CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Canto dos canarinhos
No interior paulista, a torcida ressuscita um time arruinado
Ana Clara Costa | Edição 216, Setembro 2024
O jogo estava empatado. Aos sufocantes 51 minutos do segundo tempo, o placar marcava 1 a 1 no Estádio Adhemar de Barros, o “Adhemarzão”, em Araçatuba, interior de São Paulo. Os Piratas Canarinhos, torcida do time local, transpiravam de apreensão – e de calor. Embora fosse início de julho, o dia quente castigava os milhares de torcedores que foram ao estádio naquela tarde de sábado.
Naquele momento, Gustavo Cardozo, mais conhecido como Ligeirinho, um garoto franzino de 17 anos, insistiu para que o técnico Vagner Santos, o Vaguinho, o colocasse em campo. Cardozo estava no banco e nunca havia jogado como titular. Prometeu nada menos que o gol da vitória. Vaguinho notou a ousadia, calculou que não havia muito a perder e topou. Não deu outra: Ligeirinho entrou e marcou.
A arquibancada, colorida de azul, amarelo e branco, as cores da camisa do time vencedor, gritou: “Aeááá, eôôô, aeááá, eôôô.” Pelo delírio da torcida, parecia se tratar da final de um campeonato importante. Mas era uma partida entre a AEA (Associação Esportiva Araçatuba), o time vencedor, e o Colorado Caieiras, duas equipes do estado de São Paulo, expoentes da quinta divisão do Campeonato Paulista, também conhecida como “Bezinha”, a rabeira do futebol profissional, que abriga apenas jogadores sub-23.
Os Piratas Canarinhos permaneceram fiéis à camisa do AEA nos quase quatro anos em que o clube de Araçatuba, endividado e sem patrocinador, deixou de jogar. Entre 2020 e o início de 2024, mesmo sem time em campo, os torcedores continuaram a se reunir para ensaiar os gritos de guerra. Também ajudaram a levantar fundos para reerguer a equipe e contribuíram na prospecção de jogadores.
Hoje, entre 3 mil e 4 mil torcedores assistem aos jogos da AEA todo sábado. Há quem diga que o contingente no estádio chegaria a 7 mil se uma parte da arquibancada não estivesse em reforma e a outra não recebesse o Sol inclemente das 15 horas, horário-padrão dos jogos da quinta divisão. Quando a partida é fora de casa, os Piratas Canarinhos captam recursos para a viagem com vaquinhas na internet, rifas e venda de produtos com o logo do AEA. Tamanha presença faz com que o time tenha a mesma média de público que os líderes da série B do Campeonato Brasileiro.
Quando Araçatuba recebeu a visita de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, em julho passado, as camisas amarelas que muitos usavam nas ruas para recepcioná-los pareciam, de longe, serem da Seleção Brasileira, mas eram, na verdade, do time local. Bolsonaro e Tarcísio, exímios farejadores de likes, desembarcaram vestidos com o uniforme da AEA, para a alegria da maioria dos moradores, que é bolsonarista – o ex-presidente teve quase 70% dos votos no município no segundo turno da eleição de 2022.
Nem sempre a AEA esteve na Bezinha. Fundado na década de 1970, o time jogou na primeira divisão do Campeonato Paulista por seis anos, entre 1995 e 2000, recebendo em casa Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos, entre outros clubes. Nesse período, o atual técnico da Seleção Brasileira, Dorival Júnior, esteve entre seus titulares.
O mais perto que a AEA chegou de um título foi em 1996, quando ficou em oitavo lugar no Campeonato Paulista. Para os Piratas Canarinhos, foi como chegar ao paraíso, que virou purgatório em 2020. O time estava na quarta divisão quando perdeu de 7 a 0 para seu rival histórico, o Bandeirante, equipe da cidade vizinha, Birigui. Pouco depois, a AEA encerrou as atividades.
Dívidas e desvios de dinheiro estavam na origem da decadência do time, segundo o comerciante Anselmo Ananias, de 59 anos, que jogou pela AEA nos anos 1970 e 1980. Ele é o criador do grupo AEA Master, que reúne ex-jogadores. “Exceto os fundadores, todo mundo que passou pela AEA roubou”, afirma. Ele conta que as gestões anteriores também eram conhecidas por pagar mal os jogadores e até mesmo dar calote. “Aí vinha aquele monte de ação na Justiça.” Devido à má fama da gestão, os patrocinadores foram minguando. Ananias diz que agora ajuda a conseguir patrocínio e coletar dinheiro com empresários locais para saldar dívidas do passado, mas prefere não se envolver formalmente na administração.
Mesmo na nova fase, um técnico foi demitido por suspeita de negociar as categorias de base do time. Indícios de má conduta também levaram ao desligamento de um dos principais diretores da AEA. Vaguinho, que jogou pelo AEA em 1995, estava em Campinas, mas veio prontamente ajudar no resgate do clube do coração, como novo treinador. Está conduzindo uma campanha vitoriosa. Ainda sem endereço fixo na cidade, hospeda-se na casa de Ananias.
“A torcida sempre foi fanática, mas até a gente, da organizada, se surpreendeu com a febre que existe hoje. As pessoas realmente abraçaram o time”, diz Michael Luis Correia, de 38 anos, presidente da Piratas Canarinhos desde 2014. Correia faz parte da diretoria estatutária do clube, o que significa que ele não interfere na gestão administrativa, mas pode fazer pressão.
As más condições do estádio de Araçatuba, que é municipal, atrasaram a retomada. Foram os torcedores que conseguiram os laudos para que o estádio reabrisse depois de reformado pela prefeitura. Em dezembro de 2023, eles conquistaram o patrocínio de duas empresas locais – uma construtora e uma distribuidora de água mineral – e foi batido o martelo: o time voltaria em 2024.
Seguiu-se a prospecção de jogadores. Cinco titulares vieram, de empréstimo, do Brasiliense, clube que pertence ao ex-senador e empresário Luiz Estevão. “Todo o contato era feito com a Luiza Estevão”, diz Correia, referindo-se à filha do empresário e uma das dirigentes do time de Brasília. De lá veio o artilheiro da equipe, Gustavo França. Já o meia Caio Bahia, outro astro da AEA, é egresso do Assev, de Goiás. Os times de origem continuam arcando com os salários dos jogadores emprestados. Acham mais vantajoso manter um jogador numa liga paulista de quinta divisão do que no banco de reservas.
Inaugurado em 1940, o Adhemarzão não está ligado apenas ao futebol. Na década de 1980, Zequinha Barbosa – que foi campeão mundial dos 800 metros rasos e disputou quatro olimpíadas – corria na pista do estádio de Araçatuba. O ginásio acoplado ao estádio foi palco de jogos da época de ouro do basquete brasileiro, nos anos 1990. O time da cidade, Unimed Brasil, contava com as pivôs Alessandra e Marta, da Seleção Brasileira que foi campeã mundial e medalhista olímpica. Outros jogadores de basquete consagrados também se formaram lá: os irmãos Cintia, Helen, Silvia e Rafael Luz.
Mas é com o futebol que as arquibancadas vibram. A retomada do esporte reativou o comércio local ao redor do estádio. A Rádio Cultura FM, a mais tradicional da cidade, voltou a transmitir jogos de futebol. A Federação Paulista de Futebol arca com os custos da transmissão no ar e no YouTube.
O narrador José Walter comemora a volta e elogia a paixão dos torcedores: “Preparam uma festa antes dos jogos, com fumaça nas cores da equipe, bexigas e faixas. Um clima que não se via há bastante tempo”, conta. Os Piratas Canarinhos ainda se mostram incrédulos com tudo o que estão conquistando. Mas saem do transe quando é hora de gritar “é gooooooooooool”.
