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Crocodilos

    CRÉDITO: LUISA FANTINEL_2024

poesia

Crocodilos

Onde as feras verde-musgo convivem sem jaulas

Natasha Belfort Palmeira | Edição 220, Janeiro 2025

A+ A- A

1.

Depois de escrever
dois ou três crocodilos
desistiu de escrever poesia.

Hoje vive amansada
ao lado da última
de suas feras verde-musgo.

 

Convivem sem jaulas.
Na hora do jantar
trocam até sorrisinhos.

Na noite funda porém
são só chantagens e amolações
amolações e mais chantagens.

Aos primeiros lampejos
da alta voltagem
quer saber onde estava,

 

onde estava com a cabeça
quando escreveu
três ou mais crocodilos

quatro ou mais crocodilos
vários crocodilos a lhe mordiscar
levemente os nervos e tornozelos –

até que ela escreva
até que ela não os deixe
por um poema qualquer.

 

 

2.

Ces yeux-là étaient et disaient tout un poème[1]

Ao cutucar a relva árida
do seu pensamento reptílico
de aborrecida que estava
por todo aquele vaivém,

topou com um velho
camarada cujo nome
outrora não fizera
questão de anotar.

Contaram das raras vezes
que se entreviram
e das conversas jogadas
fora noites-tempo.

Quiçá por que misteriosas
sendas, por que transportes
chegara àquelas espontâneas
e alheadas paisagens.

Estavam na terceira garrafa
e o nome do bendito
já começava a tamborilar
na ponta da língua dela,

quando o ronco ciumento
do estômago da fera
despertou-a para os seus
falsos olhinhos de tigre.

3.

Então lá estavam eles
impassíveis ao som
de Crocodile Rocking
is something shocking

é, acho que do Elton John.
Sentadinho na cadeira
de palha, um deles dizia
sem notar minha presença

Você não vê que essa boca
está suja de sonhos

comprados numa esquina
num boteco qualquer?

enquanto o outro palitava
com ares de indigestão
nacos de velhas lembranças
presos por entre seus dentes.

 

Eu bem quis dizer ingratos,
mas o câmbio do ônibus
na Teodoro Sampaio
era agora uma bocada.

Ainda assombrada percorro
os dedos pela gaveta
lá estão todas as contas
os boletos, minhas feras.

 

4.

Mas no berço da noite
quando os postes lá fora
já não nos seguem mais,
e que nenhum estranho
nos baterá à porta
procurando por outra
que nessa hora não sou
– vocês fazem a festa.

Não me importo com uma
ou duas mordidinhas,
porém vocês jantaram
nossa vizinha, um homem
decerto ligará
para as autoridades,
é bem verdade que eu
bato forte nas teclas –
tanto, tanto barulho
para bichos tão curtos.

Ah, como gostaria
de recitá-los, caros,
em plena luz do dia,
todavia vocês
não têm modos, selvagens,
são quimeras, o que
fazer? Eu continuo
mesmo assim a pensar
são melhores do que tantos
homens que não cessam
de nos prescrever dias
piores pela manhã.


[1]“Aqueles olhos eram e diziam todo um poema” – do livro
As diabólicas, de Barbey d’Aurevilly.

Natasha Belfort Palmeira

Poeta, escritora e tradutora, é doutora em teoria literária e literatura comparada pela USP e pela Universidade Sorbonne Nouvelle. Publica, neste mês, A forma livre: Baudelaire e Machado de Assis (Editora 34)

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