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poesia

Canções de atormentar

Angélica Freitas | Edição 139, Abril 2018

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CANÇÕES DE ATORMENTAR

quem vai para o mar terá medo
que o seu navio se espatife num rochedo
quem é do mar e vai para a terra
sabe que no final se ferra
à sua cauda não se aferra
nem na grécia, nem na inglaterra

é inventado ou verdadeiro
que a sereia cantou pro marinheiro
ele pôs cera no ouvido
ou se atou ao mastro feito um bom marido
domador dos mares e da libido
ninguém no mundo mais desenvolvido

 

qual terá sido o maior peixe
que já caiu na sua rede
meio mulher, meio pescado
o maior troféu já conquistado
ele sabe que nunca vai estar errado
e a sereia é um bicho desgraçado

mesmo que a deseje morta e descamada:
o marinheiro tem medo da sereia

*

 

quem não pode ser marinheiro
por força das circunstâncias

quem não pode viajar o mundo
dentro de embarcações

deve imediatamente
contemplar a ideia
de virar sereia

 

*

virar sereia
sem rabo de peixe
os dois pés na areia
cantando minhas canções
de atormentar

o ouvido de quem só quer
o butim dos marinheiros
barras de ouro
mármores e estátuas
moedas fora de circulação

mil vezes destruir tímpanos
e vidraças
mil vezes afundar navios
e suas cargas preciosas

*

canções de atormentar
atormentar, atormentar

não tem para onde fugir
e você não consegue
tapar os ouvidos
com os cotovelos

canções de arrepiar os pelos
de me fazer odiar

canções de atormentar
atormentar, atormentar

*

o capitão xy fala:

toma aqui um espelho pra você se ver
você é tão bonita
um colar de contas pra você usar
você é tão bonita

você canta tão bem, você deveria cantar
profissionalmente
tenho uns amigos, vou te apresentar
você é tão bonita

há um repertório que você vai adorar
profissionalmente
uns lugares bacanas aonde vou te levar
você é tão bonita

cheiro de peixe não nos apetece, meu amor
incidentalmente
você vai ter que cobrir esse rabo, sim, senhora
você é tão bonita

fama, fortuna e todo o meu apoio
profissionalmente

*

ah, se eu fosse uma sereia
teria mais o que fazer
do que ficar cantando pra eles
do que tentar seduzi-los

nem assoviaria, não
ao ver caravelas passar
em seu mar plano, seu mundo quadrado
no máximo um espirro, no máximo um bocejo

lá vão eles, atarefados
pilhando tudo, matando todos
a serviço do rei, do estômago
a serviço do sr. pinto

nem assoviaria, não
ao ver caravelas passar
em seu mar plano, seu mundo quadrado
no máximo um espirro, no máximo um bocejo

*

os filhos dos marinheiros
que temiam os monstros marinhos
vão bem, obrigados
todos engravatados

têm automóveis, jatos
têm helicópteros
queimam combustíveis
fazem todas as porcarias possíveis

mandam no país
mandam no teu nariz
e nunca tiram férias
de nos impor misérias

com a graça de netuno ou não
todos eles aí estão
os filhos, os netos, os bisnetos
dos marinheiros

–

Estes poemas fazem parte da performance Canções de Atormentar, com texto de Angélica Freitas e música de Juliana Perdigão.

Angélica Freitas

Angélica Freitas é autora do livro de poemas Um Útero é do Tamanho de um Punho e da graphic novel Guadalupe, ambos da Cia. das Letras

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