OS ENFORCADOS

O encontro de Sancho Pança com Augusto dos Anjos
Ilustração feita pelo poeta Sebastião Nunes: em 1998, ele enviou pelo correio caixões em miniatura para 120 leitores fiéis - CRÉDITO: SEBASTIÃO NUNES_2026
Ilustração feita pelo poeta Sebastião Nunes: em 1998, ele enviou pelo correio caixões em miniatura para 120 leitores fiéis - CRÉDITO: SEBASTIÃO NUNES_2026

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A piauí publica nesta edição um trecho do primeiro romance do poeta Sebastião Nunes, que pode ser lido a seguir. Leia aqui a apresentação da obra de Nunes, escrta pelo jornalista e também poeta Fabrício Marques.

O guru Sancho Pança pisou o estribo e, com leve impulso, escanchou-­se, dando uma pancadinha carinhosa na bunda da irritável montaria, de modo que o quadrúpede se pôs, embora a ritmo de tartaruga, a marchar. Chegaram afinal, depois de muito marchar (quilômetros ou milímetros ou metros ou centímetros ou léguas, pois naqueles descampados não tinham valor algum tais medidas) à ala dos enforcados.

Hesitou em entrar o guru. Uma nova aventura o encarava com olhos turvos e, talvez, malignos. Mas era corajoso o iluminado e entrou. Um metro. Um centímetro. Dois metros. Duas léguas. Três metros. Três quilômetros. Quatro qualquer coisa... Como era de esperar, alongava-se infinitamente a fileira de enforcados, todos muito bem-compostos, embora pelados, cada qual em sua árvore. 

O organizador dessa ala se mostrara sábio. As árvores tinham entre 3 e 4 metros de altura, suficiente para manter suspenso o mais alto dos enforcados. Troncos rijos, alguns eram lisos, outros enrugados, outros retos e ainda outros tortos, mas ostentando sempre um galho destacado em ângulo mais ou menos reto, com cerca de 1 metro de comprimento desde a base, de modo a poder acomodar, na porção mediana, um laço de corda reforçada, contudo macia, provavelmente de seda, e o respectivo inquilino para toda a eternidade.

De imediato, visualizou Sancho dois enforcados. Presumivelmente, contavam cerca de 33 anos, embora de estaturas diversas. Esta datação (33) em números místicos, pensou o guru, deriva certamente de quimérico messias, conforme várias lendas, que desencarnou nessa idade, embora sua existência seja altamente improvável, já que sempre o representam como originário da Judeia, mas louro e de olhos azuis, o que configura, certamente, arrematado disparate. Mas este é um assunto para doutores em ciências místicas ou, como é frequentemente referido, em teologia arqueológica, e Sancho tinha mais o que fazer. 

O primeiro peladão era tão magro que de visível só tinha costelas, ossos das pernas, dos braços, das mãos, da bacia, do pescoço e da cabeça, pois, conforme sabia muito bem Sancho, aos desencarnados não se poderia exigir carnes. Estava correta, portanto, a figura. Mas o segundo era estranhíssimo. Tratava-se de pequenino esqueleto, de mínimos ossinhos, embora enforcado numa corda semelhante à do primeiro. Pelo que concluiu Sancho que, se os desencarnados variavam em estatura e peso, eram invariáveis os suportes. Conclusão apressada, mas que se comprovará verdadeira ao longo deste relato.

Quase imediatamente ouviu-se um lamento em versos, introduzido por ligeira explicação, certamente do próprio declamador:

SONETO

Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos. 2 de fevereiro 1911.

Agregado infeliz de sangue e cal,

Fruto rubro de carne agonizante,

Filho da grande força fecundante

De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal

Destruiu com a sinergia de um gigante,

Em tua morfogênese de infante,

A minha morfogênese ancestral!?!

Porção de minha plásmica substância,

Em que lugar irás passar a infância.

Tragicamente anônimo, a feder?!...

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,

Panteisticamente dissolvido

Na noumenalidade do NÃO SER!

Engoliu em seco Sancho. Desde que andava a correr em tropelias o mundo, seguindo as trilhas abertas pelo seu amo, jamais ouvira poema tão doloroso, tão sentido, tão amargo. Parado estava, parado ficou. Assuntou. Olhou para trás: nada. Olhou para os lados: apenas a trilha vazia do meio e, à esquerda, bem longe, a ala dos crucificados. De lá não poderia ter vindo a voz. Do alto? Olhou para cima e só uma gigantesca semiesfera cinzenta e cruzando todo o espaço era visível. Lembrou que ali não havia Sol, não havia noite nem dia. Os versos só podiam ter vindo de um dos dois esqueletos: os demais enforcados estavam longe. Conforme verificou, embora não houvesse medida de comprimento naquelas paragens, e as medições temporais e espaciais informadas não passassem de chute, havia certa ordem na disposição das árvores, uma separação quase igual, talvez exatamente igual, entre uma árvore e outra. E, naturalmente, entre um enforcado e outro.

– Quem declamou esses versos? – perguntou Sancho. – Um dos enforcados? Alguma árvore? A própria corda?

– Fui eu! – disse uma voz baixa, sem nada acrescentar.

– Eu, quem? – insistiu Sancho, olhando fixamente os dois enforcados.

– Eu, Augusto dos Anjos – respondeu o maior dos enforcados, mexendo de leve o crânio pelado na direção de Sancho. – Poeta brasileiro, casado, professor, bacharel em direito, desencarnado aos 30 anos terrenos.

Sancho examinou detidamente o enforcado. Se os desencarnados crucificados falavam, era natural que os desencarnados enforcados também falassem. E parece que não sofriam de dores no pescoço, ao contrário dos crucificados que se suicidavam por enforcamento, como David Foster Wallace, cujo pescoço doía o tempo todo, viciados ambos em aspirina, tanto Wallace quanto o pescoço.

– Nunca ouvi falar de um poeta chamado Augusto dos Anjos – disse Sancho.

– É natural – respondeu o enforcado. – Nossa língua é pouco conhecida e quem escreve em nossa terra raramente é lido. 

– Mas o poema que ouvi é extraordinário – disse Sancho. – Diria mesmo que está à altura dos melhores poetas dos últimos séculos terrestres, já que aqui não existe tempo. 

– O senhor entende de poesia? – perguntou o enforcado.

– Até há pouco eu não passava de um pobre lavrador, seguindo meu amo Dom Quixote pelo mundo. Mas, desde que fui iluminado, entendo não só de poesia como de quase tudo, desde física nuclear até lógica e mesmo cosmologia e linguística. Tenho de confessar, porém, que tenho especial atração pelas artes literárias, especialmente por poesia (com perdão pelo cacófato) do nível da sua.

– Fantástico! Extraordinário! Sesquipedal! – explodiu o enforcado. – Quem diria que eu, depois de desencarnado e enforcado, viria a conhecer o grande Sancho Pança, um dos mais notáveis personagens da ficção de todos os tempos!

– Também não precisa exagerar, meu caro Augusto, se me permite a intimidade – disse satisfeitíssimo e fingindo modéstia Sancho. – Se não se importa, gostaria de saber mais sobre você.

– Agradeço seu interesse, grande Sancho – respondeu boquiaberto de alegria e espanto Augusto. – Estou à sua disposição. Pergunte e responderei.

– Acabo de percorrer a ala dos crucificados – disse Sancho. – Lá convivi com autores importantes, a exemplo dos filósofos antigos e do germão Goethe, de fama universal. Ele me pareceu, contudo, um tanto pedante e meio que dono da verdade, se posso ser franco...

– No Brasil também é assim – interrompeu Augusto. – O pedantismo assola. Imagine que o poeta Olavo Bilac, um dos mais notáveis parnasianos brasileiros, disse de mim quando soube que eu tinha morrido: “Fez bem em morrer, não se perdeu grande coisa.” Ou algo parecido. E olhe que eu lhe tinha enviado, autografado, um exemplar do Eu, único livro que publiquei em vida, mesmo assim custeado por meu irmão Odilon dos Anjos. Eu acreditava tanto nos meus versos que fizemos um contrato para a edição. Depois de apurado o valor das vendas, deduzidos os custos de impressão, foto e clichê do meu retrato, o lucro seria rachado entre nós. Veja até onde ia meu delírio poético! – E o poeta desencarnado abriu mais a dentuça, já que esqueletos não param de rir. 

– Coitado! – murmurou Sancho. – Deve levar uma pós-vida bem solitária, com apenas esse pequeno esqueleto por companhia.

E falando alto, perguntou:

– Quem é o pequeno desencarnado que o acompanha? Não tem outros conhecidos por perto? 

– O pequeno esqueleto é meu filho, a quem dediquei o poema que declamei para chamar-lhe a atenção – respondeu Augusto. – Nem chegamos, eu e Esther, a escolher-lhe nome. Sobre a outra questão, todos os enforcados que vê a perder de vista podem se comunicar, não há qualquer restrição. O problema é que a distância entre nós não é pequena e, porque estamos enforcados, nossa voz é muito baixa, como deve ter notado.

A voz de Augusto era de fato muito baixa, pouco mais que um sussurro, lembrando certos personagens de Kafka. Interessado no poeta, Sancho perguntou:

– Além da voz baixa, vocês têm algum outro problema?

– Problema algum – respondeu Augusto. – Não sentimos fome, sede, frio ou calor. Como aqui nunca chove, não nos molhamos. Também não existe dia ou noite. Não dormimos. Seria até engraçado um enforcado dormindo, ha, ha, ha. Na verdade, nem sei por que estamos enforcados. Se reparar bem, devemos ser milhões ou talvez bilhões enfileirados.

Como condutor da narrativa, considerou Sancho que o capítulo já se estendera o suficiente, fazendo então uma pausa para introduzir um novo, de modo a não cansar a beleza dos improváveis leitores. Gostaria de compreender por que um poeta do nível de Augusto fosse desconhecido até mesmo em sua pátria, embora estivesse ciente de que ali grassava catastrófica ignorância. Tudo a seu tempo, matutou.


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É escritor e poeta, autor de Antologia mamaluca (Fósforo), A velhice do poeta marginal e Papéis higiênicos (ambos pela Dubolso).