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Boca de Roma
Epigramas de um poeta do século I
Marco Valério Marcial e Rodrigo Garcia Lopes | Edição 123, Dezembro 2016
Se há um autor que tem sobrevivido ao teste do tempo, da Antiguidade até o século XXI, é Marco Valério Marcial (38-104 d.C. aproximadamente), cuja reputação oscilou ao sabor do clima moral e estético de cada período em cada país. Sua obra, bastante extensa, contabiliza 1 561 epigramas.
A concisão do epigrama (dizer o máximo com o mínimo) se deve ao fato de originalmente ser um texto destinado à inscrição: além de memorável, ele tinha de ser curto pela própria limitação do espaço físico dos objetos (paredes, está-tuas, potes, lápides etc). Enquanto verso de ocasião, ao mesmo tempo que visa imortalizar ou esculhambar uma pessoa, o epigrama privilegia o momento, o hic et nunc (aqui e agora).
A grande musa de sua poesia é Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social – munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama – ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições: seus tipos físicos, sua opulência e sua miséria. Seus palácios, pórticos e monumentos grandiosos, suas lojas e comércio, suas ruas apinhadas, opressivas, barulhentas e malcheirosas, espetáculos, banhos e termas públicas. A fauna humana dos epigramas é absolutamente exuberante. Entre os tipos preferidos para seu ataque estão novos-ricos, ladrões, picaretas, cornos, patronos mesquinhos, ex-escravos, praticantes de sexo oral, homossexuais passivos, glutões, parasitas sociais e chatos em geral.
Optando por se concentrar num gênero considerado “menor”, Marcial reinventou e estabeleceu o epigrama moderno, tal qual o conhecemos hoje, tornando-se um modelo para outros autores: um poema curto, de humor ferino e final picante, geralmente com uma corrosiva crítica social e de costumes.
I, IV
Se acaso, César, topar com meus livrinhos,
Deixe essa cara séria de dono do mundo.
O riso é liberado até em teus triunfos.
Ser tema de piada não envergonha um líder.
Leia meus poemas como quem assiste
as palhaçadas de Latino ou Tímele.
Que o Censor permita a graça inofensiva.
Lasciva é minha página, vida limpa.
Contigeris nostros, Caesar, si forte libellos,[1]
terrarum dominum pone supercilium.
consuevere iocos vestri quoque ferre triumphi,[2]
materiam dictis nec pudet esse ducem.
qua Thymelen[3] spectas derisoremque Latinum,[4]
illa fronte precor carmina nostra legas.
innocuos censura[5] potest permittere lusus:
lasciva est nobis pagina, vita proba.[6]
IX, XXXIII
Vindos da sauna, Flaco, aplausos vivos.
A pica de Marão é o motivo.
Audieris in quo, Flacce,[7] balneo plausum,
Maronis[8] illic esse mentulam scito.
X, XXIX
O prato que eu ganhava toda Saturnália,
Sextiliano, você deu pra nova namorada.
E a toga que me dava todo aniversário
pagou o vestido de jantar da sua amante.
As garotas estão saindo barato pra você:
Pare de foder com os meus presentes!
Quam mihi mittebas Saturni[9] tempore lancem,
misisti dominae, Sextiliane, tuae;
et quam donabas dictis a Marte Kalendis,[10]
de nostra prasina est synthesis empta toga.
iam constare tibi gratis coepere puellae:
muneribus futuis, Sextiliane, meis.
XII, XIII
Os ricos, Auto, lucram até com a raiva:
Odiar sai bem mais barato que dar.
Genus, Aucte,[11] lucri divites habent iram:
odisse quam donare vilius constat.
XII, LVII
Por que sempre fujo para Nomento,
para a humilde quiçaça do meu sítio?
Esparso, não tem espaço nesta cidade
para um pobre pensar ou dormir. Não dá:
de manhã são professores, de noite padeiros,
e o dia todo o martelo dos ferreiros.
Aqui, um cambista tilinta sobre a mesa suja
um monte de moedas do tempo de Nero,
ali, o batedor de ouro vindo da Hispânia
tritura pedras rotas com um porrete brilhante.
A gritaria dos fanáticos de Belona não para,
nem o náufrago tagarela com tronco enfaixado
nem o judeu cuja mãe o ensinou a mendigar
nem o remelento vendedor de enxofre.
Quem vai pagar por tanto sono perdido?
Quantas mãos batem em vasos de bronze
quando a feiticeira fustiga o fuso e causa eclipse?
Você, Esparso, nada sabe disso, nem tem como:
Bem instalado na propriedade que foi de Petílio,
de cujo terraço se avista as montanhas lá embaixo,
e tem o sítio na cidade, um viticultor romano,
(nem em Falerno se colhe tanto no outono)
e dentro do terreno uma pista para os carros,
silêncio e sono profundo que nenhuma conversa
estragam, nem luz solar que não seja convidada.
Os risos da turba me acordam, tenho Roma
aos pés da minha cama. Bateu tédio
e vontade de dormir? Me mando pro sítio.
Cur saepe sicci parva rura Nomenti[12]
laremque villae sordidum petam, quaeris?
Nec cogitandi, Sparse,[13] nec quiescendi
in urbe locus est pauperi. Negant vitam
ludi magistri mane, nocte pistores,
aerariorum marculi die toto;
hinc otiosus sordidam quatit mensam
Neroniana nummularius massa,
illinc balucis malleator Hispanae[14]
tritum nitenti fuste verberat saxum;
nec turba cessat entheata Bellonae,[15]
nec fasciato naufragus[16] loquax trunco,
a matre doctus nec rogare Iudaeus,
nec sulphuratae lippus institor mercis.
numerare pigri damna quis potest somni?
dicet quot aera verberent manus urbis,
cum secta Colcho[17] Luna vapulat rhombo.
tu, Sparse, nescis ista, nec potes scire,
Petilianis[18] delicatus in regnis,
cui plana summos despicit domus montis,
et rus in urbe[19] est vinitorque Romanus
nec in Falerno[20] colle maior autumnus,
intraque limen latus essedo[21] cursus,
et in profundo somnus et quies nullis
offensa linguis, nec dies nisi admissus.
Nos transeuntis risus excitat turbae,
et ad cubile est Roma. taedio fessis
dormire quotiens libuit, imus ad villam.
XII, LXXX
Calístrato elogia todo mundo, não quem merece.
Se ninguém é ruim, como alguém pode ser bom?
Ne laudet dignos, laudat Callistratus omnes.
cui malus est nemo, quis bonus esse potest?
I, LXXXIII
Seu totó lambe sua boca, sua língua. Como gosta!
Não me admiro, Maneia. Cães adoram bosta.
Os et labra tibi lingit, Manneia, catellus:
non miror, merdas si libet[22] esse cani.
I, LXXXVI
Nóvio, meu vizinho, mora tão perto
que poderia tocá-lo pela janela.
Você deve sentir inveja e pensar
que passo todas as horas do dia
curtindo sua ilustre companhia?
Não. Pra mim ele está mais longe
que nosso governador no Egito.
Não convivo, nem janto junto,
nunca o vejo, nem o escuto.
Não há ninguém em toda Roma
que esteja tão perto e tão distante.
Vai ver isso mude se a gente se mudar.
Se não quiser cruzar com Nóvio
Só tem um jeito: seja seu vizinho.
Vicinus meus est manuque tangi
de nostris Novius potest fenestris[23]
quis non invideat mihi putetque
horis omnibus esse me beatum,
iuncto cui liceat frui sodale?
tam longe est mihi quam Terentianus,
qui nunc Niliacam regit Syenen.[24]
non convivere, nec videre saltem,
non audire licet, nec urbe tota
quisquam est tam prope tam proculque nobis.
migrandum est mihi longius vel illi
vicinus Novio vel inquilinus
sit, si quis Novium videre non vult.
I, XCVIII
Você só fala, Névolo, quando todos gritam,
e se acha um puta advogado de defesa.
Desse jeito qualquer um é eloquente.
Olha, todo mundo quieto! Diz alguma coisa.
Cum clamant omnes, loqueris tunc, Naevole, tantum,
et te patronum causidicumque putas.
hac ratione potest nemo non esse disertus.
ecce, tacent omnes: Naevole, dic aliquid.
II, X
Você me dá, Póstumo, beijos de meio lábio.
Ótimo. Ainda dá pra você tirar metade.
Quer me dar um presente inenarrável?
Guarde toda essa metade pra você.
Basia dimidio quod das mihi, Postume,[25] labro,
laudo: licet demas hinc quoque dimidium.
vis dare maius adhuc et inenarrabile munus?
hoc tibi habe totum, Postume, dimidium.
V, XIII
Sou pobre, Calístrato, admito, sempre fui,
mas sou um cavaleiro, famoso e respeitado.
O mundo todo me lê, na rua dizem: “É ele!”
O que a morte dá a poucos, a vida deu a mim.
Você, recém-liberto, dorme sob cem colunas,
tem uma arca abarrotada de tesouros,
uma fazenda imensa à beira do Nilo,
e seu rebanho é tosquiado em toda Parma.
Esses somos nós: o que sou, você nunca será.
Já você, qualquer zé-mané pode ser.
Sum, fateor, semperque fui, Callistrate, pauper,
sed non obscurus nec male notus eques,
sed toto legor orbe frequens et dicitur, ‘hic est’,
quodque cinis paucis hoc mihi vita dedit.
at tua centenis incumbunt tecta columnis,
et libertinas arca[26] flagellat opes, magnaque
Niliacae servit tibi gleba Syenes,
tondet et innumeros Gallica Parma greges.
hoc ego tuque sumus: sed quod sum, non potes esse:
tu quod es, e populo quilibet esse potest.
II, LXXII
Póstumo, ouvi dizer que no jantar de ontem
aconteceu uma coisa (que eu não admito):
você levou porrada na cara: soou mais alta
do que quando o Pirulito soca o Chupetinha.
O que é mais incrível: corre um boato na cidade
que o autor desse crime foi Cecílio.
“Não foi nada disso”, você diz, “acredita?” Acredito.
Só que Cecílio, Póstumo, tem testemunhas.
Hesterna factum narratur, Postume, cena
quod nollem – quis enim talia facta probet? –
os tibi percisum[27] quanto non ipse Latinus
vilia Panniculi[28] percutit ora sono:
quodque magis mirum est, auctorem criminis huius
Caecilium tota rumor in urbe sonat.
Esse negas factum: vis hoc me credere? credo.
quid quod habet testes, Postume, Caecilius?
V, LXXXIII
Me persegue, fujo; foge, te persigo. Percebe?
Quero que me recuses, não que me desejes.
Insequeris, fugio; fugis, insequor. haec mihi mens est:
velle tuum nolo, Dindyme, nolle volo.
XI, XCII
Quem diz que você é uma pessoa corrupta,
mente. Zóilo, você é a corrupção em pessoa.
Mentitur qui te vitiosum,[29] Zoile, dicit.
non vitiosus homo es, Zoile, sed vitium.
–
[1] Libellos: livrinhos, como M. gostava de se referir a seus livros de epigramas.
[2] Triumphi: os triunfos eram cerimônias grandiosas e públicas que homenageavam o imperador e suas conquistas militares. Era costume, depois dos triunfos, que os soldados fizessem piadas e gracejos sobre o general, supostamente para espantar mau-olhado contra o imperador.
[3] Thymelen: mímica do tempo de M.
[4] Latinum: famoso ator cômico, mímico, palhaço, favorito do imperador Domiciano.
[5] Censura: Domiciano tornou-se o supervisor da moral pública e censor em 84-85 d.C.
[6] Alusão a versos do poeta Catulo (16, versos 5-6) e Ovídio (Tristes, tomo 2, versos 353-54).
[7] Flacce: amigo de M. ou possível referência a Quinto Horácio Flaco (poeta romano, 65 a.C.-8 a.C).
[8] Maronis: Públio Virgílio Maro, ou Marão (c.70 a.C.-19 a.C), poeta romano, autor de Éclogas, Geórgicas e Eneida.
[9] Saturni: festa tradicional romana para o deus Saturno, ocorria em dezembro e podia durar dias. Espécie de carnaval romano (com banquetes, visitas etc.) que marcava o fim de um ano e o começo de outro. Também era comum a troca de presentes.
[10] Marte Kalendis (calendas de março): em 1º de março, dia em que M. teria nascido e do qual se origina o nome do poeta.
[11] Aucte: Pompeius Auctus, advogado e amigo de M.
[22] Referência a “boca impura” (os impurum). A boca de Maneia é fedorenta e suja (como merda), segundo M., por ela ter praticado sexo oral.
[23] M. morou, nos primeiros anos em Roma, em uma insula, um cubículo ou apartamento minúsculo colado a outros, num edifício de três andares, evidenciando a superpopulação da cidade (mais de 1 milhão de pessoas, no tempo de Marcial).
[24] Referência a Terenciano, o governvador romano responsável pela atual Assuã, à beira do Nilo (sul do Egito). “Meu vizinho está tão longe de mim quanto Terenciano.”
[25] Postume: a prática da beijação, como forma e cumprimento, havia se espalhado em Roma, a ponto de virar uma “epidemia”, segundo M., e criar um tipo social, o “beijoqueiro”. A invectiva contra os beijos repulsivos de Póstumo é pela suspeita de que ele seja praticante de sexo oral (no caso, fellatio).
[26] Muitos escravos, depois de libertos, tornavam-se extremamente ricos.
[27] Há uma insinuação ao fato de ter ocorrido fellation (chupação). Por isso, “porrada na cara” adquire duplo sentido, aqui.
[28] Latinus/Panniculi: atores cômicos e palhaços romanos famosos no tempo de M.
[29] Vitiosum: carrega as acepções de vicioso, viciado, podre, ruim, mau, cruel, depravado, pervertido, ruim etc.
Crédito: hermafrodita adormecido_Mondadori Portfolio_Getty Images
