A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • Desiguais
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Retrato narrado
    • Luz no fim da quarentena
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos
Amarelinha

    CRÉDITO: BORDADA_DASILVA_2023

ficção

Amarelinha

O que entra no espírito rebate na carne, tem que ter cuidado

Marcelo Moutinho | Edição 205, Outubro 2023

A+ A- A

Juvenal é assim, teimoso igual torneira com defeito.

Tá farto de saber que conversa de macumba não cola comigo. Nunca colou. Quando eu era criança, a mamãe falava: Filha, não se mete com mandinga porque o feitiço que a gente faz pro outro sempre volta. Católica apostólica romana, ela. Raramente ia à missa, mas sempre foi devota. Saudade.

O Juvenal não chegou a conhecer. Ainda morava em Cavalcanti na época em que a mamãe começou a afinar, as veias azuis fazendo um caminho de cupim nos braços. Quando ela foi embora de vez, Deus a tenha, minha irmã Fatinha lutava pra sair das fraldas. Eu não. Meus peitos já queriam sutiã.

 

A Fatinha agora namora o Juvenal. Comprou o pacote pronto: o homem mais dois filhos.

Wesley tá com 7. O mais novo tem 3 e se chama Gabi. É assim mesmo, Gabi, não é apelido de Gabriel, não. O Juvenal é muito Flamengo, queria botar Gabigol por causa da Libertadores, mas o rapaz do cartório não deixou. Aí ficou só Gabi.

Eu não ligo pra futebol, tô cagando se o Flamengo ganhou ou tomou cano.

 

No fundo, a Fatinha também não liga. Anda dizendo que é Flamengo, mas já foi Vasco e até Botafogo. Depende do namorado da vez.

Esse de agora, o Juvenal, só anda de Flamengo, então já viu. Os meninos parecem duas miniaturas, sempre de camisa do time, que nem o pai.

Ontem eles vieram aqui em casa. Adivinha se não estavam com as camisas? A Fatinha até fez que ia reclamar. Amor, bota uma roupa mais aprumada neles. O Juvenal disse que Flamengo é luxo.

 

A roupa era pra bater perna lá pros lados da Estrada do Portela. Pensei que queria comprar uma bobagem no shopping ou no camelô, mas que nada. Juvenal ia levar os moleques pra pegar doce.

A Fatinha contou que a boa é ali mesmo. Os carros param, abrem a porta e vem aquele enxame de criança esfomeada. Tem muita mãe também, pedindo um saquinho pra sobrinha que tá doente, pro caçula que ficou em casa. Foi ela que me falou, porque eu mesma não boto a cara na rua nesse dia. Pra quê?

A mamãe dizia que doce de Cosme e Damião é cheio de quebranto. Por trás daqueles dois santinhos com cara de bondade tem é uns erês da pá virada. Aí a gente come o doce e sabe lá o que tá botando dentro do corpo. O que entra no espírito rebate na carne, tem que ter cuidado.

 

Foi logo cedo que o Juvenal passou aqui e saiu com os meninos. A Fatinha ficou pra fazer o almoço. Eu lembrei a ela que a mamãe não aceitava saquinho nem de parente. Aí a Fatinha falou daquela vez na casa da Rita, uma amiga da escola. A gente gostava de brincar de amarelinha, nós três. Desenhava os quadrados no chão com caco de tijolo e pulava pra fugir do inferno até chegar ao céu.

A Rita chamou pra festa, mas não falou que era de Cosme e Damião. A gente ficou pilhada.

Quando cheguei na casa dela, não vi saquinho nenhum. Ficava tudo espalhado numa mesa grande, bala, cocô de rato, maria-mole, caramelo Zorro. Tinha suco e tubaína também.

A Fatinha disse que não custava esperar um pouco, até pra ver como ia ser. Fiquei meio cabreira. Mas acabei topando. Só falei que era melhor a gente não contar pra mamãe. Ia dar bronca, na certa.

Naquele dia, só comi bolo, porque o bolo eu sabia que não vinha de saquinho nenhum. A Fatinha se arriscou nos outros doces.

Tava tudo tranquilo até que, de repente, a mãe da nossa amiga, que tinha sumido assim que a gente chegou, apareceu toda vestida de branco no alto da escada da sala. Começou a falar que nem criança. Todo mundo olhou pra ela. Da boca, escorria uma baba, que me disseram que era de quiabo. Sei lá se era mesmo. Nunca mais na vida consegui comer quiabo.

A mamãe dizia que papo de receber santo é tudo encenação. Que não tem santo nenhum na pessoa, só fingimento. Aí um dia eu pensei: mas, se é tudo encenação, por que tomar cuidado com macumba? Esse negócio de pensar é coisa complicada.

Desde aquele dia, sempre que a mãe da nossa amiga ia buscar ela na escola, eu tinha vontade de perguntar por que começou a falar com voz de criança na festa. Não perguntei porque dava medo dela.

A Fatinha lembrou essa história enquanto esmagava as batatas do purê. O almoço ia ser purê com carne moída. Os meninos adoram e o Juvenal também. Ela contava e ria alto, quase soltando o espremedor. Mas logo fomos falar de assunto mais importante: a separação da tia Raquel. Conversa de amante, esses troços.

 

Quando o Juvenal chegou com os moleques eram quase duas da tarde. A gente já tava chamando urubu de meu louro. Wesley e Gabi agitadíssimos, querendo pular o almoço, e Juvenal avisou que só depois. Primeiro o almoço, aí sim a sobremesa, é como tinha que ser. Pediu uma bacia pra colocar os doces. Era muito doce, viu? Tinha até chiclete. Mas chiclete os meninos ainda não podem comer.

Comentei com a Fatinha, sem o Juvenal ouvir, que aquela doçaria toda ia carregar a casa. Ela disse pra eu esquecer isso. Fiz que ouvi, fui no quintal dos fundos e acendi uma vela de sete dias, por precaução.

Então sentamos pro almoço. Os moleques engoliram a comida quase sem mastigar. Juvenal tomou duas cervejas de garrafa, das grandes, e deitou no sofá da sala. Pegou no sono rapidinho. Ficamos eu e a Fatinha tendo que controlar as feras.

Ela tava exausta, dava pra ver nos olhos miúdos. Não é mole fazer faculdade, trabalhar e ainda cuidar dos filhos dos outros.

Vai descansar, mulher, eu sugeri.

Eu tô inteira, ela respondeu.

Inteira? Tá nada…

Tô depenada, mas ainda cacarejando.

Eu ri.

A Fatinha gosta dessas frases engraçadas. Depois que começou a namorar com o Juvenal, piorou.

A gente teve que ficar de olho nos meninos pra não exagerarem no doce. Enquanto eu lavava a minha parte da louça do almoço, a Fatinha ficou de butuca. Depois trocamos. O Juvenal, com os pés pra fora do sofá, roncava pesado.

Uma hora a gente botou os dois moleques pra verem televisão. Eles adoram a Netflix, já sabem mexer direitinho no controle.

Nem demorou muito porque o Juvenal acordou.

Vambora, que hoje tem jogo.

Me agradeceu pelo almoço, falou pros meninos calçarem o sapato e pediu uma sacola de mercado pra pôr os doces.

Não quer ficar com um pouco?

Eu disse que não. Tá doido, Juvenal?

A Fatinha acabou resolvendo ir com eles e dormir lá. É isso quase todo dia, nem parece que ainda mora comigo. Foram pro ponto de ônibus porque já tava um pouco tarde pra ir a pé. Aqui anda estranho quando escurece.

Dei um beijo nas bochechas dos meninos e tchau pra todo mundo. Quando entrei de volta, tranquei bem a porta. Fui pra cozinha guardar as louças. A lixeira tava cheia de saquinhos de papel. Complicado isso.

Peguei tudo, juntei e amassei bem com as duas mãos. Virou um embolado grande. Fiquei matutando sobre onde descartar aquilo sem prejudicar ninguém nem fazer bagunça. Lembrei do tanque que fica no quintal.

Foi lá que coloquei o embolado. Taquei bastante álcool em cima. Aí acendi um fósforo. Pegou fogo rapidinho.

Fiquei vendo o monte de papel escurecer, virando cinza, voando devagar até se misturar com a noite.

Me deu um alívio danado. Nem percebi que a hora tinha passado tão ligeira. Quando liguei a tevê, já tava pra começar o Jornal Nacional.

Eu gosto de ver as notícias, de saber o que tá acontecendo nos outros estados, no mundo. Acho que a televisão ensina a gente que não teve como estudar direito.

Mas o dia tinha sido movimentado à beça. Por mais que tenha tentado prestar atenção no repórter, peguei no sono no meio do jornal. Quando acordei já era o fim da novela, o comercial anunciando um filme com o Tom Cruise. Continua bonito, impressionante.

Eu já tinha dormido um pouco e resolvi assistir. Só dei uma ligada rápida pro celular da Fatinha pra saber se tava tudo bem, se chegaram na paz. Fora o mau humor do Juvenal, pê da vida com a porrada que o Flamengo levou, tava tudo sim. Os meninos já prontos pra cama.

Eu também fui pra cama logo depois, nem acabei de ver o filme.

Adormeci bem rápido até, mas no meio da noite despertei assustada. Não sei se foi por causa da pestana de antes, ou algum pesadelo, sei é que a insônia chegou chegando. Quando acontece assim, fica difícil apagar de novo.

A mamãe dizia que, pra insônia, o melhor remédio é tomar leite. Leite puro, sem café nem Nescau. Fazia tempo que eu não tinha insônia.

Achei por bem ouvir a mamãe. Fui até a cozinha, abri a geladeira e enchi o copo até a boca. Deixei só uma das luzes acesas, pra não ficar muito agitada.

Me sentei lá mesmo, perto da pia. Acendi um cigarro.

Dei dois ou três tragos longos, enquanto bebia o leite gelado. A fumaça espalhou uma neblina rala pela cozinha, as coisas pareciam embaçadas, sem foco. Então me levantei para acender a outra luz.

Ao tirar o dedo do interruptor, meus olhos chegaram a faiscar um pouco. A claridade é uma paulada quando vem no repente. Mas a vista foi acostumando e aí reparei o pequeno coração cor de laranja. Estava no tampo maior do armário de louças, ao lado da fruteira.

Cheguei mais perto e pude confirmar: sim, era um doce de abóbora.

Os meninos talvez tivessem deixado cair enquanto enchiam a sacola ou o Juvenal deixou ali, de sacanagem mesmo.

Desde criança que eu não comia um doce de abóbora.

Voltei à cadeira, dei mais um trago comprido no cigarro.

A Fatinha tá na casa do Juvenal, pensei. A mamãe já foi. Não tenho como saber se, lá de onde está, pode ver o que acontece aqui embaixo. É sempre um mistério.

Apaguei o cigarro, ainda na metade. Minha boca estava encharcada, um gosto de nicotina na saliva. Cuspi na pia. É nojento, eu sei, mas precisava cuspir.

Com a boca enfim livre daquela gosma, pedi a Deus que o sono voltasse e limpasse os meus pensamentos até ficar tudo claro de novo.

Me benzi.

Voltei à geladeira, peguei mais um pouco de leite. Tomei num gole só.

Estava sozinha, muito sozinha.

Foda-se.

Estiquei o braço direito até a estante.

Foda-se.

Arranquei o papel que envolvia o coração cor de laranja.

Foda-se.

Cravei os dentes no doce de abóbora.

Foda-se.

Mordi o doce de novo, e de novo, até acabar.

Ao sair da cozinha, notei que, espremida em minha mão, a embalagem do doce tinha virado uma bolinha de papel.

Taquei num dos retângulos de cerâmica que cobrem o chão do corredor. Pulei até o seguinte, saltando sobre a bolinha. Peguei-a mais uma vez. Joguei no retângulo da frente. Pulei. E assim foi, até chegar ao quarto.

Marcelo Moutinho
Marcelo Moutinho

É escritor, autor de A lua na caixa d’água (Malê), Prêmio Jabuti em 2022

Leia Mais

ficção

Música de mortos suaves

A vida era aquilo para eles desde sempre

02 mar 2026_19h31
ficção

Céu de Miguelzin

Meu menino sempre teve esse olho virado pro alto, pras nuvem

02 fev 2026_19h11
ficção

Vinte estudos para uma mitologia pequena

É dessa maneira que os deuses vivem entre nós

23 dez 2025_16h45
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • Desiguais
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Retrato narrado
  • Luz no fim da quarentena
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30