CRÉDITO: LUÍSA FANTINEL_2025
Calor guardado no vento me impressiona
Sylvio Fraga | Edição 231, Dezembro 2025
MIRANTE MIRÓ
Um passarinho que voa me impressiona.
Um peixe que nada me impressiona.
Uma criança que anda, corre, me impressiona.
Uma árvore que cresce me impressiona.
Uma casa que se desmancha me impressiona.
Um Sol que sobe, que desce, me impressiona.
A Lua que nos arrebanha me impressiona, me arrebanha.
Um bebê que me olha me impressiona,
ele guarda um tempo que com o tempo, desmancha.
Calor guardado no vento me impressiona.
A maioria dos poemas não impressiona ninguém.
Alguns poemas me impressionam mais do que o Sol.
Um passarinho em silêncio me impressiona como um peixe em silêncio.
LUAS
Falam muito no coice do cavalo,
mas conhece o chute da vaca?
Temem a mordida do cão,
mas conhece a dentada do burro?
Fico olhando pela janela com meu gato
repetindo um groove à exaustão
até a melodia se abrir.
Você sente ela chegando lá do silêncio –
desce o tronco devagar
e por alguns segundos
seus olhos brilham,
é quando vocês se veem.
IGARAPÉ
O copo de água esfria o mundo,
a coisa solta que somos deseja um rumo
como as veias que nos desenham.
Nossas raízes crescem
na direção de algumas pessoas.
Lá vai meu filho, um riachinho!
A mãe viajou então dormimos juntos.
Quase sonhando, imagino nossos sonhos
coagulando em sais de liberdade
que saímos à noite pra lamber
sobre quatro pernas.
As grandes embarcações em meus olhos não o alcançam.
Ouço minha respiração firmar quase nula
como quem rema devagar pelos rios mais ínfimos
que chegam mais longe na floresta.
GUARÁ
O Cerrado tem, para olhos barrocos, muito pouco.
Espaços largos, pedras grandes, céu vasto,
árvores baixas, rios oblíquos, cachoeiras geladas.
Arroz com feijão, cachaça, limão,
o espanto de laranjas no céu com rosas
sobre a tela do dia morto,
a faísca do lobo indo de lá para lá
sob o filete de luz
entre nuvens pesadas e a terra sedenta
onde cabe apenas uma carta
que você manda pra você.
MARCADOR
Eu media juventude
pela idade de jogador de futebol.
Agora aos 37
chega o ocaso da minha sonhada carreira.
Me aposento emocionado,
aceno do gramado,
ninguém grita meu nome
então escuto os pássaros,
dou a volta olímpica, só uma,
tenho que buscar meu filho na escola,
ele e sua juventude –
como pode de repente
tudo estar começando?
STEWART ROAD
A flor da bromélia sobe em galhada
como o chifre do veado norte-americano
que eu espreitava criança,
consolado por nossas vidas paralelas.
Saíamos de carro em noite gelada
para vê-los paralisados no farol
ou saltando na meia-luz dos gramados.
Lembro da magia e minha mãe lá,
luvas de lã no volante,
problemas abrindo
e fechando na cabeça, como guelras.
POR UM MOMENTO DE SONHO
Range baixinho
o balanço do meu filho.
– Mais alto, vovó, muito alto!
Ela pede o telefone pra tirar foto
mas ninguém se mexe.
Range o pássaro enferrujado.
No meio da tarde
vislumbro a suave arquitetura do infinito
acolchoando o nada.
Há sempre uma gota no queixo dele
ameaçando,
espécie de orvalho
