CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Da cor do Crato
A arte pop-afetiva e LGBTQIA+ de um artista cearense
Tatiane de Assis | Edição 216, Setembro 2024
É o início de uma noite fresca de agosto no Crato, município cearense da região do Cariri, e o artista Charles Lessa se prepara para sair. Veste uma camiseta bege, de malha canelada, onde se lê na gola, bordada em preto, a palavra shui, que em mandarim quer dizer “água”. Ele vai assistir ao espetáculo OcupaDrag, no espaço cultural Casa Ninho. “É mais um experimento cênico, sem linearidade, com dublagem de músicas”, diz Lessa.
O artista de 30 anos mora em um predinho de três andares, cuja pintura amarela da fachada está descascando. Em compensação, o interior de seu apartamento expõe uma personalidade exuberante. Quase todas as paredes têm cores vivas. As da sala foram pintadas de rosa-choque e azul-turquesa. As da cozinha, de amarelo-alaranjado e azul-petróleo. O quarto onde Lessa dorme é mais discreto, com paredes em verde-claro. Um segundo quarto, onde o artista trabalha, foi pintado recentemente de branco. Lessa diz que precisava “acalmar os olhos” para produzir seu próximo trabalho, a pintura Brasa, que será mostrada neste mês de setembro no Recife, no evento de decoração Casa Cor.
Ele não pinta somente nesse cômodo: às vezes, a sala de estar também vira ateliê. Ali, as cores vibrantes da tela date de power rangers pink in açude caririense hipnotizam os visitantes. Os heróis da série juvenil ocupam o primeiro plano da obra. Atrás deles, há uma espécie de planalto. Lessa diz que é uma paisagem inventada, mas inspirada no Cariri. O trabalho fala de um encontro amoroso e tem um sutil apelo sexual. “A narrativa homoerótica é um lugar de respiro quando estou me sentindo sem inspiração”, diz ele. “Quero ser reconhecido como um artista LGBTQIA+, que articula o que seria essa vivência em seu lugar de origem.”
O artista, que também produz esculturas e murais, conta que uma referência afetiva se oculta sob a vibração pop de seus trabalhos. “Minhas cores vêm de uma estética colegial.” Sua mãe, Maria Lúcia Ferreira Alves, que morreu em 2008, era professora, e ele lembra que a ajudava na decoração da sala de aula. “Agora, ficamos só eu e minhas duas irmãs.” Seus pais se separaram quando ele tinha 4 anos.
A atividade artística cobre o sustento de Charles Lessa e uma de suas preocupações atuais é manter essa condição. Refletindo sobre seu método de trabalho, ele concluiu que tem dois modos diferentes de executar as pinturas: um mais espontâneo, outro que exige planejamento e controle.
Um exemplo da vertente livre, leve e solta é o tríptico Cenas apocalípticas. As telas são de médio formato, a maior tem em torno de 60 cm de altura e 50 cm de largura. “Fiz, no máximo, três esboços. Ampliei, como dizem, no olho. E o planejamento de cor aconteceu enquanto eu pintava”, descreve. No trabalho, veem-se três anjos em um fundo branco, neutro.
Já Cariri Delícia, mural que Lessa pintou neste ano para a exposição coletiva Bloco do prazer, no Museu de Arte do Rio (mar), teve uma execução mais controlada. A composição partiu de autorretratos que ele reelaborou em um aplicativo de edição de fotos. Depois, Lessa projetou essas imagens recriadas na parede do museu, reunindo-as num trabalho de 4 metros por 6 metros. No mural, cinco alter egos do artista aparecem em poses eróticas, todos de sunga e sem camisa, um deles com a bandeira do Brasil, emblema sequestrado pelo bolsonarismo. Em um dos bonés dos rapazes, lê-se: “Mátria Grande” (referência a um produto lançado pela marca de roupas Misci). Cariri Delícia impressionou Marcelo Campos, curador-chefe do mar e um dos organizadores da mostra coletiva. “Foi muito interessante ver uma pele sendo produzida em grande escala”, diz Campos sobre o trabalho de Lessa.
Kariri, na língua do povo indígena que dá nome à região do Cariri, significa “tristonho, calado, silencioso”. O artista conta que a mãe tinha traços indígenas, mas que ele não herdou essas características. “Sou um homem branco, pobre e gay”, afirma. “Foi uma escolha usar o Cariri com ‘c’ e não com o ‘k’. Porque o Cariri que eu falo não é aquele do povo originário, mas esse que tem sido fetichizado.” Ao ser informado que o nome do mural também é o de uma marca de linguiças artesanais da região, ele ri discretamente: “Olha, não sabia, vou ver isso.”
Cariri Delícia causou certo frisson entre curadores e críticos do Rio de Janeiro e São Paulo, nesse momento em que o Ceará tem buscado se firmar como um polo norteador no sistema das artes visuais do país. Da nova leva de artistas do Cariri, destacam-se o fotógrafo Samuel Macedo (um dos ganhadores da última edição do Prêmio Pipa) e as artistas multidisciplinares Maria Macêdo e Sy Gomes.
Apesar da interlocução com o restante do Brasil ter se ampliado, Lessa diz que ainda convive com um sentimento de isolamento. Como muitos outros jovens artistas, ele enfrenta essa sensação postando imagens de suas obras nas redes sociais. Aos que acham que o Instagram é só uma armadilha de likes, Lessa chama a atenção para outro aspecto da rede social: “Também já recebi por ali feedbacks bem técnicos, vindos de pares de outros lugares.”
