CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Amor no coletivo
A Ruivinha do Rodilândia recebe uma proposta romântica
Sandro Aurélio Jr. | Edição 218, Novembro 2024
Jaqueline Santos, de 38 anos, é conhecida como a Ruivinha do Rodilândia. O apelido vem de seus cabelos pintados de vermelhos e de uma linha de transporte coletivo em Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense, a 40 km do Rio de Janeiro.
Em 2021, quando começou a trabalhar como motorista de ônibus, Jaque, como também é chamada, fazia a linha Austin–Nova Iguaçu (via Rodilândia). Percorria bairros que conhece bem. Ela mora no Centro de Austin, onde divide uma casa com cinco gatos e dois cachorros, e sua família vive em Rodilândia. Hoje, ela faz outra linha municipal: a 008 Carlos Sampaio–Nova Iguaçu, um trajeto de 16 km, que dura cerca de 50 minutos.
Com 1,50 metro de altura, 50 kg, óculos de aro branco e 26 tatuagens distribuídas pelo corpo, a Ruivinha do Rodilândia tem um carisma que encanta os passageiros. E por ser motorista, vez ou outra, ela é citada em reportagens na imprensa de Nova Iguaçu. Mulheres que conduzem ônibus ainda são raras – e vítimas de preconceito, como Jaque Santos pôde constatar quando buscava emprego.
Quase todo dia, quando ela está prestes a encerrar o expediente, seu namorado Jean Karlos Souza, de 25 anos, a encontra no lotação para irem embora juntos para casa. Foi o que ele fez no dia 5 de setembro, carregando um buquê de flores.
Jaque Santos nem teve tempo de se espantar com aquela novidade, porque Souza logo estendeu o buquê para ela e perguntou: “Quer casar comigo?” A Ruivinha do Rodilândia ficou atônita.
Quando Jaqueline Santos tinha 3 anos, seus pais se separaram. Para passar mais tempo com o pai, que era motorista de ônibus, ela o acompanhava muitas vezes nas viagens. Em momentos de folga, a colocava no banco do motorista com as mãos no volante, e Santos se sentia uma menina superpoderosa.
Ela já foi estoquista e promotora de maquiagem. Também fez entregas e trabalhou em padaria. Mas só se realizou profissionalmente quando decidiu seguir a profissão do pai. Tirou a habilitação na categoria D, obrigatória para dirigir ônibus, justo quando estourou a pandemia e as empresas pararam de contratar. No momento que as atividades foram retomadas, lá foi ela distribuir seu currículo.
Na primeira empresa que buscou, foi dispensada na entrada. “Não estamos contratando mulheres”, informaram. Tentou mais cinco empregadores em Nova Iguaçu, Mesquita e Nilópolis. Na última cidade, encontrou uma brecha. A empresa Nilopolitana passava por uma crise de reputação, com muitos passageiros sempre reclamando de motoristas grosseiros, e a diretoria decidira contratar mulheres, no esforço de melhorar a imagem.
Quando Santos entregou seu currículo na garagem, primeiro lhe perguntaram se era para serviços gerais. Ela disse que queria ser motorista. Foi convocada para um teste na manhã seguinte.
Eram 20 candidatos – 18 homens e 2 mulheres. Santos foi das últimas a subir no ônibus. Suas mãos suavam, as pernas tremiam: ela havia visto outros candidatos falharem. Sentou no banco, respirou fundo e rezou: “Senhor, seja feita a Sua vontade.” Não cometeu nenhum erro. Foram aprovados 12 homens e as 2 mulheres.
Na linha que faz hoje, Santos começa a dirigir às 16h20 e vai até o começo da madrugada. A última viagem é à meia-noite, mas quando ela retorna à garagem da empresa já são quase 2 horas. Na volta para casa, conta com caronas de colegas ou com as vans que rodam na região a noite toda. Seu salário é o piso municipal da profissão, de 3 mil reais.
Em um fim de tarde de julho, um rapaz no ônibus captou sua atenção. “Que gatinho”, ela pensou. Souza voltava para casa, no bairro Nova América, depois de visitar uma tia em Carlos Sampaio, outro bairro de Nova Iguaçu. Em seu banco, ele não tirava o olho da motorista – que, pelo retrovisor, notou o interesse. Despediram-se com um tchauzinho.
No dia seguinte, Souza tomou o ônibus no mesmo horário e no mesmo ponto, e se sentou no mesmo banco. Dessa vez, foi interpelado pela motorista. “Está olhando muito pra mim por quê?”, ela perguntou. “Estou admirando você dirigir”, ele respondeu, sem jeito. “Achei que você estava admirando a minha beleza”, ela brincou. Ainda mais constrangido, Souza admitiu que estava, sim, encantado com a moça de cabelo vermelho.
Nos dias seguintes, ele não apareceu. Santos achou que não o veria mais. Até que ele ressurgiu. Dessa vez, os dois trocaram telefones. Por WhatsApp, combinaram de tomar um açaí. Foi o que fizeram. Depois, andaram à toa pelas ruas, conversando. Quando atravessavam a passarela da estação de trem de Austin, beijaram-se pela primeira vez. A partir de então, passaram a se encontrar quase todo dia.
Jaque Santos não namorava havia três anos. Tivera experiências ruins e estava satisfeita em se concentrar no trabalho. Mas achou que aquele rapaz tão tímido merecia uma chance. Jean Karlos Souza, por seu lado, não teve dúvidas de que aquela era a mulher que ele levaria para o altar – e que isso deveria acontecer logo. Para fazer o pedido, pensou em convidá-la para jantar fora. Acabou optando por algo que tivesse a ver com a história de amor deles: o ônibus, onde tudo começou.
Na floricultura, Souza escolheu um belo buquê, decorado com um ursinho de pelúcia e um chocolate importado. Mas o mimo estava acima de suas possibilidades naquele momento. Além disso, ele não tinha cartão de crédito. Ao ficar sabendo da história de amor, o dono da loja, comovido, resolveu parcelar a compra na base da palavra. Com as flores na mão e duas alianças, Souza aguardou no ponto até que Jaque Santos passasse em seu ônibus, por volta de oito da noite.
Quer casar comigo?”, perguntou Jean Souza.
A Ruivinha do Rodilândia olhou as flores, olhou os olhos do rapaz, e não pensou outra vez. “É claro que aceito, meu amor.” Souza registrou tudo com seu celular e postou no Facebook, com a frase: “Obrigado, Deus, por eu finalmente ter encontrado a pessoa certa.”
Ainda não há data para o casório. Eles querem se organizar financeiramente para a festa e a vida em comum. No momento, Souza faz bicos em obras e está em busca de emprego fixo. Jaque Santos continua à toda na viação Nilopolitana.
Os noivos contam que já teve gente que classificou de loucura tudo que os dois estão vivendo. Eles preferem chamar de amor. Para os passageiros da linha Carlos Sampaio–Nova Iguaçu é uma história imprevisível e emocionante, como as do cinema. Tanto assim que alguns já pediram que Souza repita para eles o pedido de casamento, com buquê e tudo, só para poderem filmar a cena.
