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    CRÉDITO: VALENTINA FRAIZ_2023

ficçao

Crisálida

O tesouro que herdei da minha bisavó

Bárbara Mazzola | Edição 209, Fevereiro 2024

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A primeira vez que escrevi foi sobre morte. Eu tinha 10 anos e estava na minha casa. No mesmo terreno, ficava a casa dos meus avós, onde também moravam minha tia-avó e minha bisavó. Vivíamos em casas separadas, mas com uma escada que fazia a ligação entre os dois quintais.

Minha bisa era paraense, filha de uma indígena e de um português que entrou no Brasil pelas portas de Belém. Pequena, magrinha, tinha a pele morena, os olhos grandes e puxados, os cabelos brancos bem lisos, sempre amarrados num coque baixo, os ombros ossudos e um temperamento doce, como o humor dos sábios. Mesmo depois de adulta, corria para baixo dos móveis, cheia de medo, ao ouvir um trovão.

“Macãeda, Macãeda!”, sua melhor amiga a chamava. Maria Cândida era seu nome. Toda tarde, às 18 horas, ela rezava o terço que ouvia no rádio. Quase sempre trazia um lenço na cabeça. Muito católica. Não foram raras as vezes em que lhe fiz companhia naquele horário – que, para mim, era mágico. Eu ficava debruçada na mesa da cozinha, observando seus dedos enrugados rolarem calmamente sobre aquelas bolinhas coloridas que pareciam não ter fim, enquanto ela sussurrava orações imensas. Vai ver foi daí que tomei gosto por Nossa Senhora.

 

Minha vó conta que não havia pamonha nem tapioca como as da bisa. Ninguém as preparava com tanto cuidado, tanta calma, tanta bênção. Eu não peguei esse tempo, infelizmente, porque, quando nasci, a bisa já estava bem velhinha e não podia mais se dedicar às atividades que demandavam muita elaboração. Morreu dormindo, aos 100 anos.

Naquela manhã, minha mãe me colocou na lavanderia, sozinha e a portas fechadas, para que eu não visse o pessoal da funerária retirar o corpo da bisa. Talvez minha mãe tivesse esquecido que ali havia uma janela que dava exatamente para o quintal. Assim, a primeira coisa que fiz foi subir numa caixa, abrir o vitrô e esticar bem o pescoço. Fiquei olhando atenta através das grades. Eu sempre me interessei pela morte, acho. Quatro anos antes, quando minha tia morreu, pedi para que me levassem ao velório. Queria ver como era um corpo morto, saber como minha tia havia ficado depois desse acontecimento tão definitivo. Lembro que ela estava com aquela coisa muito estranha nas narinas, mais pálida… e gelada, eu encostei! Não sei bem por que, mas, na minha memória, esse dia ainda tem a cor roxa. Com a bisa, não foi diferente. Eu queria ver o que havia mudado nela.

Então permaneci ali, olhando da janela, na espreita do que ia acontecer. Um homem forte e muito alto, que vestia calça e camisa sociais pretas, apareceu no quintal. Sobre seu ombro esquerdo, levava o corpo da bisa, todo enrolado num tecido branco. Da cabeça aos pés. Parecia uma crisálida, só que do tamanho de uma pessoa. “Ah, é isso! Depois de morrer a bisa se transformou numa crisálida”, falei baixinho, secretamente.

 

Não senti nada. Apenas olhei. Me concentrei para reparar se algo se passava em mim, tristeza ou dor. Nada. Nenhum choro, nem uma lágrima. Curiosidade apenas. E um vazio por dentro. Em pensamento, briguei ferozmente comigo pela insensibilidade de não derramar nem sequer uma lagriminha por alguém que eu amava tanto. “Que coração de pedra você tem… Credo!” Meu julgamento infantil só foi interrompido pela voz da minha mãe, um pouco trêmula: “Sim, é por aqui.” O homem caminhou em direção à lavanderia e, quando passou em frente à janela, fechei meus olhos. Eu queria me despedir da bisa e achei que, se fechasse os olhos, ela ia me ouvir melhor. Falei que sentiria muito a falta dela e rezei uma única ave-maria. Logo depois, tudo ficou em silêncio.

Não lembro como, mas arranjei um jeito de escapar dali e correr até o portão. Ainda consegui assistir ao momento em que o carro da funerária saiu da garagem com o caixão no porta-malas. Nunca mais vi a bisa – nem em sonho. Dessa vez, não quis ir ao velório.

 

Enquanto o carro desaparecia pela rua, não sei o que me deu. Senti uma urgência atravessar meu corpo, uma necessidade estranha de buscar caneta e papel. Escrevi meu primeiro poema. Tal como aconteceu com minha bisa, nunca mais vi esse texto. Não sei onde o coloquei ou se ainda o tenho. Quando terminei de escrever, estava aos prantos.

 

Foi ali que tive a percepção tão nítida, tão corpórea e concreta de que, para algumas coisas, só caneta e papel. Se a gente falar, não resolve; se a gente calar, não resolve; se a gente dançar, se a gente cantar, se a gente beber, não resolve. Há coisas de que só a escrita dá conta.

A partir daquele dia, também descobri um mundo onde cabe absolutamente tudo, até mesmo o que não conhecemos. Se quero narrar as aventuras que vivi na Amazônia, sem nunca ter tirado os pés de São Paulo, posso. Se quero falar sobre uma máquina do tempo com o formato de uma jukebox e cinco entradas brilhando em neon que levam para doze dimensões, posso. Se quero contar sobre um homem que se transformou numa barata, também posso. Ou se quero dizer de uma mulher que um dia acessou o mistério da condição humana ao encontrar, esmagar e comer outra barata, ainda posso.

Mas se preferir

crisálida
um fio e
a luz se fez
do corpo à nudez

o papel receberá. Se quero gritar “Bisa, olha pelos teus antigos, olha pelos nossos porque aqui continuamos todos perdidos e cruéis. Bisa, ajuda porque estamos morrendo sem tempo nem hora, agora, agora e agora!”, posso.

Foi naquele momento que compreendi que escrever é, na verdade, o trabalho de traduzir o invisível para o visível e que um caderno, muitas vezes, faz a gente se distrair da solidão. Um caderno pode ser uma mão no escuro para crianças com coração de pedra.

Quando a gente quer se esconder ou se revelar, quando a gente quer se esconder e se revelar, quando queremos olhar para os nossos medos, desejos, vaidades e verdades, ou simplesmente quando a gente quer fazer da vida algo mais bonito e, por isso, mais suportável, há caneta e papel.

Bisa, se você estiver lendo isso, saiba que foi ali que comecei. Que presente a sua crisálida me deixou! A invenção dessa herança imensurável: a possibilidade de escrever. Talvez, ao longo dos anos, esse tenha sido o seu jeito de reaparecer para mim. Melhor do que em sonho, em letra.

Bárbara Mazzola
Bárbara Mazzola

É atriz, dançarina, mestra em artes cênicas e escritora. Publicou o livro Cartas de amor em despedida (edição autoral).

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