ficção
Ricardo Terto piauí_239 06 Ago 2026
6 min de leitura
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O segredo do negócio é fazer os clientes sofrerem só o suficiente para entenderem quem está no controle. Eu descobri intuitivamente tudo o que precisava saber sobre isso, não tive um mestre ou tutor, não conquistei o legado de ninguém, sequer havia um nome para o meu ofício, nunca fiz propaganda, não lutei por territórios ou reputação, simplesmente estive aqui esse tempo, enquanto o mundo deteriorava o meu trabalho antes quase indigente e que ganhou ar subversivo e até espiritual. Eu sou um pouco responsável por isso, transformei o que era natural em uma atmosfera planejada, meus livros empilhados de forma caótica, a mesa de madeira com pé em falso, a cadeira pesada, a iluminação fraca, o cheiro de alvejante, todo o repertório da minha antiga solidão agora como parte de uma experiência mística e muito lucrativa. Chegando de todo o canto e com todos os humores, curiosos, resistentes, complacentes, desesperados, depois de horas, quem sabe dias de fila, meus clientes entram neste espaço e se sentem estranhos e pequenos, ficam em pé esperando um convite para se sentar que nunca chega, alguns têm todo o atendimento ao lado da porta, oprimidos por uma terrível autoconsciência, outros querem demonstrar ímpeto e se sentam da forma mais relaxada que conseguem imaginar, mas isso vai passar exatamente no momento em que eu olhar para o rosto deles, analisar seus traços, respirar profundamente e dizer seja breve.
Então eles contam sobre suas aflições, tentam ser concisos, mas quase todos descobrem enquanto falam que não sabem exatamente o que vieram buscar. Quase sempre a primeira coisa que perguntam, como se tentassem tatear alguma dignidade produzida por intimidade simulada, é se eu sou mesmo um traficante de palavras. Eu respondo que esse é o nome vulgar que deram para o meu trabalho, eu sou apenas um consultor de nomes. Agora conte. E eles me contam sobre o casamento em ruínas, um acerto de contas, uma dívida que nunca será paga, sobre sonhos, orações, votos e pesares. E você precisa de uma palavra para... eu deixo essa reticência no ar e neste momento não há quem não esteja profundamente engajado com a seriedade do meu trabalho.
Eu preciso de uma palavra para dizer que estou me sentindo muito mal, muito bravo, muito triste, muito apaixonado, muito pobre, muito cansado, é sempre muito alguma coisa. Deve ser porque hoje, das 250 mil palavras em português que possuem direitos autorais, “muito” não está na lista. A taxa por Arrependido vem se tornando cada vez mais insustentável, é a lei do mercado, argumentam. Exausto virou artigo de luxo, realmente de ostentação a ponto de o maior influenciador do país tatuar Exausto na testa, como quem diz sou tão rico que consigo pagar a taxa de Exausto por segundo, todos os dias. Ele estava errado, ele não era tão rico assim e depois teve que modificar a tatuagem para Exaustivo, porque além de ter ficado muito feia não resolveu o problema, até que finalmente veio me procurar, se sentou relaxado e foi murchando, até que escrevi no papel Aplastado e o entreguei. Se lê: a-plas-ta-do. Geralmente os músculos do rosto deles ficam densos quando recebem uma palavra, as narinas dilatam como um peixe abissal, eles me dão um olhar de profundo agradecimento, alguns nem podem dizer Obrigado nesta época do mês, então só acenam, mas o influenciador diz muito obrigado. Sempre tem um muito envolvido. Ele simplesmente passou a usar uma faixa na testa com a palavra.
Não, eu não entrego uma palavra diferente para cada cliente, mas é claro que preciso rotacionar e em certa medida dar um ar mais exclusivo para cada atendimento; por isso aquela ladainha anterior é importante, embora finja que não é. Arrependimentos por traição podem ser substituídos por Quebrantado se eu estiver com pressa, Entibiado se não fui com a cara do cliente, Desarrimado se estou de bom humor e por aí vai. Muda conforme o tipo de arrependimento, sofrimento, desilusão. Peço doações, não estipulo preços, faz parte do charme da coisa, e sempre me pagam mais do que eu cobraria, até porque eu não saberia mesmo o quanto cobrar. O algoritmo das empresas calcula relevância cultural, usabilidade e um misterioso vetor de transferência memética que mais ou menos quer dizer o quanto uma palavra tem capacidade de pegar. Quanto menos memética, menos valor, ou até ficam fora do Catálogo. Ninguém nunca pagará um centavo por Desarrimado, exceto a mim. Inditoso não comprometerá a renda de nenhum pai de família, mas transmitirá de pronto a ideia de sofrimento. Quase nunca tive problemas ou reclamações – uma vez uma senhora quis me devolver Macambúzio, expliquei pacientemente que não existem devoluções de palavras, mas já que ela pegou a fila novamente leve um Abetumado. Eu estava guardando Abetumado para um momento oportuno mais teatral, mas tudo bem.
O momento de maior apreensão foi quando entrou pela porta ninguém mais ninguém menos do que um Agente do Vocabulário. Por um instante achei que eu fosse ser preso por repreensão, mas depois percebi que ele não furou a fila; apesar de uniformizado, ele seguiu o rito normalmente. Aguardou inclusive que eu oferecesse a cadeira, retomei a concentração, timidamente ele se sentou por conta própria. Seja breve. Ele descobriu na semana anterior uma doença incurável na filha e, embora os agentes tenham uma cota mensal de palavras, ele gastou tudo o que podia em um dia e mesmo assim havia uma coisa aguda estragada por trás dos seus olhos e nos músculos da garganta, uma coisa que ele dizia não ser tristeza, nem raiva, nem medo. Ele queria uma palavra para o sentimento de não ter uma palavra para dizer. A simples presença do agente já tinha sido boa o suficiente para me tirar do estado automático que trabalhos como este e qualquer outro podem provocar, mas em todo esse tempo ninguém havia pedido nada parecido. A atmosfera cuidadosamente planejada por mim ameaçava se desmanchar, por mais que sem testemunhas eu saberia que a perdi, e ele saberia que a perdi. Talvez o agente tenha feito somente uma sondagem, talvez quisesse apenas me desmoralizar, ou talvez realmente sua filha estivesse moribunda, aguardando uma palavra que ele nunca conseguirá dizer. E então ele procura algo não para ela, mas para si. Ocorre que, quando você se torna verdadeiramente bom, é a hora de confiar na intuição. Lembrei das minhas anotações, às vezes uso esse recurso teatral, abro livros, papéis, balanço a cabeça negativamente e positivamente, gero um suspense. E então olhei para o agente e escrevi a palavra, completei Embuchado. Se lê: em-bu-cha-do. Estava tudo ali, as narinas submarinas, os músculos do rosto se esticando. Surpreendentemente, ele me perguntou, é um dicionário, um livro de poesia?, indicando a gaveta. Coisa do tipo, eu disse. Ele sorriu, fez o gesto de agradecimento em silêncio, de sua cota não sobrou sequer um Obrigado. Quando ele saiu revi meu objeto de consulta. Era o folheto de um restaurante ótimo que não existe mais.