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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

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Ativismo indoor

O paladino da natureza na Wikipédia

Bernardo Esteves | Edição 122, Novembro 2016

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Caía a tarde quando, na cobertura de um predinho em Porto Alegre, o artista plástico Ricardo André Frantz se refugiou num cômodo um tanto bagunçado, que ele chama de “minha caverna”, e ligou o computador. O espaço lhe serve de ateliê, como atestam as manchas de tinta nos ladrilhos e as telas encostadas num canto. Frantz acomodou-se numa cadeira de praia, assumiu o teclado do PC preto e pôs-se a atualizar um verbete da Wikipédia que publicara em 2015, “Declínio das populações de peixes marinhos”.

O artigo prenuncia um verdadeiro apocalipse. Por causa da pesca desenfreada e do aquecimento global, os oceanos se encontram à beira de uma tragédia sem precedentes: o extermínio de inúmeras espécies aquáticas. Da última vez que os mares estiveram em condições parecidas, há 251 milhões de anos, 95% da vida marinha desapareceu. Para corroborar o prognóstico, Tetraktys – codinome que o pintor gaúcho usa na enciclopédia colaborativa – citou papers científicos, reportagens em inglês e um relatório da Organização das Nações Unidas.

Pouco depois de aprimorar o verbete, o autor contou que empregara deliberadamente o tom alarmista. “A intenção é apavorar as pessoas”, confessou, rindo. Boa parte de seus textos na Wikipédia, em contraste com a moderação da prosa acadêmica, não se furta a ressaltar as projeções sombrias de certos pesquisadores para o futuro da Terra. “A maioria dos cientistas só diz ‘pode acontecer’, ‘pode dar problema’”, reclamou. “Esse distanciamento não mobiliza ninguém.”

 

Tetraktys já escreveu na enciclopédia digital sobre efeito estufa, desmatamento e poluição, traçou o perfil de ambientalistas e retratou uma série de espécies, tanto vegetais quanto animais. Sua criação mais grandiosa é “Aquecimento global”. O verbete existia havia quase dez anos quando ele decidiu editá-lo pela primeira vez, em 2013. A partir daí, fez aproximadamente 600 intervenções, que multiplicaram por cinco o tamanho do ensaio, transformando-o num catatau de 27 mil palavras, ilustrado por 52 figuras e amparado em 481 referências bibliográficas. A versão impressa do tratado soma 57 páginas.

Amante da natureza desde a infância em Caxias do Sul, o editor sempre desejou agir em defesa do planeta. Pouco disposto a se envolver com ONGs, descobriu na Wikipédia um jeito de denunciar a crise ambiental sem sair da caverna. “É o primeiro site em que as pessoas entram quando pesquisam na internet”, justificou. Os artigos de que participou tiveram um alcance de causar inveja a muito best-seller. Só “Aquecimento global” contabilizou meio milhão de acessos nos últimos doze meses. “Quando é que tu vai atingir um público desse fazendo palestra ou dando aula?”

 

Cerca de 1 400 verbetes da Wikipédia surgiram por iniciativa de Tetraktys, que colabora com a plataforma desde 2007. Ecologia é apenas um de seus temas prediletos. O gaúcho também redige artigos minuciosos sobre pintura, música erudita e história. Na juventude, flertou com as ciências naturais – cursou dois anos de biologia e quatro de medicina –, mas acabou tomando o rumo das humanidades. Formou-se em artes plásticas e exibiu suas obras em dez exposições individuais e cinquenta coletivas. Paralelamente, trabalhou por quase duas décadas como funcionário da secretaria estadual de Cultura, o que lhe possibilitou ser arquivista no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, o Margs. Ali aprendeu a pesquisar e avaliar a qualidade das fontes de informação – atributos que o socorreram mais tarde, na pele de enciclopedista.

 

Aos 52 anos, Ricardo Frantz é um homem solitário e rechonchudo, cuja barba começa a branquear. Em 2011, quando pediu demissão do emprego público, passou a sustentar-se com a ajuda dos pais e a desfrutar de uma rotina flexível. Cuida da Wikipédia mais frequentemente à noite e, não raro, vê o dia raiar pela janela da caverna. Tem sempre à mão uma grande cumbuca de cerâmica, com uma mistura improvável de leite e Coca zero – praticamente o único líquido que ingere. Músico amador, concebeu no PC uma missa para três vozes solo, violas de gamba e coro de câmara, além de outras composições. Recentemente concluiu um livro de 1 800 páginas, dividido em três volumes, sobre a trajetória de seus antepassados.

 

Opseudônimo Tetraktys designa uma figura criada na Grécia Antiga, em que dez pontos estão dispostos num plano de modo a compor um triângulo equilátero, às vezes também chamado de perfeito. Por que Frantz adotou a expressão? “Primeiro, porque nasci num dia 10. Depois, porque sou perfeccionista.”

Na Wikipédia, a medida da perfeição equivale a uma estrela dourada que a comunidade de editores atribui por voto aos verbetes tidos como exemplares. Quando julga que um de seus artigos merece a honraria, o artista plástico o submete à consulta dos pares. “Até agora, todos que apresentei receberam a distinção”, afirmou, sem disfarçar o orgulho.

 

Em sua página na enciclopédia, Tetraktys enumera cada um dos 83 textos que, graças à sua contribuição, se tornaram estrelados. Contemplando a lista com ar de mãe que lambe as crias, explicou: “Escrevi alguns por me sentir devedor de figuras que me influenciaram” – caso do escultor grego Policleto. Outros, redigiu “por obrigação”, como a biografia do conterrâneo João Fahrion. “Nem gosto tanto dele, mas é um dos maiores pintores modernistas do Rio Grande do Sul.” A lista inclui ainda verbetes dedicados à araucária (“minha árvore preferida”), a Luís de Camões (“não li, mas merece”) e ao imperador dom João VI (“sempre o achei supersimpático”).

O último artigo do gaúcho que os wikipedistas laurearam discorre sobre Pietro Nosadini, “um padre que fez furor em Caixas do Sul”. “Aquecimento global” foi aclamado numa votação no fim de julho, dois anos e meio após a primeira intervenção de Tetraktys.

Bernardo Esteves
Bernardo Esteves

Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)

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