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PIONEIRO PROFANO

A redescoberta de um poeta perseguido pela Inquisição
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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Em 2023, quando pesquisava em Lisboa o processo da Inquisição contra o jovem poeta Bartolomeu Fragoso, a professora Sheila Hue, do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), encontrou um manuscrito surpreendente. Era um cancioneiro desconhecido do poeta, de 22 páginas, composto de duas partes: uma com sete sonetos, outra com uma balada (narração em versos) de tom jocoso e paródico.

Hue preparava na época uma palestra sobre Bartolomeu Fragoso (nascido entre 1565 e 1566 e falecido não se sabe quando) e já tinha conhecimento de que nos documentos da Inquisição havia alguns sonetos do poeta, como indicara em um artigo o professor Pedro Vilas Boas Tavares, da Universidade do Porto. Mas ela queria saber se os poemas haviam sido copiados pelo notário no processo ou se estavam em folhas soltas. “Eu queria ver os sonetos ‘ao vivo’, a letra, a disposição na página, o papel”, conta Hue à piauí.

Ao vasculhar os papéis no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, ela se deparou com a inesperada coleção de poemas. “Era um livrinho caprichosamente copiado, muito bem produzido materialmente”, conta Hue. “Fiquei impactada, pois foi escrito em Salvador antes de janeiro de 1592. Não restaram muitos manuscritos poéticos do Brasil dessa época. Conhecíamos apenas os do poeta e padre José de Anchieta.” O cancioneiro com a letra de Fragoso só sobreviveu porque foi costurado no processo n.º 10 423 da Inquisição contra este poeta, que até recentemente era ignorado pela história literária. 

Foi Hue quem organizou e escreveu o posfácio e as notas de O cancioneiro das baldaias: sete sonetos jocosos e uma balada, livro publicado pela Chão Editora que traz pela primeira vez os poemas de Fragoso, além de reproduções do manuscrito e a confissão do poeta no processo da Inquisição. É uma relíquia da pré-história da literatura brasileira, o primeiro conjunto de poesia laica escrito no país de que se tem notícia, anterior mesmo ao luso-­brasileiro Bento Teixeira (1561-1600), autor de Prosopopeia, publicado em 1601, e ao baiano Gregório de Matos, que viveu entre 1636 e 1696. A descoberta faz de Fragoso o autor da mais antiga obra poética profana do país. 

O cancioneiro não é uma coletânea de poemas de assuntos variados. Escrito entre 1587 e 1591, seu único tema é o desejo pelas baldaias (“baldias”, “sem dono”), ou seja, as cortesãs Magdalena e Beatriz Correa, que o poeta galanteia e implora para que não voltem a Portugal. Em cópias à mão, o “livrinho” circulou por Salvador, com função de divertimento social. 

Os poemas fazem pastiches de criações populares e eruditas, como as de Petrarca, Camões e Jorge de Montemor, e o humor brota da transposição de elementos católicos para a vida boêmia, com contrapontos heréticos, eróticos e cômicos. Na definição de Hue, é um “produto da pândega estudantil”.

Bartolomeu Fragoso nasceu em Lisboa, filho de Vitória Fragoso (sobrenome também grafado como Fragosa) e do alfaiate Amador Fernandes, cristão-novo que foi alvo da perseguição do Santo Ofício em Portugal. Talvez por isso seus pais o tenham mandado aos 13 anos para Salvador, então capital do Brasil, onde o jovem morou com o tio Gaspar Fernandes. Sua educação foi no Colégio dos Jesuítas. 

A Inquisição, que atuava havia algumas décadas em Portugal, estendeu suas garras à colônia brasileira em 1591, mesmo ano em que Fragoso foi denunciado. O processo correu muito rapidamente. Em 8 de janeiro de 1592, aos 25 ou 26 anos, o poeta recém-formado no Colégio dos Jesuítas foi preso no cárcere do Santo Ofício em Salvador. Uma das acusações foi que havia espalhado “blasfêmias hereticais” na escola e nas ruas. Em uma aula, Fragoso afirmou que seus cálculos da circunferência da Terra eram irrefutáveis e disse: “Minha conta está tão certa que, inda que venha Jesus Cristo do Céu à Terra e me diga que está errada, eu o não crerei.”

Outros motivos da prisão foram a tradução de onze capítulos do Livro de Tobias, parte do Velho Testamento (possuir uma Bíblia em português era proibido), e a escrita de poemas escandalosos. O inquisidor implicou com palavras de louvor a Beatriz e Magdalena Correa, sem citar especificamente o “livrinho”, que porém foi anexado ao processo e sublinhado. 

No dia seguinte à prisão, 9 de janeiro, Fragoso foi condenado ao degredo, apesar de assinar uma confissão em que reconhecia ter proferido “palavras de escândalo”. Também confessou ter copiado uma página da novela Los siete libros de la Diana, de Jorge de Montemor, um livro “defeso” (proibido pela Inquisição) e cuja leitura era delito passível de excomunhão. 

O arrependimento e a licenciatura em artes abrandaram as penas de Fragoso. Hue também acredita que o dinheiro da família possa ter ajudado a livrá-lo do degredo. Em 26 de janeiro, o jovem poe­ta foi solto, mas não sem antes se submeter a um vexame: numa missa de domingo na Sé de Salvador, ficou de pé e descalço, com uma vela acesa na mão, diante do inquisidor, do bispo, do governador e de uma multidão. Depois da soltura, seu paradeiro tornou-se desconhecido.

Como ocorria com poemas e romances da época, o cancioneiro de Bartolomeu Fragoso, segundo Sheila Hue, servia de songbook para ser lido e cantado em eventos sociais da juventude em Salvador, acompanhado pela vihuela, um antepassado do violão. “Era um mundo performático, de vocalizações e interpretações com instrumentos”, diz a professora. “Os livros de poesia, impressos ou copiados, eram usados também para cantar, não apenas para leitura silenciosa ou em voz alta.”

No cancioneiro não há notações musicais, mas “a balada de Fragoso tem marcas de oralidade, regularidade rítmica”, diz Hue. “O fato de a poesia do século XVI ser estudada em livros impressos e sempre no campo da literatura fez com que a sua dimensão musical fosse pouco observada.” A pesquisa de Hue sobre a relação entre poesia e música vem desde o livro 20 sonetos, de Camões (2018), que ela organizou, e de seus artigos O soneto e a música: Luís Milán, Jorge de Montemor e Luís de Camões e Bartolomeu Fragoso e Jorge de Montemor: poesia e censura

A balada de Fragoso é um balaio bem bolado de ditados, refrãos, sentenças e citações, com muitos achados poéticos, como este: O mar tem grã mistura/E senefica [significa] amargura/Amargada. Ao falar de Beatriz, Fragoso amplia o léxico poético da época com uma espantosa imagem extraída da exuberância tropical da Bahia, dizendo que a cortesã é “fresca mais que cana”, de “verdura sobre-humana”.

Hue compara duas leituras estreitas: a do inquisidor português do século xvi, que escrutinou o cancioneiro de Fragoso, e a dos censores da ditadura militar brasileira (1964-85), que vetavam versos da música popular. Pelo seu estro juvenil e sua edição improvisada, o cancioneiro de Fragoso pode ser considerado um fóssil, um elo perdido da poesia marginal brasileira dos anos 1970, que nos tempos da repressão circulava em cópias mimeografadas pelas mãos da boemia rebelde do país.


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É cineasta e jornalista. Dirigiu O que Há em Ti e Santos Dumont: Pré-cineasta?, entre outros filmes