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Tatiane de Assis piauí_240 02 Set 2026
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O rosto de Alice Yura, de 36 anos, está parcialmente oculto atrás da câmera apoiada em um tripé. Em lados opostos do estúdio fotográfico, seu pai, Ykuo Yura, de 69 anos, e seu tio, Milton Etsuo Yura, de 71, aparecem sentados em bancos. O trio olha para a frente, como que inquirindo quem os vê na foto em exposição na Pinacoteca Contemporânea, em São Paulo. Autorretrato com dois fotógrafos é uma das obras da mostra Alice Yura: um ato fotográfico, em cartaz até 13 de setembro.
O título da imagem se explica pelo fato de Ykuo e Milton terem trabalhado no ramo da fotografia, em um negócio que funcionou por quase sete décadas em Aparecida do Taboado, em Mato Grosso do Sul. Coube a Alice levar a tradição da família paterna, de ascendência japonesa, para o campo artístico.
Nascida em Aparecida do Taboado, município com cerca de 29 mil habitantes, Alice se mudou para Campo Grande aos 17 anos, para cursar artes visuais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Aos 24, retornou à terra natal. O Foto Yura – o nome do empreendimento familiar – ainda funcionava na casa de seu avô, Kotaro Yura.
O lugar permanece vívido na memória da neta: “Do lado direito tinha uma vitrine, com fotos, álbuns, câmeras e filmes. Do lado esquerdo, tinha o balcão de atendimento. E, perto dele, um banco estofado para as pessoas esperarem.” No estúdio, havia equipamentos de luz e uma parede neutra que servia de fundo para as fotos. Um espelho permitia que os clientes ajustassem o visual.
Fundado em 1958, o estúdio foi tocado em seus primeiros anos pelo tio mais velho, Kazuo Yura, em um local perto da igreja matriz do município. Os demais irmãos se envolveram mais tarde, conta Alice: “Tio Antônio, tio Isao, tio Toshitune trabalharam lá. Meu pai e tio Milton, que eram mais novos, também ajudaram, no início como assistentes, lavando filme, botando foto para secar...”
O rol de serviços prestados no Foto Yura era variado: retratos no estúdio, fotos 3x4 (para documentos), registros de batizados e festas de aniversário, além de fotorreportagens e documentações de crimes para a polícia. Com a vida rolando, parte dos irmãos deixou Aparecida do Taboado e criou outros estúdios nas cidades onde foram morar.
O pai e os tios nunca estimularam Alice a trabalhar com fotografia. Para eles, o Foto Yura funcionava como um trampolim para impulsionar a nova geração em carreiras na medicina, na engenharia, no direito. “Mas Alice inverteu essa expectativa, porque seguiu nesse ofício e também porque é uma mulher. Na sua família paterna, esse era um ofício masculino”, observa Thierry Freitas, curador da exposição na Pinacoteca.
O advento da fotografia digital esvaziou a clientela dos pequenos estúdios. O Foto Yura resistiu por um tempo, mas fechou as portas no final de 2025.
Alice Yura já havia revisitado o estúdio da família em um ensaio fotográfico homônimo, encomenda da exposição coletiva A parábola do progresso, apresentada entre 2022 e 2023 no Sesc Pompeia, em São Paulo (as fotos exibidas lá estão também na Pinacoteca). A artista acredita que seu trabalho fez o pai e os tios se aproximarem da própria história: “Eles contribuíram com a construção de Aparecida, mas não tinham essa dimensão, porque olhavam seu ofício só como um meio de subsistência.”
Ato fotográfico, porém, não é uma investigação sobre a imigração japonesa no Brasil. Na mostra, também está presente a família materna da fotógrafa, que não tem raízes estrangeiras evidentes. “Elas são fundamentais na criação da artista”, diz Freitas, lembrando que o pai esteve ausente em boa parte da infância e adolescência de Alice. “Ele foi também um trabalhador dekassegui”, explica o curador (dekasseguis são descendentes de japoneses que migram para o Japão em busca de trabalho temporário). Na primeira vez que o pai da artista viajou para o Japão, ela ainda não tinha 2 anos.
Entre as três obras da mostra que exaltam o ramo materno de Alice, destaca-se Retrato de família I, foto em que a própria artista aparece com a avó, a mãe, tias e primas. Todas vestem branco, menos Alice, cujo vestido vermelho tem uma longa cauda que se estende sobre o colo das demais pessoas. “Todas elas são mulheres cisgênero. Eu sou a única mulher trans. Eu queria falar sobre essa diferenciação dos nossos corpos, mas também usar o vestido e a cor como dispositivo de conexão”, diz Alice.
Sua avó materna, Rita Nogueira Garcia, de 82 anos, ocupa o centro da imagem. Ao seu lado, está a mãe, Rosângela Aparecida Nogueira Silveira Yura, de 58 anos. Se o pai enfronhou Alice no mundo da fotografia, foi a mãe, ex-proprietária de uma videolocadora, que a aproximou dos filmes. “A locadora foi um lugar de produção de imaginação para além da minha realidade em Aparecida”, recorda a artista.
A mãe foi também a única pessoa na família que a apoiou de forma irrestrita em seu processo de transição e na carreira artística. A avó teve dificuldades, mas busca saná-las. “O amor tampa tudo”, diz ela.
Em visita à Pinacoteca para ver Ato fotográfico, em agosto, Rita Garcia manifestou orgulho pelas realizações da neta. E contou uma anedota da sessão de fotos com as mulheres da família, realizada em um estúdio montado no salão de festas no Rotary Club de Aparecida do Taboado.
Depois de quase dez horas posando, a avó sentia dores por ficar tanto tempo sentada. Em voz baixa, queixou-se para a filha Rosana, irmã gêmea da mãe da artista. Rápida, Rosana retrucou: “Reza que passa.”
Alice ouviu, se preocupou e depois riu. Aquela sessão permitiu que ela ficasse mais próxima da família materna. A foto guarda a memória particular dessas mulheres e ao mesmo tempo comunica uma ideia plural de brasilidade.