Debates bizantinos e princípios da escolástica
| Edição 170, Novembro 2020
ACESSO À EDUCAÇÃO
Boa e oportuna a matéria sobre as dificuldades dos mais pobres com a educação durante a pandemia (O ano da luta, piauí_169, outubro). Mas quero acrescentar dois pontos: primeiro, o acesso de dezenas de milhões de alunos de escola pública a aulas remotas teria sido resolvido, caso se utilizassem os recursos do Fust, como eu e outros sugerimos. O Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações só pode ser usado para o fim descrito em seu nome, que incluiria a expansão da banda larga às periferias e a entrega de pacotes de dados a crianças e adolescentes necessitados, que poderiam ser pagos pelo Fust, mas com enorme desconto das operadoras.
Segundo, muitos confundem Enem e Sisu. O Enem dá notas, mas é o Sistema de Seleção Unificada que distribui as vagas no ensino superior federal. Por lei, metade vai para egressos do ensino médio público. (As cotas étnicas são um subconjunto dessa metade, no mesmo percentual de afrodescendentes e de indígenas e seus descendentes que há em cada estado. Portanto, negros que estudaram em escolas privadas não têm direito a cotas.)
Assim, mesmo que os alunos de escolas públicas tenham notas baixas no Enem, metade das vagas é deles. Os alunos mais pobres não devem, em hipótese alguma, desistir de seus sonhos. Pâmella Campos é uma lutadora, vê-se pelos livros que está lendo; ela e todos os jovens do ensino médio público têm a lei do seu lado. Vão em frente!
RENATO JANINE RIBEIRO, PROFESSOR DE FILOSOFIA NA USP, EX-MINISTRO DA EDUCAÇÃO_SÃO PAULO/SP
LIBERALISMO CONTRARIADO
Adorei o texto de João Gabriel de Lima, As direitas em choque (piauí_169, outubro). Acho muito importante a perspectiva liberal que a piauí traz, porque quebra um pouco do maniqueísmo que fertiliza o solo desse desgoverno abjeto. Assim, respeito e cresço com o relato de liberais democráticos como Lucas Berlanza. No entanto, ao tomar o exemplo de Jânio Quadros como parâmetro de estratégia política, deveria ter se atido à história que tanto parece conhecer – seu resultado foi o golpe de 64. Digo isso porque o liberalismo encontrar frustração em Bolsonaro não é um plano de Jânio que deu errado, é um que deu certo. Pelo menos quanto à lição histórica que ele deveria ter ensinado.
DANIEL GERSTLER_SÃO PAULO/SP
MÉDICOS
Chego à conclusão de que, se recorrermos a um pajé na eventualidade de alguma doença, teremos mais chance de êxito do que se ficarmos nas mãos de médicos que foram cooptados pelo bolsonarismo mais desavergonhado (Jalecos em guerra, piauí_169, outubro). O mais preocupante é ver a AMB alinhada ao que existe de pior em todos os âmbitos da sociedade brasileira, dando respaldo aos médicos para atuarem como charlatões quando decidem se alinhar à ala ideológica nefasta que nos desgoverna.
VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
INCÊNDIO NA CALIFÓRNIA
Por meio do relato da jovem romancista gaúcha Carol Bensimon, em seu retiro em Mendocino, na Califórnia, sob o título A estética do fogo (piauí_169, outubro), foi possível entender melhor o fenômeno destruidor dos incêndios que todo ano ocorrem no estado mais populoso dos Estados Unidos. A destruição total pelo fogo de uma cidade como Paradise, em novembro de 2018, sempre foi algo inexplicável para nós, brasileiros. Como admitir que um país com tantos recursos e um estado tão rico todo ano sofram com incêndios que destroem centenas de residências e provocam dezenas de mortes?
No entanto, os negacionistas continuam atentando contra a natureza, ignorando as evidências das mudanças climáticas, encorajados por um presidente truculento e reacionário, cujos dias de governo oxalá estejam próximos do fim, com uma derrota acachapante nas eleições deste mês.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
QUADRINHOS
Gostaria de parabenizar o Samuca por seus quadrinhos intitulados Na boca do lobo (piauí_169, outubro), que nos fazem lembrar um “soco na boca do estômago”. Ele nos trouxe as imagens mais que chocantes da crueldade e selvageria que nos assola, condena uma criança inocente e absolve uma sociedade hipócrita e perversa.
VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
PETRÓLEO PÓS-PANDEMIA
Atento a cada reportagem da piauí_168, setembro, me deparei com O dia seguinte, de Consuelo Dieguez, uma análise até que muito boa sobre o panorama do consumo de petróleo e seus derivados no mundo, dada a pandemia de coronavírus. A reportagem seria excelente, não fosse o posicionamento favorecido para o lado da Shell e da Raízen, parceiras de negócios, colocadas como inovadoras e salvadoras do meio ambiente. A Petrobras, ao contrário, fica com o lado ruim, de perseguidora de um sistema falido de negócios. O que me surpreendeu ainda mais é que a Ipiranga, que figura com Raízen e Petrobras como maiores empresas de combustível do país, sequer é mencionada, ouvida ou analisada, a não ser pela capa, que traz um posto Ipiranga deteriorado. Longe de mim ser fomentador de teorias da conspiração, mas é muita coincidência, não? Não me parece nada com o trabalho que a piauí tem feito ao longo desses anos todos…
LUCAS BARBOSA_SÃO PAULO/SP
CULTURA DO CANCELAMENTO
Fiquei confuso quanto a algo que me pareceu uma pane narrativa ou editorial no texto de Miguel Lago (Derrubem as estátuas, piauí_168, setembro). Se entendi bem, o autor queria distinguir fenômenos distintos que estão sendo empurrados como “farinha do mesmo saco”: o cancelamento de perfis de influencers em redes sociais, a demissão de pessoas após denúncias levianas e a destruição de estátuas signos de outra compreensão histórica. Tentando distinguir os fenômenos, o autor encerra o texto dizendo que chamar todos os processos pelo mesmo nome de “cultura do cancelamento” é cancelar a cultura do outro.
Isso posto, o texto recebe o título de Derrubem as estátuas, como se fosse o tema central, mas não é. E, para piorar, o subtítulo repete a frase final, mas faz uma mudança drástica, dizendo que quem reclama da cultura do cancelamento está cego (para a cultura do outro). Pois bem. Título e subtítulo reproduzem o erro que o texto pretendia denunciar: tomar uma coisa (a derrubada das estátuas) pela outra (a cultura do cancelamento). Pior, “chamar”, no parágrafo final do texto, tem sentido de classificar, reduzir. “Reclamar”, no subtítulo, tem sentido de reclamar mesmo: se opor, debater. A piauí, em um caminho raro de desatenção (eu espero), está dizendo que quem se opõe está cego. É uma armadilha textual e tanto.
TIAGO MARIN_SÃO PAULO/SP
NOTA SEMÂNTICO-ARGUMENTATIVO-DIALÉTICO-TERGIVERSANTE DA REDAÇÃO: Se entendemos bem (o que, admitamos, não acontece com frequência), o fato de o autor discriminar fenômenos não o impediu de lançar contra cada um deles as flechas demoníacas da sua dialética. “A derrubada de estátuas é saudável e um símbolo de sociedades democráticas”, diz ele, no alentado trecho dedicado a figuras históricas em pedestais. Pois bem, assim como Moby Dick não chega a ser propriamente um livro sobre baleias, achamos – nós e o autor – que o título era funcional e tinha lá o seu apelo. Quanto a chamar e reclamar, é certo que há aí uma distinção. A questão é saber se essa distinção encerra também uma diferença. A redação está dividida. Leitores, manifestem-se! (E com isso inauguramos a Seção de Debates Bizantinos da revista. Notas para a redação, de preferência em latim ou grego, e contendo silogismos.)
SETEMBRO
Me surpreendi com a capa da piauí_168, setembro: um posto Ipiranga detonado. De cara, a imagem remeteria a um ministro deste atual (des)governo, mas no meu caso é diferente, pois meu pai trabalhou 22 anos nessa empresa, e foi acompanhando suas viagens de trabalho para reparo nos equipamentos dos postos que aprendi a conhecê-lo, admirá-lo e seguir na minha vida adulta os exemplos que ele me legou por meio de seu relacionamento com os clientes (os donos de postos).
Continuo a folhear e vejo fotos de uma menina em uniforme de campo de concentração nazista (Os olhos eram azuis). Descubro que a autora dessa mágica, feita a partir da colorização de fotos em preto e branco, é minha vizinha de cidade, levemente autista e que ainda não publicou nada no Brasil. Um trabalho fantástico que recupera detalhes do passado que muitos se esforçam para não ser esquecido.
Chego à seção de cartas e me detenho nos comentários sobre o artigo A morte e a morte (piauí_166, julho), no qual se destaca mais uma característica do atual presidente de Pindorama: a covardia. Não merecíamos isso: um sujeito covarde decidindo o futuro de um “país do futuro”. Que futuro? Acho que quem sobreviver terá muito que reconstruir, se futuro houver.
Volto algumas páginas e leio sobre a cultura do cancelamento (Derrubem as estátuas). Peraí, acabo de me esforçar para não esquecer a tragédia que foi o Holocausto, me dou conta de que temos um covarde destruindo o presente e o futuro de um país, e me pergunto: O que se ganha derrubando a estátua do Cristóvão Colombo, do comerciante de escravos na Inglaterra ou dos generais confederados, se elas foram colocadas ali em outro contexto histórico, um tempo que já passou? Me vêm à mente os “cancelamentos” feitos por Stálin, ao apagar nas fotos oficiais o rosto dos opositores assassinados sob suas ordens. Estátuas foram derrubadas no Leste Europeu ao fim do regime soviético, do regime de Saddam Hussein e, inclusive, ao fim da ditadura Vargas no Brasil no momento exato dos acontecimentos. E hoje? Por que derrubamos estátuas? Não estamos abolindo a escravidão, mas procurando corrigir os erros ocorridos depois dela. Não podemos cancelar o passado, e a colocação de estátuas faz parte dele. Sugiro aos revisionistas que, em vez de derrubar monumentos, procurem encontrar um meio de utilizá-los didaticamente, como acontece com o que restou dos campos de concentração nazistas.
Comemoro os 14 anos da piauí esperando que, se estas “mal traçadas” forem publicadas, eu tenha como recompensa um pinguim para colocar em cima da minha geladeira.
LUIZ ANTONIO SCHETTINO VALENTE_CONTAGEM/MG
NOTA REMISSIVA DA REDAÇÃO: Veja resposta anterior. Para merecer o pinguim é necessário nos enviar uma peça argumentativa ancorada nos melhores princípios da escolástica. Uma sólida base de conhecimento do trivium medieval – lógica, gramática e retórica – certamente ajuda, mas na falta de tempo nos satisfazemos com a retórica, contanto que seja empregada para nos elogiar bastante. Uma boa ode ou um madrigal jeitoso sobre as nossas realizações também cai bem. Se em língua morta, então, aí é pule de dez.
MISSIVISTA CONTUMAZ
A preservação do espaço do leitor – este nosso cantinho – é fundamental para a verdadeira interlocução com os que enfrentam a robusta edição da piauí e ainda têm fôlego para algo dela dizer. Não façam como outras coleguinhas, que reduziram as cartas para mera meia página.
Mas é importante revelar por que a capa da piauí_168, setembro, passou a ser retratada no site e na própria revista sem o colorido original que indicava explicitamente a marca do ainda famoso posto de combustíveis. Questão jurídica? Em The BolsozApp Herald passou a ser usado o nome de outra rede, e isso pode, só porque diz respeito ao cálice sagrado? Vou entender silêncios como sins. É uma conclusão quase científica, contrária à prática médico-palaciana de subverter a verdade a seus ditames, como nos revelou Bernardo Esteves em Jalecos em guerra, piauí_169, outubro. Também lamentei o fim do concurso literário, ainda mais agora que estava pegando o jeito de convencê-los da seriedade daquela inusitada junção mensal de palavras. Na divulgação dos textos nas redes (anti)sociais, ganhei mais lovers do que haters. Se não criarem outro certame, porém, parte daquela ficção onírica vai ser transferida para cá, é inevitável.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA JUNGIANA (?) DA REDAÇÃO: Não foi o Jung que falou em sincronicidade? Não que a gente saiba do que se trata, mas cabe perguntar se o fenômeno não acaba de se manifestar por aqui. Se não, vejamos: na mesma hora em que a gente anuncia a criação de uma nova seção de esgrima verbal aberta ao público (duas cartas atrás), você nos alerta para o risco de o certame literário migrar para cá. Sentiu o arrepio do unheimlich? (Talvez a gente esteja misturando os nossos psicanalistas.)
A POLÍCIA E O ESTADO
O excelente artigo Democracia despedaçada, da piauí_168, setembro, traz luz aos personagens importantes da causa antifascista. É necessário que a imprensa progressista faça uma cobertura maior dos agentes da segurança pública que se engajam na tentativa de desmistificação da ideia de que a esquerda não se envolve com segurança pública.
A extrema direita no Brasil abraçou a pauta e o que vemos é a bolsonarização dos quartéis e das delegacias. Diante desse cenário, é preciso conexão entre os movimentos sociais e os trabalhadores da segurança pública.
Estou na Polícia Militar do Espírito Santo há nove anos.
LUCAS ALMEIDA SUPELETE_CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM/ES
ATO FALHO
No texto Utopias e ruínas (piauí_167, agosto), Rafael Cariello cita uma declaração de Nuno Ramos para comentar nossa alienação quanto às mortes causadas pela Covid-19. Diz ele, referindo-se ao número de mortos pela pandemia (então 60 mil): “Sessenta mil mortes é um Vietnã por ano.” O que é isso, cara-pálida? Sim, foram mortos 60 mil norte-americanos, o que é triste, ainda mais se considerarmos que a maioria era jovem. Mas e os asiáticos do Vietnã do Sul e do Norte, do Camboja, Laos… Foram cerca de 2 milhões! Bebês, muitos ainda no ventre das mães, crianças, homens, mulheres, jovens e idosos, a maioria vítimas da dupla assassina Nixon-Kissinger, então esses não contam? Por quê?
CLAYTON LUIZ CAMARGO_CURITIBA/PR
NOTA CURTA DA REDAÇÃO: Por quê? Porque erramos feio.
