ficção

DONA JOSEFA

A briga era contra a política conservadora estendida como véu espesso sobre o Império
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Josefa Carneiro de Mendonça nasceu em Santa Luzia de Goiás (GO), em 1780, e mudou-se na infância para Araxá (MG). Quando eclodiu a Revolução Liberal de 1842, em oposição à política conservadora do segundo ministério de Pedro II, Josefa assumiu a liderança do movimento no oeste de Minas. Em razão disso, foi presa por cerca de dois meses e meio, julgada e, por fim, inocentada, depois que o defensor fez convergir todas as responsabilidades para um filho dela, também líder na revolução. Em 14 de março de 1844, o imperador concedeu anistia a todos os implicados no movimento. O núcleo familiar de Josefa deixou Minas e se estabeleceu em Petrópolis (RJ), onde suas terras dariam origem, anos depois, a um bairro conhecido como Posse dos Carneiros – hoje, simplesmente Posse. Foi também em Petrópolis que ela morreu, em 1855.
A seguir, piauí publica um trecho do livro Dona Josefa, ficção histórica sobre a líder revolucionária.

Comparado a Salvador, detido tinha bom tempo, o carcereiro não passava de recém-chegado. Fora posto ali graças às interferências na ordem judiciária do país, feitas pelo segundo ministério do imperador menino – em operosa atuação desde março de 1841 – mudando disposições baixadas ainda sob dom Pedro I, em 1827, e resistindo, a bem dizer, impávida desde lá. Entre outras novidades os carcereiros passavam a ser nomeados pelos chefes de polícia e esses, por sua vez, a ter direito de mando sobre juízes de paz e municipais, definidos não pelos membros da comunidade jurídica de cada lugar, como antes, mas nomeados pelo imperador ou pelo presidente da província, atingida também em sua tradicional autonomia, bastante ativa, até a declaração da maioridade em 23 de julho de 1840. Ou seja, a independência das províncias – como já ocorrera com os municípios nas alterações da Constituição, em 1834 – minguava no ímpeto inverso em que a centralização crescia nas mãos do monarca, do gabinete de ministros e do Conselho de Estado, o Poder Moderador, atento, por trás de tudo.

Com muita determinação, um tanto de arbitrariedade e outro tanto de força militar, o ministério dos conservadores se opunha em armas às revoltas separatistas de norte a sul – Balaiada e Farroupilha, nesse período –, tolhia a imprensa, deportava adversários, interferindo no funcionamento da Assembleia Geral Legislativa de 1841 e das assembleias legislativas provinciais, além de levar com rédea curta quem não aprovasse seus métodos, mais para autoritários. Em compensação trazia de volta o Conselho de Estado e o Poder Moderador, quase desativados no período da regência – de 1831 a 1840 –, de forma a permitir que a máquina administrativa fosse ganhando o país na intenção de unificá-lo, organizá-lo melhor, reservando o controle político ao jovem imperador e a seus ministros. Assim como instituindo a defesa severa das bases nas quais se assentava a monarquia constitucional: sistema representativo com Senado e Câmara dos Deputados respondendo pela feitura das leis e sua prática, em harmonia com o Executivo e o Judiciário, aos quais se juntava, justamente, esse Poder Moderador reativado, atribuição exclusiva do monarca, juiz final de todos os impasses.

À sua maneira e contando apenas com recursos sem muito aparato, próprios dos homens do povo, o carcereiro percebia muito bem, apesar disso, a lógica desse traçado feito de cima para baixo, aderindo a ele por inteiro. Então era natural a fidelidade aos conservadores que, no Araxá, o haviam tirado de uma vida incerta como servente de botica trazendo-o para o abrigo seguro do Estado, tão logo as reformas do gabinete conservador deixaram o papel para enveredar prática adentro. Diante disso, não se furtara a tomar posição contra os rebeldes e contra todos os princípios defendidos por eles nos conflitos de 1842, grato a quem havia tornado sua existência e a dos seus menos sujeita aos sobressaltos de uma economia mirrada como a do Império brasileiro, sujeitando a uma sina triste a população informe à qual ele pertencia, espremida entre os de cima e o trabalho escravo.

Mas se o emprego novo trouxera certa tranquilidade, havia atiçado inclinações prontas a incandescer, lançando chamas a qualquer pretexto sobre quem lhe espicaçasse os horizontes estreitos, caso o infeliz estivesse em situação frágil de vida. Nesse rumo Josefa parecia ter sido feita de encomenda para a má vontade do carcereiro, sabedor de um tanto de casos em torno dela e da família dela, trabalhando por muito tempo, como trabalhara, na botica do Araxá, onde se preparavam elixires, pastas, pastilhas, poções, pós e unguentos para males inumeráveis, está dito, mas que servia também como ponto de encontro dos conservadores e da gente bem-posta da vila. Circunstância favorável para a entrada na vida pessoal de muitos pelo viés corrosivo da futrica, manipulada com destreza, ele já feito carcereiro, pleno da autoridade e do zelo trazidos pelo cargo recente. Quando vários dos que observara sem ser notado – de cócoras sobre o assoalho; limpando balcão, frascos, vitrines; atendendo aos pedidos incessantes do boticário e do auxiliar às voltas com as manipulações – acabaram indo parar nos chãos da cadeia, vencidos em Santa Luzia. E foi graças ao delegado, assíduo nessas reuniões – voltadas entre outras coisas para o enfraquecimento dos clãs liberais pondo e dispondo desde sempre na região –, que o servente passou a carcereiro devido a um gesto fortuito com o qual, pode-se dizer, salvou da morte o homem certo para dar jeito em seu destino, homem nomeado um ano antes – em 1841 – pelo chefe de polícia, autoridade vindo logo abaixo do presidente e de seu vice na hierarquia do poder provincial, em Minas Gerais.

A história se passara mais ou menos assim. Certo fim de tarde, quando a veemência política inflamava um grupo alentado reunido na botica, haviam atingido os píncaros da lua os protestos contra a reação à troca dos gabinetes na Corte – o de 1840 pelo de 1841 –, com a consequente derrota dos liberais pelos conservadores. Mesmo todos ali apoiando o novo gabinete, ânimos exaltados, vozes alteradas, dominava grande atropelo por causa da indignação com a resistência, em São Paulo e Minas, às disposições expedidas pelos ministros, empenhados em lançar métodos de controle administrativo mais eficientes sobre a vastidão sem tamanho do Império.

Apopléticos, vermelhos até a raiz dos cabelos, os que ainda os tinham; carecas inflamadas brilhando à luz dos candeeiros recém-acesos, os que já se viam quase sem nenhum fio; murros sovando o pobre balcão de atendimento pondo em risco a integridade das receitas aviadas em fila; o tropel do sapateio no piso de tábuas rangendo precário mais o barulho dos frascos tilintando em falsete, era esse o pano de fundo para a fúria conservadora. E aos pinotes no meio desse alvoroço, boticário e auxiliar trançavam das manipulações à sala de atendimento, divididos entre o desejo de participar daquele cafarnaum, o cuidado requerido pelo preparo dos remédios e o olho no prazo de entrega.

Em meio à bagunça o futuro carcereiro que, entre parquíssimos dons, possuía o de ser consciencioso, começou a mostrar um incômodo legítimo diante do interesse crescente de ambos pelo estardalhaço, naquela luz mortiça do dia se acabando. E ciente do tanto de concentração exigido pelo ofício e do perigo atrelado ao menor deslize passou a tomar conta deles, tal perdigueiro fiel como pedia sua maneira de ser. Ficava por ali atento como se varresse o piso ou limpasse a mesa de aviamentos, antecipando o vidro adequado para o envase de alguma poção, o tempo todo perto como se antevisse o desastre.

De repente – dito e feito –, percebeu no auxiliar a iminência de um engano que teria sido fatal. Com o ouvido pregado no berreiro, meio ausente do próprio gesto, o rapaz estendeu o braço em direção a um frasco de cianureto de potássio, droga letal, quando a receita pedia, na verdade, cloreto de potássio. Tratava-se do preparo de um remédio para o delegado, portador de ligeira insuficiência cardíaca – batedeira –, na qual era assistido com algum sucesso pelo boticário; assim aportara com família no Araxá por conta das tais reviravoltas provocadas em toda parte, como decorrência da política do novo gabinete imperial.

Então, dando um pulo, o servente, que de transitar pela botica anos a fio tinha retido alguma informação sobre a natureza das substâncias, segurou o assistente pelo braço antes dele derramar o malefício preparo adentro.

Nesse exato instante, por obra de um acaso improvável, o delegado entrou no quartinho para reclamar da muita demora no aviamento assistindo, pasmo, à cena. Espanto que só fez crescer quando percebeu ser o descuido justo em cima da receita dele, passando a gritar, fora de si, descompondo o assistente e o próprio boticário a quem responsabilizava em altos brados. Rompante e descompasso de todo desapercebidos pela turba ao lado urrando contra os liberais paulistas e mineiros mais os conflitos por trás daquela revolta sem nenhuma grandeza, diga-se de passagem, travada por uma fatia de gente de proa contra outra fatia de gente da mesma origem, apenas cidadãos de gravata e meias, os dois lados se batendo pela defesa de diferentes aspectos de um conjunto de privilégios em tudo equivalentes. Resultado: auxiliar despedido e servente feito funcionário público como recompensa pela iniciativa providencial.

Bom dia, dona Josefa! – e rodando a vista o carcereiro soltou surpreso: – Ué, vejam só! Mas isso aqui está muito catita, diferente de ontem!… Seu amigo Salvador deu boa conta da limpeza! Quem havéra de pensar ter desfrutado da companhia da senhora aquela ratazana, vertendo sangue a noite toda e entrando madrugada adentro?!

Num salto ágil Josefa sentou no catre mortificada por ter sido pega assim, moída pela insônia longa da véspera. Deu um jeito na saia puxando até os pés e, tendo desamarfanhado com empenho desmedido duas ou três pregas, pôs as mãos sobre os joelhos, as costas no prumo, retomando a postura austera habitual para, só então, fincar os olhos nas pedras fazendo não ouvir nada, colhida pela surpresa, sem polícia de si, justo ela a quem filho algum e mesmo nenhuma das filhas jamais vira com os pés descalços. Ficava o consolo de, naquela manhã, não ter escutado o tinido metálico das chaves batendo umas nas outras cada vez mais perto, até o carcereiro abrir a porta e aparecer – como no raiar de todos os dias –, trazendo o café sem graça e disparando a falação:

– Diz que seu filho – aquele, o chefe insurgente –, levou uma surra danada aqui na banda sul da vila. Teve correria para todo canto, confusão, muito tiro: dois baleados e um morto, entre os nossos, para mais de trinta, entre os dele, e um despotismo de homem estropiado. E diz também que passada pouca luta – menos de quatro horas – largou tudo para trás e saiu fugido para o Desemboque. Foi assim, dona Josefa? Estará por lá até hoje? Não há meio de a nossa gente encostar nele, parece até que abriu o chão e entrou… Esse pode não ser bom de tiro, mas para sumir assim, mundo afora, estou para ver outro igual!…

– …

– O coronel seu marido também escafedeu… Não sendo ele – abespinhado e mandão como poucos –, nenhum outro vai poder tirar seu genro e a senhora dessa cadeia… Já se viu coisa mais desconchavada?…

– …

– Falando em genro, os seus, nesse desvio por onde entraram, estão pagando muito alto… Que remédio, não é mesmo? Um longe, desterrado; outro aqui dentro, na solitária dele arrastando corrente grossa. Gente importante pondo tudo a perder por conta dessa revolta infeliz tramada contra um imperador quase criança!…

– …

– Até parece assunto de republicano… Republicano é quem refuga, rei, rainha e imperador revirando tudo de ponta-cabeça para entornar outros modos de governo goela do povo abaixo…

– …

Matraqueando a mais não poder o carcereiro ajeitou a solitária por alto e a contragosto, depois de ter posto a bandeja com o café na mesinha escalavrada. E sem esperança nenhuma de retorno, fadado, ali, a resmungar sozinho, saiu deixando o urinol de que Josefa tinha feito bom uso, por sinal, desde que, na manhã anterior, Salvador o pusera limpo de volta, num dos cantos da cela.

Mal se viu sozinha deu conta do café insosso daquela e das outras manhãs, sem prestar atenção ao que punha para dentro. Depois, arriada pelas noites maldormidas, deitou de costas no catre fixando o teto caiado sobre a massa irregular da alvenaria tosca, muito pouco acolhedor. Diferente da taquara trançada servindo a todos os cômodos da Bela Fama, taquara da melhor estirpe colhida na lua minguante: forro vegetal dava muito aconchego. Fazendeiro caprichoso, o marido só colhia no tempo certo livrando as tiras da umidade e, com ela, da broca, do caruncho e do cupim que, em lunações diferentes, poderiam comprometer a duração do trançado. Quantas e quantas vezes na casa de amigos, parentes, levantando os olhos da prosa ao teto Josefa vira aquele tanto de sinal – mofo, roedura de insetos – acamado na taquara ao longo da transpiração vegetal, a colheita não tendo esperado a lua dos meses secos de maio, junho, julho e agosto.

Da criação o marido também não descuidava. Os capados – gordos, lustrosos – eram mantidos com a lavagem diária mais fubá misturado no soro de leite, vertidos nos cochos para alegria de porcos e porcas antecipando, pelo faro, o escravo, vasilhame de lata pesado no ombro. E era uma festa de grunhidos às três da tarde todos os dias, tão estridentes que, sempre numa enfiada respeitável de obrigações, Josefa passava de uma a outra sem precisar do carrilhão na sala de jantar: era ouvir a berraria do chiqueiro e a hora estava dada para ela seguir na fileira das tarefas dentro de casa.

Aviso parecido vinha pouco adiante com o alarde sonoro das galinhas, galos, frangos, patos, gansos, marrecos e perus. Todos se estranhando aos rodopios – meia hora antes da Ave-Maria –, largavam um tanto de penas no corpo a corpo por um naco de poleiro para varar a noite, papos cheios de quirera, bicadas para todo lado e o uníssono dos cacarejos, grasnidos, grugulejos, verdadeira neurastenia altissonante aborrecendo quem estivesse perto.

O marido também enfrentava com um jeito danado – como poucos fazendeiros em torno dela –, os curativos, castrações e partos de animais. Certa vez, e Josefa lembrava bem, uma vaca ficou com o útero pendurado para fora depois de uma parição difícil. Todos achavam que, à infeliz, só restava morrer. Pois o marido, com jeito e paciência, foi jogando água corrente por bom tempo, depois besuntou com um óleo apropriado e conseguiu empurrar tudo de volta. E ainda costurou para ficar seguro e não ter perigo daquilo escapar de novo. Essa vaca, uma holandesa de boa raça – Sultana –, era muito gorda, já tinha dado três ou quatro crias e na hora de parir as contrações foram fortes para lá da conta. De certo por estar envelhecendo com tudo já meio frouxo dentro, o útero veio junto com o bezerro e foi aquele Deus nos acuda. Mesmo assim o marido conseguiu salvar a cria e até a Sultana que ainda viveu bastante: quando chegou a hora do corte, deixou muita carne alimentando muita gente por muito tempo. Mas, no dia do acontecido, Josefa não tinha aguentado ficar no curral – vendo –, com pena da pobre suportando quieta, quase sem mexer, um escravo atracado no rabo durante toda a operação de modo a não interferir no empenho do marido… E era muito feia aquela carne parecendo uma esponja viscosa cor de ciclame pendurada vulva abaixo, exposta ali, fora do lugar, sem outro ofício nem benefício a não ser produzir um descompasso sem tamanho: nela, por causa da tristeza que dava; no marido e nos escravos, porque horas e horas pelejando sem descanso naquela dificuldade para não deixar a Sultana ir embora para sempre.

Nesse vai e vem do pensamento Josefa entrou pela manhã fazendo força para não deixar a cabeça ir na direção das provocações do carcereiro. O que ele sabia – fechado o tempo todo na cadeia – de uma luta briosa como tinha sido a luta dela e de boa parte da família ali mesmo, no Araxá, antes de bandear, derradeira tentativa, para os altos de Paracatu? O que ele sabia do imenso desconsolo pelo fracasso do ataque às forças legalistas na parte sul da vila, quando um dos filhos, bandeira do Império na mão esquerda e garrucha na direita, ordenara o ataque? Mas isso, só depois de louvar bem alto o regime e o imperador – para todo mundo em torno ouvir –, recitando uma por uma as palavras de costume. As mesmas, sem tirar nem pôr, repetidas pelos conservadores em situações parelhas, ditas no lado e no terreno deles. Então, republicanos, onde? Invencionice para justificar achaque, pilhagem, confisco e prisão truculenta sem processo nem culpa formada. Eram tantos os crimes alardeados pelo governo! Algum sempre haveria de se ajustar ao infeliz não se portando de acordo com os padrões da legalidade, fosse por ter conspirado, fosse por sedição ou por qualquer outra coisa. Os do partido inimigo sempre arranjavam um tanto de razões, de chofre e sem piscar: uns degenerados! E ainda por cima esse favorecimento aos fazendeiros de café por trás de tanta decisão: coisa de fluminense, de gabinete fluminense como esse, dando as cartas tinha um ano! O que seria do Rio de Janeiro sem o abastecimento de todos os dias feito por Minas e por São Paulo? De leite, manteiga, queijo, carne, toicinho, linguiça, açúcar, algodão, milho, arroz, feijão?… Tomando só o café do Vale do Paraíba é que ninguém ia se aguentar de pé… Então como, as fronteiras das províncias rebeldes fechadas para a sede augusta do Império?

Saltando da escuridão daquele cubículo atrás de mais um palmo de memória, Josefa emborcou no mês de julho quando, entre 18 e 19 – família dela à frente –, os rebeldes do Araxá destacaram um grupo para observar as forças legalistas, já alertas aos indícios de ataque. Porque estivera envolvida até a raiz dos cabelos com o assunto, nas ordens, contraordens, providências, arregimentações e, de acordo com seu feitio, conspirado a céu aberto fazendo da Bela Fama um centro ativo de resistência ao ministério de dom Pedro ii, às novas leis, tendo, ainda por cima, apoiado o presidente interino da província, chefe eleito pelos revoltosos, desafiando o outro, o da legalidade, posto em Minas pela Corte. Apesar de sempre declarar obediência fiel ao imperador e à Constituição que, assim como os correligionários, entendia corrompida: a briga não era com dom Pedro, mas com os ministros, prepostos e contra a política conservadora estendida, na opinião de Josefa, como véu espesso sufocando o Império de alto a baixo.

Vai daí as movimentações defensivas da Corte, na primeira quinzena de julho acabaram ficando evidentes: era difícil a fatos contrariando os hábitos da vila – e que rompessem a morosidade sequente das horas – passar em branco e desapercebidos. Qualquer mudança de andamento, qualquer quebra no costume vinha logo à tona sendo comentada com uma fartura de pormenores sem fim. Além do mais, os edifícios da Câmara, da Matriz e as construções ao rés do chão, brotando de forma irregular do traçado tosco do Araxá, destacavam-se contra as montanhas em volta estendendo um pano de fundo perfeito de modo a fazer saltar aos olhos tudo fugindo à rotina. Disso Josefa sempre estivera consciente sem nunca ter levado em conta. E mais: ela tratava muito de resto as autoridades recém-chegadas – trazidas pela política centralizadora do ministério imperial – olhando para todas como peru olha para pintos. O que, por certo, não atraía nenhuma boa vontade.

Nesse quadro, dos primeiros dias de julho até a data fixada para o ataque liberal, comandou decidida os preparativos tendo com ela marido, filhos, filhas, genros e noras, todos dóceis a seu pulso firme, numa agitação clara a quem, de um modo ou de outro ali pela redondeza – distritos da Conceição, São Pedro de Alcântara e São Francisco do Campo Grande – pudera testemunhar o empenho rebelde daquele clã familiar, unido a outros da vizinhança na intenção clara de reagir a disposições que lhes tolhiam o direito de meter-se de permeio em qualquer assunto dizendo respeito àquelas cercanias.

Então, quando foi no dia aprazado – 20 de julho – Josefa ficou longe da briga, peito oprimido pela inquietação, um dos filhos à frente da tropa de quatrocentos homens, equivalente em número à dos legalistas – chegando a quinhentos –, graças aos reforços de duas colunas trazidas pelas autoridades do Araxá.

O desfecho ela conheceu passadas 24 horas de pura agonia, quando uns poucos combatentes liberais, arriados de fome e cansaço, aportaram na Bela Fama para relatar a vitória inimiga, mais os detalhes de como a luta tinha se dado na banda sul da vila.

Contaram do filho, postado à frente de todos, encarando firme os legalistas ao recitar o texto – recorrente naquela disputa – de adesão ao imperador e à Constituição, brado iniciando tanto as meras escaramuças quanto os confrontos mais importantes, coincidente palavra por palavra fosse dito por legalistas ou revoltosos:

Viva a santa religião! Viva a Constituição do Império! Viva o nosso adorado monarca o senhor dom Pedro ii! Abaixo a reforma! Achando-se nosso exército acampado à frente desta vila, e tendo só por fim defender a santa religião, a Constituição, e o nosso adorado imperador o senhor dom Pedro ii, e reconhecermos o excelentíssimo sr. José Feliciano, presidente interino desta província, já reconhecido como à vossa senhoria não é oculto; e só tendo por fito este exército protestar contra a reforma do código, como se tem praticado por todos os ângulos do Império do Brasil, o que vossa senhoria não desconhece, exigimos resposta para nossa inteligência. Deus guarde a vossa senhoria.

De acordo com o relato o confronto tinha sido feio. A partir de quatro da tarde, para lá de vinte horas de fogo vivo sem intervalo, com a vantagem dos legalistas crescendo no progredir das horas. Menos treinados, com menos munição e armamento inferior, os revoltosos não conseguiram transferir para o arrojo da vontade o desempenho necessário a uma disputa daquelas. E na falta de comando firme nas estratégias de guerra a coluna aos poucos arrefeceu, diminuiu o ímpeto, os mais valentes caindo uns atrás dos outros, feridos ou morrendo agarrados a armas que manejavam mal, enquanto, numa debandada infrene, muitos fugiam aos magotes para escapulir da fuzilaria silvando alto e veloz, mira voltada para as cabeças, troncos, pernas e braços deles. De ambos os lados a deserção. E bem pior entre os revoltosos, lote pequeno de homens da Guarda, reverentes à causa liberal, mais a maioria civil improvisada para o combate e para o convívio com o zunido seco dos tiros, perfurando as pragas correndo soltas nos dois campos. Um véu espesso de poeira vermelha cobria a movimentação sem descanso dos combatentes e nacos de terra voavam alto: lamentos de um chão lacerado por pisadas rijas batendo sem piedade horas a fio em cima dele.

No dia seguinte a derrota liberal era evidente. Então, ainda numa tentativa de cumprir com o destino do movimento – disseminar a revolta por toda a província em ondas crescentes e contínuas –, os insurgentes conseguiram organizar a força restante em pequenos grupos e, numa tática de guerrilha, criar focos de resistência espalhados pela vila, obrigando os legalistas a manter posição sempre no mesmo ponto. Porque, assim retidos, continuavam em guarda defendendo a segurança do Araxá – aberta, indefesa – e, contra sua vontade, cobrindo a fuga dos cabeças da revolta. Tática insurgente para protelar um revide certo e cruel, conforme o perfil dos homens do governo, afiados nas mais deletérias ignomínias como vinha parecendo à Josefa desde o levante de São Paulo. Por isso o filho tinha ido se esconder em algum canto e estava sumido tinha mais de dois meses, ninguém nem de longe desconfiando em qual paradeiro.

E num fecho melancólico Josefa teve notícia do abandono pelos revoltosos – no campo da luta costeando o córrego do Narciso – de algum cartuchame, três espingardas com patronas, cinco pistolas, uma calça com suspensórios pendentes – 15 mil réis no bolso – e muitos pares de botas largados pelos fugitivos para que pudessem correr para longe mais à vontade. E diante de tal espanto, mesmo nem sendo de muita religião, ela invocara a Deus e a toda sua corte celeste, rogando não deixassem, por nada desse mundo, o carcereiro tomar conhecimento daquilo.


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É uma designer que edita e escreve livros. O título do último deles é O fastio do diabo (Ouro sobre Azul)