ficção

POSIDONIA

Sua especialidade era entrar na mente de assassinos

PIAUÍ_238

CRÉDITO: PEDRO FRANZ_2026

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I

O mar devolve o que não lhe pertence.

O corpo apareceu numa manhã fria no Hemisfério Norte, enrolado nas algas como numa mortalha improvisada, e as ondas o empurraram contra as rochas com força e indiferença. A polícia não estava acostumada a ter assassinatos na ilha, então as primeiras hipóteses eram de acidente ou suicídio. O detetive ficou parado na beira da falésia por um momento, temendo o procedimento que viria.

Era baixa temporada na ilha. O aeroporto, que nas semanas de verão engolia e cuspia turistas de todo o mundo, funcionava agora num ritmo mais lento. Na capital, a vida continuava no seu compasso de inverno, que é um compasso de dentro. Havia dias em que o vento descia da serra e atravessava a cidade de ponta a ponta, esse vento que os ilhéus respeitam como se fosse uma entidade com nome e temperamento próprios, capaz de inclinar as oliveiras centenárias e fazer ranger as janelas nas madrugadas.

O corpo, um corpo de mulher, estava bastante deteriorado. Não havia como saber, à primeira vista, quanto tempo passara na água. Mas uma coisa o mar não conseguira apagar: o orifício entre a quarta e a quinta costela do lado esquerdo, limpo como uma linha de corte feita por alguém que sabia exatamente onde estava colocando a lâmina. O médico-legista o disse como quem lê uma bula: “Ferimento único. Certeiro. Profundo o suficiente para atingir o coração.”

Quem fizera aquilo conhecia a anatomia humana do mesmo jeito que conhece o mapa de uma cidade em que viveu a vida inteira.

II

O ex-namorado da vítima se tornou o primeiro suspeito. Filho de pescador, mãos grossas de quem passou a infância no cais, olhos inquietos que não pousavam em nada por muito tempo. A relação com a mulher encontrada havia sido do tipo que os vizinhos descrevem baixando a voz: gritos que vazavam pelas janelas fechadas, reconciliações que duravam dias, rupturas que duravam semanas, e tudo começava de novo. Alguém os viu juntos três dias antes. Outro alguém ouviu ela chorando no corredor. Outro alguém tinha visto ele sair com uma expressão que não era raiva – era pior.

No interrogatório, o rapaz não negou nem confirmou nada. Ficou com as mãos sobre a mesa, abertas, como se quisesse dizer que não escondia nada nelas.

Então apareceu o segundo corpo.

Outra mulher. Outra praia. Outro corte entre as costelas. A vítima não conhecia a primeira. Não conhecia o ex-namorado. Não havia, entre elas, nenhum fio visível que as conectasse além do furo no peito e do mar que as recebera depois.

O detetive ficou sentado no carro por 20 minutos sem saber como começar. Do outro lado da janela, as amendoeiras da encosta começavam a abrir os botões – era fim de janeiro, e elas sempre floresciam antes do tempo, antes que o inverno tivesse terminado, como se não soubessem ou não quisessem esperar. Os mouros as trouxeram para a ilha no século X e agora eram 7 milhões de árvores cobrindo os vales interiores de branco e rosa-pálido. O detetive olhou para elas por um momento. Depois ligou para o continente.

III

A detetive especializada em homicídios e com experiência em serial killers chegou num voo da manhã seguinte, com a expressão de quem já viu demais para se surpreender com facilidade. Sua especialização ela própria descreveria como uma maldição: entrar na mente desses assassinos. Sabia que havia um padrão antes de conseguir descrevê-lo.

O detetive local a recebeu com café e dossiês. Ela leu tudo na mesa pequena da delegacia enquanto o café esfriava. Depois olhou para ele e disse:

– Vão aparecer mais.

– Eu sei.

– E precisamos de alguém sério que nos ajude a traçar o perfil psicológico antes disso. Alguém experiente.

O detetive local hesitou. Depois disse:

– Tem uma pessoa. Mas é complicado.

IV

A mansão ficava nas encostas da serra, longe do barulho da capital, longe do cheiro do mar. Para chegar lá era preciso subir por uma estrada de pedra calcária que ia ficando mais estreita, ladeada por azinheiras e pinheiros-de-alepo que cresciam em ângulos impossíveis por causa do vento secular – árvores que aprenderam a dobrar sem quebrar. Havia trechos em que a estrada acompanhava socalcos de pedra seca construídos por gerações de camponeses para vencer a inclinação da serra, aqueles muros baixos que os ilhéus simplesmente chamavam de marges.

Ao fundo, entre os pinheiros e um olival antigo cujas árvores torcidas pareciam escrever algo em silêncio, a casa enorme tinha o ar de que foi construída para durar.

O homem que abriu a porta tinha cabelos grisalhos e curtos. Corpo de quem ainda corria com frequência pelas trilhas da serra. Olhos que analisavam antes de sorrir, e que sorriam com cuidado. Havia sido psiquiatra forense durante vinte anos, antes de se tornar aquilo que seus editores chamavam de escritor de não ficção criminal e que os números chamavam de best-sellers. Seus livros sobre casos notórios de assassinos em série haviam sido traduzidos para 32 idiomas. Quatro adaptações para séries de televisão. Duas para o cinema. Uma lista de espera de entrevistas que ele nunca atendia. Tinha se mudado para a ilha alguns anos antes.

– Entrem – disse, gentil, como se os estivesse esperando.

A detetive seguiu adiante olhando para tudo em volta. Era um hábito profissional que já não conseguia evitar.

V

O acordo era simples e extraoficial. O escritor recluso contribuiria com a análise psicológica, por causa do conhecimento acumulado em décadas de trabalho de casos mais terríveis. Em troca, poderia ser o primeiro a escrever sobre este, uma vez fosse solucionado.

– Por que você aceita? – perguntou a detetive na primeira tarde, quando seu colega já tinha ido embora e os dois ficaram conversando sozinhos.

O escritor olhou para o jardim através da janela grande. Lá fora, uma poupa pousou num ramo seco do olival – um pássaro de crista alaranjada que os ilhéus viam como sinal de coisas prestes a mudar – e ficou parada por um momento antes de desaparecer na direção da encosta.

– Porque quero escrever sobre esses crimes. Mortes numa ilha me lembram um pouco de Agatha Christie. É um livro que eu gostaria de ler – disse, curioso e quase animado, como se tratasse de ficção.

Voltaram a se encontrar dois dias depois. E então três ou quatro vezes por semana. As conversas eram longas e às vezes se esqueciam do caso e falavam de outras coisas, encantados um pelo outro. Enfim haviam encontrado alguém com quem podiam conversar sobre as coisas sombrias que os habitavam. Ele perguntava sobre os casos dela, sobre o que a fazia continuar, sobre o que a fazia aguentar. Ela respondia com mais franqueza do que pretendia. Havia algo nele que funcionava como uma dissolução lenta das defesas – uma qualidade de escuta que ela raramente encontrava nas pessoas.

Enquanto isso, um terceiro corpo apareceu. Outros suspeitos foram descartados. A pressão sobre a polícia crescia. O governo cobrava uma solução. Os jornalistas acampavam na ilha como aves de rapina. O detetive local dormia pouco e bebia café demais. A detetive revisitava cada informação dos dossiês às três da manhã no quarto pequeno da pousada, com o barulho do vento nas venezianas e o canto distante da água.

O escritor preparava chá quando a detetive chegava para as reuniões. Sabia como a detetive gostava – preto, com um fio de mel. Começou a prestar atenção em detalhes como esse. Um dia o que parecia inevitável aconteceu e ela acordou na mansão, vestindo uma camiseta dele.

VI

Era começo da noite quando ele foi correr e ela ficou sozinha em sua biblioteca, com estantes do chão ao teto, e os livros organizados com a lógica de quem os havia escrito: primeiro os acadêmicos, depois os de divulgação, depois as primeiras edições, depois as traduções. Ela pegou o livro de um caso notório que conhecia bem, havia estudado cada detalhe em seu treinamento na polícia à exaustão.

Abriu numa página qualquer.

Leu.

Releu.

Havia um detalhe que ela não se esqueceria. Não do livro – dos seus estudos na polícia. Um detalhe que a equipe havia deliberadamente mantido fora de qualquer comunicado, o tipo de coisa que servia para eliminar confissões falsas e para reconhecer o culpado verdadeiro. Nenhum jornalista havia publicado. Nenhum vazamento.

Estava na página 143 do livro do escritor.

A detetive ficou parada. A casa estava em silêncio. Lá fora, o vento movia os pinheiros e pelas frestas da janela chegava um perfume leve de alecrim aquecido que o inverno não conseguia apagar de todo, porque na ilha algumas coisas simplesmente não sabem morrer.

VII

Ele entrou pela porta dos fundos com o som dos passos de quem volta de uma corrida – respiração pesada, tênis contra as pedras do corredor –, e ela conseguiu colocar o livro de volta no lugar antes de ele entrar na sala. Ele passou sem parar, acenou com a mão, disse “5 minutos” e desapareceu para o andar de cima.

Ela ficou parada no meio da sala.

Pensou: um ex-psiquiatra forense tem formação médica. Conhecimento de anatomia e fisiologia. Conhecimento de onde fica o coração de uma mulher dentro de um peito.

Pensou: a ilha é grande, mas tem um aeroporto movimentado. Ele saiu. Voltou. Nunca ninguém perguntou onde estava nas datas das mortes porque nunca ninguém o considerou suspeito.

Pensou: ele sabe ler o comportamento humano melhor do que qualquer pessoa viva que ela conhecia.

Tirou o celular do bolso. Ligou para o detetive local sem escrever nada, sem mensagem, apenas a chamada, e quando ele atendeu ela disse, com uma voz de conversa corriqueira:

– Estava pensando no que você falou sobre o caso há coisas que você precisa ouvir. – E teve esperança de que ele entendesse que havia algo errado e que devia ficar na linha.

O escritor estava descendo as escadas. Ela ouviu os passos.

VIII

Ele entrou na sala com o cabelo ainda úmido e a expressão de quem estava sempre à frente e leu o rosto dela nos 3 segundos entre a porta e o meio da sala.

– Achou algo interessante?

A voz era diferente. Não mais calorosa. Não mais com o suave arredondamento clínico que tinha quando discutia casos. Era uma voz com arestas – a mesma voz, ela pensou, que a pedra calcária da serra teria se pudesse falar.

Ela não respondeu de imediato. Deixou o silêncio respirar.

– Página 143 – disse ela, então, aterrorizada, mas sem se deixar intimidar.

Ele olhou para a estante. Depois olhou para ela. E sorriu de um modo que ela esperava nunca mais ver em nenhum rosto humano.

– Sabia que você era diferente – disse ele. – Ninguém nunca percebeu.

Fez uma pausa.

– Você perceberia. Admito que isso é, ao mesmo tempo, uma decepção e um alívio.

Ela tinha o celular na mão, com o detetive do outro lado, que a essa altura já estava a caminho. Precisava de tempo.

– Você comete esses crimes para depois escrever sobre eles com uma propriedade que ninguém mais possui, não é? Sua imaginação não basta. Você precisa vivê-los.

– Está vendo? Foi por isso que me apaixonei por você – disse ele, enquanto mostrava uma faca de cozinha empunhada, pronta para transformá-­la na enésima vítima de seus crimes. Ela pegou o utensílio de ferro para colocar lenhas na lareira, perto da lareira acesa que poderia fazer aquela noite assombrosa tão aconchegante.

IX

A luta durou pouco mais de 4 minutos, um tempo que parece outro quando se está dentro dele.

Ela levou um corte no braço – profundo, doloroso, a faca afiada cortando a manga do casaco e a pele abaixo dele, mas conseguiu proteger o coração e acertá-lo com o objeto de ferro com toda a raiva que sentia de si mesma. Primeiro no ombro, depois no abdômen, em seguida na lateral da cabeça.

Ele enfim caiu.

Ela ficou parada, ofegante, com o braço latejando.

Do lado de fora ouviu o som distante de sirenes.

X

O detetive local chegou com dois carros e uma ambulância. Encontrou-a sentada na calçada da entrada, enrolada num cobertor porque o vento era cortante mesmo em fevereiro, especialmente ali em cima, onde as azinheiras dobravam para Leste. A paramédica foi até ela imediatamente. Lá dentro, outros agentes cercavam o escritor, que estava vivo – inconsciente, mas vivo – e seria transportado preso assim que os médicos o estabilizassem.

O detetive local sentou ao lado da colega.

O céu começava a clarear sobre a planície interior. Nas encostas abaixo, invisíveis na penumbra, os milhões de amendoeiras continuavam abrindo suas flores brancas e cor-de-rosa, aquela nevada paradoxal de pleno inverno, o florescer que os mouros haviam ensinado à ilha séculos atrás e que a ilha nunca mais esqueceu.

– Não consigo me perdoar – disse ela, os olhos no horizonte que ia se acendendo. – Por não ter percebido antes. Por ter deixado ele me enganar assim. Por ter...

Parou.

O detetive ficou quieto por um momento. Depois disse, com a voz de quem escolhe as palavras devagar:

– Se isso não tivesse acontecido, a gente provavelmente não teria conseguido pegá-lo. E com o verão vêm os turistas, os sazonais, pense no número de mulheres em risco... – Ele parou, olhou para a serra que ia ganhando contorno contra o céu. – Você está salvando a vida de muita gente.

A ambulância partiu devagar pela estrada estreita, as luzes girando em silêncio porque as sirenes já não eram necessárias. Atrás dela, os pinheiros se moviam como sempre, com a indiferença vegetal das árvores que crescem em solos pobres e ventos hostis e aprenderam que a única resposta à força é a flexão – dobrar, não quebrar, continuar.

XI

Mais tarde – muito mais tarde, quando os relatórios estivessem escritos, os jornalistas tivessem esgotado o assunto e a ilha voltado ao seu ritmo –, o detetive se lembraria daquele amanhecer e daquela qualidade específica da madrugada, quando há um breve instante em que tudo parece possível.

E lembraria que, quando a paramédica perguntara à detetive como se chamava, ela havia dito seu nome e depois olhara para o colega com uma expressão que ele não soube logo classificar e que só entende agora: era a expressão de alguém que está surpresa por estar viva.

Enquanto isso, lá embaixo, numa das praias, as ondas continuavam seu trabalho antigo. A água avançava sobre as rochas e recuava, avançava e recuava, passando sobre as pradarias de Posidonia que cresciam no fundo transparente – plantas marinhas que limpam a água e abrigam centenas de espécies, levando décadas para se recuperar de qualquer ferida.

O céu ia clareando por cima. As gaivotas-de-audouin começaram a aparecer sobre o mar, aves de bico vermelho que só existem neste pedaço específico do mundo. Primeiro uma, depois outra, depois o grupo inteiro planando sobre a superfície quieta.

Não havia mais nada nas rochas. Apenas a água e o canto – esse canto que recomeça todas as manhãs como se fosse a primeira vez, como se o mundo não soubesse, ou não quisesse saber, o que havia acontecido antes, persistindo.


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É escritora. autora de Ilhas suspensas (Companhia das Letras), entre outros.