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Bracarolli

    CRÉDITO: LEO DARUMA_2024

ficção

Bracarolli

Os dois amigos se comportaram como se aquela noite tivesse sido suprimida de suas vidas

Alexandre Vidal Porto | Edição 214, Julho 2024

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Primeiro movimento:

Sinto-me à vontade para falar sobre ele porque o conheço desde que tínhamos 9 anos de idade. Estudamos juntos na quarta série e seguimos na mesma escola até a formatura. Nunca mais dividimos sala, mas voltávamos para casa na mesma linha de metrô. Na faculdade, ele foi estudar direito. Eu estudei medicina. Não soube nada mais de Bracarolli até nos reencontrarmos no Itamaraty.

Ele havia chegado a Brasília dois anos antes de mim. Naquele ambiente inóspito da administração pública, nosso passado paulista em comum adquiriu características de quase parentesco. Foi quando nos reaproximamos. Trabalhávamos no mesmo departamento e, depois, servimos juntos na embaixada em Nova Delhi – mas isso foi antes de a vida dele complicar.

 

Dou-me à pachorra de contar sua história porque ela pode ser instrutiva para as gerações futuras. Para mim, Bracarolli foi uma espécie de bússola invertida que indica o caminho que não se deve seguir.

Agora, ele passa o dia em frente ao computador. Quase não sai de casa. Vive nas redes sociais, fumando um cigarro atrás do outro. Vai dormir de madrugada e acorda depois do meio-dia. Quem o conheceu jovem, vigoroso, jamais diria que fosse acabar desse modo. Ele disse em uma de nossas conversas que sou o único amigo que ainda liga para ele.

Tem uma empregada que vai três vezes por semana e é quem mais ou menos cuida dele. Hoje em dia, porém, os dois pouco se veem, porque, à hora que Bracarolli acorda, Raimunda já saiu. Ela limpa a casa, faz o supermercado e deixa alguma comida preparada na geladeira. Também compra os cigarros que ele fuma.

 

Ricardo Bracarolli nasceu e cresceu no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Seu pai era dono de seis açougues nas regiões do Jabaquara e da Vila Prudente. Sua mãe era uma mulher exuberante, que gostava de pintura em porcelana e estudava francês. Sua irmã mais nova virou médica em um desses hospitais grandes de São Paulo. O pai era o primeiro a desencorajar que os filhos fossem aos açougues. “Para ficar cheirando a sebo e pisando em sangue basta eu”, falava.

A diplomacia entrou na vida de Bracarolli por acaso. Seu primeiro contato com o Itamaraty foi numa palestra de divulgação feita na sua faculdade por uma diplomata. Na ocasião, o serviço exterior pareceu-lhe uma alternativa à sua falta de interesse pelo direito. Porém, no quarto ano do curso, conseguiu um estágio em um escritório importante em Pinheiros e acabou se envolvendo com a advocacia. A ideia de seguir a carreira diplomática então saiu de seu radar.

Quando se formou, foi efetivado no escritório em que estagiava, mas, àquela altura, a perspectiva de passar um futuro indefinido convencendo juízes e conversando com promotores pelos corredores dos tribunais de Justiça lhe parecia tão insustentável quanto ter de administrar os açougues de sua família.

 

Não queria tomar nenhuma decisão impensada. Pediu férias. Tinha dinheiro guardado e resolveu fazer algo que sempre desejara: viajaria sozinho pela Europa. Três semanas: uma em Londres, uma em Paris e uma em Amsterdã. Enquanto isso, pensaria na vida e no futuro. Na volta, veria o que fazer. Ele me disse que, nessa época, estava “muito perdido na vida” e que tinha “pedido a Deus que lhe indicasse um caminho”. “Eu só estava esperando um sinal para tomar uma decisão.”

Nessa viagem, um incidente corriqueiro, desses que podem acontecer com qualquer turista, fez com que o destino de Bracarolli voltasse a cruzar com o Itamaraty. Ao desembarcar na Holanda, ainda na estação de trem, ele percebeu que seu passaporte tinha sumido. Nunca soube se perdeu ou se foi roubado. Para tirar uma segunda via, teve de ir ao consulado do Brasil, que ficava em um prédio moderno na parte Sul de Amsterdã.

No consulado, o trâmite foi fácil. “Eu senti uma energia boa lá.” Mais que isso: Bracarolli interpretou o nome do diplomata que assinava seu novo passaporte, João dos Anjos, como o sinal divino pelo qual ele esperava. “Me deu um estalo.” Foi assim que ele decidiu ingressar no Itamaraty.

De volta a São Paulo, contou aos pais sua decisão e pediu demissão do escritório. Concentrou-se nos estudos por oito meses para se preparar para o concurso. Eram vinte vagas oferecidas. Foi aprovado em oitavo lugar.

 

Segundo movimento:

Nunca falava de São Paulo nem da família. Minha impressão é que, se pudesse, teria escolhido outra infância, outros pais, outras referências. Mas era pragmático e, quando chegou a Brasília, combinou valores que trouxe de berço com uma visão de mundo própria, para se reinventar. O resultado desse processo parecia bom.

No Itamaraty, Bracarolli tinha fama de competente. Como colega de trabalho, era confiável. Não se imaginava que pudesse cometer um ato de descortesia. Era comum as pessoas se referirem a ele como gentleman, e isso era algo que ele gostava de cultivar.

Quando chegou a Brasília, aos 26 anos, ainda estava solteiro. Em São Paulo, teve dois namoros longos que não prosperaram. Só foi se casar aos 32, com a Marion, filha do adido militar na Embaixada em Bruxelas, onde ele também estava servindo. Entre o início do namoro e a cerimônia de casamento não transcorreu nem um ano. Ela estava grávida quando se casaram, e o filho deles, André, nasceu na Bélgica. Lembro desse detalhe porque meses depois, em Brasília, fui ao batizado do menino na Igreja Dom Bosco, na 702 Sul.

O casal aparentava ter uma vida feliz, mas se separou subitamente. Ninguém entendeu o que tinha acontecido. Marion deixou Brasília sem se despedir de ninguém e foi com o filho para a casa dos pais, em Porto Alegre. Vários boatos sobre o rompimento dos dois se espalharam pelo Itamaraty, mas não sei dizer de fato o que houve. Bracarolli jamais tocou nesse assunto comigo, eu tampouco perguntei a respeito.

Uma vez, o André me falou: “Nunca contei com meu pai para nada. Ele nunca fez parte da minha vida de verdade. Ligava no meu aniversário, nas festas, mas a conversa era sempre a mesma, perguntas bobas, frases feitas, nada a ver. A gente fingia que tinha uma relação, mas, para mim, ele era um manequim de papelão, unidimensional. Um instrumento de marketing barato para causar ilusão, a quem passasse pela embaixada em que ele estivesse servindo, de que tinha um filho e era pai. Ele me fez sofrer muito durante bastante tempo, mas, um dia, caiu a ficha de que eu não precisava ter contato com ele. Suprimi a ideia de que tinha um pai, só para me preservar. Hoje, quase não penso nele.”

Depois da separação, Bracarolli ficou pulando de galho em galho, cada hora com uma mulher. Um amigo em comum me contou que, nessa época, ele frequentava muito uma casa de swing no Lago Norte. Quando já estava para sair do Itamaraty, namorou uma funcionária da Funai, 27 anos mais nova que ele. Agora, diz que não tem ninguém.

Ao longo da carreira, ele acabou se especializando na área de promoção comercial, cuja missão é auxiliar empresas brasileiras a identificar oportunidades de negócios no exterior. De forma simplista, seu trabalho era viajar mundo afora, dando apoio a delegações de empresários em feiras e seminários internacionais.

Numa dessas viagens, um membro da delegação que ele acompanhava foi preso na Romênia tentando comprar cocaína de uma garota de programa. Quando Bracarolli tomou conhecimento do ocorrido, o homem já estava sob custódia da polícia local. Sem sua ajuda, o cara, figura importante da Fiesp, teria ficado detido alguns dias numa prisão de Bucareste, isso sem contar o escândalo e o desgaste por que passaria. Foi Bracarolli que, depois de acionar a embaixada, conseguiu liberar o sujeito e abafar o caso.

Alguns anos mais tarde, esse mesmo empresário tornou-se ministro de Minas e Energia. Esse fato é decisivo para o destino deturpado que a vida de Bracarolli acabou tomando – por essa razão o menciono.

 

Terceiro movimento:

Quando trabalhávamos em Nova Delhi, almoçávamos quase sempre juntos. Uma vez, no restaurante chinês do Khan Market, ele me perguntou com ar empolgado: “Você viu que entrou um indo-brasileiro na carreira?”

Na Índia, era como se Bracarolli tivesse encontrado seu nirvana profissional. Apreciava o trato com os indianos e as autoridades locais, estudava híndi e sânscrito, acreditava no potencial da relação com o Brasil, irritava-se quando algum colega mais novo se queixava de estar lá. Tudo que tivesse a ver com a Índia era bom. Estava apaixonado.

O tal diplomata indo-brasileiro chamava-se Anthony Patel e, como Bracarolli, também chegara ao Itamaraty por acaso. Era filho de Marlene, uma professora de Goiás que tinha emigrado para a Inglaterra para estudar, mas acabou trabalhando de garçonete, faxineira, entre outros bicos, até se legalizar. Quando se legalizou, conseguiu um emprego de caixa numa loja de departamentos bacana em Victoria Street, em Londres.

Engravidou do namorado indiano, que era segurança na mesma loja de departamentos. Casaram-se para registrar a criança, mas a união não durou. Quando Anthony tinha pouco mais de 1 ano, o pai regressou de vez para a Índia. O menino foi criado por Marlene, que só falava com ele em português. Era muito cuidadosa com a educação do filho e lhe dava 5 libras a cada livro que ele lesse e resumisse. O menino gostava de dinheiro e todo ano ganhava cerca de 200 libras com os livros que conseguia ler.

Com a recomendação de um professor, Anthony ganhou uma bolsa de estudos em uma escola particular de elite. Quando era convidado para a casa de seus colegas ricos e aristocráticos, desejava que sua vida fosse como a deles. Seguiu como bolsista para Oxford, onde estudou economia, e todas as possibilidades pareciam se abrir para ele.

Queria enriquecer. Tinha a intenção de fazer um MBA, ou algo que desse dinheiro. Mas, perto da formatura em Oxford, soube que Marlene teria de fazer uma cirurgia ortopédica importante. Parentes de Brasília arranjaram que fosse atendida pelo SUS num centro de excelência, e ela preferiu fazer a operação no Brasil.

Anthony tinha recebido oferta de emprego numa firma de consultoria na Inglaterra, mas optou por acompanhar o tratamento da mãe em Brasília. Dedicaria o tempo livre que tivesse à preparação das postulações para os cursos de MBA.

Ele e a mãe ficaram hospedados no apartamento de uma irmã de Marlene, que morava no finalzinho da Asa Sul e era funcionária de nível médio da Câmara dos Deputados. O apartamento era pequeno, e havia pouca privacidade. Em busca de silêncio e de recursos de pesquisa, Anthony ia todas as tardes à Biblioteca do Senado Federal, no prédio do Congresso, adiantar a preparação das postulações.

Foi lá que conheceu uma garota carioca que se preparava para os exames da carreira diplomática. Leila era o seu nome. Depois que acabou a preparação das postulações, Anthony continuou indo à biblioteca para estudar com ela o programa do concurso do Itamaraty. Era o modo que tinha de ficar mais tempo ao lado dela.

Para dar apoio moral a Leila, Anthony se inscreveu no concurso e acompanhou-­a nos exames. Ninguém esperava o que aconteceu. Ele foi aprovado, mas ela, não. Depois disso, Leila quis voltar para o Rio, e a relação dos dois se esgarçou.

Ainda que nunca tivesse pensado seriamente em ser diplomata, Patel julgou que ser funcionário de carreira de uma chancelaria respeitada internacionalmente poderia valer a pena como experiência, ainda que por um tempo limitado, e cairia bem em seu currículo. No futuro, veria o que fazer.

Chegava ao Itamaraty com uma educação de Oxford e era elegante e carismático. O fato de ser o único diplomata brasileiro com ascendência indiana garantia a ele a simpatia imediata do conselheiro Bracarolli, que havia voltado recentemente de Nova Delhi e ocupava cargo de assessoria direta ao chanceler.

Patel conhecia Bracarolli de nome, mas não pessoalmente. Uma tarde, na lanchonete da passarela que ligava o Anexo I do Itamaraty ao Bolo de Noiva,  Bracarolli se aproximou de Patel e se apresentou. “Eu tenho muita simpatia pela Índia. Morei em Delhi três anos e meio. Acho uma das relações bilaterais mais importantes para o Brasil. Muita coisa para explorar. De que parte da Índia é sua família?”

E o que era para ser uma conversa rápida, no intervalo de almoço de dois funcionários públicos, transformou-se em um encontro de almas. Começava ali uma amizade.

Bracarolli só falava de Patel nos melhores termos. Não deixava espaço para que criticassem o jovem diplomata em nada. Tinha a intenção de levá-lo para trabalhar com ele no gabinete do ministro. Porém algumas coisas aconteceram.

A primeira delas é que, como se poderia antecipar, a ideia do MBA voltou à cabeça de Patel. O cargo de diplomata não o satisfazia. Queria retomar os planos que abandonara por causa do Itamaraty. Tinha que voltar a estudar. Queria ganhar dinheiro.

Cerca de um ano depois de suas primeiras queixas sobre a carreira, soube que havia sido aceito para o programa de MBA da Universidade de Chicago. Decidiu ir. Não haveria como justificar sua ausência do serviço público por dois anos, que era o tempo que durava o curso. Para fazer seu MBA, teria de abrir mão do cargo de diplomata. Patel parecia não se incomodar com isso, ao contrário.

Bracarolli, no entanto, reagiu fortemente a essa possibilidade: “Não me faça essa besteira! Não pode jogar fora um emprego público federal! Você não vai embora… Vamos encontrar um jeito.”

“Ministro, temos um jovem diplomata muito promissor, formado em Oxford, que acaba de ser aceito para a Booth School of Business, na Universidade de Chicago. É dos programas de MBA mais prestigiosos do mundo. Termos um graduado da Booth entre os nossos quadros agregaria valor à instituição. O senhor concorda? A gente poderia designá-lo para uma missão transitória pelo tempo do curso…”

“De ordem do Senhor Ministro de Estado das Relações Exteriores, muito agradeceria designar o Terceiro Secretário Anthony Patel para missão transitória de 24 meses no Consulado-Geral em Chicago a partir do próximo dia 15/08.”

“Estamos te mandando para o Consulado em Chicago em missão por dois anos. Já falei com o colega que está lá. Apareça de vez em quando, mas não se preocupe, porque ele sabe que sua missão mesmo é estudar.”

Em resumo, Bracarolli conseguiu que Anthony fizesse seu curso na Universidade de Chicago e recebesse salário integral como se efetivamente servisse no consulado. Esse favorzinho prestado por Bracarolli os aproximou ainda mais. Todos os dias trocavam mensagens: artigos, piadas e fotos, comentavam tudo. Mesmo em países diferentes, o diálogo dos dois seguia, nunca terminava. Não queriam que terminasse. Gostavam do efeito que um provocava no outro.

No segundo ano do MBA, na mesma semana em que Patel completaria 30 anos de idade, Bracarolli viajou a Chicago para participar de um seminário sobre exploração de jazidas minerais. Nesse tempo ele já estava trabalhando no Ministério de Minas e Energia com o empresário-virado-ministro que, anos antes, ele tinha salvado da prisão na Romênia.

Estava animado com a viagem. Reservou sua única noite livre para jantar com Anthony. Seria a primeira vez que estariam juntos desde que Patel partira para Chicago. Encontraram-se por volta das sete da noite num restaurante indiano perto de Logan Square. Bracarolli, que tinha lembrado do aniversário do amigo, trouxe-lhe um par de abotoaduras de presente. Depois do jantar, Patel convidou-o para conhecer seu apartamento.

Anos mais tarde, Bracarolli me disse que não tinha muito claro o que de fato aconteceu naquela noite. Mas o evento incluiu uma garrafa inteira de tequila que Bracarolli havia ganhado no seminário. Também incluiu, na manhã seguinte, dois diplomatas nus, deitados um ao lado do outro no chão da sala. Foi Bracarolli quem acordou primeiro. Sem dar-se conta, tinha um sorriso nos lábios. Patel seguia dormindo.

Bracarolli recolheu suas roupas espalhadas pelo apartamento. Demorou para encontrar a cueca. Achou-a no chão da cozinha, em frente à geladeira, ao lado da do amigo. No chuveiro, não sabia o que pensar. Quando saiu do banheiro, Patel já estava vestido, com a camisa para dentro da calça e o cabelo penteado, co­mo se nada tivesse acontecido. “Não me pergunte por que aconteceu ou como aconteceu, mas uma coisa levou à outra. Tequila é uma bebida muito traiçoeira.”

Eles nunca mais tocaram no assunto entre si. Nos anos seguintes, comportaram-se como se aquela noite tivesse sido suprimida de suas vidas, apagada, paradoxalmente, pela confiança e intimidade que dividiam.

Em uma de nossas conversas, Bracarolli disse que essa vez em Chicago foi a única em que “isso” aconteceu. “Isso” era como se referia à experiência sexual com Patel. Parecia preocupado em justificar-se. Dava como certo que tinham transado, embora não se lembrasse com clareza do que se passou. Mas, se as coisas aconteceram como ele descreveu, não é garantido que eles tenham chegado lá. O fato de duas pessoas acordarem nuas, lado a lado, não assegura que tenham transado. De qualquer maneira, “isso”, essa noite com Anthony, ficou marcado nele.

 

Ao final de seu curso em Chicago, Patel recebeu uma oferta de trabalho de um megainvestidor italiano na área de infraestrutura que iniciaria operações no Brasil. Com o pouco que conhecia dele, não me surpreendi quando soube por Bracarolli que Patel trocaria o Itamaraty por esse novo emprego.

Entre seus ex-colegas de ministério, o pedido de demissão pegou muito mal. Nas rodas de conversa nos jantarzinhos diplomáticos ou no Clube das Nações, referiam-se a Patel como “aquele indiano que se aproveitou do Itamaraty para fazer um MBA”.

Em seu novo emprego, porém, Patel sentia-se inseguro. Achava que não teria condições de gerar negócios nas proporções que esperavam dele. Não demorou nem seis meses para bater às portas de Bracarolli no Ministério de Minas e Energia pedindo dicas de negócios. “Me ajuda, amigo, se você souber de alguma oportunidade no seu setor, divide comigo, por favor. O Giancarlo está me pressionando. Esses italianos são difíceis… Preciso fazer chover.”

Bracarolli ficou preocupado com o estado de espírito do amigo. Naquela mesma semana, sonhou com ele três vezes. Curiosamente, nos três sonhos, estavam juntos na Índia. Com o tipo de relação que tinham, cheia de ambiguidades, a coisa não poderia dar certo mesmo. O que um servidor público sensato faria diante de um pedido de “dicas de negócios”, como o de Patel? Ignoraria o pedido, certo? Não foi o que Bracarolli fez.

Ele era o braço direito do Ministro de Minas e Energia. Não havia assunto no ministério a que não tivesse acesso ou reunião que lhe fosse fechada. Tudo passava por ele. Era a época de expansão de investimentos privados no setor de jazidas de terras-raras. Ele tinha tomado conhecimento, por meio de um relatório independente, que uma reserva no Acre que o governo licitaria em breve havia sido subestimada em sua capacidade produtiva e iria a leilão com preço muito vantajoso. O lucro de quem comprasse seria grande – e a comissão de quem indicasse o negócio, também.

Bracarolli tinha a intenção de manter essa informação sob sigilo. Mas encontrou-se com Patel em São Paulo para um almoço e o achou “péssimo”. Ele parecia desanimado. Falou em “largar tudo” e voltar a Londres, “para recomeçar do zero”. Bracarolli queria animar o amigo. Durante esse encontro, depois de três caipirinhas, não resistiu e revelou a informação privilegiada. “Eu sei de uma coisa séria que talvez possa lhe ajudar…”

E combinaram então um esquema com informações privilegiadas passadas de amigo para amigo, para o benefício de ambos. A licitação permitiria ao chefe de Patel adquirir os direitos de exploração da jazida com grande margem de lucro. O negócio geraria cerca de 12 milhões de dólares em comissões, que ele dividiria com Bracarolli. “Faço questão. É uma questão de honra para mim.” Falaram de planos para reinvestir esse dinheiro juntos, tornando-se sócios nos negócios. Bracarolli estava animado.

Semanas mais tarde, no apartamento de um embaixador na 316 Sul, num daqueles jantarzinhos do pessoal do Itamaraty, um colega diplomata mais jovem fez críticas ao pedido de demissão de Anthony Patel. Bracarolli, que ouviu os comentários sobre seu amigo até o fim, reagiu violentamente. Foi como se tivesse perdido o controle. Gente que estava no jantar e assistiu à cena falou que ele parecia ter cheirado cocaína, o que não me surpreenderia, porque parece que nessa época ele cheirava mesmo.

Um amigo disse que ele esbravejava para quem quisesse ouvir que tinha “um esquema de muita grana com Anthony Patel, um monte de negócio alinhado”. E que o Itamaraty “merecia o chute que eles iam dar”. A cena foi constrangedora e acabou virando tema de conversa em outros jantarzinhos diplomáticos, até que alguém comentou sobre o ocorrido com o próprio Patel.

“Você é maluco, Bracarolli? Você enlouqueceu? O Giancarlo não pode nem sonhar que você cheira e sai falando besteira por aí. Você pode não ter medo de ir para a cadeia, mas o Giancarlo e eu temos. Para preservar nossa relação, vou te pedir um favor. Vamos nos afastar por um tempo”, disse Patel.

E os contatos entre os dois amigos pararam. Cerca de seis meses depois do estremecimento, Bracarolli procurou Patel. Mencionou o negócio das terras-­raras. “Você inviabilizou tudo. Podemos te processar. Isso é sério, Bracarolli. Você e eu não temos mais nada para falar.” E não falaram.

Naquele mesmo exercício fiscal, Giancarlo, o investidor italiano, comprou os direitos de exploração da jazida subavaliada. A comissão foi paga diretamente a Patel, que a embolsou na totalidade e voltou para Londres, para abrir sua própria consultoria. Nunca mais entrou em contato com Ricardo Bracarolli.

No finalzinho do ano passado, em um dos meus últimos dias na embaixada em Estocolmo, recebi pela mala diplomática este cartão:

Passei por um mau momento nesses últimos tempos. Depressão, perda de enredo, distância do filho e das pessoas queridas. Andei pelas sombras, com as emoções fora do lugar. Nem quero me lembrar. Vi que você está voltando para Brasília. Gostaria de retomar o contato contigo, um verdadeiro amigo. Grande abraço, Bracarolli.

Quando me apresentei em Brasília, porém, ele já havia decidido pedir aposentadoria antecipada do ministério e não estava mais trabalhando. “Não aguentei o ambiente”, me disse depois. Visitei-o em casa e fiquei chocado com seu desleixo pessoal.

Bracarolli tinha contato com todo mundo, parecia querido por todos, poderia ter sido um monte de coisas. É estranho que sua vida definhe dentro de um quarto. Não vou me surpreender se um dia receber a notícia de que a empregada o encontrou morto no apartamento quando chegou para trabalhar.

Ligo para ele por caridade. Ele desabafa comigo, conta tudo, todo tipo de intimidade. Se eu estivesse em sua situação, também gostaria que alguém ligasse para me ouvir. Eu, que larguei a medicina para me tornar diplomata, descubro resquícios do psiquiatra que não cheguei a ser. Anteontem conversamos por WhatsApp. Antes de desligar, ele me disse: “Eu tentei ajudar um amigo e ele me trocou por dinheiro. Eu não faria isso, nunca trocaria. Já ele, não pensou duas vezes, trocou mesmo, não pensou que nós dois, juntos, ganharíamos muito mais.”

Alexandre Vidal Porto

É escritor e diplomata. Publicou, entre outros livros, Sodomita e Cloro pela Companhia das Letras

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