudinho ter cerca de 14 anos, época em que sua mãe deixou de trabalhar para Teresa. A partir de então, as visitas dos familiares se tornaram bem mais espaçadas. 

Claudinho não chegou a terminar a escola. “Se ele fez a quinta série, foi muito”, diz a irmã, que concluiu o ensino médio e hoje presta serviços de limpeza para a rede municipal de ensino de Rio das Ostras, cidade do litoral Norte fluminense. O filho de criação dormia num quarto minúsculo, contíguo à cozinha, e estabeleceu uma relação tumultuada com o marido de Teresa, a quem não chamava de pai. “Sempre que o cara aparecia, nós precisávamos ficar meio que invisíveis. Era quase como se o Claudinho não fosse bem-vindo na própria casa”, recorda o músico Tommy Vidal, amigo de adolescência. 

Outra velha amiga, a advogada Maristela Grynberg, tem visão parecida. “Claudinho foi adotado sem os mínimos direitos. Trocou uma família com a qual não criou vínculos por outra com a qual também não criou. Ele se considerava abandonado por todos.” A advogada afirma que o amigo “sentia uma fúria absurda” quando se lembrava da infância ou da juventude. “Às vezes eu ia ao Bar do Gomes para encontrá-lo. De repente, enquanto batíamos papo, alguma coisa o transportava para o passado e... Certas fissuras emocionais formam cânions na alma da gente.” 

O processo de morar na rua se deu aos poucos, com idas e vindas. Claudinho só deixou totalmente o apartamento de Teresa depois que a mãe de criação morreu. “Ela segurava as pontas. Fazia questão de ter o filho em casa, não sei se por amor ou culpa”, continua a advogada. “Até ir para a rua, o Claudinho buscou manter alguma altivez. Mas, dali em diante, o negócio degringolou.” 

A irmã diz que caiu no choro quando soube da situação. “Claudinho pediu que eu me acalmasse e falou que era bem tratado no bairro.” Ela chegou a levar dois de seus três filhos para ver o tio. “A gente se encontrou num bar. Como aquilo tudo me machucava, preferi não contar a verdade às crianças. Elas sabiam apenas que tinham um tio em Santa Teresa.” Maria das Graças também não foi informada de nada. “Em 2012, logo após a morte dela, procurei o Claudinho”, recorda a irmã. “Eu disse: ‘Claudinho, nossa mãe morreu.’ E ele respondeu: ‘A Maria?’”

A piauí tentou localizar parentes de Teresa, mas não conseguiu. Também não conseguiu descobrir seu nome completo.

Embora vivesse na rua, Claudinho nunca pedia dinheiro. Amigos o indicaram para bicos como vigia noturno, mas ele se negava a exercer qualquer atividade remunerada. Contava somente com a boa vontade da vizinhança. Os donos de restaurante lhe garantiam a comida. Os frequentadores do Bar do Gomes lhe pagavam a cerveja. Ele tomava banho, escovava os dentes e lavava as roupas que ganhava – vestia-se com estilo – no Centro Municipal de Saúde Ernani Agrícola. 

“Tivemos uma relação de afeto, apesar de o Claudinho às vezes brigar comigo”, relembra a assistente social Cristina Gonçalves, que geriu o centro, ou como diretora, ou como vice-diretora, por mais de vinte anos. “As pessoas o enxergavam como meu filho – e ele até me chamava de mãe.” Certa ocasião, quando Claudinho desapareceu por alguns dias, a assistente social o procurou no hospital municipal Souza Aguiar, na região central da cidade. “Naquela fase, ele já tinha perdido o documento, o que me obrigou a ir de enfermaria em enfermaria até achá-lo. Quando finalmente o encontrei, o Claudinho gritou: ‘Eu não disse que ela vinha me buscar?’” 

Ele também usava o centro municipal para se vacinar, fazer curativos e tomar remédios. Aparecia por lá geralmente às segundas-feiras, dia em que estava mais baqueado devido ao consumo excessivo de álcool e drogas no fim de semana. Tinha dificuldade quando precisava tomar antibióticos e outros medicamentos que exigissem algum compromisso de médio ou longo prazo. ‘“Você sabe o que é viver em situação de rua?’, me perguntava, tentando explicar por que não conseguia se organizar. Mas ele nunca se propôs a reverter o quadro”, lembra Cristina Gonçalves.

A assistente social dividia uma espécie de guarda compartilhada de Claudinho com Júlia Pelajo, a professora de português, que oferecia seu Honda Fit 2006, em noites frias, para que ele pudesse se abrigar. “Claudinho dormia no banco de trás”, conta Pelajo. “Era fácil entrar no carro porque a porta estava quebrada.” 

A professora costumava lhe dar café logo cedo, mas nem sempre conseguia tirá-lo do carro. “Uma vez, às seis e meia da manhã, eu precisava ir para o remo, e ele não levantava de jeito nenhum.” Sem ter o que fazer, Pelajo ameaçou levá-lo consigo. Claudinho despertou na hora e disse: “Vou falar que você está me sequestrando.” 

“Ele era o maior abandonado da música do Cazuza”, define a professora. “Por mais que fosse um homem machista, havia uma criança ali também, que queria ser cuidada. Tinha vezes que eu ia ao Bar do Gomes só para tomarmos cerveja. Eu achava tudo o que o Claudinho falava muito legal. E o olhar dele para mim, de gostar de mim, me fazia bem.”

No final de 2025, Claudinho – que já era magro – começou a definhar. “Estava aquele calorão no Rio, e ele ficava de casaco em frente ao Gomes, deitado na calçada”, conta Edison Loyola Martins, que cuida de gatos e cachorros resgatados das ruas de Santa Teresa. “No dia 24 de dezembro, o Claudinho virou para mim e disse: ‘Edison, me tira daqui.’” Ele foi levado por uma ambulância do Samu para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima. “Fizeram raio X e exame de sangue. A médica falou que era pneumonia, mas não internou. Aí eu trouxe ele para o meu apartamento.”

A acolhida se mostrou complicada. “Foram três noites em que o Claudinho gritava muito. A vizinhança interfonava no meio da madrugada para reclamar.” Na impossibilidade de mantê-lo em casa, Martins o conduziu ao abrigo onde cuidava dos bichos. Claudinho delirava e praticamente não comia. 

No dia 31 de dezembro, a Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa publicou um resumo do caso em sua página do Facebook. Avisou que a situação, “gravíssima”, era dificultada pela “atitude hostil de Claudinho em relação a qualquer tratamento”. O texto sugeria aos moradores do bairro que comparecessem ao abrigo para se engajar “no processo efetivo de cuidar dele”. “Venham imbuídos de amor”, pedia. Algumas pessoas atenderam ao apelo.

No dia seguinte, o Samu foi chamado mais uma vez. “Claudinho estava fraco e desnorteado. Ele seguiu de novo para a UPA, e de novo o liberaram”, relembra Martins. Cristina Gonçalves, a assistente social, admite que não era fácil hospitalizá-lo. “Claudinho tocava o rebu quando o atendiam, mas não foi só por isso que não o internaram. Na verdade, o sistema de saúde não soube lidar com ele. Falhou em segurá-lo.” 

No começo de janeiro, o Samu voltou a ser chamado. Dessa vez, porém, amigos alegaram que Claudinho havia entrado em surto psiquiátrico para que a internação se desse de maneira compulsória. Funcionou. “Ele foi levado até a UPA e, de lá, ao hospital da Fundação Oswaldo Cruz, onde o entubaram. Estava com sepse, desnutrição severa e os dois rins paralisados”, conta Martins. Claudinho morreu em 21 de janeiro.

Nos dias seguintes, familiares e amigos se mobilizaram para tirar a segunda via da identidade perdida e impedir que Claudinho fosse enterrado como indigente. O grupo também fez uma vaquinha para comprar uma gaveta no Cemitério do Catumbi, que se situa aos pés de Santa Teresa. O enterro aconteceu uma semana depois do falecimento.

Por solicitação dos conhecidos, Claudinho foi homenageado com um minuto de silêncio antes de um jogo do Botafogo, seu time do coração. Ele ainda ganhou um grafite com seu rosto na fachada do restaurante Agô, a pedido da proprietária, Kananda Soares. A pintura do artista Airá Ocrespo fica em frente à esquina onde o célebre morador marcou ponto nos últimos quinze anos. 


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É jornalista e redator do Piauí Herald. É autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras