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    ILUSTRAÇÃO: LEANDRO ILUSTRADO_2020

ficção

Domingo medonho

Era só vírus pandêmico e verme fascista cagando no seu dia

Reinaldo Moraes | Edição 165, Junho 2020

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O cara acorda meio esquisito num domingo. Tinha pensado que, na noite anterior, iria finalmente trepar com a mulher, aproveitando a ausência das filhas e genros. Mas não rolou. Jantaram um resto de sopa e foram pra cama, onde ficaram por uns minutos de mãos dadas antes de pegar no sono.

Uma pessoa, homem, mulher, acorda meio assim-assim, depois duma noite involuntariamente branca de sexo, porque o tal do outro – da outra, no caso – deu de trocar o tesão pelo sono, e bye-bye. Normal. Quantas vezes ele é que não foi esse outro mocorongo que não tá a fim de nada.

Enfim, paciência. Não é o fim do mundo, disse pra si mesmo quando acordou antes da mulher, que dormia pesado. Foi fazer seu shit-stop no banheiro, onde, sentado na privada, decidiu que não tomaria banho. Se calhar, nem os dentes eu escovo, ameaçou. Day off, porra.

 

Na sala, abriu a cortina e a porta de vidro que dava pra varanda. O domingo dava show de sol, lá fora. Dentro dele, trevas: pandemia que podia pegá-lo na esquina, aquela pilha de décadas que o tempo tinha jogado em suas costas, o desinteresse da mulher por ele à noite, a conta bancária no vermelho, o romance longo que faltava acabar e revisar mil vezes, e editar. Teria tempo e condições pra isso?, era a perguntinha chata que não queria calar. Ou seria ceifado por uma coronada nos pulmões, deixando centenas de páginas mofando no computador, até que alguém limpasse o HD de modo a aproveitar o notebook pra algo mais útil do que fazer literatura?

Nem o gato, nem a gata de suas filhas se adiantou pra responder essa questão de caráter estritamente biológico, mas com pesadas implicações existenciais. Só o macho foi até ele pra requisitar as coçadas carinhosas na barriga que costumava receber em seu colo, feito um bebê.

Entrou na cozinha e contemplou com alívio a arrumação, tudo limpo e no lugar. Isso porque ele tinha adiantado o serviço, limpado tudo na noite anterior, louça, fogão e chão. Era seu encargo de toda manhã, na divisão de tarefas domésticas do kibutz da quarentena. Fazia também o café, que deixava na térmica pra mulher e quem mais estivesse em casa.

 

Mas, hoje, necas de café, decretou. Day off é day off, ora pois. Comeu, então, uma banana, tomou um copo de suco de pacote e se largou no sofá com o jornal do dia que acabara de catar na soleira da porta. Eis que, página a página, matéria a matéria lida, viu-se afundando numa pegajosa depressão que cancelava qualquer promessa de paz dominical. Era só vírus pandêmico e verme fascista cagando no seu dia.

 

Já estava acabando de ler uma matéria sobre uma enfermeira que se infectou, quase morreu no inferno da mesma UTI onde trabalhava, mas conseguiu se curar e voltar ao trabalho de atender pacientes graves de Covid, quando sua mulher surgiu na sala, estremunhada e bocejante, tentando se convencer de que estava acordada.

Ela foi até ele com um meio sorriso sonado e deu-lhe um selinho de boca seca.

 

“Tô cum fome”, ela declarou depois da beijoca, a caminho da cozinha, onde entrou. Um segundo depois, voltou com a térmica vazia na mão:

“Num fez café?”

“É que decretei que hoje é meu day off, tá ligada?”, o cara respondeu, imitando um garotão moderno. “Não quero hora pra nada. Pretendo escrever, mas só quando me der na telha.”

Mal acabou de dizer isso, achou que a nonchalance podia passar por grossura e tentou consertar, sem muita convicção:

“Deixa que eu faço o café.”

“Eu faço, não se incomode”, ela respondeu, com uma dose até que suave de ironia, voltando pra cozinha.

O cara continuou sua leitura, cada vez mais acabrunhado com as notícias e também, agora, sentindo-se em dívida com sua mulher, por causa do café não feito e de sua própria cara de bunda logo de manhã. Ao que parece, as mulheres não ficam muito felizes ao acordar e se deparar com uma cara glútea dessas. Mas, como já se cansou de dizer Édith Piaf, c’est la vie.

Enquanto sorvia as más notícias e as análises de conjuntura mais sombrias, sua esposa tomava o café da manhã, em silêncio, pois via que o marido, de nariz enterrado no jornal, não queria papo com ninguém, sendo que ninguém ali era ela, outra situação pouco amigável para o comum das esposas. O incomum das esposas não sei o que pensaria diante de um marido casmurro. Capitu certamente o mandaria tomar naquele lugar em que o sol não bate e que rima curiosamente com seu nome.

De qualquer forma, o cara terminou de ler a história da heroica enfermeira rediviva, sapeou as páginas de economia, que todos os dias anunciavam a iminente bancarrota nacional que haveria de mergulhar o país no apocalipse social, e as páginas de esportes, carentes de campeonatos pra comentar, e fechou o jornal, com enfado e um misto de repugnância e medo pelo mundo. Entretanto, anunciou:

“Vou andar. E você?”

A mulher mastigava um naco de tortilha de tapioca recheada com queijo que ela acabara de fazer, tomando seu café recém-passado. Deglutiu sem pressa a comida antes de dizer:

“Você sabe que dia é hoje, né?”

“Domingo?”

“Dia das Mães.”

“Ah, é. Tinha esquecido. Quer dizer, não tava me tocando. Ou seja…”

“Não vai me cumprimentar? Sou mãe das suas filhas, lembra?”

“Mas já comemoramos ontem esse Dia das Mães, não? Já brindamos, e tudo”, ele retrucou, com má vontade e um ímpeto de chutar o saco do filho da puta do marqueteiro de loja de departamentos que inventou o Dia das Mães, o Dia dos Pais, o Dia dos Namorados, o Dia das Crianças e o idiota do Papai Noel.

Mãe, mãe, mãe, mãe. Mãe é uma mulher que ficou louca, como disse uma jovem escritora que depois virou mãe, ela também.

Na noite anterior, a família toda, mais os namorados das filhas, tinham traçado na mesa ali da sala um nhoque de Dia das Mães antecipado. Ele e a mulher confiavam no mais estrito confinamento de seus genros na casa de seus pais. Eram três famílias em conúbio romântico ali, digamos assim, mas supostamente livres do contato com o vírus, sempre retratado como aquela bolinha de borracha com ventosas que grudava em superfícies lisas e uma vez ficou grudada na testa, atirada por sua filha mais velha. Enfim, as pessoas acreditam no que querem acreditar.

Um dos genros era um cozinheiro de mão-cheia e fez o nhoque, de batata. Deixou uma louça cataclísmica pro pater familias lavar. Hoje, o pater familias não queria lavar nem uma colherinha de chá. As filhas tinham ido à casa dos respectivos sogros, donde ele e a mulher estarem sozinhos no apartamento.

Sua mulher recomeçou:

“A comemoração foi ontem, sim, antecipada, e, fora lavar a louça, você não fez mais nada. As meninas e os rapazes é que fizeram tudo, programaram até o presente. Você só comeu e bebeu. E contou caso velho e piada manjada. E vem dizer que hoje é seu day-off.”

O pater escritor ouviu aquilo pensando: se todos já tinham feito tudo, por que ele deveria ter feito algo? E se aquela data, tão comercial, já tinha sido comemorada ontem, por que cargas d’água haveria de cumprimentar de novo sua mulher hoje? Se mãe é uma só, o Dia das Mães também tinha que ser um só, mesmo que caia num sábado, argumentou em causa própria, mas em cauteloso silêncio. Sem contar que ele tinha algo mais urgente em que focar sua preciosa atenção: o romance de oitocentas páginas que estava escrevendo fazia arrastados sete anos, e que demandava todas as horas disponíveis do seu tempo.

Sentindo que tinha pisado na bola conjugal, mas sem ânimo mental pruma DR, declarou mais uma vez à praça:

“Vou andar um pouco. Tchau.”

Sem olhar pra ele, a mulher devolveu, como quem rebate uma pedrada com um taco de beisebol:

“Tchau.”

 

A secura daquele diálogo, tchau-tchau, não augurava boa coisa praquele domingão. Não era o que ele estava pensando como day off. Um segundanista de psicologia numa faculdade de quinta não hesitaria em diagnosticar: humor estragado pelo efeito quarentena. Nada a fazer, enquanto o bicho-papão estiver lá fora comendo carne humana, obrigando as famílias a um intensivão de convívio.

Pegou sua máscara e desceu pro térreo pelas escadas, como andava fazendo, pra evitar o elevador. Alguém tinha lhe dito que a porra do vírus fica até seis horas zanzando no ar confinado daquele caixote revestido de aço escovado. Você aperta o térreo e, quando a porta se abre, periga de se ver no fundo da sua cova, depois de uma semana se afogando numa cama de UTI.

Outro vírus, porém, tão insidioso quanto o corona, descia com ele aqueles degraus de concreto da escada de serviço. Esse outro vírus começava a colonizar seu coração, fincando nele a mesma bandeira preta que Baudelaire sentiu cravada em seu crânio pela angústia. Esse, aliás, era o nome do vírus que acabara de se inocular nele: angústia. Aquele francês sifilítico sabia o nome certo das coisas.

Na rua vazia de gente, o ameno sol de outono revelou-se inútil. Toda a paisagem era inútil, como no samba bossa-nova do Jobim, mas sem a beleza melancólica da música. Não havia mais nada no Universo que lhe interessasse. Só havia aquele tchau da sua mulher – ainda era sua? – toldando a alma, impedindo que ele aproveitasse a quentura branda do sol de outono.

Tchau.

E nada mais. O mundo, perecível mundo, desmoronava a cada passo que ele dava. Quantos passos lhe restavam dar nesse mundo? Quantos tchaus ainda daria, receberia? Se os gatos não sabiam, quem haveria de saber? As mães? Não, as mães estavam se entupindo de nhoque com seus filhos e filhas e genros e noras e netos, ou fazendo videoconferências com os filhos e filhas e genros e noras que acharam mais seguro não chegar perto delas, pra não correr o risco de contaminá-las.

Tcha-tcha-tcha-tcha-tchau!, disparava a metralhadora giratória da realidade pra cima de todo mundo, categoria na qual ele se incluía compulsoriamente. Pensando nisso, viu se aproximar, na mesma calçada, uma moça de rabo de cavalo que passeava seu cachorrinho de alguma raça felpuda e besta. Tinha o cabelo aloirado, a moça, era magra, parecia um pouco com sua filha do meio. Usava uma máscara bicuda, azul, elegante. E óculos de sol. Com toda aquela elegância, ela era também como todo mundo e podia ser vítima de uma bala perdida da tal metralhadora viral, se não for antes de uma bala de chumbo.

Tchau-tchau, bambina, foi o que ecoou em sua cabeça ao cruzar com ela. Ciao Ciao, Bambina é o nome duma canção italiana que fez muito sucesso na sua juventude, na voz do Domenico Modugno, cantor que dificilmente se ouve hoje. Domênico, como se pronuncia, parece o masculino de domenica, que quer dizer domingo, em italiano. E Modugno lembra automaticamente medonho. Domingo medonho. Ecco, como diria Umberto Eco.

A garota, que não devia ser telepata diplomada, não deu mostras de ter ouvido aquele ciao ciao, bambina mental, e ele apostaria todos os escassos caraminguás que trazia no bolso na hipótese de que a garota nunca ouviu falar no Domenico Medonho. De qualquer maneira, ela passou na mais tranquila indiferença por ele.

O cachorrinho é que lhe deu um baita susto, ao desatar seu latido estridente. Filho da mãe, pensou o escritor. Filho duma comemoradíssima mãe neste domingo medonho.

Reinaldo Moraes
Reinaldo Moraes

É escritor, autor de Maior que o Mundo

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