questões judaicas
Michel Gherman Set 2025 18h45
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Há poucos meses, fui entrevistado pelo jornal Folha de S.Paulo a respeito da decisão do governo brasileiro de se retirar da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (Ihra, na sigla em inglês), na qual atuava como país observador. Durante a conversa com a jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do dia 3 de agosto, me posicionei em relação a três pontos centrais do debate acerca das ações do Estado de Israel na Faixa de Gaza e da instrumentalização do antissemitismo no Brasil, dizendo o seguinte:
* O que está acontecendo em Gaza pode ser considerado um genocídio.
* O governo brasileiro acertou ao se retirar da Ihra, pois a entidade pode ser usada para perseguir intelectuais críticos a Israel e à ocupação dos territórios palestinos.
* A acusação de que o presidente Lula é antissemita vem de interesses políticos específicos e não interessa aos judeus do Brasil.
A entrevista teve grande repercussão, e no dia seguinte à sua publicação, fui atacado pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), entidade que representa os judeus no estado.
Sou professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordeno o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej). Participo de atividades acadêmicas e políticas, em âmbito nacional e internacional, o que inclui debates sobre as formas atuais do antissemitismo. Além disso, sou judeu – não exatamente um judeu secular. E tenho cidadania israelense. Já morei em Israel, sou pesquisador do Centro Internacional Vidal Sasson de Estudos do Antissemitismo, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e costumo me definir como sionista em intervenções públicas.
Apesar dessas “credenciais”, a Fierj, a entidade que deveria me representar no Rio de Janeiro como judeu, usou sua estrutura formal para me condenar. Em uma “nota de repúdio”, me acusou de produzir desinformação, de ter viés político e de colocar em “risco a integridade de toda a comunidade”. Pior ainda: afirmou que uso a minha origem judaica “como instrumento de validação de discursos que ferem profundamente a memória, os sentimentos e a segurança da comunidade judaica”.
A mobilização da estrutura de uma entidade representativa da comunidade judaica brasileira para destratar um intelectual judeu justifica, por si só, os temores sobre os quais falei na entrevista. É a própria Ihra que dá munição política e jurídica a entidades para atacar as pessoas que criticam o governo de Israel e tudo que ele comete hoje em Gaza. Tais entidades fazem isso não raramente acusando essas vozes de antissemitismo, mesmo que tais vozes, como a minha, sejam de judeus.
Nos últimos anos, tenho pesquisado a linguagem da extrema direita contemporânea, junto com a equipe do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ. Inspirado pelos trabalhos do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004) e do filólogo alemão Victor Klemperer (1881-1960), temos mapeado as formas de comunicação desse grupo radical de direita, em um trabalho metodologicamente difícil, psicologicamente desgastante e socialmente desafiador.
Constatamos que há um conjunto de palavras e expressões que nos eram familiares, mas estão se tornando problemáticas, justamente por terem sido sobrecarregadas de um significado que já não é compartilhado por toda a sociedade. Elas são empregadas amplamente pela extrema direita nas redes sociais, em podcasts, em sites, em declarações públicas. São expressões como “pessoas de bem”, “patriota”, “liberdade de expressão”, “notícias falsas”, “narrativa”, “mimimi”, “doutrinador’, “esquerdista”, “conservador”, “petista”, “pacificação”.
Essa linguagem da extrema direita, desenvolvida sobretudo na segunda década do século XXI, não recorre a metáforas. Ao contrário, as palavras têm uma aplicação imediata e direta, deixando de ser instrumentos de diálogo e reflexão. São rótulos. Passam a servir para etiquetar pessoas, fenômenos sociais e demarcar fronteiras: os de dentro e os de fora, os que estão conosco e os que estão contra nós, os que nos apoiam e os que nos ameaçam, os que são do bem e os que são do mal. Os que defendem seus pontos de vista e os que doutrinam. Com isso, a nova linguagem política da extrema direita pretende organizar simplificadamente o mundo, cada vez mais complexo. Opera ainda como expressão de sentimentos morais, acomodando ressentimentos, raivas, medos, e estabelecendo um campo comum de conceitos facilmente inteligíveis e confortáveis.
Em meados dos anos 1980, o sociólogo Moishe Postone (1942-2018) afirmou que o nazismo poderia ser explicado como um projeto político de revolta contra tudo o que é abstrato. Por exemplo: em termos econômicos, o nazismo supostamente atuou em favor do capital produtivo e contra o capital financeiro. Em termos raciais, defendeu as raças ditas puras contra as identidades híbridas. No âmbito da política, foi um apologista do Estado-nação e da violência, contrapondo-se a projetos utópicos e humanitários da sociedade. Na sexualidade, incentivou a heteronormatividade, considerando as demais experiências sexuais como “degeneradas”. No lugar da instabilidade e da fluidez do presente, evocava as formas fixadas pelo passado, como as hierarquias sociais, a superioridade racial, a família patriarcal e o Reich.
Nesse horizonte político, o nazismo e boa parte da extrema direita da primeira metade do século XX colocavam no centro de suas preocupações um grupo determinado de pessoas: os judeus.
Esse grupo era percebido como a abstração encarnada, por viver de um passado mítico (o bíblico) e por circular pelo mundo sem ter raízes territoriais. Sendo assim, a mera existência dos judeus ameaçava toda a sociedade e servia para explicar o mal-estar advindo das incertezas da modernidade, ela mesma entendida como fruto de uma “conspiração judaica”. Como os judeus encarnavam os valores que se precisava exterminar, então era preciso exterminar os judeus. Não apenas eles, mas também artistas rebeldes, comunistas, intelectuais, homossexuais, negros, romanis e todos aqueles identificados com a imprevisibilidade dos tempos modernos e que desafiavam a restauração nostálgica do nazismo dos valores “autênticos” do passado (eles próprios sendo parte de uma mistificação política).
Quase quarenta anos depois da análise de Postone, podemos dizer que a extrema direita atual retorna a essa agenda histórica da extrema direita tradicional. Professores, intelectuais, artistas, pessoas LGBTQIAPN+, gente de esquerda, ativistas dos direitos humanos, enfim, toda uma gama de indivíduos e grupos são tomados como inimigos a serem não apenas derrotados, mas destruídos. Para aqueles que almejam forjar um mundo produzido a partir de um passado idealizado, em que cada um sabe o lugar que ocupa, não há espaço para pessoas que colocam em risco as hierarquias sociais.
Entretanto, há uma diferença fundamental entre a extrema direita tradicional e a nova, que envolve justamente o mesmo grupo que foi alvo central do nazismo histórico: os judeus. Os novos radicais de direita submeteram a visão que se tinha dos judeus no nazismo a uma verdadeira inversão, e essa mudança é um dos pilares do trumpismo e do bolsonarismo.
Nesse processo de inversão, houve uma complexa colonização do judaísmo pela nova extrema direita. Se antes os judeus eram vistos como os principais inimigos, hoje eles se tornaram os aliados privilegiados. Se antes os judeus não integravam o passado glorioso do Ocidente, hoje eles são vistos como os principais defensores desse mesmo passado. Se os judeus representavam para o nazismo um grupo racialmente degenerado e que ameaçava os brancos europeus, agora foram abertas para eles as portas da comunidade cristã e da branquitude. Se antes o antissemitismo era a principal manobra para “purificar” as nações, hoje o antissemitismo se tornou uma forma de denúncia de todos os que se opõem ao projeto político da extrema direita.
Para os novos radicais de direita, o judeu mudou de lugar: deixou de ser o algoz absoluto da civilização ocidental e se tornou a vítima ideal dos tempos atuais. Uma vítima “branca”, “europeia” e “cristã”, ou “judaico-cristã”, em um mundo no qual, na fantasia da extrema direita, é preciso defender os judeus de seus perseguidores, que são os progressistas, os não brancos, os ateus e os inimigos do Ocidente. Judaísmo e cristianismo passaram a jogar do mesmo lado da política.
Mesmo o Holocausto, que a extrema direita do pós-guerra negou ter ocorrido, hoje é afirmado por setores da nova extrema direita, que – atentemos para o tremendo paradoxo – refuta a própria categoria jurídica e social do genocídio (bem como a bandeira dos direitos humanos, vista como parte do instrumental político da esquerda). Na gramática atual da extrema direita, “não há genocídio em Gaza” é um mote repetido. “Guerra é guerra” é outro. Não há espaço para discussão e crítica. Criticar agora é “dar munição aos nossos inimigos”. O próprio Estado de Israel tornou-se, para a extrema direita recente, um modelo de país, a ponto de a bandeira nacional azul e branca passar a integrar o seu arsenal simbólico.
No Brasil dos bolsonaristas e nos Estados Unidos dos trumpistas, Israel e os judeus tornaram-se escudos contra inimigos comuns. Defender Israel e os judeus agora significa preservar a branquitude e a civilização judaico-cristã, diante das ameaças do presente e as indeterminações do futuro: a suposta islamização do mundo, a miscigenação geral das raças e a universalização do multiculturalismo. Em um conflito ideológico e político entre o “bem” e o “mal”, judeus e cristãos estariam do lado do bem, enquanto os esquerdistas, os multiculturalistas, os muçulmanos (entre eles, os palestinos) estariam do lado do mal.
Enquanto isso, forma-se pouco a pouco uma comunidade judaica cuja definição é política e ideológica, substituindo o histórico delineamento dos judeus como comunidade étnica, religiosa e cultural. Instituições representativas e de defesa dos direitos dos judeus têm se mobilizado nos Estados Unidos, no Brasil e em outras partes do mundo para defender indivíduos e comunidades contra o que julgam ser um novo surto de antissemitismo. Assim, esforçam-se para aprovar leis específicas que impeçam a discriminação contra judeus e – eis o cerne da manobra político-ideológica –, incluem nessa definição determinados tipos de crítica a Israel e ao sionismo, movimento nacional do povo judeu.
Aos poucos, o antissemitismo vai deixando de ser uma categoria de análise e de proteção aos judeus e passa a ser um instrumento político de acusação. Nas primeiras décadas deste século, acusar pessoas de serem antissemitas é muitas vezes uma forma de silenciar adversários políticos e de viabilizar um projeto de poder – e não mais o meio de garantir a segurança dos judeus. Com isso, ser de direita, hoje, corresponde a ser filossemita. Ao passo que ser de esquerda virou sinônimo de antissemita.
Nos Estados Unidos, professores e estudantes universitários têm sido detidos, ameaçados de prisão e deportação por críticas a Israel e aos ataques a Gaza, consideradas atos de apoio ao terrorismo ou ao Hamas. São classificados como antissemitismo qualquer apoio público ao povo palestino e qualquer denúncia de genocídio como política do governo israelense. O judeu foi adotado pela extrema direita como vítima, e o antissemitismo é usado como referência para justificar demissões. Os supostos antissemitas precisam ser localizados, classificados e neutralizados.
A luta contra esse suposto antissemitismo se tornou nos Estados Unidos uma batalha da extrema direita contra as políticas historicamente apoiadas pela própria comunidade judaica no país, como a aliança feita com o movimento negro na campanha pelos direitos civis. Israel reorganizou a subjetividade dos judeus americanos e agora exige que eles se alinhem com perspectivas ultraconservadoras, com aquilo que o teólogo batista Ronilso Pacheco chama de “nacionalismo cristão”. A proposta é estabelecer uma relação atávica entre ser judeu e ser de direita.
Essa dinâmica promove a desarticulação de alianças entre grupos progressistas (entre eles os judaicos) e aprofunda o discurso anti-intelectual e a mobilização contra as elites culturais. O sentimento de pânico moral sobre o antissemitismo acaba gerando efeito. Produz o medo de que liberais e grupos de esquerda queiram de fato a destruição da paz social, e com isso cria-se uma ruptura em um setor importante do eleitorado do Partido Democrata, justamente os judeus. Ao vincular-se esquerda com antissemitismo, os judeus precisariam, nesse novo contexto, decidir se votam em seus inimigos ou em seus novos aliados, os cristãos brancos do Partido Republicano.
A nomenclatura atual da direita radical, é bom frisar mais uma vez, não se baseia em definições étnicas e culturais, mas ideológicas e políticas. Por isso, não são os judeus em seu conjunto que esses radicais consideram vítimas, mas apenas aqueles judeus alinhados a eles ou que são simplesmente conservadores. Judeus liberais e de esquerda, que denunciam o genocídio em Gaza, que defendem o direito nacional do povo palestino e que são antissionistas ou mesmo os que estão no campo da esquerda sionista, todos esses ficam de fora do grupo de judeus a serem defendidos.
Esses judeus liberais e de esquerda que se sentem indignados com o que acontece em Gaza são tidos como “judeus não judeus” e são considerados uma ameaça à própria comunidade judaica. Por outro lado, não judeus apoiadores de Israel, críticos dos palestinos e acusadores do antissemitismo árabe e da ameaça islâmica, entre eles cristãos conservadores, são vistos como aliados dos “verdadeiros judeus”. Nessa situação, ser judeu é ser sionista. E ser sionista é apoiar Israel incondicionalmente e denunciar os crimes dos palestinos. Ser judeu é sentir a dor dos israelenses e, efetivamente, ignorar a dor dos palestinos.
No novo léxico da extrema direita internacional, ser antissemita é um dos elementos constitutivos dos grupos de esquerda. O objetivo é deslegitimar esses grupos e as agendas progressistas, acusando-os, justamente, de serem antissemitas. Se o filossemitismo se tornou uma das características centrais da extrema direita, é essa mesma força política que agora define o que é ser judeu e o que é ser antissemita – é uma verdadeira instrumentalização do judaísmo e do antissemitismo.
Essa armadilha traz consequências para a comunidade judaica. Enquanto a direita e a extrema direita acusam os progressistas de serem atavicamente antissemitas, certos grupos da esquerda mais sectária avaliam que, para se alinharem com a esquerda, judeus têm que passar por testes e crivos ideológicos. Mesmo os judeus progressistas são obrigados a apresentar credenciais confiáveis, e deles se exige que anunciem publicamente seu rompimento com Israel e com o sionismo.
Nos dois extremos do mapa político, a definição de judaísmo deixa de ser étnico-cultural e se torna político-ideológica. Resultado disso é o fato de alguns setores de esquerda julgarem hoje que afrontar os judeus é afrontar a extrema direita. Em uma dialética de ódio, os dois campos – direita e esquerda – lucram com o debate, empurrando o judeu progressista (há muitos) para um lugar politicamente minado.
Eu não uso mais quipá na rua (durante alguns anos o fiz), mas aos poucos me tornei o que se pode chamar de “judeu público” na cidade onde vivo, Rio de Janeiro. O que quero dizer é que poucas pessoas desconhecem minha identidade judaica. Sou visto como judeu no prédio onde vivo, na universidade onde trabalho, nos ambientes sociais que frequento.
Dito isso, devo acrescentar que desde o 7 de outubro de 2023, quando o Hamas fez um brutal e cruel ataque aos israelenses, tenho tido mais dificuldade com minha identidade judaica. Se a identidade judaica histórica era plural, diversa, étnica e cultural, aos poucos ela tem se deslocado para uma perspectiva homogênea, centralizada e com definições políticas e ideológicas. Em um diálogo excludente e deslocado, as comunidades judaicas organizadas e certos setores da esquerda parecem hoje concordar com um argumento normativo e definidor: ser judeu e de esquerda é uma espécie de desafio lógico. Ou se é judeu ou se é de esquerda.
As reações à minha entrevista à Folha defendendo a saída do Brasil da Ihra demonstram que vivemos aqui algo parecido com o que está ocorrendo nos Estados Unidos. Aqui, a decisão do governo brasileiro foi transformada pela extrema direita e por parte da comunidade judaica em uma demonstração acusatória de um suposto antissemitismo do presidente Lula.
É assim que a nota publicada pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro serve para organizar limites ideológicos e étnicos entre os judeus brasileiros. Professores e ativistas judeus que denunciam o genocídio em Gaza ou que aprovam a saída do Brasil da Ihra têm que ser exilados de uma nova ideia de comunidade judaica que está a ser implementada.
A direita e a extrema direita (mesmo as não judaicas) estão dentro dessa nova definição de comunidade. A esquerda (mesmo a judaica) precisa ser impelida para fora. Nessa nova ótica, os judeus de esquerda passam a ser vistos como agentes infiltrados. O objetivo, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, é “higienizar” a comunidade judaica. A luta contra o pretenso novo antissemitismo acaba por produzir uma prática que lembra o antissemitismo antigo, com a diferença de que, agora, são também os judeus a perseguirem os próprios judeus.[1]
[1] Este texto contou com a colaboração do sociólogo Daniel Douek, da Universidade de São Paulo (USP).