CRÉDITO:GIORGIA MASSETANI_2026
CRÉDITO:GIORGIA MASSETANI_2026

ficção

CARTÕES-POSTAIS

Nós, ciganos, possuímos três grandes talentos: fazer música, contar histórias, e o terceiro é um segredo

27 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A ilha nua. Foi isso que Milan escreveu como título no primeiro cartão-postal que recebi. Dois golfinhos acrobatas saltavam na frente, convidando-me a visitá-los em algum parque aquático da Flórida. Milan havia preenchido o verso branco do imenso cartão-postal (do tamanho de um sulfite dobrado ao meio) com minúsculas letras de forma, tão ínfimas e aglutinadas que o texto inteiro parecia redigido por uma mão infantil. Experiente, mas infantil.

O cantor cigano Šaban Bajramović nasceu na cidade iugoslava de Niš, em 1936. Aos 18 anos, por desertar do Exército de Tito, as autoridades comunistas o enviaram a Goli Otok, que significa a ilha nua: uma rocha gigantesca e desolada na costa dálmata onde os prisioneiros morriam desidratados pelo Sol e pelo esquecimento. Šaban Bajramović havia desertado do Exército iugoslavo por causa de uma mulher. Suportou um ano em Goli Otok (Estou escrevendo uma carta e chorando/Estou morrendo na prisão/Os anos passam voando/E não estão me libertando). Ali, sobre aquela rocha, aprendeu a escrever. Os outros prisioneiros o chamavam de Pantera Negra. Os outros prisioneiros lhe talharam o rosto e por pouco não o estriparam: uma grande cicatriz corre do seu peito até o púbis. Quando finalmente o libertaram, em 1964, gravou suas primeiras canções e com o dinheiro comprou um terno branco e um Mercedes branco, os quais perdeu numa partida de dados naquela mesma noite (“Quando tive dinheiro, entreguei tudo a todos/E agora não tenho dinheiro/Não tenho amigos/Por isso suplico ao pequeno caracol que me venda sua casinha”). A música de Šaban Bajramović não é de Šaban Bajramović. Ele jamais a protegeu nem registrou. Ninguém sabe onde vive nem por onde anda. De repente aparece em algum festival de música cigana em Sarajevo ou nos cafés ciganos de Budapeste. De repente desaparece de novo. Assim vive, meu querido Eduardito, um dos melhores cantores ciganos que já existiram. Como se ainda fosse uma pantera negra. Como se ainda fosse o único habitante daquela inóspita ilha nua. Errando sozinho por aí, sabe-se lá onde. Sem laços nem responsabilidades nem limites de nenhum tipo. Sem limites.

Preguei o cartão-postal na parede do meu estúdio, golfinhos para fora, exatamente entre uma fotografia de um suposto e já envelhecido Thomas Pynchon caminhando com seu filho pelas ruas de Nova York e o único croqui de um orgasmo de Lía que não estava no seu caderno cor de amêndoa: um croqui do possível trajeto de algum rio sul-americano, com os afluentes principais e secundários, desenhado numa fria tarde chuvosa depois de termos feito amor (com plácido desconforto, claro) metidos na banheira.

*

Sua principal mania, havia me advertido Milan em algum momento, eram os cartões-postais. Ele gostava de enviar cartões-postais. Não de recebê-los. De fato, jamais quis me dar seu próprio endereço. Não tenho, disse em tom de brincadeira ou, pensando bem, talvez tenha dito a sério. Disse: Vivo no lungo drom, que em cigano significa o longo caminho, sem rumo fixo e sem retorno. Disse: Viajo numa caravana de um só. Disse: Pelo caminho, para meus amigos, vou deixando patrin, que em cigano significa folhas, mas que também significa sinais no caminho, como um tronco partido de certa maneira ou um feixe de gravetos amarrados com um lenço azul-claro ou um osso de cabra espetado na terra. Disse: Os cartões-­postais são meu patrin.

Lía comentou que muito tempo atrás tinha visto um filme em que caravanas de ciganos se comunicavam entre si deixando esse tipo de marcadores nas estradas, marcadores que eram interpretados como bruxarias e necromancias pelos habitantes de um povoadinho anacrônico da Espanha. Numa noite, depois da morte repentina de uma menina espanhola que naquela tarde havia brincado perto de alguns marcadores ciganos, os habitantes do povoado se transformaram de repente numa turba enlouquecida e saíram com tochas e foices para esquartejar todos os ciganos que encontraram dormindo tranquilamente entre as árvores. Homens, mulheres e crianças. Lía não lembrava se esse era o final do filme, mas achava que sim.

*

O cartão-postal seguinte não dizia nada ou ao menos não dizia nada por escrito. Sei que era dele pela letra minúscula com que estavam escritos meu nome e meu endereço e também porque quem mais, em sã consciência, ainda envia cartões-postais? Segundo o carimbo, Milan o enviara de Washington, D.C. Era uma reprodução de um quadro de Chagall, ou talvez um fragmento desse quadro. Primeiro pensei que o quadro de Chagall não tinha nada a ver com Milan, depois pensei que talvez tivesse e passei vários dias tentando decifrá-lo, encontrar na imagem algum significado que me remetesse à vida do pianista sérvio. Só muito tempo depois, porém, e talvez já tarde demais, é que eu entenderia aquilo que Milan, sem me dizer nada, havia dito.

*

Recebi um cartão-postal de uma montanha de cor bege-clara cheia de pequeníssimos pontinhos negros que supus esquiadores ou talvez enormes coníferas, de Denver, Colorado. Milan escreveu: Era uma vez um rei que era dono do abecedário cigano. E como naquele tempo não existiam estantes para guardar os abecedários, o rei embrulhou o abecedário cigano em folhas de alface e adormeceu junto a um manso riacho. Pouco depois apareceu um asno, bebeu um pouco da água do riacho e comeu as folhas de alface. Por isso nós, ciganos, não temos abecedário.

*

Recebi um cartão-postal de uma baía noturna e iluminada de Boston. Milan escreveu: Nós, os ciganos, Eduardito, possuímos três grandes talentos. Fazer música. Contar histórias. E o terceiro é segredo.

*

Boneca, intitulou na sua liliputiana letra de fôrma o cartão-postal seguinte, novamente enorme e enviado do Distrito Federal mexicano. Na frente havia uma colagem de mariachis e bandeiras tricolores e praias de areia branca e, bem no centro, como se sustentasse tudo ou emanasse tudo da sua aura dourada, uma retumbante Virgem de Guadalupe. Milan escreveu: Seu nome verdadeiro era Bronisława Wajs, embora todos a conhecessem pelo seu nome cigano, Papusza, que significa boneca. Como a maioria dos ciganos poloneses do início do século, Papusza pertencia a uma família de nômades. Uma família de harpistas nômades. Quando completou 15 anos, Papusza se casou, claro, com outro harpista nômade. E, nas suas viagens posteriores, de alguma maneira, talvez enquanto a caravana se detinha em povoados por alguns dias ou talvez enquanto todos se entrincheiravam numa aldeia até que passasse o inverno, Papusza aprendeu a ler e escrever. Ainda hoje, velho, três de cada quatro mulheres ciganas são analfabetas. Ela escreveu longas baladas que simplesmente chamava de “Canções da cabeça de Papusza”. No verão de 1949, por pura casualidade, o poeta polonês Jerzy Ficowski a ouviu cantar e imediatamente começou a copiar, transcrever e traduzir algumas das suas canções, que publicou numa revista chamada Problemy. Papusza teve de comparecer diante da autoridade máxima dos ciganos na Polônia, que, depois de breves deliberações, a julgou mahrime, ou contaminada, por ter colaborado com os gadjé, ou não ciganos. Sua punição foi a expulsão irreversível da caravana. Ao sair, alguns meses depois, de um hospital psiquiátrico, Papusza (Ninguém me compreende/Só a floresta e o rio/Daquilo de que falo/Tudo, tudo passou/Tudo passou com aquilo/E aqueles anos de juventude) viveu o resto da vida na mais absoluta solidão e no mais absoluto silêncio. Como uma maravilhosa boneca de merda que, esquecida e esfarrapada, termina apodrecendo numa gaveta do sótão. Não te parece incrível, Eduardito, que os ciganos sempre acabem cumprindo seus apelidos, como se fossem ordens providenciais ou mandatos divinos? Qual será meu apelido, velho? Qual será meu mandato divino? Papusza morreu em 1987.

Delicadamente, com a precisão de um acupunturista, preguei o cartão-­postal na parede do meu estúdio.

*

Eu tinha feito várias tentativas de localizar Milan. Algumas ligações. Alguns e-mails. Mas sempre, claro, de maneira frouxa: sem realmente desejar localizá-lo. Queria falar com ele e lhe perguntar coisas, mas também queria respeitar seu desejo de se manter inalcançável, ilocalizável, meio perdido, peregrinando sem raízes nem vínculos. Ele havia adotado, na medida do possível, uma vida de nômade, mas nômade moderno, nômade metafórico, nômade postal, nômade ululando por um mundo onde já está proibido ser um verdadeiro nômade.

*

Recebi um cartão-postal de um entardecer purpúreo em algum deserto do Arizona. Milan escreveu: Há muitos séculos, um cigano viajava com toda a sua família dentro de uma carroça, uma carroça velha puxada por um rocim magro e muito fraco. Quanto mais filhos o cigano e sua esposa tinham, mais difícil ficava para o pobre rocim, e toda a carroça se balançava de um lado para o outro, e xícaras e panelas se chocavam, e de vez em quando algum dos filhos do cigano saía voando descalço para fora. E assim os ciganos foram se dispersando pelo planeta inteiro. Por toda a Europa e a Índia e o Oriente Médio e a África e a América do Norte e a América do Sul e a Austrália e a Nova Zelândia. Milhões e milhões de ciganos, Eduardito, todos filhos caídos de uma única e avariada carroça.

*

Recebi um cartão-postal de Nova York intitulado Yusef. Era uma fotografia (perfeita, segundo Lía) em preto e branco de quatro jazzistas parados diante da fachada do Minton’s Play­house, o famoso clube de jazz dos anos 1950: Teddy Hill, Roy Eldridge, Howard McGhee e, claro, como o chamava sua esposa, Melodious Thunk, mas um Melodious Thunk simbólico, se é que existem símbolos, um Melodious Thunk metafórico, se é que as metáforas são algo mais do que formiguinhas furiosamente enfiadas entre os dedos dos pés. Milan escreveu: Chamavam-no Yusef. Ninguém sabe se esse era realmente seu nome nem de que país provinha. Contam os anciãos que ouvir o acordeão de Yusef era como ouvir o doce canto de uma sereia. Contam os anciãos que ouvir o acordeão de Yusef era como ouvir os gritos de Jesus crucificado. Contam os anciãos que Yusef conseguiu sobreviver quatro anos no campo de extermínio nazista de Chełmno, às margens do Rio Ner, tocando todas as noites nas festas dos oficiais alemães. Contam os anciãos que Yusef, durante as noites, tocava uma peça para cada cigano morto naquele dia nas câmaras de gás. Contam os anciãos que Yusef, nesses quatro anos, chegou a tocar 35 mil peças. Mais ou menos 25 por noite. Contam os anciãos que, ao ser libertado depois da guerra, Yusef afastou de si o acordeão e o deixou jogado para sempre sobre a grama verde de Chełmno.

*

Recebi um cartão-postal de uma loira de biquíni, com peitos enormes e lábios enormes, sentada firmemente numa Harley-Davidson. Carimbo postal de Nova Orleans. Milan escreveu: Meu pai diz que Yusef, o acordeonista, jamais existiu.

*

Recebi um enorme cartão-postal do Havaí, embora a foto, por alguma razão, fosse de uma paisagem aérea e cosmopolita da cidade da Filadélfia. COME VISIT THE CITY OF BROTHERLY LOVE, dizia um letreiro em grandes letras de néon amarelo que até pareciam piscar. Milan escreveu: A origem ancestral dos ciganos, Eduardito, é eminentemente musical. Aconteceu assim: por volta do ano 428, os ciganos chegaram à Pérsia porque Bahram Gur, o xá, querendo agradar seus súditos, importou 12 mil músicos da Índia. Mas não. Não aconteceu assim, Eduardito. Aconteceu assim: um dia, Deus pôs um violino sobre o ombro de São Pedro. Quando as pessoas começaram a exigir que ele tocasse alguma peça, São Pedro se assustou e saiu correndo para procurar Deus, e Deus o acalmou dizendo que tinha lhe dado o violino para que sua música alegrasse as pessoas e as mantivesse sempre de bom humor. Então São Pedro reclamou a Deus que, se isso fosse verdade, deveria haver muito mais músicos no mundo. Deus perguntou quem e São Pedro, enquanto tocava uma melodia afável, respondeu que os ciganos. Mas não, tampouco aconteceu assim, Eduardito. Aconteceu assim: era uma vez uma moça muito bonita que estava apaixonada por um camponês alto e forte e muito trabalhador, mas que jamais reparava nela. Certa tarde, enquanto a moça caminhava pela floresta sentindo-se triste e sozinha, apareceu-­lhe um homem muito grande, de olhos purpúreos, vestido de vermelho e com dois chifrinhos na cabeça e um casco no lugar do pé: o diabo, que, lhe acariciando os lábios com uma unha longa e afiada, prometeu conseguir para ela o amor do jovem camponês se entregasse a ele, o diabo, toda a sua família. A moça aceitou feliz. Entregou-lhe o pai, e o diabo o transformou num violino. Entregou-lhe a mãe, e o diabo a transformou num arco, e da sua cabeleira grisalha fez as cerdas do arco. Entregou-lhe os quatro irmãos, e o diabo os transformou nas quatro cordas. Depois o diabo ensinou a moça a tocar o violino e ela chegou a tocá-lo de modo tão doce e tão terno e tão belo que, quando o jovem camponês a escutou, apaixonou-se imediatamente. E se casaram e viveram juntos e felizes por muitos anos. Mas um dia, depois de tocar e dançar na floresta, os dois foram procurar framboesas e deixaram o violino esquecido sobre a forragem. Ao voltar, já não o encontraram. O diabo então desceu de um céu nublado numa carroça puxada por quatro cavalos pretos e levou para sempre o infeliz casal. Durante muito tempo o violino permaneceu na floresta, escondido sob folhas secas e musgo e mais folhas secas. Numa noite, ciganos acampados na floresta mandaram um menino buscar lenha para a fogueira e, sem querer, enquanto chutava um monte de folhas, o menino encontrou o violino. Bateu nele com um graveto e o violino produziu o som mais perfeito que jamais se ouvira. O menino pegou o violino e o arco e voltou para sua caravana. Assim foi que os ciganos descobriram a música.

*

Recebi um cartão-postal de um atum voador no meio de um mercado de Seattle, Washington. Ellen, a Negra, dizia o título. Milan escreveu: No País de Gales viveu uma cigana a quem chamavam Ellen, a Negra. Era uma especialista em contar histórias. Dizem que conseguia contar uma única história que durava a noite inteira. Dizem que, de repente, para pôr seu público à prova, Ellen, a Negra, parava no meio da história e gritava tshiocha, que em cigano significa botas, e se o público não gritasse de volta cholova, que em cigano significa meias, Ellen, a Negra, se levantava do chão, sacudia a saia e ia embora sem jamais concluir a história.

Parece Sherazade, disse Lía enquanto, de calcinha e sutiã, passava esmalte vinho nas unhas dos pés.

*

Recebi um cartão-postal de Cleveland. Era um retrato em preto e branco de um guitarrista sentado com um cigarro na boca e exibindo um bigodinho fino à la Humphrey Bogart, ou melhor, mais à la Fred Astaire. Milan escreveu: Django Reinhardt nasceu na Bélgica, mas poderia muito bem ter nascido em qualquer outro país da rota por onde transitava sua caravana de ciganos manouche. Seu pai era músico e sua mãe, cantora. Quando menino, Django tinha as seguintes habilidades: roubar galinhas; encontrar e limpar os cartuchos das balas da Primeira Guerra Mundial que sua mãe depois transformava e vendia como joias e chocalhos de latão; pescar trutas enfiando a mão no rio e fazendo-lhes cócegas com os dedos até que elas, atordoadas e felizes, simplesmente se deixavam apanhar; e por último, claro, a guitarra. Aos 12 anos, vivendo com a família num acampamento cigano nos arredores de Paris, Django já tocava guitarra-banjo em todos os bal-musette da cidade. Aos 18 anos, um incêndio provocado acidentalmente por sua esposa, Bella, deixou-lhe a mão esquerda atrofiada, quase transformada num gancho, mas de algum modo ele mudou sua técnica musical (passaria a usar apenas dois dedos) e continuou tocando até se tornar o maior guitarrista de jazz do mundo. Mas sempre, no fundo, um guitarrista cigano. Andrés Segovia escutou-o tocar certa vez e ficou tão impressionado que quis ver a partitura, mas Django, rindo, disse que não havia, que era uma simples improvisação. Sobre Django, disse Jean Cocteau: Ele vive como se sonha viver, numa caravana. E mesmo quando já não era uma caravana, de algum modo ainda era. Embora seu nome de registro fosse Jean Reinhardt, desde criança o apelidaram Django. Django em cigano quer dizer desperto, ou melhor, eu desperto. É um verbo na primeira pessoa. Eu desperto.

*

Recebi um cartão-postal da Ponte Golden Gate, de São Francisco. Milan escreveu: Ontem à noite, enquanto eu tocava num grandioso auditório, tudo começou a tremer. Alguns se levantaram. Outros saíram. E eu continuei com Stravinski como se nada de importante estivesse acontecendo. Nada de importante estava acontecendo. Em cigano, Eduardito, terremoto se diz I phuv kheldias, que significa a terra dançou.

*

Recebi, no mesmo dia, dois grandes cartões-postais de Orlando.

Liszt I, intitulava-se o primeiro, um desenho do Pato Donald vestido de bombeiro. Milan escreveu: Você me perguntou naquele estranho restaurante de Antígua por que eu sentia tanta atração pela música de Liszt. Lembra? E eu te respondi algumas bobagens sobre a improvisação, o que suponho ser verdade. Mas para tudo sempre existe mais de uma verdade. Há, portanto, um filme baseado nessa outra verdade tão complexa da vida e da música de Franz Liszt. Não lembro agora como se chama e tampouco é muito bom, mas ilustra o que quero te contar. Espero que entenda. É o ano de 1840, mais ou menos. Franz Liszt e o conde Teleki chegam a um carnaval de ciganos em Pest, Hungria. Enquanto caminham pela praça central, Liszt está falando ao amigo sobre o dilema entre ser um mero intérprete e ser um autêntico compositor. De repente, a atenção de Liszt se volta para um menino cigano tocando violino com um virtuosismo que de imediato lhe lembra Paganini. Josy é o nome do menino, e ele diz aos dois que, por algumas moedas, fará um truque de mágica. O conde Teleki lhe dá o dinheiro e Josy então desaparece correndo. Eles passam a procurá-lo pelas ruelas do povoado, mas só encontram seu irmão mais velho e sua avó, uma velhinha muito sábia e muito simpática que, depois de discutir um pouco, acaba lendo o futuro de Liszt. Não lembro o que ela lhe diz, mas ele, assustado, se esgueira pela multidão. Nessa noite, Liszt se encontra diante do seu piano tentando recordar a melodia que Josy tocou. Não consegue. Frustra-se. Sai à sua procura e finalmente o encontra no acampamento dos ciganos, tocando violino. Liszt tenta convencer a família de que um talento assim precisa de ensino e tutela e refinamento e cultura, mas Josy ama demais sua liberdade e não aceita. Liszt insiste. Quer salvá-lo da selvageria. Quer europeizá-lo. Quando a avó fica sabendo que o senhor não só lhe ensinará de graça, como além disso pagará por sua manutenção, diz que está bem, mas que ela deve acompanhar o neto. Mais tarde, os três chegam de carruagem à residência de Liszt. As criadas lavam e vestem Josy, mas ele come com as mãos, corre por toda parte, rabisca um busto de Beethoven. Enquanto isso, o conde Teleki aposta com Liszt que ele não terá preparado o menino cigano antes da competição musical que se realiza todos os anos. Liszt aceita o desafio e começa a instrução. Josy desconfia de partituras. Crê na improvisação. Recusa-se a aprender solfejo e continua tocando de ouvido. Liszt começa a se desesperar. Com um pouco de ajuda da avó, Josy aceita ao menos tentar essa nova maneira de fazer música e ele e Liszt começam a tocar juntos. E ambos gostam. Divertem-se. Uma noite, Josy escuta um recital do seu mestre e fica encantado. Depois do recital, num tipo de jantar ou recepção de gala, não lembro muito bem, Josy aceita tocar uma peça para os convidados. Mas de repente uma senhora grita que roubaram sua pulseira de ouro, e todos começam a suspeitar do menino cigano. Humilhado, Josy sai correndo. A pulseira, claro, aparece enfiada entre umas almofadas ou jogada sobre um tapete ou algo assim. Ao chegar de noite à sua casa, Liszt encontra Josy dentro da banheira, esfregando-se e se ensaboando com força com uma barra de sabão. Quer, diz o menino entre soluços, tirar a cor de cigano. Sempre que vejo essa cena me dá vontade de vomitar.

Lía revirou o cartão-postal, disse que seu favorito sempre foi o Pateta e depois, do nada, perguntou-me com voz de caramelo se Franz Liszt não tinha sido antissemita.

O segundo cartão-postal de Orlando se intitulava Liszt II. Era novamente um desenho do Pato Donald, mas agora vestido de pintor ou de pedreiro, não ficava muito claro. Milan escreveu: É o dia da competição. Josy está pronto. Quando finalmente chega sua vez, começa a tocar estupendamente bem, um virtuose, um menino-prodígio, até que de repente, sem nenhuma razão aparente, começa a improvisar. Os jurados, claro, o desclassificam. Josy fica enfurecido e triste e sai correndo. De volta à sua casa, Liszt se senta diante do piano e, ainda impressionado com a música do menino cigano, compõe uma peça, uma das suas Rapsódias húngaras, creio, sem se dar conta da influência que a música de Josy exerceu sobre ele. O conde Teleki lhe chama a atenção para isso, mas Liszt resiste à noção de que ele precise de influências ciganas para finalmente se tornar um autêntico compositor. Liszt aceita que, claro, perdeu a aposta. Josy entra de repente. Estivera espionando-os do jardim, através da janela. Reprova Liszt por tê-lo usado apenas para ganhar uma aposta e, por mais que Liszt tente fazê-lo entender que ele tem uma habilidade mágica para capturar o verdadeiro espírito da música, Josy lhe diz que eles vêm de mundos distintos que jamais se encontrarão. O filme, na minha opinião, deveria terminar ali. Ou talvez não. Não sei. O fato é que Liszt vai rapidamente ao acampamento cigano e traz de volta todos os familiares e amigos de Josy. Querem que o menino toque sua própria música, com sua própria gente, para os convidados de Liszt. Josy está lá em cima. Não quer descer. Devagar, começa a música cigana. Todos gritam e cantam e dançam. Josy não consegue resistir à sua natureza e desce as escadas, apanha seu velho violino do chão e se junta à folia cigana. Todos aplaudem. Bravo. Liszt aceitou os ciganos e também aceitou o espírito da música cigana e todos estão felizes e o mundo é tão perfeito quanto um maldito pêssego. Entendeu?

*

Recebi um cartão-postal que deveria ter chegado muito antes, extraviado durante um tempo nos caminhos tortuosos do subconsciente de Milan ou talvez nos caminhos tortuosos do pouco eficaz labirinto dos correios. Ou ambos. O carimbo dizia Savannah, Geórgia. Era uma foto em tom sépia de dois idosos negros, como que curtindo dentro de um grande frasco cheio de ar abafado. Estavam no pórtico de alguma casinha sulista, descansando em cadeiras de balanço de vime e madeira enquanto tomavam limonada ou talvez chá gelado. No chão havia um gato pardo e um penico de porcelana, provavelmente para os escarros de tabaco. Um dos velhinhos ostentava meia perna de pau. Milan escreveu: Ciganin, me chamavam na escola. Quer dizer cigano, em sérvio. Assim me chamavam. Ciganin. Ou cigo, às vezes. Cigo, e então me insultavam ou me atiravam pedras ou me chutavam o traseiro. Para os sérvios sempre fui um cigano de merda, um cigano sujo que não vale nada. E para os ciganos sempre fui um gadjo de merda, um não cigano de merda. A família da minha mãe sempre nos rejeitou. A família do meu pai sempre nos rejeitou. Sou um cigano que não pode ser um cigano e também sou um sérvio que não pode ser um sérvio. O que faz uma criança, Eduardito, que é excluída por uns e excluída por outros e odiada por uns e por outros? Isola-se, é isso que faz. Recolhe-se em si mesma. E esse, sem dúvida, é meu maior talento. Não a música, mas a habilidade de me fechar em mim mesmo, de ignorar as pessoas e, mais ainda, de conseguir que as pessoas me ignorem. Não é que eu me torne invisível, porque o efeito da invisibilidade ainda implica estar presente, assistir, ser uma testemunha dos acontecimentos, mesmo que uma testemunha distante e desinteressada. Eu posso me ausentar por completo. Eliminar-me por completo. Não como um morto, mas como alguém que jamais existiu. Um mundo sem mim.

Talvez pela foto dos dois idosos negros, talvez pelo próprio tom da confissão de Milan, este era o cartão-postal favorito de Lía. Ela chegava ao meu estúdio e, acendendo um cigarro obrigatório, o contemplava por um longo tempo como se estivesse contemplando algo sagrado e misterioso, algo que na realidade era outra coisa ou parecia ser outra coisa.

*

Gyorgy, dizia o título do cartão-­postal seguinte, um cartão-postal muito grande com o logo do underground de Londres. Em letras minúsculas, escreveu Milan: No ano passado, o cadáver de um trompetista cigano chamado Gyorgy Krompachy apareceu flutuando no rio de Copșa Mică, na Romênia. Ninguém sabe por quê. Eu o havia conhecido num festival de música cigana em Lucerna que durou sete dias. Embora fosse da minha idade, parecia muito mais velho. Fumava uma mistura de tabaco e haxixe e bebia vodca de um cantil enferrujado. Disse-me que a vodca era boa para ritmos em sete oitavas, que o uísque era bom para ritmos em seis oitavas, que o absinto era bom para ritmos em nove oitavas. Acho que ele tinha razão. Embora tivesse nascido na Bulgária, não se considerava búlgaro. Pulava de bandas sérvias para bandas macedônias para bandas romenas para bandas turcas sem nenhuma hesitação, como se elas fossem versões modernas das kumpanias ou caravanas dos seus antepassados. Mas o que ele mais gostava de tocar, disse-me, eram os kolos sérvios, umas danças circulares, muito rápidas e muito intensas que lhe davam a sensação, dizia, de estar com uma febre altíssima. Semelhantes às danças judaicas. Com orgulho excessivo, Gyorgy me disse que ele aparecia brevemente nas cenas do bunker do filme Underground, de Emir Kusturica (quando comprei este cartão-postal há algumas semanas, Eduardito, lembrei-me dele). Não acreditei, claro, embora muito depois tenha comprovado que era verdade, que ali estava Gyorgy Krompachy, risonho e à vontade, tocando seu trompete no bolo giratório quando a noiva voava por cima de todos. Na última noite do festival, depois de tocar um par de čočeks com a banda Kočani Orkestar, da Macedônia, Gyorgy me pediu que o acompanhasse a uma tarefa nos arredores da cidade. Ele estava vestido de preto, com um colete verde brilhante e brilhantes tênis brancos. Primeiro fomos a um bar, onde Gyorgy tomou uma vodca e depois outra vodca e depois, ao receber algumas cédulas, deixou seu trompete empenhado. Lembro que, antes de entregar seu estojo preto, mostrou-me como o interior estava forrado de mulheres nuas, todas orientais. Depois fomos a uma casinha de barro e chapas. No meio do nada. Uma cigana de talvez 40 ou 50 anos nos abriu a porta. Tinha dentes de ouro. Cheirava mal. Gyorgy lhe deu o dinheiro e a cigana, sorrindo maliciosa, voltou a fechar a porta. Foi só isso. Caminhamos de volta às barracas do festival enquanto Gyorgy fumava tabaco e haxixe e me falava o tempo todo da imensidão das vaginas tailandesas. No dia seguinte, quando acordei, ele já tinha ido embora.

*

Recebi um cartão-postal das ruas de Nova York. No Central Park, um casal perfeito de modelos bronzeados e perfeitos e quase nus patinava em direção a um perfeito entardecer. Escreveu Milan: Tempos atrás, passou por aqui Félix Lajkó, o violinista cigano mais famoso de Novi Sad. Tocou no Madison Square Garden. Depois do concerto, eu e vários artistas sérvios que vivemos em Manhattan decidimos levá-lo para jantar. Escritores, pintores, uma cineasta. Eu não disse nada durante toda a noite. Fiquei sentado por duas horas ao lado de um dos meus ídolos em absoluto silêncio, como petrificado. Quando por fim serviram o café, Lajkó se virou para mim e me disse que ele conhecia um acordeonista de sobrenome Rakić que também era de Belgrado e que talvez fosse meu parente. Sem erguer o olhar do meu expresso, sussurrei-lhe que eu não tinha nenhum parente acordeonista em Belgrado. E não falamos mais nada.

*

Recebi um cartão-postal de um vaqueiro montado a cavalo, de San Antonio, Texas. Escreveu Milan: Há muito tempo, os ciganos construíram uma igreja de pedras e os sérvios construíram uma igreja de queijo. Quando ambas as igrejas já estavam prontas, decidiram fazer uma troca. Os ciganos dariam aos sérvios a igreja de pedras e os sérvios dariam aos ciganos a igreja de queijo mais 5 centavos. Mas, como os sérvios não tinham dinheiro, ficaram devendo aos ciganos os 5 centavos. Imediatamente, os ciganos começaram a comer sua igreja de queijo, até que pouco a pouco foram acabando com ela. E ficaram sem igreja. Os sérvios ainda devem os 5 centavos aos ciganos, e os ciganos todos os dias estão cobrando deles. Acho que já é hora, Eduardito, de quitar comigo mesmo essa dívida de 5 centavos. Tshiocha, grito, assim como aquela bela negra do País de Gales.

*

E seguiu-se um longo silêncio epistolar. Como se Milan tivesse sido penetrado pelo calor e então tchau, passe bem, vou-me embora para a parte mais profunda e fria do planeta. Pensei que talvez algo tivesse acontecido com o sistema nacional de correios, alguma falha ou transtorno de ordem correspondente, mas logo descartei essa possibilidade devido a todas as cobranças e avisos que regularmente continuava recebendo. Pensei que algo tivesse acontecido com Milan. Alguma doença ou talvez pior. Seus cartões-postais tinham chegado com demasiada pontualidade, um por semana, às vezes dois ou três por semana, e eu havia me habituado a eles como alguém, quase sem perceber, poderia se habituar a soníferos ou a uma telenovela ruim ou ao Cinzano com muito gelo das seis da tarde. Lía zombava de mim, dizendo como se preocupa meu Dudu, vendo-me ordenar e reordenar e outra vez desordenar todos os cartões-postais na parede do meu estúdio: primeiro cronologicamente, depois geograficamente, depois tematicamente, depois fotograficamente. Eu estava preocupado, claro, mas também entendia, ainda que fosse só num nível teórico, que parte do jogo de Milan era sair do caminho, ausentar-se, desaparecer por um tempo sem deixar rastros de si mesmo nem sinais de nenhum tipo. Era mais uma maneira de romper com limites e fronteiras: limites e fronteiras de uma rotina ou de uma rota sistemática e preestabelecida. Era, suspeito, mais uma maneira de tocar sempre a peça menos esperada.

*

Aproveitando algumas semanas de férias no sistema universitário – Lía, dos seus últimos cursos de anatomia; e eu, de ministrar um seminário de um ano sobre contos levados ao cinema –, empacotei toda a música cigana que havia adquirido recentemente e, durante uma semana, escapamos para uma cabana gelada e reclusa na aldeia de Los Albores, em Sierra de las Minas: área protegida de floresta nublada a quase 3 mil metros acima do nível do mar.

Passamos os dias perseguindo cobras venenosas (chetas e manos de piedra), robustos bugios, corujas, jacus-chifrudos, mariquitas-de-cabeça-­rosa e, de maneira próspera, uma coorte de quetzais que resplandeciam verde-avermelhados, pousados nos galhos dos imensos aguacatillos, e que depois alçavam voo com o mesmo e rítmico vaivém de uma pipa. Sobre a lama das trilhas abundavam as pegadas de caititus e, de vez em quando, as de algum grande felino. Jaguares, dizia-nos o guarda-florestal com galanteria. Todas as manhãs, enquanto tomávamos o primeiro café, uma turba de gralhas-azuis tomava café da manhã conosco na varanda da cabana, recolhendo do chão e da mesa e às vezes da nossa própria mão qualquer migalha de comida.

Passamos as noites fazendo amor (não há nada como fazer amor numa área protegida) e escutando o violino e a cítara mágica de Félix Lajkó; e a música dos cafés húngaros chamada oláh, de Kék Láng e Kalyi Jag; e os sofridos cânticos do Rajastão; e o duduk de Darko Macura; e os clarinetes turcos; e os tambores egípcios; e o cimbalom de Kálmán Balogh; e os vigorosos e rápidos trompetes de Boban Marković e de Jova Stojiljković; e as imparáveis guitarras dos ciganos manouche da França; e os cantos da macedônia Esma Redžepova; e tanto flamenco espanhol. A música soava e nós fazíamos amor de uma maneira quase primitiva, quase pré-histórica, como se os gritos e os tambores e a dor e a Lua e as nuvens e o guincho de tantos morcegos também estivessem todos ali metidos entre os lençóis conosco, participando.

Lía, como teria feito um médico ou um cientista ou antes um aplicado fiel da física quântica, passou a associar os diferentes tipos de música cigana às diferentes posições sexuais. Automaticamente. Sem que percebesse, é claro. Comecei a suspeitar de certos padrões a partir da terceira ou quarta noite, mas só confirmei na quinta. Kolos: ela por cima. Sambas: eu por cima. Oláhs: ambos sentados, de frente, pernas entrelaçadas. Flamencos: ela por cima, ambos de costas. Rumbas: ambos de lado e de frente. Čočeks: eu por cima, ela de bruços. Ciftetelis: a posição que ela chamava de gravidade zero porque ao que parecia isso era o que sentia, gravidade zero, mas cuja postura corporal me resulta quase impossível de descrever. Mudava a música e Lía, com a mesma rapidez, me girava ou me empurrava ou saltava por cima de mim com a impulsiva agilidade de uma jovem gazela. E quanto mais tambores, claro está, mais ela gritava. Na última noite expliquei tudo e Lía riu e me disse você está louco, Dudu, e depois me fez desligar a música antes de poder despi-la.

Talvez devido a essa mesma música, talvez devido à altitude e ao frio das montanhas, talvez devido ao fato de estarmos tão sozinhos e de que quando duas pessoas estão tão sozinhas seus espíritos buscam se expressar de uma maneira ainda mais requintada, até os orgasmos de Lía haviam se transformado. Sete desenhos feitos por alguém mais, traçados por outra mão. Sete páginas de seu caderno cor de amêndoa que não tinham nenhuma relação com todas as páginas anteriores e que tampouco teriam relação com todas as páginas que vieram depois. Um parêntese de sete orgasmos, seria possível dizer, embora essa figura literária não me convença totalmente. As linhas eram agora mais curvas do que retas, muito mais tênues e inseguras, como se tivessem sido esboçadas com medo ou talvez com sono. Os espaços vazios passaram de repente a ter maior importância, dando aos desenhos um ar desértico ou frívolo em que a carência parecia se preencher exclusivamente de mais carência e em que o silêncio era a única coisa que se ouvia e a única coisa que realmente valia a pena ouvir. Os distintos símbolos e signos também sofreram uma profunda metamorfose: jorros e nuvens e crateras e espasmos continuavam ali, mas quase irreconhecíveis. Naquela última noite, a sétima, apenas com a música de muitos morcegos esvoaçando nas frestas do teto, Lía sentou-se na cama, acendeu uma pequena lanterna e, toda arrepiada pelo frio ou talvez por algo muito mais esotérico, fechou aquele pequeno parêntese com um leve esboço de uma teia de aranha em processo.

Voltamos à cidade exaustos. O Sol rosáceo estava caindo, devagar, como se fosse o pano de fundo falso de uma magnânima cena final. Tomamos banho juntos e depois Lía preparou duas xícaras de café. Com preguiça, deitados na cama, fumamos alguns cigarros e acariciamos os pés um do outro e talvez tenhamos ficado meio adormecidos. Não sei por que demorei tanto para verificar minha caixa de correio. Provavelmente porque era domingo. Ou provavelmente porque, bem no fundo, eu já sabia o que me esperava ali e, ainda mais no fundo, também sabia o que eu irremediavelmente teria de fazer.

Um cartão-postal.

Visto do alto, o Danúbio parecia uma minhoca morta ou prestes a morrer entre tantos escombros cinza. Uma ampla ponte branca o atravessava como um anzol. Casinhas pequenas flutuavam numa margem e, na outra, rodeado por uma notável área verde, havia uma espécie de praça fortificada ou fortim ou castelo medieval. Kalemegdan, lia-se na parte inferior direita da foto. Beograd, Srbija, dizia de maneira contundente o carimbo do correio.

Era uma vez, querido Eduardito, um menino meio sérvio e meio cigano que queria ser um músico cigano e viajar numa caravana de músicos ciganos, mas o medo ou talvez outra coisa o impedia. Caminhando certa manhã pelos bosques úmidos de Belgrado, de repente apareceu diante dele um homem muito grande, de olhos purpúreos, vestido de vermelho, com dois chifrinhos na cabeça e um casco em vez de um pé, e disse ao menino, enquanto o acariciava com uma longa e afiada unha, que ele podia transformá-lo num músico cigano, num grande músico cigano, mas com uma condição. Uma só. Sempre há uma condição, não é, Eduardito? Sempre há um sacrifício. Essa é a lei do universo. O menino, então, feliz e triste, despediu-se para sempre do seu pai e despediu-se para sempre da sua mãe e, chorando nos bosques de Belgrado que agora seriam seu lar, deu uma única pirueta.


Este conto faz parte do livro O boxeador polonês, a ser publicado em junho pela editora Autêntica Contemporânea, em tradução de Silvia Massimini Felix.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Escritor guatemalteco, autor, entre outros, de Tarântula e O boxeador polonês (Autêntica Contemporânea)